____________________
[traduzido por José Lino Grünewald]
Eu te vi uma vez — só uma — anos atrás:
Não posso dizer quantas
— porém não muitas.
Era uma meia-noite de julho; e lá
fora
A lua esférica, tal tua alma,
planando,
Procurava um caminho através do
céu,
Lá caiu um sedoso-prata, véu de
luz,
Com o mormaço, calmaria e
sonolência,
Acima dos rostos revolvidos de mil
Rosas que vicejavam num jardim de
encanto,
Onde não se agitava o vento, ou só
de leve —
Caiu nos rostos revolvidos dessas rosas
Que deram, em retribuição ao
amorluz,
As almas aromáticas em morte
extática —
Caiu nos rostos revolvidos dessas
rosas;
Sorriram e morreram no canteiro,
encantado
Por ti, e em poesia de tua
presença.
Vestida toda em branco, em banco
violeta
Eu te vi semi-reclinada; enquanto a
lua
Caiu nos rostos revolvidos lá das
rosas,
E no teu próprio, revolvido — ai,
em tristeza!
Foi o Destino, na meia-noite de
julho —
Foi o Destino (cujo nome é também
Tristeza),
Que me parou diante daquele portão
Para aspirar o incenso das rosas em
sono?
Nenhum passo ecoou: dormia o odiado
mundo,
Menos você e eu apenas (Oh, céu! —
Oh, Deus!
Como vibro juntando estas duas
palavras!)
Menos você e eu apenas. Parei —
Olhei —
E num instante todas as coisas
sumiram.
(Ah, lembre-se que esse jardim era
encantado!)
O fulgor perolar da lua foi-se
embora:
Bancos musgosos e caminhos sinuosos
Flores felizes e as árvores
murmurantes
Não mais vistas: os próprios aromas
das rosas
Feneceram nos braços dos ares que
adoram.
Tudo — tudo expirou menos tu —
menos tu:
Exceto apenas a luz divina em teus
olhos —
Exceto talvez a alma em teus olhos
erguidos.
Eu só via eles — eram o mundo pra
mim.
Eu só via eles — só os via durante
horas —
Somente os via até que a lua fosse
embora.
Que incultos cantos de amor parecem
escritos
Sobre as celestiais esferas
cristalinas!
Quão escuro um pesar! Mas quão bela
a esperança!
Quão silentemente sereno um mar de
brios!
Quão ousa uma ambição! no entanto
quão profunda —
Quão abismal a capacidade de amar!
Mas agora, afinal, Diana sai da
vista,
Para um divã oriental de nuvem
negra;
E tu, um espectro, entre as árvores
tumulares
Te evolaste. Somente os olhos teus
ficaram.
Eles não
partiriam — nunca mesmo foram.
Clareando meu rumo para casa à
noite,
Não me deixaram (como as
esperanças) desde então,
Eles me seguem — levam-me através
dos anos —
São meus serventes — eu porém
escravo deles.
Seu ofício é iluminar e estimular —
Minha função, salvar-me
em sua luz brilhante,
E ser purificado em sua flama
elétrica,
Também santificado no seu fogo
elísio.
Enchem minha alma de Beleza
(Esperança),
E longe estão no Céu — estros a
quem me ajoelho
Tristes, quietos, vigias de minha
noite;
E no meridiano irradiar do dia
Ainda os vejo — duas belas cintilantes
Vênus, jamais exterminadas pelo
sol.
 |
| Edgar Allan Poe |
To Helen (Whitman)
I saw thee once — once only — years
ago:
I must not say how many — but not
many.
It was a July midnight; and from
out
A full-orbed moon, that, like thine
own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up
through heaven,
There fell a silvery-silken veil of
light,
With quietude, and sultriness, and
slumber,
Upon the upturn’d faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted
garden,
Where no wind dared to stir, unless
on tiptoe —
Fell on the upturn'd faces of these
roses
That gave out, in return for the
love-light,
Their odorous souls in an ecstatic
death —
Fell on the upturn'd faces of these
roses
That smiled and died in this
parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy
presence.
Clad all in white, upon a violet
bank
I saw thee half reclining; while
the moon
Fell on the upturn'd faces of the
roses,
And on thine own, upturn'd — alas,
in sorrow!
Was it not Fate, that, on this July
midnight —
Was it not Fate, (whose name is
also Sorrow,)
That bade me pause before that
garden-gate,
To breathe the incense of those
slumbering roses?
No footstep stirred: the hated
world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven!
— oh, God!
How my heart beats in coupling
those two words!)
Save only thee and me. I paused — I
looked —
And in an instant all things
disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was
enchanted!)
The pearly lustre of the moon went
out:
The mossy banks and the meandering
paths,
The happy flowers and the repining
trees,
Were seen no more: the very roses'
odors
Died in the arms of the adoring
airs.
All — all expired save thee — save
less than thou:
Save only the divine light in thine
eyes —
Save but the soul in thine uplifted
eyes.
I saw but them — they were the
world to me.
I saw but them — saw only them for
hours —
Saw only them until the moon went
down.
What wild heart-histories seemed to
he enwritten
Upon those crystalline, celestial
spheres!
How dark a wo!, yet how sublime a
hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition! yet how
deep —
How fathomless a capacity for love!
But now, at length, dear Dian sank
from sight,
Into a western couch of
thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the
entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained.
They would not
go — they never yet have gone.
Lighting
my lonely pathway home that night,
They
have not left me (as my hopes have) since.
They follow me — they lead me
through the years —
They are my ministers — yet I their
slave.
Their office is to illumine and
enkindle —
My duty, to
be saved by their bright light,
And purified in their electric
fire,
And sanctified in their elysian
fire.
They fill my soul with Beauty
(which is Hope),
And are far up in Heaven — the
stars I kneel to
In the sad, silent watches of my
night;
While even in the meridian glare of
day
I see them still — two sweetly
scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!
* Nota deste Verso e Conversa: O
atrevido aprendiz de blogueiro desta página deixa exposto que o poema To Helen
foi escrito para Mrs. Sarah Helen Whitman (1803 —
1878), poeta e ensaísta.
____________________
Grandes Poetas
da Língua Inglesa do Século XIX, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Organização
de José Lino Grünewald, 1988, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Edgar
Allan Poe (1809 — 1849), norte-americano nascido em Boston — Massachusetts, foi
escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor;
Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica,
o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, se destaca
em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas); envolveu-se com mulheres,
bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde
foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em
uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador
no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor
associado da revista Burton’s Gentleman’s Magazine e da Graham’s, além de ter tido
acesso e contribuído em outros periódicos; Edgar Allan Poe, escrevendo contos de
terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo
na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo
influenciado e inspirado muitos escritores — Melville, Conan Doyle, Agatha Christie,
Chesterton, Jorge Luis Borges e outros; suas obras: em poesia, Tamerlane and other
Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore
(1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849),
The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher
(A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos
da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842), The Gold-Bug
(O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado
(O Barril Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição
— ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.