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A
trombeta fatal os meus ouvidos chumba.
Sol
Poente. Eu moribundo. Entra o cortejo roxo
Da Morte.
O Padre meu irmão parece um mocho...
Rezas,
Viático, a Cruz — passaportes da Tumba.
Choro da
minha mãe — arrulhos de columba
Meus
olhos a ninar... Fecho-os ao claror frouxo
Do círio
bento e vejo, aos pulos, Satã Coxo,
Em roda
do meu leito, à* espera que eu sucumba.
Deixa o
corpo a alma e desce em espirais de tênia
Aos
círculos do Inferno, à** maneira de um dobre
De sino,
aos giros no ar... Dante faz-me uma nênia,
Voltaire,
a assobiar, traça-me o necrológio
Verlaine,
Mallarmé, Cruz e Sousa, Anto Nobre
Rezam
juntos por mim num profano Eucológio.
(Sangue,
pág. 77. — 1908)
Notas do Organizador Andrade Muricy:
* Está sem acento;
** Idem.
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Panorama do
Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12),
Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério
de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Antônio Francisco
Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela
Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu
funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários
— o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia
ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”,
já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente,
também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901]
teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino;
em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para
Recife — PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu
os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal,
iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro,
São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos
em Direito e se formou em 1913; teve seus textos — crônicas e crítica literária
— publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou, entre os quais o Correio
da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado
do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros;
obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco
(1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio],
1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção
dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados,
1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também
escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº
21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino,
frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências
havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve
“internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas,
passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.