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Il pleure dans mon coeur
Como il pleut dur ls ville.
Verlaine
Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim.
É talvez a ventania;
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...
Quem bate assim levemente,
Com tão estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente?...
Não é chuva, não é gente,
Nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía,
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria...
— Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro, bem definidos,
— Depois em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
Sofra tormentos... enfim!...
Mas as crianças, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza...
— E cai no meu coração.
Luar de Janeiro — 1909
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Poesia Simbolista — Literatura
Portuguesa [vários poetas], Seleção, Introdução, Traços Biobibliográficos e
Notas de Álvaro Cardoso Gomes, 1986, Global Editora, São Paulo — SP; Augusto César
Ferreira Gil (1873 — 1929), português do Porto, fez seus primeiros estudos na
cidade de Guarda e, depois, no Colégio de São Fiel, de Louriçal do Campo, formou-se
em Direito pela Universidade de Coimbra, foi advogado, cronista e poeta do
Simbolismo português; como colaborador, publicou no quinzenário A Farça
[Lisboa}, na revista As Quadras do Povo [Coimbra] e no periódico O Azeitonense
[Azeitão]; obras: Musa Cérula (1894), Versos (1898), Luar de Janeiro
(1909), O Canto da Cigarra (1910), Gente de Palmo e Meio (crônicas, 1913), Sombra
de Fumo (1915), O Craveiro da Janela (1920), Avena Rústica (1927), Rosas desta
Manhã (1930).