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quinta-feira, 13 de abril de 2023

Francesco Petrarca: Seus olhos que eu cantei ardentemente, . . . [soneto]

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"Na morte de Laura" — O poeta, "privado de Laura, não mais fará cantos de amor".

[traduzido por Luiz Delfino]

Seus olhos que eu cantei ardentemente,
rosto, pés, braços, mãos, já não diviso:
de mim mesmo arrancaram-me, e o juízo,
para os ter, eu fugia à toda gente.

A crespa coma de ouro reluzente,
o lampejar do angélico sorriso
que fazia da terra um paraíso,
não têm mais vida agora, é pó somente.

E vivo? E calmo, tudo em torno eu olho?
Não tenho mais a luz que amava tanto,
sou como nau lançada em rude escolho.

Morra também meu amoroso canto;
de lágrimas a lira em luto eu molho:
para chorá-la fique só meu pranto.

Francesco Petrarca

CCXCII

Gli occhi di ch’io parlai sí caldamente,
et le braccia, et le mani, et i piedi e ’l viso,
che m’avean sí da me stesso diviso,
Et fatto singular da l’altra gente;

le crespe chiome d’òr puro lucente,
e ’l lampeggiar de l’angelico riso,
che solean fare in terra un paradiso,
poca polvere son, che nulla sente.

Et io pur vivo; onde mi doglio et sdegno,
rimaso senza ’l lume ch’amai tanto,
in gran fortuna, e ’n disarmato legno.

Or sia qui fine al mio amoroso canto:
secca è la vena de l’usato ingegno,
et la cetera mia rivolta in pianto.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

domingo, 5 de março de 2023

Francesco Petrarca: Paz não tenho, sem ter motivo à guerra: . . . [soneto]


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"Em vida de Laura" — O poeta "narra o estado em que se encontra, atribuindo-o a Laura".

[traduzido por Luiz Delfino]

Paz não tenho, sem ter motivo à guerra:
temo, espero, ardo em fogo, e sou de gelo,
quero subir ao céu e caio em terra,
nada abraço, e o universo ando a contê-lo.

Preso, a prisão não se abre, e não se cerra:
prendem-me o coração, mas sem prendê-lo,
não me dá vida ou morte, Amor, e erra
minha alma sob o enorme pesadelo.

Odeio-me a mim mesmo, alguém amando,
grito sem boca ter, sem olhos vejo,
quero morrer, e a morte me apavora.

A dor me apraz, e rio-me, chorando:
não quero a morte, a vida não desejo...
Eis o estado em que estou por vós, Senhora.

Francesco Petrarca

CXXXIV

Pace non trovo, et non ò da far guerra;
e temo, et spero; et ardo, et son un ghiaccio;
et volo sopra ’l cielo, et giaccio in terra;
et nulla stringo, et tutto ’l mondo abbraccio.

Tal m’à in pregion, che non m’apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
et non m’ancide Amore, et non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d’impaccio.

Veggio senza occhi, et non ò lingua et grido;
et bramo di perir, et cheggio aita;
et ò in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte et vita:
in questo stato son, donna, per voi.
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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' — poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' — diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' — série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' — elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum — coleção de doze poemas pastorais, Africa — épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Luís Delfino: O Testamento

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Se algum dia te vir, celeste Helena,
Mais branca do que os teus lençóis de linho,
Como um pássaro morto no caminho,
Morta em antes de vir a tarde amena,

Deixa-me o gozo ao último carinho,
Que podes dar-me sem remorso ou pena,
E, como um’ave, que procura um ninho,
Pôr meu lábio em teu rosto de açucena.

Diz que cedes já ao meu desejo,
Que eu posso à face bela haurir-te um beijo,
O meu primeiro e último sequer...

Eu nunca quis, nem quero inda outra cousa:
Abre-me os braços nesse leito, esposa;
Dá-me o teu seio: espera-me, mulher...

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Melhores Poemas — Luís Delfino, Seleção de Lauro Junkes, 1998, 3ª edição, Global Editora, São Paulo — SP; Luís Delfino dos Santos  (1834   1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis —  SC,  formado em Medicina pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum  livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-FlorDiário do Rio de JaneiroRevista PopularA EstaçãoA GazetinhaA Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A MeridionalRevista ContemporâneaRosa Cruz e Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra  mais de mil poemas  —   considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

terça-feira, 6 de março de 2018

Luís Delfino: Monstro

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Helena é um monstro, e tem, como a Quimera,
Bico de bronze, e garras lacerantes:
Crêem todos, que ela diz, olhando:  espera.
E a seus pés surge um pó sutil de amantes.

