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domingo, 30 de junho de 2024

Lima Barreto *: Pedra & Moskowa **


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          Os dois boêmios de tempos já distantes, H. Pedra e Pedro Moskowa, um dia se encontraram e foram tomar café uma infâmia, verdadeira perfumaria!
          Puseram-se, no botequim, a conversar e a palestrar.
          Veio a conversa recair sobre a arte de “morder”.
          Pedro, que era o mais inteligente, disse, num dado momento, ao H. Pedra:
           Pedra, nós somos uns tolos.
           Por quê?
           Não sabemos “morder” cientificamente.
           Não te compreendo.
           Eu te explico.
           Vá lá.
           Nós dispersamos os nossos esforços, quando tudo nos ensina que devemos conjugá-los, articulá-los, encadeá-los em benefício comum.
           Como é então?
           Olha: vamos organizar uma lista das pessoas “mordíveis”. Tu ficas com uma e eu com a outra. Num dia, mordo eu; noutro dia, tu. Antes do almoço, dividimos a féria; e, antes do jantar, também. Queres?
           Aceito. Mas no domingo?
           Cada um tem liberdade de ação, mas o melhor é não morder nenhuma pessoa da lista.
           Por quê?
           Pode acontecer que nós ambos mordamos, num mesmo domingo, uma delas, e, no dia seguinte, tanto eu como tu estaremos atrapalhados para fazê-la “sangrar”. Aceitas?
           Está feito.
          Combinado isto, os dois organizaram a relação das pessoas conspícuas que podiam merecer a honra das suas “facadas” e puseram em prática os fins de sua curiosa associação, que, se fosse registrada na Junta Comercial, teria de girar sob a firma Pedra & Moskowa.
          Pedra “mordia” nas segundas, e Moskowa, nas terças; e assim por diante, alternando-se.
          Nas horas marcadas, dividiam irmãmente a féria, sem que nenhum “refundisse” um níquel, isto é, sonegasse-o ao outro.
          Um dia, porém, em uma confeitaria, Pedra viu que o dr. F. C. era da lista, puxava uma nota graúda, para pagar um vermute que tomava no balcão. Não era o seu dia, mas não se conteve e deu o bote. A vítima sangrou e H. Pedra, que recebera uma “forquilha” (2$000), tratou de refestelar-se num angu do Bernardino; no largo da Sé.
          Moskowa, que não sabia da coisa, quando encontrou o dr. F. C., foi cumprir a sua obrigação, qual não foi o seu espanto, porém, quando ele disse:
           “Seu” Moskowa, hoje não é seu dia, pois já dei ao Pedra.

Lima Barreto

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”;
** Nota do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa: Assinado por Jonathan. Publicado em Careta n. 605, 24 jan. 1920.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

