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Eu sou por certo um ente
abominável,
A quem nenhuma penitência
salva,
Não tiro o meu chapéu à
Divindade…
“E dizem que perdi a Estrela
d’alva”…
E tão viciado que ainda hoje,
à noite,
Um pelotão de serafins
risonhos,
Em pleno boulevard da
Via Láctea
Prendeu-me porque eu estava
ébrio... de sonhos!
Escândalo no céu. Os santos
todos,
Perdendo as composturas
consagradas,
Atiravam-me estrelas, como
pedras,
E riam-se a bandeiras
despregadas.
Um desacato escandaloso... e
como
O Supremo Fiscal, nessa
emergência,
Não conteve os seráficos
garotos,
Denunciei à Polícia a
Providência.
Fiz bem. A rixa é velha. Há
muito tempo
Que eu, o Voltaire1
e o Comte2 nem o intento
Podemos ter de passear à noite
Na grande praça azul do
Firmamento.
Se o fazemos, apagam-se as
lanternas
Dos céus, num pronto e
momentâneo eclipse,
E vemo-nos nas trevas, entre
os coices
Da besta divinal do
Apocalipse!3
Não vou mais lá, por isso...
Mas que importa...
Por que falar nesses sucessos
tristes?
Trancam-me os céus: eu tenho o
teu olhar...
Nem me
faz falta Deus — pois tu existes!
Notas da edição:
1. Voltaire:
poeta e prosador francês (1694 — 1778). Célebre por sua ficção espirituosa,
irreverência e sátiras contra a Igreja, o clero, a religião e os filósofos de
sua época. Defensor da liberdade contra as tiranias;
2. Comte,
Augusto: Matemático e filósofo francês (1798 — 1857). Fundador da Sociologia.
Criador do sistema filosófico chamado Positivismo, que influiu no pensamento de Euclides
da Cunha e na ideologia republicana no Brasil. O positivismo de Comte nega a
existência de Deus e rejeita qualquer conhecimento que não possa ser provado ou
demonstrado cientificamente;
3. Apocalipse: livro profético, poético e místico do Novo Testamento,
atribuído ao evangelista João. A “Besta” do Apocalipse é um animal indefinível,
sobrenatural, fabuloso e terrível, que aparecerá no Mundo, espalhando o terror,
prenunciando a segunda vinda de Cristo e o fim dos tempos.
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de
Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de
Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da
poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da
Cunha (1866 — 1909),
nascido em Cantagalo —
RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio
Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras
escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica,
desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia
Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi
escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro
militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões,
publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes
republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos
consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O
Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor
trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta
expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos
idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês,
italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e
Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909),
Canudos — diário de uma
expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso
perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883
— 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; o jornalista Euclides da Cunha,
que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele
e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por
várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de
São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros
periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico
Geográfico Brasileiro.