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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sérgio Milliet: Revolta

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Em que pese a nossa revolta...
mas que somos nós!
mas que somos nós!

Terror dos olhos que se voltam para dentro,
impotência das mãos presas à vida.

Jamais aceitaremos essa lei terrível!
Mas que somos nós!
Mas que somos nós!

Pobre cousa agora sorridente
nesse descanso que não queria,
já sem problemas,
sem perspectivas,
já sem gritos para dizer do inconformismo,
barro que torna ao barro
em que pese a nossa revolta!

Como uma estufa se constrói um cérebro
e dentro desabrocha um pensamento,
              flor de requinte
       e se afinam as células sensíveis,
              os olhos vêem mais longe
                     e fundo,
os ouvidos ouvem melhor,
distinguem Bach, Noel Rosa,
as narinas se adelgaçam
o tato se faz ligeiro
abre-se o coração em simpatia,
mas a morte está de atalaia
e eis que tudo se afoga em um pouco de sangue...

E que se creia em Deus!
E que se creia em Deus!

Mas Deus chama os melhores
em que pese a nossa revolta...
Ele se cerca dos mais puros
dos mais fortes e perspicazes,
Ele quer tropas aguerridas
de lúcidas almas que lhe possam ouvir
e entender os desígnios inescrutáveis.

Sim Deus chama os melhores
porque os criou para si próprio
frágeis mudas para o jardim celeste.
Ele os arranca desta terra negra e suja
nessa hora exata em que começam a florescer...

Ah! que somos nós!
apenas recipientes.
potes de faiança ou porcelana
e se vinga a semente plantada.
Ele colhe a flor
e transplanta a muda
em que pese a nossa revolta.

Jamais aceitaremos essa lei terrível,
essa lei inumana,
e que só justifica a metafísica.
Jamais a aceitaremos.
nós que somos de carne, ossos, sangue e vísceras,
nós que somos fraquezas e imperfeições,
solidão, angústias, esperanças malogradas.
Jamais aceitaremos o destino subalterno
de instrumentos de sua vontade.

Mas que somos nós!
Mas que somos nós!

Poema do Trigésimo Dia  1950
  Edição fora de comércio.

Imagem relacionada
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Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna — Apresentação, Seleção e Notas Biobibliográficas de Mário da Silva Brito, 1972, Livraria Martins Editora, São Paulo — SP; Sérgio Milliet da Costa e Silva (1898 1966), paulista e paulistano, tendo feito seus estudos iniciais na capital paulista, cursou Ciências Econômicas e Sociais na Escola do Comércio de Genebra e na Universidade de Berna (Suiça), foi escritor, crítico de arte, sociólogo, professor, tradutor, pintor e poeta; na Europa, colaborou com a revista Le Carmel, escreveu e publicou Par le Sentier (poesia, 1917) e Le Départ Sur la Pluie (poesia, 1919); de retorno ao Brasil, participou da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, aderindo ao Modernismo e tornando-se defensor e incentivador das nova idéias sobre arte e literatura divulgadas pelo grupo modernista; de volta à Europa, em Paris, passou a acompanhar o desenvolvimento das novas teorias a respeito da arte e colaborou com as revistas brasileiras Klaxon, Terra Roxa, Ariel e Revista do Brasil, todas de viés modernista; divulgou seus poemas na revista Lumiére, vertendo-os para o francês; no retorno definitivo ao Brasil, radicando-se em São Paulo, ajudou a criar a revista Cultura juntamente com Oswald de Andrade e Afonso Schmidt , ocupou funções públicas, atuou como professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, colaborou com artigos versando sobre arte e literatura para o jornal O Estado de São Paulo e deu início a um período de intensa produção na área de crítica de arte; colaborou também na revista Clima e nos jornais O Tempo, A Manhã e Folha da Manhã; participante ativo na área cultural e artística, ocupando diversas funções nas instituições do gênero, dirigiu a Biblioteca Municipal de São Paulo, foi um dos articuladores da criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo MAM-SP, ajudou na fundação e dirigiu a Associação Brasileira de Críticos de Arte ABCA...; sua bibliografia: L’oeil de Boeuf (1923), Poemas Análogos (1927), Pintores e Pintura (1940), O Sal da Heresia (1941), Fora de Forma (1942), A Marginalidade da Pintura Moderna (1942), Oh! Valsa Latejante (1943), A Pintura Norte-Americana (1943), Pintura Quase Sempre (1944), Diário Crítico (antologia em 10 volumes, pulicados de 1944 a 1959), Poesias (1946), Poema do Trigésimo Dia (1950), Panorama da Moderna Poesia Brasileira (crítica literária, 1952).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Guilherme de Almeida: Tristes versos que a pena entristecida . . . [soneto]

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[Soneto J]

Tristes versos que a pena entristecida
foi, por o gosto de penar, traçando,
sem saber que me estava retalhando,
a alma, o peito, a razão, o sonho, a vida:

Em quais terras da Terra será lida
a confidência que ides confiando?
E, bem mais e melhor que lida, quando,
em qual tempo dos Tempos, entendida?

Às terras, e ainda aos Tempos mais diversos,
ide, sem pressa aqui, ali sem pausa,
pois só por o partir foi que partistes.                           

Qual glória hei de esperar, meus tristes versos,
se já vos falta aquela vossa causa
de serdes versos e de serdes tristes?