terça-feira, 11 de junho de 2024

Lima Barreto *: Os precursores **


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          O sr. Frederico Vilar, o muito conhecido inspetor da Pesca, é um homem de excepcional competência que não está no seu devido lugar.
          Os seus processos de governo são adoravelmente indígenas. Ele não conhece leis nem as garantias que estas dão aos cidadãos.
          Meteu-se a bordo de um antigo iate de recreio, tem marinheiros e oficiais à sua disposição e resolveu “nacionalizar” a pesca com carabinas e baionetas. Nenhuma consideração o detém. Com tipos que, porventura, recalcitrem, o enérgico chefe de pescaria nacional não tem mais medidas: manda prendê-los em plena cidade, sem ser polícia nem ter mandado de juiz competente, e os mete no porão da sua belonave.
          Os pescadores não lhe querem fornecer pescado para as suas feiras  que faz ele? Apreende-lhes as “marés” e as vende pelo preço que bem lhe parece. Faz isto tudo para baratear o preço das tainhas e corvinas e fazer com que o beijupirá seja acessível aos paladares mais modestos. Sábio administrador!
          Dizia que não está no seu lugar porque o ocupado por ele só tem alçado sobre o preço das “tainhas”, de siris e baiacus.
          As suas teorias econômicas tão eloquentemente bororós mereciam e merecem uma aplicação mais ampla, e o sr. Vilar devia ser, nada mais, nada menos, presidente da República.
          Para o ser com eficácia e lógico com as suas concepções comerciais, ele devia suprimir: Congresso, juízes, e tudo o mais.
          Ele e os seus pescadores, incluindo os seus secretários, disporiam a seu bel-prazer das propriedades e fazendas de todos os habitantes do Brasil.
          Esse atroz problema da carestia de habitações, o sr. Vilar resolveria com uma penada: tomaria conta das casas e alugá-las-ia por baixo preço, caridosamente.
          Para baixar o preço da carne-seca, procederia da mesma forma; para o custo do açúcar e outros gêneros, empregaria o mesmo sistema.
          Enfim, no intuito de completar a sua obra, o sr. Vilar mandaria queimar a Constituição, os tratados de economia política e os livros de história que narram a luta muitas vezes secular dos homens, para obter o estabelecimento da liberdade individual e as suas consequências e organizar um regime político em que haja o menos possível das truculências quarteleiras.
          Depois disto, isto é, depois que o adiantado oficial conseguisse fazer tudo, essa obra de restabelecer, em plena civilização, a simplicidade comercial e industrial da maloca primitiva, era de todo cabível erguer no Pão de Açúcar não a estátua de Jesus, imagem de amor e da concórdia, mas um monumento a Tamerlão1 ou Lênin2, cuja sabedoria política tem inspirado tantos reis, caciques e morubixabas, dos quais são legítimos precursores, e eu discípulo humilde.


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
“Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.”.

Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
** Assinado por Jonathan. Publicado em Careta, n. 665, 19 mar. 1921;
1. Tamerlão (1336 — 1405) foi o último dos grandes conquistadores nômades da Ásia Central de origem turco-mongol, constituindo em torno de si o Império Timúrida. A característica pela qual Tamerlão tornou-se mais conhecido e temido em todo o Ocidente foi sua crueldade e brutalidade com que tratava os povos conquistados;
2. Vladimir Ilitch Lênin (1870 — 1924) foi um revolucionário e chefe do Estado russo, responsável em grande parte pela execução da Revolução Russa de 1917, líder do Partido Comunista e primeiro presidente do Conselho dos Comissários do Povo da União Soviética. Influenciou teoricamente os partidos comunistas de todo o mundo, e suas contribuições resultaram na criação de uma corrente teórica denominada leninismo.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Lima Barreto: O nacionalismo *


