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domingo, 17 de maio de 2026

Guilherme de Almeida: O jogral

 
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Ei-lo! Sob o faiscar de escárnios e sorrisos,
no sombrio salão de um grão-senhor feudal,
sacode e arrasta a irônica brial
de tufos, de galões, de fitas e de guizos...

Guincha, e gagueja, e salta, e canta... E, entre indecisos
clarões de lampadário e a graça medieval
das damas e galãs, o mísero jogral
vai diminuindo a dor e exagerando os risos...

Ninguém sabe entender os seus esgares bufos,
porque ele veste o amor, a corcunda e a tristeza
de fitas, de galões, de guizos e de tufos...

E vai levando assim sentimental truão!
glorioso de fazer sorrir sua princesa,
a dor no fundo da alma e um títere na mão!

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Messidor, poesias (coletâneas: Nós, A Dança das Horas, Suave Colheita), sem data, Círculo do Livro, São Paulo — SP; Guilherme de Andrade e Almeida (1890 1969), paulista de Campinas, estudou nos ginásios Culto à Ciência (Campinas), e São Bento e N. Sra. do Carmo (ambos em São Paulo), formou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi jurista, professor de direito, poeta, jornalista, cronista social, ensaísta, crítico cinematográfico e tradutor; trabalhou como redator n’O Estado de São Paulo e no Diário de São Paulo, foi diretor da Folha da Manhã e da Folha da Noite, fundador do Jornal de São Paulo; participante da Semana de Arte Moderna (1922), colaborou nos periódicos modernistas Klaxon, Verde e Terra Roxa; consta que a sua produção de "haicais em português" teve início após seu encontro com Kozo Ichige, cônsul japonês no Brasil, à época, 1936; suas obras: em poesia: Nós (estréia literária, 1917), A Dança das Horas (1919), Messidor (1919), A flor que foi um homem — Narciso (1921), A Frauta que eu perdi (1924), Meu (1925), Raça (1925), Encantamento (1925), Simplicidade (1929), Você (1931), Estudante poeta (1943), Tempo (1944), Poesia Vária (1947), Rua (1961); em prosa: Do Sentimento Nacionalista na Poesia Brasileira (ensaio, 1926), Ritmo, Elemento de Expressão (1926), Gente de Cinema (1929), O meu Portugal (1933), A Casa (palestra, 1935), Gonçalves Dias e o Romantismo (conferência, 1944), Histórias, talvez... (1948), As Palavras de Buda (1948), e mais títulos em verso e prosa; traduziu, entre outros, Paul Géraldy, Rabindranath Tagore, Charles Baudelaire (Fleurs du Mal), Paul Verlaine (Parallèlement) e, ainda, a peça Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean Paul Sartre; foi membro da ABL Academia Brasileira de Letras, do IHGSP Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e do Instituto de Coimbra (Portugal)...

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Euclides da Cunha: Mundos extintos

 
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São tão remotas as estrelas que, apesar da
vertiginosa velocidade da luz, elas se apagam,
e continuam a brilhar durante séculos.

Morrem os mundos... Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da altura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...

Mas para nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias...
Pelos séculos em fora a luz fulgura
Traçando-lhes as órbitas vazias.

Meus ideais! extinta claridade
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos
Da minh’alma a revolta imensidade...

E sois ainda todos os enganos
E toda a luz, e toda a mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos...*


* Nota da edição: Datado de 1886. O poeta nasceu em 1866.
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 1909), nascido em Cantagalo RJ, onde também iniciou sua vida escolar Colégio Caldeira , foi morar com os avós, em Salvador BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; o jornalista Euclides da Cunha, que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

quarta-feira, 18 de março de 2026

João Guimarães Rosa*: Poemas [Riqueza & Poder estóico & Encorajamento]

 
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Riqueza

Veio ao meu quarto um besouro
de asas verdes e ouro,
e fez do meu quarto uma joalharia...

Poder estóico

Acuado entre brasas,
um escorpião volve o dardo
e faz o hara-kiri...

Encorajamento

Meu desejo corre a ti com velas enfunadas...
Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio:
ele não traz âncora...


