segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Tristan Corbière: Gritos de cego *

 
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[traduzido por Marcos Antônio Siscar]

(Sobre motivo baixo-bretão Ann hini goz.)

   No olho matado há calor
   Uma cunha dá-lhe cor
Cravejado eu estou sem um caixão
Vazaram meu olho sem compaixão
   No olho vazado há calor
   E a cunha turva a cor

   Deus misericors
   Deus misericors
Bate em minha cabeça de pau
O martelo do suplício final
   Deus misericors
   Deus misericors

   Os urubus têm pavor
   De provar do meu odor
Abreviar meu Gólgota é uma vã
Esperança, Lamma sabacthani
   Pombas da morte sem pavor
   Molhai o bico desse odor

   Vermelha como uma flor
   A chaga é prova de amor1.
Vermelha como a gengiva babada
No riso de uma velha desdentada
   A chaga é prova de amor
   Vermelha como uma flor

   Vejo círculos de cor
   E o sol branco mordedor
Na água dos meus olhos se retempera
O ferro cozido no fogo do inferno
   Vejo um círculo de cor
   E o sol branco mordedor

   Brota em meu interior
   Uma gota de humor
Eu vejo o paraíso que se esconde
Lá dentro, Miserere, De Profundis
   O enxofre do interior
   Do crânio é todo meu humor

   Aquele que morto for
   Dê graças ao criador
Sejam gratos o mártir e o eleito
Com Jesus e a Virgem sem defeito
   Se morto e julgado for
   Que agradeça ao criador

   Um cavaleiro ao redor
   Repousa sem rancor
Descansa no cemitério bendito
Dormindo sua sesta de granito
   O homem de pedra ao redor
   Tem dois olhos sem rancor

   Oh sinto ainda tua cor
   Terra amarela d’Armor
Entre os meus dedos sinto o rosário
Cristo de osso no lenho do Calvário
   Boquiaberto com tua cor
   Ó céu defunto d’Armor

   Perdão por orar em dor
   Senhor, contra teu favor
Meus olhos são furos em vermelhidão
Que o capeta fez com a própria mão
   Perdão por gritar de dor
   Senhor, se este é teu favor

   Ouço o vento em furor
   Com seu corne zumbidor
Esse é o halali dos trespassados
Eu ladro após minha hora demasiado
   Ouço o vento em furor
   Já sinto o zumbi da dor

                                             Menez-Arrez.

Tristan Corbière

Cris d’Aveugle

(Sur l’air bas-breton Ann hini goz.)

   L’œil tué n’est pas mort
   Un coin le fend encor
Encloué je suis sans cercueil
On m’a planté le clou dans l’œil
   L’œil cloué n’est pas mort
   Et le coin entre encor

   Deus misericors
   Deus misericors
Le marteau bat ma tête en bois
Le marteau qui ferra la croix
   Deus misericors
   Deus misericors

   Les oiseaux croque-morts
   Ont donc peur à mon corps
Mon Golgotha n’est pas fini
Lamma lamma sabacthani
   Colombes de la Mort
   Soiffez après mon corps

   Rouge comme un sabord
   La plaie est sur le bord
Comme la gencive bavant
D’une vieille qui rit sans dent
   La plaie est sur le bord
   Rouge comme un sabord

   Je vois des cercles d’or
   Le soleil blanc me mord
J’ai deux trous percés par un fer
Rougi dans la forge d’enfer
   Je vois un cercle d’or
   Le feu d’en haut me mord

   Dans la moelle se tord
   Une larme qui sort
Je vois dedans le paradis
Miserere, De profundis
   Dans mon crâne se tord
   Du soufre en pleur qui sort

   Bienheureux le bon mort
   Le mort sauvé qui dort
Heureux les martyrs, les élus
Avec la Vierge et son Jésus
   Ô bienheureux le mort
   Le mort jugé qui dort

   Un Chevalier dehors
   Repose sans remords
Dans le cimetière bénit
Dans sa sieste de granit
   L’homme en pierre dehors
   A deux yeux sans remords

   Ho je vous sens encor
   Landes jaunes d’Armor
Je sens mon rosaire à mes doigts
Et le Christ en os sur le bois
   À toi je baye encor
   Ô ciel défunt d’Armor

   Pardon de prier fort
   Seigneur si c’est le sort
Mes yeux, deux bénitiers ardents
Le diable a mis ses doigts dedans
   Pardon de crier fort
   Seigneur contre le sort

   J’entends le vent du nord
   Qui bugle comme un cor
C’est l’hallali des trépassés
J’aboie après mon tour assez
   J’entends le vent du nord
   J’entends le glas du cor

                                         Menez-Arrez.

Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
     * ‘O poema é uma descrição dos martírios do morto-vivo evitado até pelos urubus. Não é por acaso que esse poema faz parte da seção “bretã” do livro: a presença da morte é constante na cultura e mesmo na paisagem da Bretanha, em suas igrejas, em seus menires. Notar a ausência quase completa de pontuação desse poema, bem anterior a Mallarmé e a Apollinaire.
     “Ann hini goz” (em bretão, “la vieille femme”, a velha) era uma espécie de canto nacional bretão, entoado em geral por mendicantes.
     1. versos 19-20 — Substituímos a imagem da escotilha (“sabord”), pela da flor: a chaga está no flanco do navio (ou no flanco de Cristo crucificado) da mesma forma que é uma “prova de amor” (pela humanidade, no caso de Cristo). O registro no caso é irônico, dado o contexto dantesco do poema.’
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière, edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP; Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês de Morlaix — Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc [internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença, foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873), a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra, considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits (1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões; muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no século 20, Ezra Pound (1885 — 1972) consagrou Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de idade.

domingo, 30 de agosto de 2026

Rimbaud: O Coração do Palhaço

 
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[traduzido, metrificado e rimado por Milton Lins]

Meu coração baba na popa,
meu coração cheio de fumo:
lançar-lhe-ão jatos de sopa.
meu coração baba na popa:
um chiste a ouvir de toda tropa
que incita um riso sem aprumo,
meu coração baba na popa,
meu coração cheio de fumo!

São arretados, piu-piu-escos
Todo esse insulto é depravado!
Pela noitinha, ventos frescos
são arretados, piu-piu-escos
Abracadabra... são dantescos,
meu coração seja poupado:
são arretados, piu-piu-escos,
todo esse insulto é depravado!

Quando acabar todo o tabaco,
o que fazer, meu coração?
Existirá refrão de Baco,
quando acabar todo o tabaco:
dor no meu papo, estarei fraco,
quem o aviltar não tem perdão:
quando acabar todo o tabaco,
o que fazer, meu coração?

29.9.1997.

Arthur Rimbaud

Le Couer du Pitre

(Le Coeur Supplicié)

Mon triste cœur bave à la poupe,
Mon cœur est plein de caporal!
Ils y lancent des jets de soupe,
Mon triste cœur bave à la poupe:
Sous les quolibets de la troupe
Qui pousse un rire général,
Mon triste cœur bave à la poupe,
Mon cœur est plein de caporal!

Ithyphalliques et pioupiesques
Leurs insultes l’ont dépravé!
À la vesprée, ils font des fresques
Ithyphalliques et pioupiesques.
Ô flots abracadabrantesques,
Prenez mon cœur, qu’il soit sauvé:
Ithyphalliques et pioupiesques,
Leurs insultes l’ont dépravé!

Quand ils auront tari leurs chiques,
Comment agir, ô cœur volé?
Ce seront des refrains bachiques
Quand ils auront tari leurs chiques:
J’aurai des sursauts stomachiques
Si mon cœur triste est ravalé:
Quand ils auront tari leurs chiques,
Comment agir, ô cœur volé?

Juin 1871
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Rimbaud em Metro e Rima: edição bilíngue, Tradução e Texto-Apresentação de Milton Lins, e Prefácio de Mário Márcio de Almeida Santos e Posfácio de Edmir Domingues, 1998, Editora Gráfica UPE – Universidade de Pernambuco, Recife — PE; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou à vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873 — 1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sábado, 29 de agosto de 2026

Johann Wolfgang von Goethe: Lenda da ferradura

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[traduzido por Alberto Ramos]

