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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Stéphane Mallarmé: A tumba de Edgar Poe


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[traduzido por Augusto de Campos]

Tal que a Si-mesmo enfim a Eternidade o guia,
O Poeta suscita com o gládio erguido
Seu século espantado por não ter sabido
Que nessa estranha voz a morte se insurgia!

Vil sobressalto de hidra ante o anjo que urgia
Um sentido mais puro às palavras da tribo,
Proclamaram bem alto o sortilégio atribu-
Ído à onda sem honra de uma negra orgia.

Do solo e céu hostis, ó mágoa! Se o que escrevo
Idéia e dor não esculpir baixo-relevo
Que ao túmulo de Poe luminescente indique,

Calmo bloco caído de um desastre obscuro.
Que este granito ao menos seja eterno dique
Aos vôos da Blasfêmia esparsos no futuro.

Stéphane Mallarmé

Le tombeau d'Edgar Poe

Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change,
Le Poète suscite avec un glaive nu
Son siècle épouvanté de n’avoir pas connu
Que la mort triomphait dans cette voix étrange!

Eux, comme un vil sursaut d’hydre oyant jadis l’ange
Donner un sens plus pur aux mots de la tribu
Proclamèrent très haut le sortilège bu
Dans le flot sans honneur de quelque noir mélange.

Du sol et de la nue hostiles, ô grief!
Si notre idée avec ne sculpte un bas-relief
Dont la tombe de Poe éblouissante s’orne,

Calme bloc ici-bas chu d’un désastre obscur,
Que ce granit du moins montre à jamais sa borne
Aux noirs vols du Blasphème épars dans le futur.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativade Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Edgar Allan Poe: O Coliseu


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[traduzido por José Lino Grünewald]

Signo da Roma antiga! Rico relicário
De grandioso contemplar entregue ao Tempo
Por séculos sepultos de poder e pompa!
Afinal afinal depois de tantos dias
De penoso peregrinar e sede ardente
(Sede das fontes de saber que em ti ficaram),
Ajoelho-me, um homem humilde e mudado,
No meio de tuas sombras, e bebo dentro
Da própria alma tua grandeza, glória e trevas!

Imensidão! e Idade! e Memórias de Outrora!
Silêncio! e Tristeza! e uma Noite difusa!
Sinto-vos neste instante sinto-vos na força
Ó enlevos infalíveis, nem Rei da Judéia
Jamais os ensinou nos jardins de Getsêmani!
Ó encantos mais pujantes, que a Caldéia em êxtase
Jamais arrebatou lá das estrelas tranqüilas!

Aqui, onde caiu um herói, cai uma coluna!
Aqui, onde a águia mimética luziu em ouro,
Um vigia à noite contém o morcego negro!
Aqui, onde as damas romanas, cabelos dourados
Ondulavam ao vento, ondulam o cardo e o junco!
Aqui, onde em trono de ouro flanava o monarca,
Desliza, espectro, até sua mansão de mármore,
Pela lívida luz da lua em corno, aceso
O silente e veloz lagarto das lápides!

Mas ficam! muros arcadas cobertas de hera
Os plintos em pó úmidos e pretos fustes
Vagos entablamentos frisos desagregados
Cornijas em pedaços o caos a ruína
Estas pedras ai! estas pedras pardas são todas
Todas elas da fama, e o colossal legado
Por horas corrosivas ao Destino e a Mim?

“Nem tudo” os Ecos me respondem “nem tudo!
“Sons altos e proféticos, erguem-se sempre
“De nós e da Ruína até o conhecimento,
“Tal qual a melodia de Mêmnon ao Sol.
“Regemos almas de homens do poder regemos
“Com um vaivém despótico mentes imensas.
“Não somos impotentes nós, pálidas pedras.
“Todo o nosso poder não se foi nem a fama
“Nem toda a mágica de nosso alto renome
“Nem toda maravilha que aqui nos rodeia
“Nem todos os mistérios que em nós permanecem
“Nem todas as memórias que pairam acima
“E estão girando em torno a nós qual vestuário
“Guarnecendo-nos num manto maior que a glória.”