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e, embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

domingo, 1 de março de 2026

João Guimarães Rosa*: Sonho de uma Tarde de Inverno

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Fiquei, longamente, a ler, no frio
da tarde quieta,
uma crônica do tempo merovíngio,
dos monges da Abadia de Cluny.
E um rádio gritante trouxe, pela janela,
todo o banzo e o azougue de um samba sensual:
vôo de cantáridas tontas
no hálito de incenso de uma nave,
fenestrada de ogivas e ventanas
e toda colorida de vitrais...

E no vago torpor do meu subsonho,
vi como trabalhava,
extasiado, na penumbra
parda de um meio inverno,
um monge
rendilhador de jóias de ouro,
discípulo, talvez, de Santo Elói:
depois de modelar um cimo de coroa,
com Virtudes de auréola
em meio de anjos louros,
e de cinzelar,
na pasta de sol frio do rebordo
de um anel real,
uma rosácea, um gládio e um globo,
deixou errar seus dedos e seus sonhos,
e fez crescer, no jalde de um cibório,
o relevo de uma Vênus
com um Cupido ao colo...

E era tão bela a sua idéia de ouro,
e foi tão casto e cristão o beijo longo
que ele pôs na deusa,
que a tênue poeira flava do seu êxtase
de pronto se esvaiu.

E então, febril,
murmurando, constante, um exorcismo,
santificando traços, disfarçando os nus,
fez depressa da Vênus uma Virgem,
e do pagãozinho alado um menino Jesus.
Depois, sorrindo, o santo joalheiro
rezou, com outro beijo, a sua contrição...

E mil diabinhos crepitaram nas chamas,
rubros, rindo,
porque agora o seu beijo
fora ardente e pagão...


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.'
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e  embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

João Guimarães Rosa*: Consciência cósmica

 
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Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim…

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado…

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo…


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e, embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

João Guimarães Rosa: Anil

 
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O voo, quase vertical, da jaçanã fugida
levantou meu olhar,
no dorso esbelto, de zinco polido,
à calota do céu,
liso, congelado em calmaria,
e quase sólido, em cobalto líquido.
Pensei que a ave fosse frechar, de cheio,
para pescar peixinhos escamados de ouro:
as estrelas que mergulharam de madrugada…
E que a água longe se abrisse
nos nove círculos concêntricos
das nove beatitudes…

Mas o pássaro foi breve um grânulo dissolvido,
entre nuvens fugindo como flocos de espuma,
com a paisagem a luzir, no seio de uma bolha,
o sol a se desmanchar, como um sabão redondo,
e o céu todo água, num côncavo de bacia
onde lavam o dia…


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e, embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

João Guimarães Rosa*: Lunático

 
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Vou abrir minha janela sobre a noite.
E já bem noite, a lua,
alta a um terço do seu arco,
terá de deslizar pelo meu quarto adentro,
e passear sobre o meu rosto, adormecido e lívido,
quando eu sair a sonhar pelas estradas noturnas,
sem fim, sem marcos, nem encruzilhadas,
que levam à região dos desabrigos…
Sonharei com mares muito brancos,
de águas finas, como um ar dos cimos,
onde o meu corpo sobrenada solto,
por entre nelumbos que passam boiando…
Ouvirei a rainha do País do Suave Sonho,
cantando no alto sempre o mesmo canto,
como a sereia do sempre mais alto…
E a janela se fecha, prendendo aqui dentro
o raio suave que prendia a lua…
Para que eu soçobre no mar dos nenúfares grandes,
onde remoinham as formas inacabadas,
onde vêm morrer as almas, afogadas,
e onde os deuses se olham como num espelho...


