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terça-feira, 29 de setembro de 2015

José Bonifácio - o Moço: Se te procuro, fujo de avistar-te; . . . [soneto]

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Se te procuro, fujo de avistar-te;
E se te quero, evito mais querer-te;
Desejo quase, quase aborrecer-te,
E se te fujo, estás em toda parte.

Distante, corro logo a procurar-te,
E perco a voz, e fico mudo ao ver-te,
Se me lembro de ti, tento esquecer-te,
E se te esqueço, cuido mais amar-te.

O pensamento assim, partido ao meio,
E o coração assim também partido,
Chamo-te e fujo, quero-te e receio!

Morto por ti, eu vivo dividido,
Entre o meu e o teu ser sinto-me alheio,
E sem saber de mim, vivo perdido.

(Memórias para a História da Academia
 de São Paulo —  de Spencer Vampré,
 1924, 2º volume, pág. 28)

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Antologia da Poesia Paulista II  Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo SP; José Bonifácio de Andrada e Silva, o Moço (1827 1886), nascido em Bordéus  França, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, jornalista, orador, jurista, professor e político; sobrinho-neto de José Bonifácio (o Velho, Patriarca da Independência), ao retornar do exílio imposto a sua família por ocasião da dissolução da Assembléia Constituinte de 1823, fixou residência em São Paulo, foi deputado provincial e deputado geral por esta província e senador do Império; lecionou na Faculdade Direito de Recife e na de São Paulo; escreveu e publicou Rosas e Goivos (poesias, 1848 ou 1849), Poesias (colecionadas por José Maria Vaz Pinto, sem data); a obra As Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (de Luiz Gama, 1861) inclui 10 poemas do poeta José Bonifácio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

José Bonifácio - O Moço: Meu testamento

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Vem cá, traze a tua caixa de costura,
E, em vez de agulha, tira o teu rosário,
       O caso é sério...
       Pode causar-te riso...
Tu vais servir-me agora de notário.

Em nome da Santíssima Trindade,
Livre o juízo, e são o entendimento,
       Sentado em teu banquinho,
       Inda a teus pés sonhando,
Eu dito, escreve tu, meu testamento.

De todos os meus bens desembargados,
Faço-te minha herdeira universal;
       Mas não sem condições,
       Guardarás, se puderes,
Meu coração no fundo do dedal.

Deixo-te um longo beijo, bem ao meio
Da fina boca... oh! sim! guarda-o com medo!
       Pode haver curioso
       Que por instinto, ou hábito,
Tente roubar do cofre o meu segredo.

Num cantinho do lábio, entre umas dobras
De púrpura sutil, e junto à neve,
       Deixo-te os meus suspiros,
       A procurar carinhos
De longas horas em momento breve.

Não te deixo um abraço... foram tantos!
Não sei se o diga, corará teu rosto...
       Talvez nas aperturas
       Das nacionais finanças
Ouse o fisco lançar-te algum imposto!

Deixo-te aquele olhar tão feiticeiro,
Meio luz, meio sombra, assim, assim,
       Ao pé do jasmineiro;
       Aquele olhar tão lânguido,
Aquele olhar do banco do jardim.

O mais é reservado e escrito fica
Em teu quartinho, ao lado do teu leito,
       Flores, quadros, perfumes,
       Meus sonhos a voar...
Queres um codicilo mais bem feito?

Guarda estes versos; são meu testamento.
Podem cerrá-lo anéis de teus cabelos;
       Mas, se, ingrata, o perderes,
       Virei roubar-te, à noite,
Minhas cartas de amor entre os novelos.

(Memórias para a História da Academia
de São Paulo — Spencer Vampré
1924, 2º volume, pág. 31)

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Antologia da Poesia Paulista II Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Bonifácio de Andrada e Silva, o Moço (1827 1886), nascido em Bordéus França, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, jornalista, orador, jurista, professor e político; sobrinho-neto de José Bonifácio (o Velho, Patriarca da Independência), ao retornar do exílio imposto a sua família, por ocasião da dissolução da Assembléia Constituinte de 1823, fixou residência em São Paulo, foi deputado provincial e deputado geral por esta província e senador do Império; lecionou na Faculdade Direito de Recife e na de São Paulo; escreveu e publicou Rosas e Goivos (poesias, 1848 ou 1849), Poesias (colecionadas por José Maria Vaz Pinto, sem data); a obra As Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (1861), de Luiz Gama, inclui 10 poemas do poeta José Bonifácio.