Edgar Allan Poe

The Coliseum

Type of the antique Rome! Rich reliquary
Of lofty contemplation left to Time
By buried centuries of pomp and power!
At length at length after so many days
Of weary pilgrimage and burning thirst,
(Thirst for the springs of lore that in thee lie,)
I kneel, an altered and an humble man,
Amid thy shadows, and so drink within
My very soul thy grandeur, gloom, and glory!

Vastness! and Age! and Memories of Eld!
Silence! and Desolation! and dim Night!
I feel ye now I feel ye in your strength
O spells more sure than e’er Judaean king
Taught in the gardens of Gethsemane!
O charms more potent than the rapt Chaldee
Ever drew down from out the quiet stars!

Here, where a hero fell, a column falls!
Here, where the mimic eagle glared in gold,
A midnight vigil holds the swarthy bat!
Here, where the dames of Rome their gilded hair
Waved to the wind, now wave the reed and thistle!
Here, where on golden throne the monarch lolled,
Glides, spectre-like, unto his marble home,
Lit by the wanlight wan light of the horned moon,
The swift and silent lizard of the stones!

But stay! these walls these ivy-clad árcades
These mouldering plinths these sad and blackened shafts
These vague entablatures this crumbling frieze
These shattered cornices this wreck this ruin
These stones — alas! these gray stones are they all
All of the famed, and the colossal left
By the corrosive Hours to Fate and me?

“Not all” the Echoes answer me “not all!
“Prophetic sounds and loud, arise forever
“From us, and from all Ruin, unto the wise,
“As melody from Memnon to the Sun.
“We rule the hearts of mightiest men we rule
“With a despotic sway all giant minds.
“We are not impotent we pallid stones.
“Not all our power is gone not all our fame
“Not all the magic of our high renown
“Not all the wonder that encircles us
“Not all the mysteries that in us lie
“Not all the memories that hang upon
“And cling around about us as a garment,
“Clothing us in a robe of more than glory.”
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Edgar Allan Poe (1809 1849), norte-americano nascido em Boston — Massachusetts, foi escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor; Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica, o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, se destaca em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas); envolveu-se com mulheres, bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor associado da revista Burton’s Gentleman’s Ma­gazine e da Graham’s, além de ter tido acesso e contribuído em outros periódicos; Edgar Allan Poe, escrevendo contos de terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo influenciado e inspirado muitos escritores Melville, Conan Doyle, Agatha Christie, Chesterton, Jorge Luis Borges e outros; suas obras: em poesia, Tamerlane and other Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore (1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849), The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842), The Gold-Bug (O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado (O Barril Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição — ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Edgar Allan Poe: Para Helen (Whitman)

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Eu te vi uma vez só uma anos atrás:
Não posso dizer quantas — porém não muitas.
Era uma meia-noite de julho; e lá fora
A lua esférica, tal tua alma, planando,
Procurava um caminho através do céu,
Lá caiu um sedoso-prata, véu de luz,
Com o mormaço, calmaria e sonolência,
Acima dos rostos revolvidos de mil
Rosas que vicejavam num jardim de encanto,
Onde não se agitava o vento, ou só de leve
Caiu nos rostos revolvidos dessas rosas
Que deram, em retribuição ao amorluz,
As almas aromáticas em morte extática 
Caiu nos rostos revolvidos dessas rosas;
Sorriram e morreram no canteiro, encantado
Por ti, e em poesia de tua presença.

Vestida toda em branco, em banco violeta
Eu te vi semi-reclinada; enquanto a lua
Caiu nos rostos revolvidos lá das rosas,
E no teu próprio, revolvido ai, em tristeza!

Foi o Destino, na meia-noite de julho
Foi o Destino (cujo nome é também Tristeza),
Que me parou diante daquele portão
Para aspirar o incenso das rosas em sono?
Nenhum passo ecoou: dormia o odiado mundo,
Menos você e eu apenas (Oh, céu! Oh, Deus!
Como vibro juntando estas duas palavras!)
Menos você e eu apenas. Parei Olhei
E num instante todas as coisas sumiram.
(Ah, lembre-se que esse jardim era encantado!)
O fulgor perolar da lua foi-se embora:
Bancos musgosos e caminhos sinuosos
Flores felizes e as árvores murmurantes

Não mais vistas: os próprios aromas das rosas
Feneceram nos braços dos ares que adoram.
Tudo tudo expirou menos tu menos tu:
Exceto apenas a luz divina em teus olhos
Exceto talvez a alma em teus olhos erguidos.
Eu só via eles eram o mundo pra mim.
Eu só via eles só os via durante horas
Somente os via até que a lua fosse embora.
Que incultos cantos de amor parecem escritos
Sobre as celestiais esferas cristalinas!
Quão escuro um pesar! Mas quão bela a esperança!
Quão silentemente sereno um mar de brios!
Quão ousa uma ambição! no entanto quão profunda
Quão abismal a capacidade de amar!

