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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Euclides da Cunha: Lirismo à disparada

 
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Eu sou por certo um ente abominável,
A quem nenhuma penitência salva,
Não tiro o meu chapéu à Divindade…
“E dizem que perdi a Estrela d’alva”…

E tão viciado que ainda hoje, à noite,
Um pelotão de serafins risonhos,
Em pleno boulevard da Via Láctea
Prendeu-me porque eu estava ébrio... de sonhos!

Escândalo no céu. Os santos todos,
Perdendo as composturas consagradas,
Atiravam-me estrelas, como pedras,
E riam-se a bandeiras despregadas.

Um desacato escandaloso... e como
O Supremo Fiscal, nessa emergência,
Não conteve os seráficos garotos,
Denunciei à Polícia a Providência.

Fiz bem. A rixa é velha. Há muito tempo
Que eu, o Voltaire1 e o Comte2 nem o intento
Podemos ter de passear à noite
Na grande praça azul do Firmamento.

Se o fazemos, apagam-se as lanternas
Dos céus, num pronto e momentâneo eclipse,
E vemo-nos nas trevas, entre os coices
Da besta divinal do Apocalipse!3

Não vou mais lá, por isso... Mas que importa...
Por que falar nesses sucessos tristes?
Trancam-me os céus: eu tenho o teu olhar...
Nem me faz falta Deus — pois tu existes!


Notas da edição:
1. Voltaire: poeta e prosador francês (1694 — 1778). Célebre por sua ficção espirituosa, irreverência e sátiras contra a Igreja, o clero, a religião e os filósofos de sua época. Defensor da liberdade contra as tiranias;
2. Comte, Augusto: Matemático e filósofo francês (1798 — 1857). Fundador da Sociologia. Criador do sistema filosófico chamado Positivismo, que influiu no pensamento de Euclides da Cunha e na ideologia republicana no Brasil. O positivismo de Comte nega a existência de Deus e rejeita qualquer conhecimento que não possa ser provado ou demonstrado cientificamente;
3. Apocalipse: livro profético, poético e místico do Novo Testamento, atribuído ao evangelista João. A “Besta” do Apocalipse é um animal indefinível, sobrenatural, fabuloso e terrível, que aparecerá no Mundo, espalhando o terror, prenunciando a segunda vinda de Cristo e o fim dos tempos.
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; o jornalista Euclides da Cunha, que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Euclides da Cunha: Se acaso uma alma se fotografasse... [soneto]

 
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Se acaso uma alma se fotografasse1
De sorte que, nos mesmo negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos;

Amigo! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando — deste grupo bem no meio —

Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente,
O mais triste, o mais pálido, o mais feio2.


Notas da edição:
1. Este soneto foi escrito no verso de uma fotografia enviada por Euclides a José Veríssimo. Datado de 1905, de Manaus, onde o poeta se encontrava, em vésperas de partir para o Alto Purus como chefe da Comissão Mista Brasílio-Peruana, param demarcação das fronteiras entre o Brasil e o Peru;
2. É impossível não relacionar este soneto de Euclides com o célebre Mal Secreto, de Raimundo Correia, que começa com os conhecidíssimos versos:
"Se a cólera que espuma e a dor que mora
N’alma e destrói cada ilusão que nasce.
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse...".
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; o jornalista Euclides da Cunha, que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.