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          De um tempo a esta parte, vejo em todo o lugar falar-se em nacionalismo.
          Não leio nunca o que os jornais trazem encabeçados com este título ou outro aparentado e só suspeito o que seja pelo que dizem os adversários dos tais nacionalistas.
          A coisa me chamou a atenção quando se tratou do tal negócio dos navios; eu, porém, tinha uma opinião a respeito, tão internacionalista e tão nacionalista que nem dessa feita fiquei sabendo só certo do que se tratava com tal palavra.
          Uma coisa, porém, vi logo: que entrava no novo jacobinismo: a política.
          Ora, nada tendo eu com semelhante senhora, não era da minha conta meter o bedelho onde não era chamado.
          Entretanto, não pude continuar nessa atitude, pois não abro um jornal que não venha um artigo, um tópico, uma alusão ao nacionalismo.
          Vejo-me obrigado a ter uma opinião a respeito e, como os próceres da ideia não a definam por palavras ou por atos, vejo-me na contingência de fazer suposições.
          Em certas ocasiões, penso que os nacionalistas desejam a proibição da entrada de estrangeiros no Brasil; mas, imediatamente, acho isto um absurdo. Não é possível tal coisa hoje, em que a concepção de humanidade vai cada vez mais dominando a de pátria.
          A princípio, a serviço das religiões com tendências universais, aproveitada pelos exploradores políticos e comerciais, com auxílio de filantropos e missionários desinteressados da ideia de humanidade, tende a se purificar, ficar leiga acima de seitas e religiões, para ligar todos os homens na Terra e, em qualquer parte desta, não separá-los, consequentemente, por este ou aquele acidente secundário.
          Ora, sendo assim, o Brasil sendo ainda um grande deserto, o nosso nacionalismo de não querer entrada de estrangeiros era uma estreiteza e um regresso.
          Pensei mais dias após que bem podia ser que não fosse isto; que eles, os nacionalistas, admitissem a entrada de imigrantes, mas não os quisessem em cargos públicos.
          Era outro absurdo, porquanto a própria lei, mediante regras que estabelece, consente que os naturalizados possam chegar até o senador da República.
          Imaginei em seguida que os nacionalistas não quisessem os estrangeiros no comércio ou na indústria, mas era antiliberal tentar impedir ou cercear a atividade de um dado cidadão numa profissão, em que nada entra de secreto e onde não se precisa nenhuma manifestação misteriosa de ancestralidade nacional.
          Julguei ainda que eles pretendessem impedir que os estranhos mandassem as suas economias para a Europa. Era outro absurdo, porque todos os governos do Brasil, federal, estaduais, municipais, orgulham-se em anunciar que vão pagar tantos e tantos milhares de francos ou libras aos seus credores na Europa.
          Outros nacionalistas há que gritam contra a carestia da vida e a atribuem aos estrangeiros, mais aos humildes, isto é, aos vendeiros açougueiros.
          Era também essa suposição que me fazia descrer do tal nacionalismo. Esses humildes negociantes querem ganhar dinheiro, e muito, o que está nos moldes das pequenas crenças do nosso tempo, em que se prega explícita ou implicitamente o amor do lucro, do ganho, da fortuna, devendo se alcançar esta seja como for. O vendeiro, o açougueiro etc. são tão criminosos como os nossos patrícios que encarecem o açúcar quando o vendem em grosso, e outros artigos de produção nacional.
          Aí, não há brasileiro, nem chinês, há o espírito da nossa época, que é o de domínio da cobiça e da cupidez. É preciso extraí-lo da nossa inteligência como da dos demais povos e, então, a vida será outra.
          A bem dizer, a carestia atual entre nós é fabricada por aquela gente que de há muito se pôs além e acima do ideal de pátria, é a gente da finança que vai até as funestas guerras para ganhar dinheiro e todo o nosso nacionalismo contra ela é vão e ridículo. Para derrubá-la é preciso abalar e modificar ideais e sentimentos; e é coisa que nunca foi obtida por clubes de meninotes mais ou menos eloquentes e elegantes.
          O nacionalismo pode ser literário e artístico, isto é, consistir na cultura da língua, das antiguidades, das tradições, das lendas, da história, do folclore, das manifestações intelectuais passadas, mas este, que é obra de estudiosos e artistas, não pede clubes de piqueniques, nem se incomoda que os navios dos outros sejam vendidos a este ou aquele.
          Trabalha em silêncio e apresenta a quem gostar os seus estudos e as suas produções, pouco se importando com quem é ou deixa de ser presidente da República.
          O mal estar da nossa vida não vem da massa geral de estrangeiros, tão necessitada como a maioria dos nacionais; vem da injustiça das relações econômicas entre pobres e ricos.
          Cessem elas, que o mundo será um paraíso e a pátria ficará quase sempre sendo para cada qual o lugar em que nasceu.


* Nota do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa: Assinado por Lima Barreto. Publicado em Voz do Povo, 9 mar. 1920.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...; o escritor Lima Barreto, particularmente nos textos satíricos de comentários sociais ou políticos, fez uso de vários pseudônimos como assinaturas de suas crônicas nos periódicos jornais e revistas nos quais foram publicadas, Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumarel, Eran, J. Caminha, Aquele, estão entre eles.