Mas agora, afinal, Diana sai da vista,
Para um divã oriental de nuvem negra;
E tu, um espectro, entre as árvores tumulares
Te evolaste. Somente os olhos teus ficaram.
Eles não partiriam nunca mesmo foram.
Clareando meu rumo para casa à noite,
Não me deixaram (como as esperanças) desde então,
Eles me seguem levam-me através dos anos
São meus serventes eu porém escravo deles.
Seu ofício é iluminar e estimular
Minha função, salvar-me em sua luz brilhante,
E ser purificado em sua flama elétrica,
Também santificado no seu fogo elísio.
Enchem minha alma de Beleza (Esperança),
E longe estão no Céu estros a quem me ajoelho
Tristes, quietos, vigias de minha noite;
E no meridiano irradiar do dia
Ainda os vejo duas belas cintilantes
Vênus, jamais exterminadas pelo sol.

Edgar Allan Poe

To Helen (Whitman)

I saw thee once once only years ago:
I must not say how many but not many.
It was a July midnight; and from out
A full-orbed moon, that, like thine own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up through heaven,
There fell a silvery-silken veil of light,
With quietude, and sultriness, and slumber,
Upon the upturn’d faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted garden,
Where no wind dared to stir, unless on tiptoe
Fell on the upturn'd faces of these roses
That gave out, in return for the love-light,
Their odorous souls in an ecstatic death
Fell on the upturn'd faces of these roses
That smiled and died in this parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy presence.

Clad all in white, upon a violet bank
I saw thee half reclining; while the moon
Fell on the upturn'd faces of the roses,
And on thine own, upturn'd alas, in sorrow!

Was it not Fate, that, on this July midnight
Was it not Fate, (whose name is also Sorrow,)
That bade me pause before that garden-gate,
To breathe the incense of those slumbering roses?
No footstep stirred: the hated world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven! oh, God!
How my heart beats in coupling those two words!)
Save only thee and me. I paused I looked
And in an instant all things disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was enchanted!)
The pearly lustre of the moon went out:
The mossy banks and the meandering paths,
The happy flowers and the repining trees,

Were seen no more: the very roses' odors
Died in the arms of the adoring airs.
All — all expired save thee save less than thou:
Save only the divine light in thine eyes
Save but the soul in thine uplifted eyes.
I saw but them they were the world to me.
I saw but them saw only them for hours
Saw only them until the moon went down.
What wild heart-histories seemed to he enwritten
Upon those crystalline, celestial spheres!
How dark a wo!, yet how sublime a hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition! yet how deep
How fathomless a capacity for love!

But now, at length, dear Dian sank from sight,
Into a western couch of thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained.
They would not go they never yet have gone.
Lighting my lonely pathway home that night,
They have not left me (as my hopes have) since.
They follow me they lead me through the years
They are my ministers yet I their slave.
Their office is to illumine and enkindle —
My duty, to be saved by their bright light,
And purified in their electric fire,
And sanctified in their elysian fire.
They fill my soul with Beauty (which is Hope),
And are far up in Heaven the stars I kneel to
In the sad, silent watches of my night;
While even in the meridian glare of day
I see them still two sweetly scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!

