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[traduzido por Ivo Barroso]
O Velho Deuteronômio teve uma longa existência;
Foi um gato que viveu sete vidas sucessivas.
Famoso em citar provérbios, rimava com proficiência
Tempos antes de Isabel formar as leis permissivas.
O Velho Deuteronômio sucedeu a nove esposas
Ou mais — a noventa e nove, confesso que afirmaria.
A numerosa progênie hoje prospera e viceja;
E mesmo no seu declínio, as pessoas orgulhosas
À vista de sua plácida e branda fisionomia
Quando vem sentar-se ao sol por sobre o muro da igreja,
Murmuram numa voz baixa: “Sim, senhor!... Mas, quem
diria?... Foi... Não foi... Mas, ora veja!...
Eta gato!
Bom de fato!
Posso estar falando a esmo, mas ouvindo tanto encômio,
Estou certo que foi mesmo o Velho Deuteronômio!”
Se o Velho Deuteronômio espreguiça em plena rua
Ou caminha para a praça num desses dias de feira,
Se estiver grasnando o pato, gargolejando a perua
Os feirantes cuidadosos acabarão com a zoeira;
Nem carros particulares, nem os transportes da urbe
Cruzarão pela barreira de PASSAGEM PROIBIDA
Que os moradores puseram para que nada perturbe
Deuteronômio que dorme quando está numa devida
Ou se, com lábia, acrescenta mais uma ao seu matrimônio:
Os vizinhos mais antigos murmuram: “Mas, puxa vida!...
São coisas... Não é possível... Ora, gente... É isso aí!...
Eta gato!
Mas que olfato!
Que o quente Deuteronômio é causa do pandemônio,
Posso imaginar somente, pois não creio no que vi!”
Se o Velho Deuteronômio no seu cantinho se arruma
Para a soneca da tarde no chão do bar que frequenta,
E os homens perguntam, dentro: “Há tempo para mais uma?”
A Patroa, percebendo que o nosso bravo já ronca,
Despacha a todos, dizendo: “Passa fora! Rua! Suma!
Que o Velho Deuteronômio aqui ninguém apoquenta —
E chamarei a polícia se acaso criarem bronca” —
E a turma sai se esgueirando, reclamar ninguém mais tenta.
Felina gastronomia no digestivo repouso
Não pode ser perturbada, pois já virou patrimônio.
E os clientes mais antigos exclamam: “Mas, que gostoso!
Esse safado! Não sei... Olha lá... Mas, que demônio!...
Eta gato!
Que barato!
E as pessoas todas vêmo-las, saindo de pernas trêmulas
E tendo muito cuidado com o Velho Deuteronômio!”
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| T. S. Eliot |
Old Deuteronomy
Old Deuteronomy's lived a long time;
He's a Cat who has lived many lives in succession.
He was famous in proverb and famous in rhyme
A long while before Queen Victoria's accession.
Old Deuteronomy's buried nine wives
And more — I am tempted to say, ninety-nine;
And his numerous progeny prospers and thrives
And the village is proud of him in his decline.
At the sight of that placid and bland physiognomy,
When he sits in the sun on the vicarage wall,
The Oldest Inhabitant croaks: "Well, of all...
Things... Can it be... really!... No!... Yes!...
Ho! hi!
Oh, my eye!
My mind may be wandering, but I confess
I believe it is Old Deuteronomy!"
Old Deuteronomy sits in the street,
He sits in the High Street on market day;
The bullocks may bellow, the sheep they may bleat,
But the dogs and the herdsmen will turn them away.
The cars and the lorries run over the kerb,
And the villagers put up a notice: ROAD CLOSED —
So that nothing untoward may chance to disturb
Deuteronomy's rest when he feels so disposed
Or when he's engaged in domestic economy:
And the Oldest Inhabitant croaks: "Well, of all...
Things... Can it be... really!... No!... Yes!...
Ho! hi!
Oh, my eye!
My sight's unreliable, but I can guess
That the cause of the trouble is Old Deuteronomy!"
Old Deuteronomy lies on the floor
Of the Fox and French Horn for his afternoon sleep;
And when the men say: "There's just time for one more,"
Then the landlady from her back parlour will peep
And say: "Now then, out you go, by the back door,
For Old Deuteronomy mustn't be woken —
I'll have the police if there's any uproar" —
And out they all shuffle, without a word spoken.
The digestive repose of that feline's gastronomy
Must never be broken, whatever befall:
And the Oldest Inhabitant croaks: "Well, of all...
Things... Can it be... really!... Yes!... No!...
Ho! hi!
Oh, my eye!
My legs may be tottery, I must go slow
And be careful of Old Deuteronomy!"
[ . . . ]
* Nota do tradutor Ivo Barroso: Poema de Os Gatos, de T. S. Eliot, Editorial
Nórdica, 1991.
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T. S. Eliot ou Thomas Stearns
Eliot (1888 — 1965), estadunidense de St. Louis, Missouri, formou-se em Letras
Clássicas e doutorou-se em Filosofia na Universidade de Harvard, em Boston, foi
poeta, professor universitário, dramaturgo, crítico literário, jornalista e
editor; seus primeiros estudos se deram na Academia Smith, ainda em St. Louis,
e na Academia Milton, em Massachusetts; enquanto estudante em Harvard, alguns
de seus poemas e outros textos foram publicados na revista universitária
Harvard Advocate na qual o poeta fez parte do quadro de editores; após formado,
mudando-se para Londres, se empregou no Loyd Banks, tornou-se editor assistente
do jornal londrino The Egoist, além de ter colaborado assiduamente com outros
periódicos literários, entre os quais a revista The Athenaeum, criou a The
Criterion — revista trimestral de literatura e filosofia, a ela se dedicando
por 17 anos, e, ao mesmo tempo, compôs a diretoria da Faber & Faber,
empresa editorial; obras: Poems (1920), Selected Essays: 1917—1932
(crítica literária, 1932), The Rock: a Pageant Play (teatro, 1934), Collected poems:
1909—1935 (1936), Murder in the Cathedral (drama, 1935), Old Possum’s Book of
practical Cats (Os Gatos, 1939), Four Quartets (poesias, 1943); The Cocktail Party (comédia, 1950),
The Elder Statesman (comédia, 1958—1959) e tantos outros textos em verso e prosa e para dramaturgia;
recebeu premiações por sua obra, uma delas o Prêmio Nobel de Literatura
em 1948.