domingo, 31 de agosto de 2025

Jorge Luis Borges: Afterglow

 
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[traduzido por Josely Vianna Baptista]

O ocaso é sempre comovente
por mais pobre ou berrante que seja,
porém mais comovente ainda
é o fulgor desesperado e final
que enferruja a planície
quando o último sol mergulhou.
É doloroso manter essa luz tensa e diversa,
essa alucinação que impõe ao espaço
o medo unânime da sombra
e cessa de repente
quando notamos sua falsidade,
como cessam os sonhos
quando sabemos que sonhamos.

Jorge Luis Borges

Afterglow

Siempre es conmovedor el ocaso
por indigente o charro que sea,
pero más conmovedor todavía
es aquel brillo desesperado y final
que herrumbra la llanura
cuando el sol último se ha hundido.
Nos duele sostener esa luz tirante y distinta,
esa alucinación que impone al espacio
el unánime miedo de la sombra
y que cesa de golpe
cuando notamos su falsía,
como cesan los sueños
cuando sabemos que soñamos.

(Fervor de Buenos Aires — 1923)
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Primeira poesia: Jorge Luis Borges, traduzido por Josely Vianna Baptista, edição bilíngue, 1ª reimpressão, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (1899 1986), argentino de Buenos Aires, aprendeu a língua inglesa com a avó paterna antes de falar espanhol, suas primeiras leituras se deram naquele idioma, foi poeta, contista, ficcionista, ensaísta, crítico literário, tradutor, professor universitário e bibliotecário; aos 9 anos de idade escreveu La Visera Fatal, seu primeiro conto “inspirado em episódio da obra de Dom Quixote”; de 1914 a 1920, já com alfabetização bilíngue, viveu com a família na Europa, concluiu seus estudos secundários no Collège de Genève Suiça, ligou-se ao movimento altruísta literário de vanguarda na Espanha, de volta à Argentina, na década de 1920, publicou três livros de poesia e, a partir daí, deu início à publicação de seus contos, invariavelmente na revista Sur, a qual também editou seus livros de ficção; lecionou Literatura Inglesa na Universidade de Buenos Aires, trabalhou na Biblioteca Municipal Miguel Cané e dirigiu a Biblioteca Nacional; em 1956, já sendo proibido pelos oftalmologistas de ler e escrever, passou a conviver com a cegueira que, vindo de forma gradativa desde criança, se instalava em sua vida; suas obras: Fervor de Buenos Aires (poesia, 1923), Luna de enfrente (Lua defronte, poesia, 1925), Inquisiciones (ensaios, 1925), El idioma de los argentinos (ensaio, 1928), Cuaderno San Martín (Caderno San Martín, poesia, 1929), Evaristo Carriego (ensaio, 1930), Historia universal de la infamía (contos, 1935), Historia de la Eternidad (ensaios, 1936), Ficciones (contos, 1944), Nova refutação do tempo (ensaios, 1947), El Aleph (O Aleph, contos, 1949), A morte e a bússola (contos, 1951), El hacedor (1960), Para las seis cuerdas (1967), El oro de los tigres (1972), Elogio de la sombra (1969), Historia de la noche (1976), todos de poesia, e tantos outros títulos em verso e prosa, inclusive em traduções para mais de 35 idiomas; na publicação de seus textos, Jorge Luis Borges também fez uso de vários pseudônimos, entre os quais Alex Ander, Benjamín Beltrán, Andrés Corthis, Pascual Güida, Bernardo Haedo, José Tuntar, Honorio Bustos Domecq e Benito Suárez Linch; teve sua obra transferida para o cinema e a televisão, e também teve textos musicados pelo compositor e instrumentista Astor Piazzolla (Tangos & Milongas); Borges, mesmo cego, não deixou de produzir seus escritos, os quais eram ditados para María Kodama, sua ex-aluna, depois assistente literária e esposa; recebeu inúmeras premiações por sua obra.

sábado, 30 de agosto de 2025

Dušan Matić: Mar

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović *]

Hoje dormes, densa beldade veranil
maturas em pleno agosto
feito mulher que descobriu que o amor é
tudo e é cinza e é inesgotável
chama que o primeiro sopro reaviva
e um segundo sopro apaga
e um terceiro sopro novamente reaviva
e assim por diante
pelas crianças nascidas e pelas não nascidas
deixa em paz a onda balouçante.

Dormes, densa beldade veranil
Tu, que cegas até o infinito
luz brilhante, brilho no brilho
voragem junto à voragem, voragem na voragem
Todos os gritos de todos os naufrágios em ti se igualam
e hoje se aquietam em tua supérflua harmonia diamantina.