* Nota do blogue Verso e Conversa: sobre o livro Magma e seu autor, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, expõe que em Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, o organizador Manuel Bandeira escreveu sobre Guimarães Rosa, à guisa de minitraços biobibliográficos:
Pouca gente sabe que Guimarães Rosa estreou nas letras com um livro de versos — Magma (1936), aliás premiado pela Academia Brasileira de Letras. Mas o grande Rosa só se iria revelar na prosa, onde se tornou um inovador e personalíssimo: Grande Sertão: Veredas é um dos mais altos cumes de nossa literatura de ficção. O poeta porém não morreu em Rosa. Digo o poeta formal, o poeta autor de poemas, porque em tudo o que escreve há sempre poesia e da melhor. O poeta formal continuou, mas enquadrado na categoria dos bissextos. Com efeito, em 61, apareceram n'O Globo, na crônica semanal assinada por ele, alguns poemas de um certo Soares Guiamar, e o apresentador advertiu: "Ser poeta, aliás, é já estar adiante, em muita experimentada sorte de velhice." Mas quem atentar no nome de Soares Guiamar, descobrirá que ele é anagrama de Guimarães Rosa’; em alguns poemas (inéditos ou publicados em colunas nos jornais, em 1961), Guimarães Rosa, ou J. Guimarães Rosa, faz uso de nomes anagramáticos (Soares Guiamar, Sá Araújo Ségrim, Meuriss Aragão, Romaguari Sães) para dar autoria à sua criação. Tais menções constam em textos de Ave, palavra — Guimarães Rosa, Nota Introdutória de Paulo Rónai, 1970, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ.
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Magma — João Guimarães Rosa, Parecer — a título de prefácio — de Guilherme de Almeida e desenhos de Poty, 1997, 2ª impressão em 2006, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; João Guimarães Rosa (1908 1967), mineiro de Cordisburgo, estudou no Colégio Santo Antônio [São João del-Rei] e no Colégio Arnaldo [Belo Horizonte], formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (atual UFMG), foi diplomata, contista, novelista, romancista e também poeta; em 1929, fez sua estreia na literatura com o conto O mistério de Highmore Hall, à época publicado em O Cruzeiro; em 1936, seu único livro de poesias, Magma, foi inscrito e participou de um concurso poético promovido pela Academia Brasileira de Letras, e, embora tenha sido premiado com louvor em primeiríssimo lugar, permaneceu inédito até a década de 90, sessenta anos após; Guimarães Rosa, o poeta de Magma, é ampla e exemplarmente re-conhecido por seus contos, novelas e romances; escreveu e publicou Sagarana (contos, 1946), Corpo de Baile (ciclo novelesco, 2 volumes, 1956), Manuelzão e Miguilim (1964), Noites do Sertão (1965), Grande sertão: Veredas (romance, 1956), Primeiras estórias (contos, 1962), Campo geral (1964), Tutameia — Terceiras estórias (contos, 1967), os postumamente editados Estas estórias (contos, 1969) e Ave, palavra (diversos escritos: crônicas, poemas, 1970) etc.; colaborou no Correio da Manhã, no suplemento Letras e Artes de A Manhã, n’O Globo e na revista Pulso; seus livros foram traduzidos no exterior (França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Espanha, Polônia, Holanda e Checoslováquia); recebeu premiações por suas obras; como servidor diplomático, exerceu funções na Alemanha (Hamburgo), Colômbia (Bogotá) e França (Paris).

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Sully Prudhomme: O vaso partido

 
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[traduzido por Guilherme de Almeida]

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe sutil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.

Sully Prudhomme

Le vase brisé

Le vase où meurt cette verveine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut effleurer à peine.
Aucun bruit ne l’a révélé.

Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.

Souvent aussi la main qu’on aime,
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;

Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.

[Stances et poèmes — 1865]
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Poetas de França [vários autores]: Seleção, Tradução e Dedicatória ‘Soneto de amor pela França’ de Guilherme de Almeida e Prefácio de Marcelo Tápia, 5ª edição, 2011, Edições Babel, São Paulo — SP; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

domingo, 30 de março de 2025

Sully Prudhomme: Prece

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[traduzido por Guilherme de Almeida]

Ah! se soubesses como eu choro
Por viver só meus pobres dias,
Muitas vezes por onde eu moro
Tu passarias.

Se soubesses o que revela
Ao triste o olhar de uma alma boa,
Olharias minha janela
Assim, à toa.

Se soubesses como conforta
Uma presença amiga e sã,
Ficarias à minha porta
Como uma irmã.

Se soubesses, se adivinhasses
Como eu te amo, principalmente,
É possível até que entrasses
Bem simplesmente.

Sully-Prudhomme

Prière

Ah! si vous saviez comme on pleure
De vivre seul et sans foyers,
Quelquefois devant ma demeure
Vous passeriez.