Quando ainda obscuro e desconhecido
Nosso Senhor andava na terra
muitos discípulos o seguiam
— Que raras vezes o compreendiam;
amava doutrinar as massas
nas ruas amplas e nas praças,
pois à face dos céus a gente
fala melhor e mais livremente.
Ali, dos seus divinos lábios
fluíam os ensinamentos mais sábios;
pela parábola e pelo exemplo
faziam de cada mercado um templo.
Certa vez quando, em paz e santidade,
chegava com os seus a uma cidade,
viu qualquer coisa luzir na estrada:
era uma ferradura quebrada.
Disse a São Pedro com brandura
— “Pedro, apanha essa ferradura!”
Porém São Pedro, no momento,
tinha ocupado o pensamento
e absorto em êxtase profundo
sonhava-se o dominador do mundo,
rei, papa, ou tal que se pareça.
Aquilo enchia-lhe a cabeça;
e havia de dobrar a espinha
por uma coisa tão mesquinha?
Se fosse um cetro, uma coroa,
mas uma ferradura à toa…
E foi seguindo, distraído,
como se não tivesse ouvido.
Curvou-se o Cristo, com doçura
celeste, angélica e humilde,
e ergueu do chão a ferradura;
e quando entraram na cidade
vendeu-a em casa de um ferreiro.
Comprou cerejas com o dinheiro,
guardando-as, à sua maneira,
na manga — em falta de algibeira.
Dali saíram por outra porta.
Fora a campanha estava morta;
nem flor nem sombra; ao longe, ao perto,
era o silêncio, era o deserto,
era a desolação; ardia,
torrava, o sol do meio-dia.
Que não valia em tal secura
um simples gole de água pura!
Nosso Senhor caminha à frente.
Deixa cair discretamente,
furtivamente, uma cereja
que Pedro apanha, salvo seja,
com cabriolas de maluco.
A frutinha era mesmo o suco.
Outra cereja no caminho
atira o Mestre de mansinho,
que Pedro apanha vorazmente.
E assim por diante, não uma vez somente,
fê-lo o Senhor dobrar a espinha
tantas vezes quantas cerejas tinha.
Durou a cena um bom pedaço.
Por fim, disse o Senhor com ar prazenteiro:
Pedro, se fosses mais ligeiro
não tinhas tido este cansaço.
Quem cedo e a tempo ao pouco não se obriga,
tarde por muito menos se fadiga.

Goethe

Legende [vom Hufeisen]

Als noch, verkannt und sehr gering,
Unser Herr auf der Erde ging,
Und viele Jünger sich zu ihm fanden,
Die sehr selten sein Wort verstanden,
Liebt‘ er sich gar über die Massen,
Seinen Hof zu halten auf der Strassen,
Weil unter des Himmels Angesicht
Man immer besser und freier spricht.
Er liess sie da die höchsten Lehren
Aus seinem heiligen Munde hören;
Besonders durch Gleichnis und Exempel
Macht‘ er einen jeden Markt zum Tempel.

So schlendert‘ er in Geistes Ruh‘
Mit ihnen einst einem Städtchen zu,
Sah etwas blinken auf der Strass‘,
Das ein zerbrochen Hufeisen was.
Er sagte zu Sankt Peter drauf:
“Heb doch einmal das Eisen auf!”
Sankt Peter war nicht aufgeräumt,
Er hatte soeben im Gehen geträumt,
So was vom Regiment der Welt,
Was einem jeden wohlgefällt:
Denn im Kopf hat das keine Schranken;
Das waren so seine liebsten Gedanken.
Nun war der Fund ihm viel zu klein,
Hätte müssen Kron‘ und Zepter sein;
Aber wie sollt‘ er seinen Rücken
Nach einem halben Hufeisen bücken?
Er also sich zur Seite kehrt
Und tut, als hätt‘ er ’s nicht gehört.

Der Herr nach seiner Langmut drauf
Hebt selber das Hufeisen auf
Und tut auch weiter nicht dergleichen.
Als sie nun bald die Stadt erreichen,
Geht er vor eines Schmiedes Tür,
Nimmt von dem Mann drei Pfenning dafür.
Und als sie über den Markt nun gehen,
Sieht er daselbst schöne Kirschen stehen,
Kauft ihrer, so wenig oder so viel,
Als man für einen Dreier geben will,
Die er sodann nach seiner Art
Ruhig im Ärmel aufbewahrt.