* Nota deste Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página deixa exposto que o poema To Helen foi escrito para Mrs. Sarah Helen Whitman (1803 — 1878), poeta e ensaísta.
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Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Edgar Allan Poe (1809 1849), norte-americano nascido em Boston Massachusetts, foi escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor; Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica, o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, se destaca em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas); envolveu-se com mulheres, bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor associado da revista Burton’s Gentleman’s Ma­gazine e da Graham’s, além de ter tido acesso e contribuído em outros periódicos; Edgar Allan Poe, escrevendo contos de terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo influenciado e inspirado muitos escritores Melville, Conan Doyle, Agatha Christie, Chesterton, Jorge Luis Borges e outros; suas obras: em poesia, Tamerlane and other Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore (1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849), The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842), The Gold-Bug (O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado (O Barril Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.

domingo, 16 de abril de 2023

Fernando Santoro *: O Louro (e a Filosofia da Decomposição)

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Paródia paranóica do Corno, digo d'Corvo, de Edgar Allan Poe (ler com sotaque americano).

Numa madrugada brava, em que ao leito eu deleitava,
e eu fintava e eu driblava, respingado de suor,
pelo corpo ali desnudo, mui cheiroso e manteúdo,
quando entrei com bola e tudo corpo adentro de Lenor';
como o gol quando a torcida enlouquecida comemor'
              (era mais que brasa, mor'?)

Quando alcei minha bandeira do timão quando goleia
pelo amor comprometido desta cálida senhor'
ai, que gemia, gemia, como o leito que rangia,
demos de ouvir que batia, na porta do lado de for'
"Toc-toc" (uma fria) "Quem será, do lado de for'?"
              "Edgar a esta hor'?"

"Não: ele possui a chave." disse ela num tom grave.
"E viaja ao estrangeiro, não há de voltar agor'.
É somente algum vizinho. Volto já, bem rapidinho."
Desgarrou dos meus carinhos, se vestindo sem demor'.
esperei, pastor sereno, vendo seus pés ir embor'...
              minha ovelha vai: Lenor'!

Nos lençóis fiquei suado, em cios d'ócio cerrado
escutando longe "Senhor...", ela dizer, ou "senhor'
que chegai assim tão tarde, perdoai à minha parte
que não abra minhas grades, pois a noite me apavor'
eu a sós tenho arrepios, não consigo abrir a por'
              Voltai amanhã, outr' hor'."

Espiou na gelosia e expirou pelo que via
"É Ninguém!", olhou de novo, "Não tem viv'alma lá for'!"
Lá em frente levantada, ficou contemplando o nada
pela lua iluminada. Da sombra gritei: "Lenor',
vem, não foi ninguém, meu Bem, só uma brisa um pouco sonor'.
              vem meu docinho de amor' "

Ela vinha armando o bole, lânguida com passo mole
quando um ruído a sobressalta, por pouco não evapor':
ao voar um louro ao quarto, penetrado no entreato
pela janela do lado, feita a espiar lá for'.
que Lenora, sem cuidado, encostou-se e foi-se embor'.
              "Vê: um louro e só, Lenor'!"

Ela riu com guizo e gozo, se despiu e quis de novo,
"Viste? Não foi Edgar, Bem. Toda tua estou por hor'..."
Ao ouvir 'por ora' eu morro e vejo as garras de agouro
deste louro sobre o torso de Priapo de Lenor',
"Papagaio empoleirado, qual tua graça? És Lady ou Lor'?"
              e ele disse: "Qualquer hor'."

"Mas que louro boa praça, o fofo fala e com graça!
vem, bichinho, com a titia, dá a patinha prá Lenor'."
(Ai, mulher quando ama bicho, trata o homem como um lixo,
e o meu rouxinol no nicho foi largado sem demor'
pela arara devorada ao deus Priapo de Lenor'
              que falava "qualquer hor' ".)

"Teu amor, se é fingido, um passatempo sem marido,
fica aí com o papagaio, tchau, adeus eu vou embor'.
Nosso amor, se é confete, um caso curto, um curto flerte,
quando poderei rever-te? Diz um dia e diz a hor'."
Antes que ela respondesse, antes que ela desse um for',
              entra o louro: "Qualquer hor'."

Ao meu lado então Lenora voltou lépida: "Ora, ora,
mas que pássaro assanhado, chegou justo no melhor,
vai-te agora ave amestrada, vai seguir a tua estrada
mas, ao ir, ave estudada, repete a lição de cor 
Quando encontro meu amado, qual momento ardente mor?"
              e ave disse: "Qualquer hor'."