domingo, 19 de maio de 2024

Lima Barreto*: Alfa e Ômega


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          Dentre as instituições que mais concorrem para a prosperidade das finanças dos nossos funcionários públicos está essa de caixas, bancos, montepios etc.
          Um funcionário de modestos vencimentos, graças a qualquer delas, pode-se ver, de uma hora para a outra, senhor de um conto, conto e meio e tirar naquele dia o seu ventre de miséria, gastar à vontade, dar dinheiro e esquecer um instante a feijoada familiar.
          Um escriturário de uma das nossas repartições, boêmio, escritor nas horas vagas, uma tarde dessas se meteu em um conto de réis numa caixa destas por aí e tratou de meter-lhe o pão.
          Andou por aqui e por ali, bebendo o que lhe vinha à cabeça.
          Assim, semitonado, chegou ao centro da cidade, quase sem reparar onde estava, e entrou em uma confeitaria chique.
          Esse escritor, esse boêmio, seguia o princípio de Lafargue1 (creio eu): “o herói bebe aguardente”. E ele assim fazia.
          Sentou-se a uma das mesinhas, tão pequenas como a nossa fortuna e pediu:
           Traga-me um parati.
          Houve susto em todas as mesas, e o caixeiro ficou estonteado. O rapaz repetiu:
           Traga-me uma cachaça.
          As damas quase deram faniquitos e foram fugindo uma a uma.
          O caixeiro explicou delicadamente:
           Meu caro senhor, nós não temos essa espécie de bebida.
           Pois bem disse o boêmio , traga-me uma garrafa de champanhe.
          Mostrou ato contínuo a quantia a pagar.
          Servido convenientemente, com toda a regra pegou na taça e começou a sorver o célebre vinho.
          Entrou um colega e amigo que se abancou perto dele e, no calor do vinho, ele começou a recitar versos.
          O milagre se operou, e ninguém teve mais medo do homem tão singularmente perigoso que parecia ser um facínora da Saúde.
          O verso faz milagres, quando é seguido do champanhe.

[Aquele2, Careta, nº 375, 28. ago.1915]


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, [Aquele,] entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.
Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1. Paul Lafargue (1842 1911) foi um jornalista, escritor e ativista político francês. Nascido em Santiago de Cuba, de família franco-caribenha, ele passou a maior parte de sua vida na França, e um período na Inglaterra e Espanha. Casou-se com a segunda filha de Karl Marx, Laura. Publicou inúmeros livros sobre socialismo revolucionário e materialismo histórico, entre eles O direito à preguiça (1880) e O capital: Extratos, com o qual pretendeu facilitar o acesso à obra O capital de seu sogro.
1. Assinado por Aquele. Publicado em Careta, nº 375, 28 ago. 1915;
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Lima Barreto*: Conversas


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          Entrei no correio, um dia destes, para pôr uma carta. Como precisasse escrever o endereço, fui ter a uma das mesinhas, onde se encontram penas grossas e tinta rala.
          Todas se achavam ocupadas; fiquei então à espera junto a uma delas.
          Reparando melhor, verifiquei que o ocupante era Gonzaga de Sá1, meu amigo, homem maior de cinquenta anos, não obstante, brusco e paradoxal.
          Não escrevia; olhava alguns selos espalhados sobre a mesa.
           Oh! Sr. Gonzaga de Sá, ande!
           Tu!
           À sua espera.
           Já viste os novos selos
           Alguns.
           É bom ver. Tenho aqui de dez réis, de vinte, de quatrocentos, de cem, de cinquenta e duzentos.
           Faz coleção?
           Não. Amo os homens ilustres, e os selos trazem as efígies de alguns deles. Temos aqui: Aristides Lobo, Benjamin Constant, Pedro Álvares Cabral, Eduardo Wandenkolk, Deodoro da Fonseca e Prudente de Morais.
           Idéia feliz! exclamei eu.
           Pena é que, ao lado, não tragam alguns dados biográficos e profundas sentenças morais.
           Por quê?
           Teríamos o Plutarco brasileiro em fórmulas de franquia postal. Entretanto, mesmo como estão, tem vantagens. Assim, quando olhas um Aristides Lobo, dez réis, dirás lá contigo: está aí um homem que nasceu para dez réis; o que não aconteceu com o Benjamin. Este, sim, chegou a vintém. Vá que recebas uma carta urbana. Lá te vem um Wandenkolk cor de tijolo, cem réis... Pensarás de ti para ti: como foi longe! E não é tudo. Se, a um só tempo, tiveres um Deodoro, verdoengo, duzentos réis, um Prudente, acinzentado, quatrocentos réis, junto a um Álvares Cabral, cinquenta réis, refletirás maduramente sobre a injustiça das coisas humanas. Eis aí como estava eu a pensar sobre selos, e pensar sobre selos, concordarás, é das mais modestas pesquisas intelectuais. Não te parece?
           De fato.
           Bem. Escreve a tua carta. Adeus.