Nun ging’s zum andern Tor hinaus,
Durch Wies‘ und Felder ohne Haus;
Auch war der Weg von Bäumen bloss,
Die Sonne schien, die Hitz‘ war gross,
So dass man viel an solcher Stätt‘
Für einen Trunk Wasser gegeben hätt‘.
Der Herr geht immer voraus vor allen,
Lässt unversehens eine Kirsche fallen.
Sankt Peter war gleich dahinter her,
Als wenn es ein goldner Apfel wär‘;
Das Beerlein schmeckte seinem Gaum.
Der Herr nach einem kleinen Raum
Ein ander Kirschlein zur Erde schickt,
Wonach Sankt Peter schnell sich bückt.
So lässt der Herr ihn seinen Rücken
Gar vielmal nach den Kirschen bücken.
Das dauert eine ganze Zeit.
Dann sprach der Herr mit Heiterkeit:
“Tätst du zur rechten Zeit dich regen,
Hättst du’s bequemer haben mögen.
Wer geringe Ding‘ wenig acht’t,
Sich um geringere Mühe macht.“

[1797]
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985[?], Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (1801—1803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 1811—1833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 1813—1817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Maranhão Sobrinho: Os Raros

 
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Sangrando de Pesar, todos sangrando,
magros, lívidos  Cristos macerados, *
vão eles, como lázaros, chagados,
a miséria da Vida atravessando!

Romeiros da Descrença, fatigados,
levam no olhar as lágrimas chorando,
que as Dores, como incêndio bronzeados,
vão nos lábios tantálicos, secando...

Tântalos novos do ideal Falerno
do Amor, na sede, que os devora, ardente,
se saciam nas lágrimas do Inferno!

Vão pela Vida humílimas de rastros,
mas seus olhos embebem-se somente
na comunhão altíssima dos Astros...

(Estatuetas, págs. 99-100 — 1909)


* Nota do Organizador Andrade Muricy: Está sem a vírgula.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 — 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML — Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís — MA a Belém — PA e Manaus — AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Paul Celan: Dos punhos . . .

 
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[traduzido por Guilherme Gontijo Flores]

Dos punhos, branco
pela verdade liberta
do verbimuro a marteladas,
floresce-te um novo cérebro.

Belas, e nada pode velá-las,
ele as lança, as
sombras do pensar.
Ali, inalienáveis,
dobram-se, ainda hoje,
doze montes, doze festas.

Quem também tem teu olho-
estrela a errática melancolia
bem sabe.

Paul Celan

Aus Fäusten . . .

Aus Fäusten, weiß
von der aus der Wortwand
freigehämmerten Wahrheit,
erblüht dir ein neues Gehirn.

Schön, durch nichts zu verschleiern,
wirft es sie, die
Gedankenschatten.
Darin, unverrückbar,
falten sich, heur noch,
zwölf Berge, zwölf Stirnen.

Die auch von dir her stern-
äugige Streunerin Schwermut
erfährts.
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Ar-Reverso: Paul Celan, edição bilíngue, Tradução e Apresentação de Guilherme Gontijo Flores, 2021, 1ª edição, Editora 34, São Paulo — SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 — 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina — Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor, ensaísta e professor-leitor de alemão na Ècole Normale Supérieure, em Paris; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours — França, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas; Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor — traduziu obras de Tchecov e Lemontov, de Arthur Rimbaud e Paul Valéry, de Óssip Mandelstam e Aleksandr Blok, de William Shakespeare e Emily Dickinson, de Fernando Pessoa e muitos outros; em Paris desde 1947, estudou Germanística e Linguística; o poeta conhecia o iídiche e foi fluente em francês, russo e ucraniano, entre outros idiomas; obra poética: Der sand aus den Urnen (A areia das urnas, 1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (De limiar a limiar, 1955), Sprachgitter (Prisão da palavra, 1959), Die Niemandsrose (A Rosa-de-Ninguém, 1963), Atemwende (Ar-reverso, 1967), Fadensonnen (Fiossóis, 1968), Lichtzwang (Lucipressão, póstumo, 1970), Schneepart (Parte da neve, póstumo, 1971), Zeitgehöft (Fazenda do tempo, póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicídio se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sully Prudhomme: O Ideal

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[traduzido por Cruz Filho]

Cheio de astros é o céu, e grande a lua;
A terra toda é só palor estremo
E o espírito do mundo no ar flutua.
— Sonho com a estrela de esplendor supremo,

A que em nosso horizonte ainda não erra,
Mas cuja luz percorre a imensidade
E há de um dia, afinal, chegar à terra,
Para encantar os olhos de outra idade.