"Pára, espera! Ave da peste." Resolvi fazer um teste,
(pois bandeira ao ser guardada fica tímida, menor...
requisita lábios quentes, língua doce, dedos, dentes...
e a resposta renitente me excitava com Lenor')
Chamo o louro de meu louro, antes que ele vá-se embor'.
              "Venha cá, ô Qualqueror'!

"Se a mulher já tem traído tantas vezes seu marido
com amante destemido que com muito amor namor',
Considera a preferência, usa a tua sapiência,
doutor louro na indecência, quantas vezes a senhor'
deve vir sem resistência quando seu amante implor'?"
              disse o louro: "Qualquer hor'."

"Mas, meu louro", Ela retruca, já me armando uma arapuca,
"Se o amante é quem dá mole, se ele embroma na demor'
Se a batuta não se anima e o concerto desafina...
Quando eu, mulher grã-fina, que não sou de jogar for',
Posso procurar um outro de uma prontidão melhor?"
              Pronto o louro: "Qualquer hor'."

" Onde aprendeste, em que casta, este estribilho iconoclasta
Foi num consultório aberto, um lupanar de vulta flor",
sala de um doutor dentista, num poleiro de analista
foi ouvindo um jornalista de um programa de auditór'?
Não responda seu lorota! Puxe as asas vai-te embor'!"
               Nem deu bola e: "Qualquer hor'."

"Louro", disse-lhe, "peralta! e na calada ave pirata,
que nem foge ou sai de cima, louro parco, empada, for'!
Já não basta o teu marido que atrapalha o meu cozido,
Vem agora este sabido desandar a minha tor' 
Ah! Lenora, quando a dita rebelou-se como agor'?"
              Louro espalha: "Qualquer hor'."

"Louro", disse ela, "peralta! e na calada ave pirata!
Venha louro catalépto, vê se agora colabor'
Diga ao meu amor, meu rico, senão jogo-te o pinico
Diz ou eu te quebro o bico, te depeno e te devor'
quando encontro o meu marido, qual momento é bem pior?"
              respondeu-lhe: "Qualquer hor'..."

... É agora! Entrou com flores, Edgar saudou de amores:
"Lêê... Surpresa!" e, sem graça: "Surpresa..." responde Lenor'
e "Surpreso" então repito, como um gentleman aflito
muito avesso a tais conflitos. Mais um caso que evapor':
pensam juntos, de uma vez, e falam três a mesma hor':
              "nunca mais a qualquer hor'!"

E o louro estabanado bate as asas no Priapo
cujos cacos no assoalho se espalham além da por'.
Grito seu de ave acuada é mui sonsa (ai) gargalhada,
que se espalha em revoada mais que os cacos sob a por'
e se ouve redobrado como um eco que apavor'
              se os pisar a qualquer hor'...

Fernando  Santoro

* Fernando Santor’ (este aprendiz de blogueiro não resiste, escreve com 'sotaque americano' o nome do autor), tem extensa produção filosófica publicada em jornais, revistas especializadas e em livros.
____________________
Poesia (e) Filosofia — por poetas filósofos em atuação no Brasil, Organização de Alberto Pucheu, 1998, Sette Letras, Rio de Janeiro — RJ; Fernando José de Santoro Moreira, do Rio de Janeiro, nascido em 1968, graduado em filosofia pela UFRJ  Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Literatura e Civilização Francesa em Nancy III, mestre e doutor em Filosofia (UFRJ) e pós-doutor pela Université Paris Sorbonne Paris IV, é professor, pesquisador, ensaísta, pensador, escritor e poeta; possui vínculo institucional com a UFRJ Filosofia, dirige o Laboratório OUSIA de Estudos em Filosofia Clássica e integra o GdRI Groupement de recherche internationaux 'Philosopher em Langue. Comparatiems e traduction', do CNRS  Centre national de la recherche scientifique; suas obras: Agravo (1991), Poesia e Verdade (1994), Imaculada (poesia, 1996), O Poema de Parmênides: Da Natureza, vol. I (2006), Arqueologia dos Prazeres (2007), Filósofos Épicos, vol I 'Xenófanes e Parmênides' (2011) e outros títulos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Edgar Allan Poe: Os Sinos