Si vous saviez ce que fait naitre
Dans l´âme triste un pur regard,
Vous regarderiez ma fenêtre
Comme au hasard.

Si vous saviez quel baume apporte
Au coeur la présence d´un coeur,
Vous vous assoiriez sous ma porte
Comme une soeur.

Si vous saviez que je vous aime,
Surtout si vous saviez comment,
Vous entreriez peut-être même
Tout simplement.

[Les Vaines tendresses — 1875]
____________________
Poetas de França [vários autores]: Seleção, Tradução e Dedicatória ‘Soneto de amor pela França’ de Guilherme de Almeida e Prefácio de Marcelo Tápia, 5ª edição, 2011, Edições Babel, São Paulo — SP; Sully-Prudhomme ou René Armand François Prudhomme (1839 1907), francês e parisiense, ingressou no Liceu Bonaparte, pretendia ser engenheiro, desistiu, trabalhou como escriturário em fábrica, estudou Direito, foi pensador, ensaísta e poeta; pertenceu ao grupo de poetas parnasianos que foram responsáveis pela publicação de Parnasse Contemporain; elegeu-se para a Academia Francesa (1881) e foi o primeiro autor literato a receber o recém-criado Prêmio Nobel de Literatura (1901); obras poéticas: Stances et Poèmes (1865), Les Épreuves (1866), Les Solitudes (1869), Impressions de la guerre (1870), Les Destins (1872), La France (1874), Les Vaines tendresses (1875), La Justice (1878), Le Prisme, poésies diverses (1886), Le Bonheur (1888) e outros escritos (diário e pensamentos); o pensador Sully Prudhomme deixou publicado ensaios filosóficos e prosa variada na Bibliothèque de philosophie contemporaine e nos periódicos Revue de deux Mondes, Revue scientifique, La Nature, Revue de Métaphysique et de Morale e Nouvelle Revue Internationale Européenne; de sua biografia, consta que o poeta, desde 1870, teve “a saúde abalada”, sofreu paralisia em “toda parte inferior do corpo” e após a qual “nunca mais recobraria integralmente sua capacidade [motora].

sexta-feira, 22 de março de 2024

Paul Verlaine: As mãos


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[traduzido por Guilherme de Almeida]

As doces mãos que foram minhas,
Tão bonitas e tão pequenas
Depois de enganos e de penas
E de tantas coisas mesquinhas,

Depois de portos tão risonhos,
Províncias, cantos pitorescos,
Reais como em tempos principescos,
As doces mãos abrem-me os sonhos.

Mãos em sonho sobre a minha alma,
Que sei eu o que vos dignastes,
Entre tão pérfidos contrastes,
Dizer a esta alma pasma e calma?

Mentirá minha visão casta
De espiritual afinidade,
De maternal cumplicidade
E de afeição estreita e vasta?

Remorso bom, mágoa tão boa,
Sonhos santos, mãos consagradas,
Oh! Essas mãos, mãos veneradas,
Fazei o gesto que perdoa! *

Paul Verlaine

Les chères mains qui furent miennes, . . .

Les chères mains qui furent miennes,
Toutes petites, toutes belles,
Après ces méprises mortelles
Et toutes ces choses païennes,

Après les rades et les grèves,
Et les pays et les provinces,
Royales mieux qu'au temps des princes,
Les chères mains m'ouvrent les rêves.

Mains en songe, mains sur mon âme,
Sais-je, moi, ce que vous daignâtes,
Parmi ces rumeurs scélérates,
Dire à cette âme qui se pâme?

Ment-elle, ma vision chaste
D'affinité spirituelle,
De complicité maternelle,
D'affection étroite et vaste?

Remords si cher, peine très bonne,
Rêves bénis, mains consacrées,
Ô ces mains, ces mains vénérées,
Faites le geste qui pardonne!

* Nota da edição: Verlaine P. “As mãos”. In: A voz dos botequins e outros poemas, Trad. Guilherme de Almeida, São Paulo: Hedra, 2009, p.71, [Sagesse, 1880].
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Rimbaud — biografia: Jean-Baptiste Baronian, Tradução de Joana Canêdo, biografias L&PM POCKET Volume 975, 1ª edição, 2011, L&PM, Porto Alegre — RS; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valéry, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.