Quando luzir, num século remoto,
Essa estrela longínqua e soberana,
Dizei-lhe que ela em mim teve um devoto,
Ó últimas mortais da raça humana!

(Do livro a publicar, Toda a Musa.)
[Toda Musa — poesia completa,
Cruz Filho, publicado em 1965]

Sully Prudhomme

L’Idéal

À Paul Sédille

La lune est grande, le ciel clair
Et plein d’astres, la terre est blême,
Et l’âme du monde est dans l’air.
Je rêve à l’étoile suprême,

À celle qu’on n’aperçoit pas,
Mais dont la lumière voyage
Et doit venir jusqu’ici-bas
Enchanter les yeux d’un autre âge.

Quand luira cette étoile, un jour,
La plus belle et la plus lointaine,
Dites-lui qu’elle eut mon amour,
Ô derniers de la race humaine!

[Stances et Poèmes — 1865]
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Diário Íntimo e Pensamentos: Sully Prudhomme [+ ‘Poemas de Sully Prudhomme em Traduções Brasileiras’], Apresentação ‘Prefácio’ de Anders Österling, Tradução e Notas de Mello Nóbrega, Estudo Introdutivo de Gabriel D’Aubarède, Ilustrações de André Hambourg e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Sully Prudhomme, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1973, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 — 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888)..., em prosa, escreveu Réflexions sur l’art des vers (prosa, 1892) e outros escritos (diário e pensamentos); Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, “de saúde precária” desde a infância, a partir de 1870, sofreu mais complicações, teve paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora]; teve poemas musicados, recebeu honrarias e premiações por sua obra, entre as quais o já citado 1º Prêmio Nobel de Literatura (1901).

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Francisco Inácio Peixoto: Poema

 
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Você menina de-já-hoje passou
Um mundo de vezes na minha rua,
Se lembra direito?

Você menina passou
Olhando desejosa pra um lado, pra outro
Assim como quem quer...
Querendo o quê?

De que você tem mesmo mania...
Não tem sofrimento de viver em casa:
Fica na rua...
Fazendo o quê?

Se você soubesse
Que delícias gozadas eu calculo
Existirem em você...
Sabe não?

Quando você chegou na esquina
E se deu na vontade
De consertar sua meia,
Me viu na janela
Ou se esqueceu que meus avós
Eram tupinambás?
Se esqueceu?

(Meia-Pataca — 1928)

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Francisco Inácio Peixoto em prosa e poesia, Coleção Os Ases de Cataguases, Apresentação, Organização e Notas de Luiz Ruffato e Prefácio [orelhas do livro] por Maria Zilda Ferreira Cury, 2008, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 — 1986), mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito — UFRJ), foi industrial, fazendeiro, contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí, outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos para o espanhol e participou de antologias literárias de Portugal e da Argentina; suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia, 1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo, 1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos, “um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente) que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov, 1966) ...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Maria Lúcia Dal Farra: Loucura

 
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A órbita da loucura é imensa.

Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes com rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.

Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.

É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces

— inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.

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Alumbramentos — poesia: Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação [texto/orelha do livro] de Inês Pedrosa­, 1ª edição, 2012, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, estudou piano e educação musical na Faculdade de Música Santa Marcelina em sua terra natal, graduou-se em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, pós-doutorado pela École Pratique des Hautes Études de Paris e Universidade de Lisboa, é escritora, poeta, ensaísta, pesquisadora e também professora universitária, hoje aposentada; lecionou na USP, na UNICAMP, na Universidade da Califórnia, em Berkeley — EUA, e na Universidade Federal de Sergipe; foi pesquisadora do CNPq; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, Trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Florbela Espanca, Afinado desconcerto (2002), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Correspondência amorosa de Florbela Espanca 1920-1925 (2008, ) Alumbramentos (laureado com o Prêmio Jabuti, poesia, 2012), Terceto para o fim dos tempos (poesia, 2017) e outros títulos.