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sábado, 26 de setembro de 2026

Clarice Lispector: Uma galinha

 
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          Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã.
          Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.
          Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto voo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou — o tempo da cozinheira dar um grito — e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro voo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.
          Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
          Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma.
          Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.
          Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:
          — Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!
          Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
          — Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
          — Eu também! jurou a menina com ardor.
          A mãe, cansada, deu de ombros.
          Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.
          Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga — e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
          Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho — era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
          Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

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Laços de família: contos — Clarice Lispector, Apresentação [texto-orelha do livro] de Lúcia Helena, 2009, Editora Rocco — RJ; Clarice Lispector (1920 — 1977) ou Chaya Pinkhasivna Lispector, nascida em Tchetchélnik — Ucrânia (então Rússia) e naturalizada brasileira, chegou ao Brasil ainda criança de colo, vinda com os pais e irmãs, desembarcou em Maceió — AL, ali residiu por um tempo, logo rumou para Recife — PE, cursou o primário no Grupo Escolar João Barbalho e no Colégio Hebreu-Ídiche-Brasileiro, estudou no Ginásio Pernambucano e, depois, já no Rio de Janeiro, completou o ginasial no Colégio Sílvio Leite, formou-se advogada pela Faculdade de Direito na Universidade do Brasil, foi romancista, contista, cronista, jornalista, redatora e tradutora; Clarice deu aulas particulares de português e matemática, aprendeu datilografia, frequentou a Cultura Inglesa; em 1940, teve seu primeiro conto, O Triunfo, publicado na imprensa, Revista Pan; naquele ano também iniciou-se no ofício de jornalista: primeiro na Agência Nacional (órgão do DIP — Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Getúlio Vargas), depois no jornal A Noite; escreveu artigos e outros textos, publicou contos na revista Vamos Ler!, no Diário do Povo (Campinas — SP), no semanário Dom Casmurro, na revista Época; conheceu escritores e jornalistas; em 1943 casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente (com quem teve dois filhos) e, por força das atividades consulares do marido, mudou-se para Belém — PA, depois Nápoles — Itália, Berna — Suiça, Torquay — Inglaterra, Chevy Chase — EUA (próximo a Washington DC); conheceu cidades e regiões europeias e nos Estados Unidos; em 1959 se separou do marido embaixador, retornou ao Rio de Janeiro e ali, com os dois filhos, fixou residência; após volta ao Rio, escritora já reconhecida, Clarice trabalhou nos periódicos Correio da Manhã, Diário da Noite, revista Senhor, Manchete, Jornal do Brasil; em seus textos literários fez valer recursos técnicos modernos: a análise psicológica, o monólogo interior, etc.; suas obras: Perto do Coração Selvagem (romance, obra de estréia, 1943), O Lustre (romance, 1946), Alguns Contos (1952), Laços de Família (contos, 1960), A Maçã no Escuro (romance, 1961), A Paixão Segundo G. H. (romance, 1964), A Legião Estrangeira (contos e crônicas, 1964), O Mistério do Coelho Pensante: uma história policial para crianças (infantil, 1967), A Mulher que Matou os Peixes (infantil, 1968), Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (romance, 1969), Água Viva (ficção, 1973), A Vida Íntima de Laura (infantil, 1974), A Hora da Estrela (novela, 1977), e outros títulos, entre edições e reedições; recebeu premiações; teve obra que virou filme (A Hora da Estrela) e encenações teatrais (Um Sopro de Vida e La passion selon G. H.).