— o —

          O servente da Caixa de Conversão2, a quem, num bonde, ouvi falar há dias, é pessoa de bons costumes, crédula e honesta. Recebi magníficas informações a seu respeito, e disseram-me que, se na praça a confiança de fato merecesse crédito, ele endossaria letras de milhares de contos. No bonde, ele contava a um camarada:
           Pois é isso: toda manhã, quando chego lá, é um zum-zum, um falatório de espantar. No primeiro dia, pensei que fosse gente. Mas qual! Não havia ninguém. Andei, remexi tudo... Nada! De tarde, quando todos saem, é a mesma coisa: um barulho de vozes, um bate-boca infernal... Eu quis mesmo contar o caso ao porteiro, mas ele poderia pensar que eu estava doido... calei-me. Já me tinham dito que os bichos lá vinha um dia falavam, mas coisa é... é que nunca ouvi dizer. Enfim, quanto mais se vive, mais se aprende... Anteontem de manhã, quando cheguei, ouvi a tal barulhada, o tal zum-zum de vozes... Que fiz? Fui devagar, devagarzinho, e me pus a escutar um cofre... Sabe o que ouvi?
           Não fez o companheiro.
           Isso: não se enxerga, sua nota de papel!? Veja lá se eu me troco por você.
           Naturalmente era uma libra quem falava.
           Eu pensei também. Há cada coisa...

[Pingente3Fon-Fon, nº 1, 13 abr. 1907]


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.
Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1. Protagonista do livro de Lima Barreto Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, que foi escrito em 1907 e publicado somente em 1919;
2. A Caixa de Conversão foi criada em 1906 para ajudar a combater a crise pela qual passava o mercado de café e manter equilibrado o poder de troca da moeda do Brasil no comércio com outras nações. A Caixa estava autorizada a emitir bilhetes conversíveis, garantidos por lastro em moedas de ouro nacionais e estrangeiras, como a libra e o dólar. Encerrou sua atividade emissora em 1913;
3. Assinado por Pingente. Publicado em Fon-Fon, nº 1, 13 abr. 1907.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Lima Barreto*: Nacionalização de tabuletas & As tabuletas da Avenida


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Nacionalização de tabuletas1

          Tive a honra de conversar com um respeitável cidadão que se dá ao estudo do português, nas suas transcendentes questões de vernaculismos, galicismos e barbarismos em geral.
          Fui interrogá-lo sobre o negócio de tabuletas em línguas estrangeiras que tanto inquieta o nosso patriotismo de hoje, que se reforçou com as nossas vitórias militares, econômicas e políticas na guerra mundial, que é acusada de ter cessado.
          Em tese, disse-me o gramático, sou pelo desejo dos nacionalistas que querem que os dísticos das casas comerciais e outras sejam escritos no nosso idioma; mas a verdade é que muitos jornais não o são. Quer ver? Veja só Jornal do Commercio é português?
           Como?
           Jornal é galicismo e dos bons; e só foi admitido, como significando folha de papel impressa diariamente, depois de muita relutância dos sábios linguistas. Gazeta também não é?
           Que é?
           É veneziano. Era uma moeda de Veneza com a qual se comprava certo diário impresso. Mais ainda.
           Ainda mais!
           Temos. Em papéis oficiais você vê contrôle, cahiers de charges, hinterland, self-government e tantos outros que não custa catar por aí. Os jornais então abusam e abusam dos estrangeirismos, conforme a moda. Você viu aparecer, durante a guerra, camouflage, poilus, tommies etc.
          Como é que você quer então que os particulares, ainda mais negociantes, sejam mais escrupulosos do que o Estado que chama de divisões as suas repartições ou seções, o que deve ser um rematado galicismo.
          Não tenho tempo para fornecer exemplos de que todos nós, nessa história de linguagem, somos tão nacionalistas como o comerciante que põe, na fachada de suas casas de negócio, este título que nada diz com o fito das suas mercadorias: À la Ville de Brest, quando o que ele vende são fazendas e artigos de armarinhos. De resto, é tradição do comércio essas denominações extravagantes para as suas casas. Você que é viajado e lido, sabe bem disso; e os comerciantes que se transportam dos seus países para aqui trazem esse hábito na massa do sangue.
          Porque você queria que a “Notre Dame”, por exemplo, fosse chamada “Nossa Senhora de Paris”? Adiantava isso muito para a nacionalização do Brasil?!
          Não acho lá grande a medida, porquanto o que primeiro devíamos fazer era nacionalizarmos a nós, depois, os recém-chegados.