Risos na boca, e ares triunfantes,
Com seu donoso olhar de fome e fera,
Parece dar-lhes toda a primavera,
Que em flor lhe sai dos seios deslumbrantes.

Mede o grau de loucura em cada louco,
Lhes conchegando adrede o corpo todo:
Cada qual a crê sua, e já vencida...

Cio de turba vil, que não lhe importa...
Tem, num gesto, um dragão de guarda à porta;
Num desdém cão-alado ao pé da vida...

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Melhores Poemas — Luís Delfino, Seleção de Lauro Junkes, 1998, 3ª edição, Global Editora, São Paulo — SP; Luís Delfino dos Santos  (1834  — 1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis — SC,  formado em Medicina pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-FlorDiário do Rio de JaneiroRevista PopularA EstaçãoA GazetinhaA Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A MeridionalRevista ContemporâneaRosa Cruz Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra — mais de mil poemas —  considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Luís Delfino: Tal está morta . . .

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Abriu a boca, e a rúbida golfada,
Que do seu peito exausto então rompia,
Desmanchava-se em rosas da alvorada
De um sol cor do lençol, que a cobriria.

Ofélia aflita sob a vaga fria,
Quebrando a nota da canção cantada;
Desdêmona no leito, amante e amada,
Idas? por quê? tão de repente um dia...

Dante e Beatriz, Romeu e Julieta,
Laura e Petrarca, Sanzio e Fornarina,
A coorte no céu, do amor eleita,

Guardam-na às portas da mansão divina,
Enquanto um anjo as asas brancas deita
De manso ao rosto, que ela ao colo inclina.

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Melhores Poemas — Luís Delfino, Seleção de Lauro Junkes, 1998, 3ª edição, Global Editora, São Paulo — SP; Luís Delfino dos Santos (1834  — 1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis — SC,  formado em Medicina pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum  livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-FlorDiário do Rio de JaneiroRevista PopularA EstaçãoA GazetinhaA Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A MeridionalRevista ContemporâneaRosa Cruz Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra — mais de mil poemas —  considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Luís Delfino: Que sabemos?

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Só de ilusões, Helena, é que vivemos:
Temos em nosso cérebro guardado
Tudo que nossos pais já têm pensado,
Tudo que de presente inda aprendemos.

Sabemos muito! Então o que sabemos?
Eis a cova: o que existe do outro lado?
Que mundo há num argueiro guardado?
Que quer este universo? O fato aí temos...

O céu 'stá cheio acaso, ou 'stá deserto?
Eu não sei bem se acerto, ou se me iludo!
Na ilusão vivo; na ilusão desperto?

Amontoando estudo sobre estudo,
Sabemos muito, muito, muito, é certo...
Mas que sabemos nós no fim de tudo?!...

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Melhores Poemas — Luís Delfino, Seleção de Lauro Junkes, 1998, 3ª edição, Global Editora, São Paulo — SP; Luís Delfino dos Santos (1834   1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis  SC,  formado em Medicina pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum  livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-FlorDiário do Rio de JaneiroRevista PopularA EstaçãoA GazetinhaA Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A Meridional, Revista ContemporâneaRosa Cruz e Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra  mais de mil poemas —  considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Luís Delfino: As três irmãs

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C’eramo tre zitelle,
E tutti tre d’amore
(Canto popular da Itália)

I

A mais moça das três, a mais ardente e viva,
          Aquela que mais brilha,
Quando, sorrindo, aos seus encantos nos cativa,
          Eu amo como filha.

A segunda, que tem da pálida açucena
          Aberta, de manhã,
A cor, o cheiro, a forma, a languidez serena,
          Eu amo como irmã.

A outra é a mulher, que me enleia, e fascina,
          É a mulher que eu chamo.
Entre todas gentil; é a mulher divina,
          É a mulher que eu amo.

II

A mais moça das três é linda borboleta;
          Entra, abre as asas, sai:
Não compreende bem, não nega, nem rejeita
          O meu amor de pai.