Dorme também tu diante dessa infinitude
diante desse brilho reluzente que lucila
dorme sobre o travesseiro inquieto das lembranças
das lembranças truncadas e dos instantes desperdiçados
dorme, embriagado no esquecimento
dorme, à beira das visões que fitar não soubeste
à margem infértil do conhecimento
à margem da cegueira e do paladar perdido
e no encontro das tempestades
e lá tembém onde a aurora se reparte
e onde tu não estás
nem com o teu grito nem com a verdejante
duração.

Dorme
e tudo o que quiseram as curiosas gaitas dos sentidos
as mãos em trabalho ignotos
e o jejum da eternidade eu não quero nem pelo preço desses
prematuros
nem tampouco pelo preço da vigília por crianças futuras de mulheres
desonradas
quando pela terra passarem desapiedados conquistadores
nos desertos dos devaneios tudo isso são cumes desnudados
onde se põem as noites e as canções não terminadas
de egoístas amantes satisfeitos.

No primeiro catre desvendarás o mapa do mundo
desenharás todas as coordenadas e abrirás todos os compassos
daqui até a África
as linhas são as mesmas, o silvar do vento é o mesmo, o chamado do
deserto é o mesmo,
e as escusas mãos no laço de carne as mesmas como no coração do
primeiro caminhante.

É melhor que durmas
Não sorri quando te agradar algo que não sabias que iria agradar-te
cobre a tua cabeça com ambas as mãos
e diz quem poderá romper esse escudo de granizo.

Inquietações e madições rebentarão quando com fragor
baixares os teus inaudíveis lábios sobre amargos lábios
que rasgam o mundo no horror da alagria e no horror do sofrimento
ó rosa do adocicado horror, ó rosa da não digesta ausência, ó mesma
rosa do horror
ó rosa selvagem do misto sangue
dia, e não há dia
noite, e não há noite
estrelas ou fluir de sangue apagados.

É melhor que durmas
o gato se estira sobre a parede ensombreada
as uvas amadurecem nas parreiras
o reconhecimento estendeu-se sobre o mundo.

dorme
duas tardias borboletas apressam-se rumo ao sol traiçoeiro
e com a vinda da noite desaparecerão
e duas belezas com elas também.

Dorme, e quando nada mais restar tu
dorme, o amor espera pelo amanhã e por ti e pelas encantadas
asas do espaço onde ardem as cores da eternidade
mesmo quando há negror nas raízes do teu olhar e nos teus feridos
seios

e quando te seduz a floresta perdida de teu sangue
de tua mortal verdade.

Dorme,
a eternidade é aquele fulgor, aquela infinitude
aquela ensandecida harmonia sobre o vloco dos naufrágios
e o teu sonho além de todas as justiças e todas as injustiças
a eternidade é aquela que se engalfinha inquieta diante de teus
pés mortificados
e obediente tombará diante dos adormecidos, amados, cruéis
pés teus.

Dušan Matić

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Spavaš danas, gusta lepoto leta
zriš u srcu avgusta
kao žena koja je poznala da ljubav je
sve i pepeo i opet neiscrpna
žar što ga prvi dah raspiri
i drugi dah ugasi
i treći dah opet raspiri
i tako redom
za decu rođenu i decu nerođjenu
bujan talas za to ne mari.

Spavaš, gusta lepoto leta
o ti zaslepljujući nedogledu
sjaj do sjaja, sjaj u sjaju
ambis do ambisa, ambis u ambisu
Svi krici svih brodolomnika u tebi su izjednačeni
i smireni danas u tvom izlišnom dijamantnom skladu.

Spavaj i ti pred tim nedogledom
pred tim sjajem od sjaja svakog sjajnijim
spavaj na nemirnom uzglavlju uspomena
krnjih uspomena i promašenih trenutaka
spavaj, pijana od zaborava
spavaj na ivici čarolija koje nisi znala da vidiš
na jalovoj ivici saznanja
na ivici slepila i izgubljenog ukusa
i na dodiru oluja
i tamo gde se deli zora
i gde te nema
ni krikom ni zimzelenom
trajanja.

Spavaj
šta su htele smešne gajde smisla
šta ruke na nepoznatom poslu
post večnosti ja neću ni po cenu ove nedonoščadi
ni po cenu svanuća za decu buduću žena obeščašćenih
kad zemljom prodju bezazleni osvajači
na puste fatamorgane
to su samo ćelavi vrhunci
gde zalaze večeri i pesme nedopevane
sitih sebičnih ljubavnika.