— o 

As tabuletas da Avenida2

          Durante muito tempo, nós, os do Rio, não soubemos ver a transcendental significação da tabuleta, hoje, porém, as coisas vão mudando.
          Não tão rapidamente como era de esperar, pois que há na Avenida um Armazém Central. Ignóbil!
          Nos atuais tempos de transformações radicais, é bom que as tabuletas obedeçam a todas as condições de elegância, brilho e novidades; é bom também que atendam à satisfação geral, ao abarrotamento de satisfação, que enche a cidade.
          Café Jeremias3, por exemplo, inconveniente, desgracioso, perfeitamente desgracioso.
          Evocar o nome do eminente profeta hebraico, mesmo no âmago da nossa alegria e da nossa felicidade!...
          O governo, ao meu ver, devia proibir; tanto mais que uma tal tabuleta bem pode influir para que voltemos aos tempos do pessimismo, do “isto vai mal, Jeremias”, na Avenida! Que gafe!
          Há, entretanto, alguma coisa de smart. Felizmente, uma feliz reação se operou no seio dos nossos criadores de tabuleta. Café Chic! Eis aí a tabuleta que salva a nossa civilização. Todos os perigos internos e externos que porventura nos ameacem serão evitados se formos chics, extraordinariamente chics. Sejamos chics, smarts, gentlemen, das quatro em diante, quando saímos dos escritórios e das repartições... Café Chic é genial!
          Junto ao chic, temos o rosé Maison Rosé.
          Rosé é o otimismo, é a satisfação do viver...
          Chic e Rosé é a expressão do anseio da nossa modernidade carioca.
          Não quiseram os retrógrados que a coisa ficasse tão bem; puseram em Lira Casa Lira título romântico, conciso, a mesmo que não seja em honra ao ministro. Se o for, é moderno, smart, gentleman, XPTO4, London.
          Num desvio de O País, deparamos com Trust tabuleta soberbamente expressiva. Recorda milhões de Carnegie, de Vanderbilt; é uma tabuleta super-homem. Fascina, atrai, empolga... Por quê? É a obscuridade, é a não significação.
          Ponham uma em hieróglifos e verão que sucesso! O Rio transforma-se graças a Deus! é de esperar que em breve tenhamos uma. Que doce esperança!...


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, [Mié,] entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.
Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1. Assinado por Horácio Acácio. Publicado em Careta, nº 586, 13 set. 1919;
2. Assinado por Mié. Publicado em Fon-Fon, nº 5, 11 mai. 1907;
3. Localizado na avenida Central, 150, era um dos cafés mais frequentados por Lima Barreto;
4. Expressão popularizada em Portugal para designar algo sofisticado.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