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Poesia Vária — Guilherme de Almeida, Apresentação de Sérgio Milliet, terceira edição, 1976, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Guilherme de Andrade e Almeida (1890 1969), paulista de Campinas, além de jurista e professor de direito, foi poeta, jornalista, cronista social, ensaísta, crítico cinematográfico e tradutor; trabalhou como redator em diversos periódicos paulistanos, entre eles O Estado de São Paulo; participante da Semana de Arte Moderna (1922), colaborou nos periódicos Klaxon, Verde e Terra Roxa; consta que a sua produção de "haikais em português", inicia-se após seu encontro com Kozo Ichige, cônsul japonês no Brasil, à época, 1936; escreveu e publicou, em poesia: Nós (estréia literária, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (1919), A flor que foi um homem — Narciso (1921), A Frauta que eu perdi (1924), Meu (1925), Raça (1925), Encantamento (1925), Simplicidade (1929), Você (1931), Estudante poeta (1943), Tempo (1944), Poesia Vária (1947), Rua (1961); em prosa: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (ensaio, 1926), Ritmo, Elemento de Expressão (1926), Gente de Cinema (1929), O meu Portugal (1933), Casa (palestra, 1935), Gonçalves Dias e o Romantismo (conferência, 1944), Histórias, talvez... (1948), As Palavras de Buda (1948); e outros títulos em verso e prosa, além de várias traduções, entre estas, Flores do Mal, de Boudelaire, e Paralelamente, de Verlaine.

domingo, 20 de julho de 2014

Guilherme de Almeida: O Tempo Passou Por Mim

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A René Thiollier, meu amigo.

O tempo passou por mim,
mas eu não passei por ele.
Eu sempre fui como aquele
meu recanto de jardim:

— Se um amor se desfolhou
como uma rosa sozinha,
foi só por causa da minha
primavera que passou;

se estalou o coração
de uma cigarra indolente,
foi simplicissimamante
porque passou o verão;

se as folhas partiram sós,
foi que, roçando os seus galhos
e os meus cabelos grisalhos,
o outono passou por nós;

e se os ninhos já não têm
o doce calor das penas
palpitantes, é que apenas
o inverno passou também.

O tempo passou por mim,
mas eu não passei por ele.
Eu sempre fui como aquele
meu recanto de jardim.

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Poesia Vária  Guilherme de Almeida, Apresentação de Sérgio Milliet, terceira edição, 1976, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Guilherme de Andrade e Almeida (1890  1969), paulista de Campinas, além de jurista e professor de direito, foi poeta, jornalista, cronista social, ensaísta, crítico cinematográfico e tradutor; trabalhou como redator em diversos periódicos paulistanos, entre eles O Estado de São Paulo; participante da Semana de Arte Moderna (1922), colaborou nos periódicos Klaxon, Verde e Terra Roxa; consta que a sua produção de "haikais em português", inicia-se após seu encontro com Kozo Ichige, cônsul japonês no Brasil, à época, 1936; escreveu e publicou, em poesia: Nós (estréia literária, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (1919), A flor que foi um homem — Narciso (1921), A Frauta que eu perdi (1924), Meu (1925), Raça (1925), Encantamento (1925), Simplicidade (1929), Você (1931), Estudante poeta (1943), Tempo (1944), Poesia Vária (1947), Rua (1961); em prosa: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (ensaio, 1926), Ritmo, Elemento de Expressão (1926), Gente de Cinema (1929), O meu Portugal (1933), A Casa (palestra, 1935), Gonçalves Dias e o Romantismo (conferência, 1944), Histórias, talvez... (1948), As Palavras de Buda (1948); e outros títulos em verso e prosa, além de várias traduções, entre estas, Flores do Mal, de Boudelaire, e Paralelamente, de Verlaine.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Guilherme de Almeida: Pescaria, e outros haikais

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PESCARIA

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

FRIO

Neblina? Ou vidraça
que o quente alento da gente,
que olha a rua, embaça?

HORA DE TER SAUDADE

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)

HISTÓRIA DE ALGUMAS VIDAS

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
passa sem parar.

ROMANCE

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.

O HAIKAI

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.

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Poesia Vária  Guilherme de Almeida, Apresentação de Sérgio Milliet, terceira edição, 1976, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Guilherme de Andrade e Almeida (1890 1969), paulista de Campinas, além de jurista e professor de direito, foi poeta, jornalista, cronista social, ensaísta, crítico cinematográfico e tradutor; trabalhou como redator em diversos periódicos paulistanos, entre eles O Estado de São Paulo; participante da Semana de Arte Moderna (1922), colaborou nos periódicos Klaxon, Verde e Terra Roxa; consta que a sua produção de "haikais em português", inicia-se após seu encontro com Kozo Ichige, cônsul japonês no Brasil, à época, 1936; escreveu e publicou, em poesia: Nós (estréia literária, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (1919), A flor que foi um homem Narciso (1921), A Frauta que eu perdi (1924), Meu (1925), Raça (1925), Encantamento (1925), Simplicidade (1929), Você (1931), Estudante poeta (1943), Tempo (1944), Poesia Vária (1947), Rua (1961); em prosa: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (ensaio, 1926), Ritmo, Elemento de Expressão (1926), Gente de Cinema (1929), O meu Portugal (1933), A Casa (palestra, 1935), Gonçalves Dias e o Romantismo (conferência, 1944), Histórias, talvez... (1948), As Palavras de Buda (1948); e outros títulos em verso e prosa, além de várias traduções, entre estas, Flores do Mal, de Boudelaire, e Paralelamente, de Verlaine.