segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

William Butler Yeats: Quando fores velhinha

 
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[traduzido por Bezerra de Freitas]

Quando fores velhinha, de cabelos brancos e cheia de sono,
Cabeceando junto ao fogo, toma este livro,
Lê-o vagarosamente e sonha com o doce brilho
Que teus olhos tinham outrora e com as suas sombras carregadas;

Muitos adoraram os teus instantes de graça juvenil,
E amaram a tua beleza com amor dissimulado ou verdadeiro;

Mas, um homem amou as amarguras que o teu rosto estampa.

E, reclinada sobre as barras incandescentes,
Recordarás, um pouco tristonha, o amor que fugiu
E atravessou as altas montanhas
Ocultando a face por entre miríades de estrelas.

W. B. Yeats

When you are old

When you are old and gray and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Hilda Hilst: Alturas, tiras, subo-as, recorto-as . . .

 
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III

Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.
Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida.

(Alcoólicas — 1990)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Cantares de Perda e Predileção (1983), Poemas Malditos, Gozosos e Devotos (1984), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a sede do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Ana Cruz: Cuidado, não vai esquecer a lição...

 
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Nasci filha de seu Zé que muito pouco tinha de José
carpinteiro de Nazaré, a não ser
a determinação e o gosto pelo trabalho.
Seu Zé, conhecido popularmente como marido de
D. Margarida,
uma flor que descansa plena, em outra dimensão,
isso porque sempre foi justa nunca abusou da sua
autoridade.
Precavida, desde cedo nos ensinou a detestar a
escravidão,
por conta disso, nossa primeira lição de casa foi:
nunca sair de canelas russas e nem esconder cabelos
por debaixo dos panos
e ouvidos bem apurados.
Quilombola que se presa não ri à toa
não aceita provocação e olha firme
no fundo dos olhos daqueles que possuem
nariz arrebitado e andam sempre aprumados.
Já dizia meu avô!

Mulheres Q’ Rezam — 2001

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Antologia de Poesia Afro-Brasileira — 150 anos de consciência negra no Brasil, Organização de Zilá Bernd, Coorganização de Emilene Corrêa Souza e Plínio Carlos Souza Corrêa Junior, 2011, Mazza Edições, Belo Horizonte — MG; Ana Cruz, nascida em 1965, mineira de Visconde do Rio Branco, é jornalista e poeta; estreou na literatura com a obra E... feito de luz (1997), depois vieram Com o perdão da palavra (1999), Mulheres Q' Rezam (2001), e Guardados da memória (2008); criou e coordenou o caderno literário Jornal mural de mina (edições em 1998 e 2003), com textos de vários autores e também seus, além de críticas; lançou o projeto Mulheres Bantas, Vozes de Minhas Antepassadas (2011), incluindo um seminário sobre literatura afro-brasileira e leitura de seus poemas em DVD; atualmente reside em Niterói RJ.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Martins Fontes: O aboio

 
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Eh! boi! Os vaqueiros
Lá vão prazenteiros...
                  Eh! boi!
Por entre espinheiros,
Saltando ligeiros...
                  Eh! boi!

Nem entre os pampeiros1,
Achei cavaleiros...
                  Eh! boi!
Como esses marrueiros2,
Baianos, mineiros...
                  Eh! boi!

Em trajes roceiros,
De couros fouveiros3...
                  Eh! boi!
Alegres, campeiros,
Lá vão, forasteiros...
                  Eh! boi!

À ação dos soalheiros,
Durante janeiros...
                  Eh! boi!
Percorrem lameiros
Estios inteiros...
                  Eh! boi!

Por montes fragueiros4,
Paludes5, mateiros...
                  Eh! boi!
Não temem nevoeiros,
Trovões, aguaceiros...
                  Eh! boi!

Heróis boiadeiros,
Sadios, palreiros...
                  Eh! boi!
São esses romeiros
Os bons brasileiros...
                  Eh! boi!

À noite, em terreiros,
Descantam troveiros...
                  Eh! boi!
Não sei de violeiros
Como esses tropeiros...
                  Eh! boi!