terça-feira, 2 de abril de 2024

Lima Barreto*: O meu consolo & A lição


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O meu consolo1

          Os debates financeiros e econômicos cessaram na tribuna da Câmara e nas colunas dos jornais.
          Foi um regalo este debate, com o qual muito gozei, ao apreciar a dança de apaches dos algarismos.
          Apareciam tantos que me estonteavam; eu, porém, teimava em ler os discursos e os artigos.
          Falava-se de dinheiro, de libras, de francos, de dólares e as cifras enormes, fantásticas, de todas as moedas do mundo, só com a leitura delas, eu me sentia um pouco rico.
          Tenho esse mau hábito de sonhar, de representar nitidamente o que me sugere a leitura; de modo que, vendo falar em milhões, em milhares de contos, eu apalpava, eu acariciava montões de libras nas minhas algibeiras ou as fazia escachoar lentamente das minhas mãos para cima da minha mesa de trabalho.
          Nunca vi ronda tão inverossímil de dinheiro como nessa discussão.
          O Brasil é assim tão rico, pensei eu; e eu sou brasileiro, devo ser também alguma coisa rico. Convenci-me de tal fato, que já me havia ensinado um preto velho que tinha em casa. Muitas vezes ele me disse:
           Seu F.!
           Que é?
           O senhor por que não compra uma casa?
           Porque não tenho dinheiro.
           Quá! O senhor tem?
           Onde?
           No Banco do Brasil.
           Como?
           O senhor é brasileiro; o banco é do Brasil; o senhor chega lá e tira o dinheiro. Está aí rematava o velho africano.
          Não segui o conselho dele. Não fui ao Banco do Brasil; mas, cada vez que me sinto mais pobre, mais me extasio com os algarismos das discussões financeiras. É o meu consolo.

— o —

A lição2

          Todos os transeuntes e habitantes desta nossa cidade do Rio de janeiro estão fartos de observar a proliferação da mendicidade que vai por ela.
          Não há bairro, não há esquina, não há rua, não há praça, em que não se topem às dezenas com mendigos de todas as nacionalidades, de todos os sexos, de todas as idades.
          Um coração piedoso que desse as esmolas pedidas diariamente teria que ter a fortuna de um milionário para não arrebentar as finanças ao fim de um mês.
          Eu não sou de todo coração duro, de modo que, às vezes, me rendo aos pedidos que me fazem os pobres na rua.
          Recebi, porém, em um dia destes uma lição que quase me tornou insensível perante às misérias dos outros.
          Estava eu em um restaurante dos subúrbios, quando se acercou de mim uma criança, dizendo:
           Moço, o senhor me dá um tostão para comprar um pão? Não comi nada hoje etc. etc.
          Olhei a criança bem e perguntei:
           Você quer mesmo o pão?
           Quero, sim, moço. Não comi nada hoje.
          Pensei que o melhor modo de beneficiar a criança era comprar o pão e dar-lhe.
          Exultei com o alvitre e fiquei contente com a minha consciência. Exercia a caridade e não corromperia o infante.
          Chamei o caixeiro, pedi um tostão de pão, que foi embrulhado, e entreguei ao menino.
          Ele recebeu com muita humildade, agradeceu até, e encaminhou-se com o embrulho para a porta.
          Tive satisfação com a coisa e julguei que a comida que ingeria tinha um sabor melhor.
          Quando o pequeno chegou à porta da rua, voltou-se e gritou:
           Seu besta! Eu não queria pão; queria dinheiro.
          Fiquei zonzo e quase arrependido da minha caridade.


Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra o que nos relata o pesquisador Felipe Botelho Corrêa, na Introdução deste Sátiras e outras subversões:
Os pseudônimos que Lima Barreto utilizou não chegam a ser elaborados heterônimos, como no conhecido caso do português Fernando Pessoa, seu contemporâneo. O emprego de assinaturas como Amil, Jonathan, Xim, Horácio Acácio, Inácio Costa, Pingente, Barão de Sumaret, Eran, J. Caminha, entre outros, estava inserido numa prática muito disseminada nas revistas populares ilustradas que surgiram no começo do século XX. Ainda que muitas das poesias publicadas fossem assinadas por conhecidos escritores da época, os textos satíricos de comentários sociais ou políticos resguardavam a identidade de seus autores com a utilização de nomes fictícios. [ . . . ] ... algumas das máscaras que Lima Barreto utilizava pouco cobriam seu rosto em revistas como Careta e Fon-Fon.
Notas do Organizador e Pesquisador Felipe Botelho Corrêa:
1 Assinado por Jonathan. Publicado em Careta, nº 640, 25set. 1920;
2 Assinado por J. Caminha. Publicado em Careta, nº 373, 14 ago. 1915.
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Sátiras e outras subversões: textos inéditos — Lima Barreto, Organização, Introdução, Pesquisa e Notas de Felipe Botelho Corrêa, 2016, Penguim & Companhia das Letras, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que sabia javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...