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[traduzido por Marcos Antônio
Siscar]
(Sobre motivo
baixo-bretão Ann hini goz.)
No olho matado há calor
Uma cunha dá-lhe cor
Cravejado eu estou sem um caixão
Vazaram meu olho sem compaixão
No olho vazado há calor
E a cunha turva a cor
Deus misericors
Deus misericors
Bate em minha cabeça de pau
O martelo do suplício final
Deus misericors
Deus misericors
Os urubus têm pavor
De provar do meu odor
Abreviar meu Gólgota é uma vã
Esperança, Lamma sabacthani
Pombas da morte sem pavor
Molhai o bico desse odor
Vermelha como uma flor
A chaga é prova de amor1.
Vermelha como a gengiva babada
No riso de uma velha desdentada
A chaga é prova de amor
Vermelha como uma flor
Vejo círculos de cor
E o sol branco mordedor
Na água dos meus olhos se retempera
O ferro cozido no fogo do inferno
Vejo um círculo de cor
E o sol branco mordedor
Brota em meu interior
Uma gota de humor
Eu vejo o paraíso que se esconde
Lá dentro, Miserere, De Profundis
O enxofre do interior
Do crânio é todo meu humor
Aquele que morto for
Dê graças ao criador
Sejam gratos o mártir e o eleito
Com Jesus e a Virgem sem defeito
Se morto e julgado for
Que agradeça ao criador
Um cavaleiro ao redor
Repousa sem rancor
Descansa no cemitério bendito
Dormindo sua sesta de granito
O homem de pedra ao redor
Tem dois olhos sem rancor
Oh sinto ainda tua cor
Terra amarela d’Armor
Entre os meus dedos sinto o rosário
Cristo de osso no lenho do Calvário
Boquiaberto com tua cor
Ó céu defunto d’Armor
Perdão por orar em dor
Senhor, contra teu favor
Meus olhos são furos em vermelhidão
Que o capeta fez com a própria mão
Perdão por gritar de dor
Senhor, se este é teu favor
Ouço o vento em furor
Com seu corne zumbidor
Esse é o halali dos trespassados
Eu ladro após minha hora demasiado
Ouço o vento em furor
Já sinto o zumbi da dor
Menez-Arrez.
L’œil tué n’est pas mort
Un coin le fend encor
Encloué je suis sans cercueil
On m’a planté le clou dans l’œil
L’œil cloué n’est pas mort
Et le coin entre encor
Deus misericors
Deus misericors
Le marteau bat ma tête en bois
Le marteau qui ferra la croix
Deus misericors
Deus misericors
Les oiseaux croque-morts
Ont donc peur à mon corps
Mon Golgotha n’est pas fini
Lamma lamma sabacthani
Colombes de la Mort
Soiffez après mon corps
Rouge comme un sabord
La plaie est sur le bord
Comme la gencive bavant
D’une vieille qui rit sans dent
La plaie est sur le bord
Rouge comme un sabord
Je vois des cercles d’or
Le soleil blanc me mord
J’ai deux trous percés par un fer
Rougi dans la forge d’enfer
Je vois un cercle d’or
Le feu d’en haut me mord
Dans la moelle se tord
Une larme qui sort
Je vois dedans le paradis
Miserere, De profundis
Dans mon crâne se tord
Du soufre en pleur qui sort
Bienheureux le bon mort
Le mort sauvé qui dort
Heureux les martyrs, les élus
Avec la Vierge et son Jésus
Ô bienheureux le mort
Le mort jugé qui dort
Un Chevalier dehors
Repose sans remords
Dans le cimetière bénit
Dans sa sieste de granit
L’homme en pierre dehors
A deux yeux sans remords
Ho je vous sens encor
Landes jaunes d’Armor
Je sens mon rosaire à mes doigts
Et le Christ en os sur le bois
À toi je baye encor
Ô ciel défunt d’Armor
Pardon de prier fort
Seigneur si c’est le sort
Mes yeux, deux bénitiers ardents
Le diable a mis ses doigts dedans
Pardon de crier fort
Seigneur contre le sort
J’entends le vent du nord
Qui bugle comme un cor
C’est l’hallali des trépassés
J’aboie après mon tour assez
J’entends le vent du nord
J’entends le glas du cor
Menez-Arrez.
Notas do tradutor Marcos Antônio Siscar:
* ‘O poema é uma descrição dos martírios do morto-vivo evitado até pelos urubus. Não é por acaso que esse poema faz parte da seção “bretã” do livro: a presença da morte é constante na cultura e mesmo na paisagem da Bretanha, em suas igrejas, em seus menires. Notar a ausência quase completa de pontuação desse poema, bem anterior a Mallarmé e a Apollinaire.“Ann hini goz” (em bretão, “la vieille femme”, a velha) era uma espécie de canto nacional bretão, entoado em geral por mendicantes.1. versos 19-20 — Substituímos a imagem da escotilha (“sabord”), pela da flor: a chaga está no flanco do navio (ou no flanco de Cristo crucificado) da mesma forma que é uma “prova de amor” (pela humanidade, no caso de Cristo). O registro no caso é irônico, dado o contexto dantesco do poema.’
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Os Amores amarelos — Tristan Corbière,
edição bilíngue, Introdução, Tradução e Notas de Marcos Antônio Siscar, Apresentação
texto/orelha de Iumna Maria Simon, 1996, Editora Iluminuras Ltda., São Paulo — SP;
Tristan Corbière, ou Édouard-Joachim Corbière (1845 — 1875), francês de Morlaix
— Finistère-Bretagne, estudou no Lycée de Saint-Brieuc
[internato], na Bretanha [região noroeste francesa], transferiu-se para um
liceu em Nantes [como aluno externo], abandonou os estudos motivado por doença,
foi poeta simbolista e caricaturista; desde 1859, saúde frágil, foi
acometido por febre reumática; de sua biografia, consta que seus primeiros poemas
e caricaturas vieram à luz durante o período em que foi aluno interno, e que seu
mais antigo poema, datado de 1860, satirizava um professor de história; escreveu
e publicou um único livro em vida, Les Amours jaunes (Os Amores amarelos, 1873),
a revista La Vie Parisienne registrou alguns de seus poemas; a obra,
considerada um fracasso total, não obteve aceitação pública, só tendo sido
valorizada dez anos depois quando Paul Verlaine a incluiu em Les Poètes maudits
(1883), recomendando-a; consta que tal citação bastou para trazer o nome Tristan
Corbière à tona, firmando-o como um dos mestres reconhecidos do Simbolismo; sua
poética é considerada precursora do Surrealismo; em 1891, pelas mãos do editor Léon
Vanier, veio a público a 2ª edição de Os Amores amarelos e, desta vez, foi absorvida
e benquista nos meios literários; depois, vieram outras edições e reimpressões;
muito anteriormente, em 1874 Corbière ainda vivo, haviam sido publicados dois
textos em prosa: Casino des trépassés (Cassino dos finados) e L’Americaine (A
Americana); a poesia de Tristan Corbière influenciou Jules Laforgue, e já no
século 20, Ezra Pound (1885 — 1972) consagrou
Corbière definitivamente “como um dos maiores versificadores [da língua
francesa], mediante os contextos originais, satíricos, as estruturas coloquiais
e seus jogos de palavras em rimas ricas” [conforme o tradutor e estudioso José
Lino Grümewald]; debilitado, o poeta morreu de tuberculose aos 29 anos de
idade.