Vocabulário:
1. Pampeiros  Habitantes dos pampas, grandes planícies cobertas de vegetação rasteira na região meridional da América do Sul. Dedicam-se especialmente à criação do gado;
2. Marrueiros — Domadores de touros ou marruás, novilhos ainda não domesticados;
3. Fouveiros — diz-se de roupa, chapéu, capa, etc., de cor escura, quando desbotados pelo uso ou pelo tempo;
4. Fragueiros — Cheios de fragas, penhascos;
5. Paludes — Pântanos.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; José Martins Fontes (1884 1937), paulista de Santos, estudou e doutorou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; ainda estudante no Rio, colaborou com os jornais Gazeta de Notícias e O País e com as revistas Careta e Kosmos; escreveu para os jornais A Gazeta e Diário Popular, de São Paulo, Diário de Santos, Cidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; obras: Granada (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape (1920), Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante (versos, 1923), Rosicler (versos, 1923), Prometeu (versos, 1924), Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931), Sombra, Silêncio e Sonho (1933) e tantos outros títulos.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Púchkin: Um corvo seu voo alçou . . .

 
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[traduzido por José Casado]

Um corvo seu voo alçou
Direto a outro, e gritou:
“Irmão! onde almoçaremos?
Como a isto proveremos?”

O outro lhe respondeu:
“Que almoçaremos, sei-o eu;
No campo, sob o salgueiro,
Está, sem vida, um guerreiro.

Quem o matou, e a razão,
Sabe-o apenas seu falcão,
Sabe-o sua égua corvina
E a mulher quase menina.”

Ao bosque a ave se abalou,
A égua o inimigo montou,
E a mulher aguarda o amado,
Não o sem vida: o animado.

(1828)


Ворон к ворону летит,
Ворон ворону кричит:
“Ворон! где б нам отобедать?
Как бы нам о том проведать?”

Ворон ворону в ответ:
“Знаю, будет нам обед;
В чистом поле под ракитой
Богатырь лежит убитый.

Кем убит и отчего,
Знает сокол лишь его,
Да кобылка вороная,
Да хозяйка молодая”.

Сокол в рощу улетел,
На кобылку недруг сел,
А хозяйка ждет мило́го,
Не убитого, живого.

[1828]
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Poesia de Todos os Tempos: Púchkin Poesias escolhidas, edição bilíngue, Seleção, Tradução do russo, Prefácio, Traços biobliográficos, Notas e Apêndice (Olavo Bilac, tradutor de Púchkin) de José Casado, 1992, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Aleksandr Serguéievitch Púchkin (1799 1837), russo de Moscou, foi poeta, romancista e dramaturgo; de família nobre, educado desde o berço por preceptores vindos de Paris França e devido ter tido acesso à biblioteca paterna, quase toda de literatura francesa, aprendeu o francês antes mesmo de conhecer a língua dos pais; à época, os integrantes da nobreza russa conversavam com seus pares quase sempre em francês: o idioma russo era reservado para a comunicação com os servos; o poeta e escritor veio a aprender o russo com uma avó e com uma serva da família; em 1811, ingressou no Tsarskoye Selo Lyceum, recém-inaugurado e, a partir daí, começou a escrever e divulgar seus poemas; obras: em poesia, Ruslan e Lyudmila (18171820), Prisioneiro do Cáucaso (18201821), Ladrões de irmãos (18211822), Ciganos (1824), Conde Nulin (primeira edição, 1825), Poltava (18281829), Uegene Oneguin (novela em verso, 18231832) etc, em dramaturgia, Boris Godunov (1825), O Cavaleiro Malvado, Mozart e Salieri, Convidado de pedra (todos de 1830) ..., em prosa, O conto do falecido Ivan Petrovich Belkin (1830), Dubrovsky (1833), A Rainha de Espadas, História de Pugachev (ambos em 1834), Noites egípcias (1835), Filha do Capitão (1836) etc. além de contos de fadas e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; o poeta, desafiado por um contendor e desafeto a duelar, aceitou o desafio e, no dia 8 de fevereiro de 1837, foi ferido, vindo a morrer dois dias após; Púchkin nos deixou muitas obras inacabadas; é considerado por seus contemporâneos como o maior dos poetas russos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Eugenio Montale: Não raro tive o mal da vida ao lado . . .

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Não raro tive o mal da vida ao lado:
era o arroio arrochado que gorgolha,
ou era o esturricar-se de uma folha
ardida, ora o cavalo esquartejado.

