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Os dois
boêmios de tempos já distantes, H. Pedra e Pedro Moskowa, um dia se encontraram
e foram tomar café — uma infâmia, verdadeira perfumaria!
Puseram-se,
no botequim, a conversar e a palestrar.
Veio a
conversa recair sobre a arte de “morder”.
Pedro,
que era o mais inteligente, disse, num dado momento, ao H. Pedra:
— Pedra,
nós somos uns tolos.
— Por
quê?
— Não
sabemos “morder” cientificamente.
— Não te
compreendo.
— Eu te
explico.
— Vá lá.
— Nós
dispersamos os nossos esforços, quando tudo nos ensina que devemos conjugá-los,
articulá-los, encadeá-los em benefício comum.
— Como é
então?
— Olha:
vamos organizar uma lista das pessoas “mordíveis”. Tu ficas com uma e eu com a
outra. Num dia, mordo eu; noutro dia, tu. Antes do almoço, dividimos a féria;
e, antes do jantar, também. Queres?
— Aceito.
Mas no domingo?
— Cada um
tem liberdade de ação, mas o melhor é não morder nenhuma pessoa da lista.
— Por
quê?
— Pode
acontecer que nós ambos mordamos, num mesmo domingo, uma delas, e, no dia
seguinte, tanto eu como tu estaremos atrapalhados para fazê-la “sangrar”.
Aceitas?
— Está
feito.
Combinado
isto, os dois organizaram a relação das pessoas conspícuas que podiam merecer a
honra das suas “facadas” e puseram em prática os fins de sua curiosa
associação, que, se fosse registrada na Junta Comercial, teria de girar sob a
firma Pedra & Moskowa.
Pedra
“mordia” nas segundas, e Moskowa, nas terças; e assim por diante,
alternando-se.
Nas horas
marcadas, dividiam irmãmente a féria, sem que nenhum “refundisse” um níquel,
isto é, sonegasse-o ao outro.
Um dia,
porém, em uma confeitaria, Pedra viu que o dr. F. C. era da lista, puxava uma
nota graúda, para pagar um vermute que tomava no balcão. Não era o seu dia, mas
não se conteve e deu o bote. A vítima sangrou e H. Pedra, que recebera uma
“forquilha” (2$000), tratou de refestelar-se num angu do Bernardino; no largo
da Sé.
Moskowa,
que não sabia da coisa, quando encontrou o dr. F. C., foi cumprir a sua
obrigação, qual não foi o seu espanto, porém, quando ele disse:
— “Seu”
Moskowa, hoje não é seu dia, pois já dei ao Pedra.
* Nota
do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página
registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução
deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”;
** Nota
do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa: Assinado por Jonathan.
Publicado em Careta n. 605, 24 jan. 1920.
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Sátiras e
outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução,
Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das
Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca,
estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica
do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista,
romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon,
A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio
da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do
Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar
um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905),
Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma
(editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros
Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado,
publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal,
editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...