____________________
"Na morte de Laura" — O
poeta, "privado de Laura, não mais fará cantos de amor".
[traduzido por Luiz Delfino]
Seus olhos que eu cantei
ardentemente,
rosto, pés, braços, mãos, já não
diviso:
de mim mesmo arrancaram-me, e o
juízo,
para os ter, eu fugia à toda gente.
A crespa coma de ouro reluzente,
o lampejar do angélico sorriso
que fazia da terra um paraíso,
não têm mais vida agora, é pó
somente.
E vivo? E calmo, tudo em torno eu
olho?
Não tenho mais a luz que amava
tanto,
sou como nau lançada em rude
escolho.
Morra também meu amoroso canto;
de lágrimas a lira em luto eu
molho:
para chorá-la fique só meu pranto.
CCXCII
Gli occhi di ch’io parlai sí
caldamente,
et le braccia, et le mani, et i
piedi e ’l viso,
che m’avean sí da me stesso diviso,
Et fatto singular da l’altra gente;
le crespe chiome d’òr puro lucente,
e ’l lampeggiar de l’angelico riso,
che solean fare in terra un
paradiso,
poca polvere son, che nulla sente.
Et io pur vivo; onde mi doglio et
sdegno,
rimaso senza ’l lume ch’amai tanto,
in gran fortuna, e ’n disarmato
legno.
Or sia qui fine al mio amoroso
canto:
secca è la vena de l’usato ingegno,
et la cetera mia rivolta in pianto.
____________________
O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco
de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987,
Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 — 1374),
italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor
do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se
em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina,
tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta
língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios
introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro'
e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário
com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série
de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria
'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção
de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus
e muitos outros títulos.

-001.jpg)