Do bem não soube, exceto da magia
que emana da divina Indiferença:
como uma estátua assim na sonolência
do meio-dia, e a nuvem, e o falcão no ar alçado.

Eugenio Montale

Spesso il male di vivere ho incontrato:
era il rivo strozzato che gorgoglia,
era l'incartocciarsi della foglia
riarsa, era il cavallo stramazzato.

Bene non seppi, fuori del prodigio
che schiude la divina Indifferenza:
era la statua nella sonnolenza
del meriggio, e la nuvola, e il falco alto levato.
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Eugenio Montale (1896 1981), italiano genovês, interrompeu seus estudos em 1915 para servir na Primeira Guerra Mundial, foi poeta, escritor, jornalista e tradutor; colaborou na seção literária do Corriere dela Sera; verteu para o italiano obras de Shakespeare, T. S. Eliot, Eugene O’Neil, Herman Melville e outros; obras: Ossi di seppia (Ossos de Sépia, coletânea de poemas, 1925), Poesie (1938), Le occasioni (As Ocasiões, 1939), Finisterre — versi del 1940—42 (1943), Farfalla di Dinard (1956), Satura 1962—1970 (1971) e outros títulos; o escritor afastou-se das atividades públicas após ter-se recusado a aderir ao Partido Fascista; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1975.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Sully-Prudhomme: Os de vinte anos têm o olhar duro, atrevido: . . . [soneto]

 
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[traduzido por Renata Cordeiro]

Os de vinte anos têm o olhar duro, atrevido:
Jamais o querem pôr na descomprometida,
Num êxtase infantil, desejam a garrida!
Em amor, tornam seu querer recém-nascido.

Com o tempo, depois que o amargor foi sentido,
Fica a sua insolência, enfim, diminuída,
E um outro olhar, de graça outrora não sabida,
Revela-lhes um bem mais íntimo e querido.

Mas o que fazem é de infortúnio mudar:
E quando uma, tão-só, conseguem adorar,
É por essa mulher que aprendem a sofrer;

Então, vêem que são diversas as radiantes,
Entretanto, passou o tempo das amantes,
E o coração de mais ninguém consegue ser.

Sully-Prudhomme

Sonnet

À vingt ans on a l'oeil difficile et très fier,
On ne regarde pas la première venue,
Mais la plus belle! et plein d'une extase ingénue,
On prend pour de l'amour le désir né d'hier.

Plus tard, quand on a fait l'apprentissage amer,
Le prestige insolent des grands yeux diminue,
Et d'autres, d'une grâce autrefois méconnue,
Révèlent un trésor plus intime et plus cher.

Mais on ne fait jamais que changer d'infortune:
À l'âge où l'on croyait n'en pouvoir aimer qu'une,
C'est par elle déjà qu'on apprit à souffrir;

Puis, quand on reconnaît que plus d'une est charmante,
On sent qu'il est trop tard pour choisir une amante,
Et que le coeur n'a plus la force de s'ouvrir.
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Pequena Antologia de Poemas Franceses: De François Villon a Fernando Pessoa — Concepção, Seleção, Tradução e Notas de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2002, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda., São Paulo — SP; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês de Paris, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito e foi poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação da revista Parnasse contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor a receber o Nobel de Literatura (1901); obra poética: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Dalton Trevisan: Boêmio, duas paixões: a cerveja e a matemática. . . .

 
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Conto 110:

          Boêmio, duas paixões: a cerveja e a matemática. Bebe, desata a prosear e se agita sem parança. Chama os amigos por outro nome, o verdadeiro: não Tito porém Sésamo, não Paulo e sim Pérsis. Viciado em baile, volteia nos braços da famosa rumbeira da orquestra do Genésio. Afinal casa por amor com a novinha de 18 anos.
          Do parto do filho, ela convalesce no hospital; anda pelo quarto e corredor, visita as outras pacientes. Ele dorme ao seu lado, inquieto sempre, fala sonhando. Sai pela manhã, a prestar exame na faculdade. De volta, risonho, bracejante, doutor com distinção. Abre a porta: o quarto vazio, todo arrumado.
          Depara um vulto branco no corredor:
           A moça do 302? Com o nenê de dois dias?
           A moça... O senhor quem é? diz a enfermeira. Ela morreu.
          Embolia no pulmão, o choque fulminante. Havia três horas, lá na capela. A que tinha medo de dormir só, sozinha e perdida entre os mortos.
          Agora eu fico louco, ele pensa, doidinho de vez. Não ficou. Mão no queixo e perna cruzada, olhando para a noiva querida, até a hora do enterro.