 
____________________
[traduzido por Milton Amado]

Escuta; em núpcias vão cantando os sinos,
Áureos sinos!
Quantos mundos de ventura seu tanger nos prefigura!
No ar da noite, embalsamado,
Como entoam seu enlevo abençoado!
Tons dourados, lentas notas
Concordantes...
E tão límpido poema aí flutua
Para as rolas, que o escutam, divagantes,
Vendo a lua!
Volumoso, vem das celas retumbantes,
Todo um jorro de eufonia
Que se amplia,
“O futuro é belo e bom!”
Clama o som
Que arrebata, como em êxtases divinos,
No balanço repicante que lá soa,
Que tão bem, tão bem ecoa
Na vibrante voz dos sinos, sinos, sinos,
Carrilhões e sinos, sinos,
No rimado, consonante som dos sinos!

Edgar Allan Poe

The bells

[ . . . ]

II

Hear the mellow wedding bells,
Golden bells!
What a world of happiness their harmony foretells!
Through the balmy air of night
How they ring out their delight!
From the molten golden-notes,
And all in tune,
What a liquid ditty floats
To the turtle-dove that listens, while she gloats
On the moon!
Oh, from out the sounding cells,
What a gush of euphony voluminously wells!
How it swells!
How it dwells
On the future! how it tells
Of the rapture that impels
To the swinging and the ringing
Of the bells, bells, bells,
Of the bells, bells, bells, bells,
Bells, bells, bells
To the rhyming and the chiming of the bells!

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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Edgar Allan Poe (1809 1849), norte-americano nascido em Boston Massachusetts, foi escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor; Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica, o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, se destaca em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas); envolveu-se com mulheres, bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor associado da revista Burton’s Gentleman’s Ma­gazine e da Graham’s, além de ter tido acesso e contribuído em outros periódicos; Edgar Allan Poe, escrevendo contos de terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo influenciado e inspirado muitos escritores Melville, Conan Doyle, Agatha Christie, Chesterton, Jorge Luis Borges e outros; obras: em poesia, Tamerlane and other Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore (1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849), The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842), The Gold-Bug (O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado (O Barril Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição — ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Edgar Allan Poe: Eldorado

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[traduzido por Gondin da Fonseca]

Garboso, ligeiro,
       bravo cavaleiro,
Ao sol e à sombra, sem cuidado,
       ia caminhando,
       e cantarolando
uma canção, em busca do Eldorado.

       Quando a idade breve,
       o cobriu de neve,
viu-se de sombra amortalhado...
       E um pesar profundo
       teve, pois, no mundo,
nada encontrou, feito o Eldorado.

       Já sem força, um dia,
       viu a sombra fria
de um peregrino; e, angustiado,
       perguntou: “aonde,
       aonde se esconde
ó sombra, o reino do Eldorado?”

“Para além da Lua,
       há uma terra nua,
Vale de Sombras, povoado...
       Avança ligeiro,”
       disse-lhe o romeiro,
“se é que procuras o Eldorado”.

Poe

Eldorado

Gaily bedight,
       A gallant knight,
In sunshine and in shadow
       Had journeyed long
       Singing a song
In search of Eldorado.

       But he grew old...
       This knight so bold...
And o'er his heart a shadow
       Fell as he found
       No spot of ground
That looked like Eldorado.

       And, as his strength
       Failed him at length
He met a pilgrim shadow...
       "Shadow," said he,
       "Where can it be
This land of Eldorado?"

       "Over the Mountains
       Of the Moon
Down the Valley of the Shadow,
       Ride, boldly ride,"
       The shade replied,
"If you seek for Eldorado!"
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O Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte — edição bilíngue (diversos autores), tradução de Gondin da Fonseca, sem data, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Edgar Allan Poe (1809 1849), norte-americano nascido em Boston Massachusetts, foi escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor; Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica, o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, se destaca em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas); envolveu-se com mulheres, bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor associado da revista Burton’s Gentleman’s Ma­gazine e da Graham’s, além de ter tido acesso e contribuído em outros periódicos; Edgar Allan Poe, escrevendo contos de terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo influenciado e inspirado muitos escritores Melville, Conan Doyle, Agatha Christie, Chesterton, Jorge Luis Borges e outros; suas obras: em poesia, Tamerlane and other Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore (1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849), The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842), The Gold-Bug (O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado (O Barril Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição — ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.