A segunda é a flor de essência melindrosa
          De rara perfeição;
Não sei se ela desdenha, ou se ela entende, e goza
          O meu amor de irmão.

A terceira é a mulher: anjo, monstro, hidra, esfinge,
          Encanto, sedução;
Amo-a; não a conheço: é verdadeira, ou finge?
          Não a conheço, não.

III

Se a primeira casasse, oh! que alegria a minha!
          Eu lhe diria: Vai!
Veria nela um anjo, um astro, uma rainha.
          O meu amor de pai.

Se a segunda casasse, eu mesmo iria à igreja,
          Levá-la pela mão:
Dir-lhe-ia: o céu azul virar-te aos pés deseja
          O meu amor de irmão.

Se a terceira casasse, oh! minha inf'licidade!
          A mais velha das três,
No horror da escuridão, fora uma eternidade.
          A minha viuvez.

IV

Se a primeira morresse, oh! como eu choraria.
          A minha desventura!
Com lágrimas de dor lavara, noite e dia,
          A sua sepultura.

Se a segunda morresse, oh! transe amargurado!
          Eu choraria tanto.
Que ela iria boiando, em seu caixão doirado,
          Nas águas do meu pranto.

Se a terceira morresse, em seu caixão deitada,
          Sem que eu chorasse, iria,
Porque noutro caixão, ó minha morta amada.
          Alguém te seguiria...

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Melhores Poemas  Luís Delfino, Seleção de Lauro Junkes, 1998, 3ª  edição, Global Editora, São Paulo — SP; Luís Delfino dos Santos (1834 1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis SC, formado em Medicina pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-Flor, Diário do Rio de Janeiro, Revista Popular, A Estação, A Gazetinha, A Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A Meridional, Revista Contemporânea, Rosa Cruz e Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra mais de mil poemas considerada perfeita, a qual  postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Luís Delfino: Sísifo

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...ruit alto a culmine...
Vírgilio  Enéida

És tu esta montanha;  é meu esse meu sonho!
Quero que sejas minha: estás bem longe? embora:
Pesa, como um penhasco: o carreiro é medonho:
Mas o ideal, que me eleva, os pulsos me avigora.

Irei buscar-te.  Bem: cavarei um caminho
A golpes de machado em selvas seculares:
Golpearei o rochedo; afastarei o espinho,
Subirei os degraus que dão p’ra os teus altares.

Foste assentar a tenda, estrela luminosa,
Em cima da montanha, à coroa da floresta:
Sei que estás longe: a estrada é hirta e perigosa:
Ou antes nem estrada alguma aos meus pés resta.

Nada.  Tudo é bravio: há um luxo, uma abundância
De verdura a florir, de arroios murmurantes;
De intrincado arvoredo escuro, a fazer ânsia,
A dar terror e inércia a braços de gigantes.

Que batalha a vencer! Que indomável coragem
Ante as feras legiões de bosques encostados
Em longos troncos nus, coroados de ramagem,
De galhos mortos, para arremessar, armados.

Têm os seus generais indômitos vestidos
De malha transparente, e lúcida couraça,
No dorso dos leões dos ventos conduzidos,
Que movem de um só brado a enorme populaça.

Ruem... dobram-s: e então rojando os velhos galhos,
Como muletas de titãs anquilosados,
Ficam de pé rosnando, assim como espantalhos,
De espaço a espaço, em terra adrede levantados.

Mãos à obra.  Por terra, estultos veteranos:
Morde, machado, nos agigantados vultos
De dorso arcado às mãos titânicas dos anos:
Velhos heróis, o que fazeis na selva ocultos?

Ide para a planície; ide para o oceano:
Ide ao campo, ide ao vale, ide à aldeia, à cidade:
Tronco, muda de rumo: ó bosque, faz-te humano:
Deixa-me a selva chã e livre por piedade...

Preciso de rolar ao cimo da montanha
O meu rochedo enorme, o meu pesado sonho;
E a selva secular, que em troncos se emaranha,
É uma sentinela atroz, de olhar medonho...

Oh! prejuízos vãos! Oh! leis! Oh! vãs quimeras,
Vós sois o florestal bravio, imenso, horrendo,
Que não deixais abrir a flor das primaveras,
E impedis de subir aos cimos, que estou vendo.