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Pico na Veia, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ, 2002; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Manuel Bandeira: Desencanto

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Eu faço versos como quem chora
De desalento, de desencanto...
Fecha o meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto.

Meu verso é sangue, volúpia ardente...
Tristeza esparsa, remorso vão...
Dói-me nas veias amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912
(A Cinza das Horas — 1917)

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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bandeira (1886 1968), pernambucano de Recife, estudou no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, concluiu o curso de Humanidades, interrompeu os estudos para se tratar de tuberculose, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversos autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (1917), Carnaval (1919), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924), Libertinagem (1930), Estrela da Manhã (1936), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos, Poemas Traduzidos (1945), Opus 10 (1952), Alumbramentos (1960), Estrela da Tarde (1960), Estrela da Vida Inteira (1966) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936), Guia de Ouro Preto (1938), Noções de História das Literaturas (1940), Autoria das Cartas Chilenas (1940), Apresentação da Poesia Brasileira (1946), Literatura Hispano-Americana (1949), Gonçalves Dias, Biografia (1952), De Poetas e de Poesia (1954), A Flauta de Papel (1957), Andorinha, Andorinha (1966), Itinerário de Pasárgada (1966), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968), Berimbau e Outros Poemas, e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2, Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista, Antologia Poética (1961), Poesia do Brasil (1963) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiller, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford, etc.

sábado, 22 de janeiro de 2022

T. S. Eliot: O Velho Deuteronômio* [trecho]

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[traduzido por Ivo Barroso]

O Velho Deuteronômio teve uma longa existência;
    Foi um gato que viveu sete vidas sucessivas.
Famoso em citar provérbios, rimava com proficiência
    Tempos antes de Isabel formar as leis permissivas.
O Velho Deuteronômio sucedeu a nove esposas
    Ou mais  a noventa e nove, confesso que afirmaria.
A numerosa progênie hoje prospera e viceja;
    E mesmo no seu declínio, as pessoas orgulhosas
À vista de sua plácida e branda fisionomia
    Quando vem sentar-se ao sol por sobre o muro da igreja,
Murmuram numa voz baixa: “Sim, senhor!... Mas, quem
    diria?... Foi... Não foi... Mas, ora veja!...
        Eta gato!
        Bom de fato!
Posso estar falando a esmo, mas ouvindo tanto encômio,
Estou certo que foi mesmo o Velho Deuteronômio!”

Se o Velho Deuteronômio espreguiça em plena rua
    Ou caminha para a praça num desses dias de feira,
Se estiver grasnando o pato, gargolejando a perua
    Os feirantes cuidadosos acabarão com a zoeira;
Nem carros particulares, nem os transportes da urbe
    Cruzarão pela barreira de PASSAGEM PROIBIDA
Que os moradores puseram para que nada perturbe
    Deuteronômio que dorme quando está numa devida
Ou se, com lábia, acrescenta mais uma ao seu matrimônio:
Os vizinhos mais antigos murmuram: “Mas, puxa vida!...
    São coisas... Não é possível... Ora, gente... É isso aí!...
        Eta gato!
        Mas que olfato!
Que o quente Deuteronômio é causa do pandemônio,
Posso imaginar somente, pois não creio no que vi!”

Se o Velho Deuteronômio no seu cantinho se arruma
    Para a soneca da tarde no chão do bar que frequenta,
E os homens perguntam, dentro: “Há tempo para mais uma?”
    A Patroa, percebendo que o nosso bravo já ronca,
Despacha a todos, dizendo: “Passa fora! Rua! Suma!
    Que o Velho Deuteronômio aqui ninguém apoquenta
E chamarei a polícia se acaso criarem bronca”
    E a turma sai se esgueirando, reclamar ninguém mais tenta.
Felina gastronomia no digestivo repouso
    Não pode ser perturbada, pois já virou patrimônio.
E os clientes mais antigos exclamam: “Mas, que gostoso!
    Esse safado! Não sei... Olha lá... Mas, que demônio!...
        Eta gato!
        Que barato!
E as pessoas todas vêmo-las, saindo de pernas trêmulas
E tendo muito cuidado com o Velho Deuteronômio!”

T. S. Eliot

Old Deuteronomy

Old Deuteronomy's lived a long time;
    He's a Cat who has lived many lives in succession.
He was famous in proverb and famous in rhyme
    A long while before Queen Victoria's accession.
Old Deuteronomy's buried nine wives
    And more  I am tempted to say, ninety-nine;
And his numerous progeny prospers and thrives
    And the village is proud of him in his decline.
At the sight of that placid and bland physiognomy,
    When he sits in the sun on the vicarage wall,
The Oldest Inhabitant croaks: "Well, of all...
    Things... Can it be... really!... No!... Yes!...
        Ho! hi!
        Oh, my eye!
My mind may be wandering, but I confess
I believe it is Old Deuteronomy!"

Old Deuteronomy sits in the street,
    He sits in the High Street on market day;
The bullocks may bellow, the sheep they may bleat,
    But the dogs and the herdsmen will turn them away.
The cars and the lorries run over the kerb,
    And the villagers put up a notice: ROAD CLOSED
So that nothing untoward may chance to disturb
    Deuteronomy's rest when he feels so disposed
Or when he's engaged in domestic economy:
And the Oldest Inhabitant croaks: "Well, of all...
    Things... Can it be... really!... No!... Yes!...
        Ho! hi!
        Oh, my eye!
My sight's unreliable, but I can guess
That the cause of the trouble is Old Deuteronomy!"

Old Deuteronomy lies on the floor
    Of the Fox and French Horn for his afternoon sleep;
And when the men say: "There's just time for one more,"
    Then the landlady from her back parlour will peep
And say: "Now then, out you go, by the back door,
    For Old Deuteronomy mustn't be woken
I'll have the police if there's any uproar"
    And out they all shuffle, without a word spoken.
The digestive repose of that feline's gastronomy
    Must never be broken, whatever befall:
And the Oldest Inhabitant croaks: "Well, of all...
    Things... Can it be... really!... Yes!... No!...
        Ho! hi!
        Oh, my eye!
My legs may be tottery, I must go slow
And be careful of Old Deuteronomy!"

[ . . . ]

* Nota do tradutor Ivo Barroso: Poema de Os Gatos, de T. S. Eliot, Editorial Nórdica, 1991.
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T. S. Eliot ou Thomas Stearns Eliot (1888 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis, e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado, mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The Criterion revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber, empresa editorial; obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932 (crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected poems: 1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950), The Elder Statesman (comédia, 19581959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura em 1948.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Celina Ferreira: A Forma e o Vazio

 
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Pássaro! A expressão alada inventa o vôo
e sugere-a intranquila imagem: pássaro.
Golpe de brisa contra as folhas. Traço
ríspido ferindo o olhar e se esvaindo em plumas.
A forma que se esgarça entre dois gestos
e ilusória sustém um pensamento grácil:
                               Pássaro.

Eu calo em mim o símbolo e o vazio
de onde houvera um pássaro e um vôo.
Sustento na memória a última pluma,
hipérbole de luz que se perdeu, diáfana.
E reinvento a alada forma da palavra
que em revoada escapa de meus lábios.
E em cristalino canto, e em solitário adejo,
quebro o silêncio que se fez amargo:
                               Pássaro.

(Poesia cúmplice — 1959)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo — SP; Celina Ferreira (1928 2012), mineira de Cataguases, foi professora, assistente social, jornalista e poeta; mudando-se para Belo Horizonte, foi assistente social, lecionou no Senai e, aos 27 anos, outra vez de mudança, agora para o Rio de Janeiro, trabalhou na Rádio MEC, no Jornal do Brasil e foi redatora na TV Tupi; obras: Poesia de ninguém (1954), Nave incorpórea (1955), Mundo Encantado (1957), A Princesa Flor-de-Lótus (literatura infantil, 1958), Poesia cúmplice (1959), Hoje poemas (1967), Espelho convexo (1973), Papagaio gaio: poeminhas (literatura infantil, 1998) ... e participação em antologias; recebeu premiações por sua obra.