Mas não importa: o alvo está lá:  caminhemos:
Sobe, meu sonho, sobe: eu bebo um novo alento,
Cada vez que te agarro, e digo: chegaremos,
Feliz, alegre, em que cansado e suarento;

Galgo outeiros e absorvo os rudes precipícios:
Salto valos e, calmo, os barrocais transponho:
Longas distâncias venço; e já sinto os indícios
De chegar muito em breve aos cimos com meu sonho.

Ei-lo, o viso no alto!  Ei-la, a bela planura,
Onde estendeu a tenda a estrela radiante:
Posso levar ao lábio a taça da ventura:
Bate as asas, minh’alma: o céu não ’stá distante.

Cheguei!  Mas através de que espinhal bravio!
Cheguei!  Mas por que bosque horroroso e medonho!
Agora posso rir... agora enfim já rio!...
Vou depor aos teus pés, mulher, meu belo sonho!...

E aos pés vou pôr-lhe o sonho; e em vão beijá-los tento;
 Impossível  diz ela: e o sonho cai e eu grito:
Vendo-o ir monte abaixo, e num rolar violento!...
Ó Sísifo, ó Sísifo, és meu irmão, maldito...

Rolas a rocha tu, Sísifo miserando,
Por séculos sem fim, por toda a eternidade,
E eu rolo o sonho meu... rolo... rolo... e até quando?
Quem me há-de alevantar a maldição? Quem há-de?

Como está longe e bela, estrela radiante,
Muito gentil que aos sóis e aos anjos sobreponho:
Caio: mas torno a ver-te, e sinto-me um gigante!
Meu eterno trabalho é carregar meu sonho...

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Melhores Poemas  Luís Delfino, Seleção de Lauro Junkes, 1998, 3ª  edição, Global Editora, São Paulo — SP; Luís Delfino dos Santos (1834 1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis SC, formado em Medicina pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-Flor, Diário do Rio de Janeiro, Revista Popular, A Estação, A Gazetinha, A Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A Meridional, Revista Contemporânea, Rosa Cruz e Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra mais de mil poemas considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Luís Delfino: In her book

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Ela andou por aqui; andou. Primeiro,
Porque há traços de suas mãos; segundo,
Porque ninguém, como ela, tem no mundo
Este esquisito, este suave cheiro.

Livro, de beijos meus teu rosto inundo,
Porque dormiste sob o travesseiro
Em que ela dorme o seu dormir, ligeiro
Como um sono de estrela em céu profundo.

Trouxeste dela o odor de uma caçoula,
A luz que canta, a mansidão da rola
E esse estranho mexer de etéreos ninhos...

Ruflos de asas, amoras dos silvedos,
Frescuras d'água, sombras e arvoredos
Dando seca aos rosais pelos caminhos...

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Melhores Poemas Luís Delfino, Seleção de Lauro Junkes, 1998,  edição, Global Editora, São Paulo SP; Luís Delfino dos Santos (1834 1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis  SC, formado em Medicina, pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-FlorDiário do Rio de Janeiro, Revista Popular, A Estação, A Gazetinha, A Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A MeridionalRevista Contemporânea, Rosa Cruz e Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra mais de mil poemas  considerada perfeita, a qual postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Luís Delfino: Os Seios

Nunca te vejo o peito arfar de enleio,
Quando de amor, ou de prazer te ebrias,
Que não ouça lá dentro as fugidias
Aves, baixo alternando algum gorjeio...

Aves são, e são duas aves, creio,
Que em ti mesma nasceram, e em ti crias,
Ao arrulhar de castas melodias,
No aroma quente e ebúrneo do teu seio;

Têm de uns astros irmãos o movimento,
Ou de dois lírios, que balouça o vento,
O giro doce, o lânguido vaivém.

Oh! quem me dera ver no próprio ninho
Se brancas são, como o mais branco arminho,
Ou se asas, como as outras pombas, têm...

(Íntimas e Aspásias. Irmãos Pongetti,
 Rio de Janeiro, 1935, p. 76)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Luís Delfino dos Santos (1834  1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis  SC, formado em Medicina, pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-Flor, Diário do Rio de Janeiro, Revista PopularA Estação, A Gazetinha, A Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A Meridional, Revista Contemporânea, Rosa Cruz e Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra  mais de mil poemas  considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.