Na prvom krevetu rasklopićeš mapu sveta
ispisaćeš sve koordinate i raširićeš sve šestare
odavde pa do Afrike
isti je stroj, isti je šum vetra, isti zov pustare
i iste turobne ruke u zamci mesa kao u srcu prvog prolaznika.

Bolje spavaj.
Ne smej se kad zavoliš što nisi znala da ćeš zavoleti
glavu svoju obujmi rukama obema
taj obruč od tuči ko će moći da slomi.

Prsnuće damari i kletve tek kad skrušeno
spustiš neuslišene usne na gorke usne
što cepaju svet na užas radosti i na užas patnje.
O ružo slatkog užasa, o ružo nesvarene otsutnosti, o ista ružo užasa
o divlja ružo pomešane krvi
dan, a nema dana
noć, a nema noći
zvezde i krvotok ugašeni.

Bolje spavaj,
mačka se proteže na osenčenom zidu
groždje zri na čokotima
bonača je polegla nad svetom
spavaj
dva pozna leptira žure varljivom suncu
i dolaskom noći nestaće ih
i dve lepote s njima.

Spavaj, kad ništa drugo ne preostaje ti
spavaj, ljubav čeka na sutra i na tebe i na omamljena
krila prostora gde gore boje večnosti
i kad je tama u korenju tvog vida i u tvojim ranjavim grudima
i kad te mami izgubljena prašuma tvoje krvi
tvoje smrtne istine.

Spavaj,
večnost je taj sjaj, taj nedogled
taj uzaludni sklad nad paperjem brodolomnika
i tvoj san preko svih pravdi svih nepravdi

večnost je taj talas što nesmiren vrvi pred tvojim
smrtnim nogama
taj talas silan ciklon što lomi katarke
i poslušno pašće pred nemilosrdnom, ljubljenom, zaspalom
nogom tvojom.

* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: O organizador e tradutor Aleksandar Jovanović, no Prefácio deste Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia), nos relata o abaixo transcrito:
     “O presente volume apresenta alguns dos poetas mais expressivos da Literatura Iugoslava contemporânea, escrita em servo-croata. Mas, para que a compreensão do leitor seja mais clara, é preciso ressaltar que se trata de poetas da Literatura da Sérvia. Portanto, este livro não é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava. Tampouco é uma visão integral da Modernidade na Literatura Iugoslava escrita em servo-croata. É uma parte dela.
     Para que uma antologia de Literatura Iugoslava fosse integral, seria preciso nela incluir não somente obras de escritores da Croácia, mas também da Bósnia-Herzegovina e do Montenegro (redigidos todos em servo-croata), e, ainda, obras de escritores da Eslovênia (escritos em esloveno) e da Literatura da Macedônia (escritos em macedônio). Não é, como sublinhamos, uma visão integral, mas é o primeiro esforço para que os leitores da língua portuguesa possam ter acesso a ela.
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], texto A Poesia Contemporânea da Sérvia — suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, edição bilíngue, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Dušan Matić (1898 1979[?] [1980]), iugoslavo nascido em Tchúpria, matriculou-se em Filosofia na Sorbonne Paris em 1917, motivado por doença interrompeu o curso e, de volta a Belgrado, completou o curso em 1922, formando-se pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado, foi poeta do surrealismo, crítico, ensaísta, professor e tradutor; viajou pela França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda e Dinamarca; foi participante do grupo surrealista de Belgrado e de seu almanaque surrealista Nemoguće (O Impossível); colaborou com os periódicos de vanguarda modernistas surrealistas e suas dissenções: revistas Zenit [Zenith], Putevi (Estradas), Svedočanstva (Testemunhos), da qual o poeta foi um iniciador, Naša stvarnost (Nossa Realidade) e 50 u Evropi [50 na Europa], todas de Belgrado, nas quais publicou poemas, ensaios e outros escritos; ainda em 1922, já em Dresden-Alemanha, estudou filosofia romântica alemã; antes, aos 16 anos e sob o pseudônimo de Uroš Jovanović, publicara sua primeira poesia no Radničke novine (Jornal dos Trabalhadores) do Partido Social-Democrata Sérvio; em duas épocas, foi professor de ensino médio e lecionou línguas sérvia e francesa; suas obras: Položaj nadrealizma u društvenom procesu (em colaboração com Oskar Davičo e Đorđe Kostić, A Posição do Surrealismo no Processo Social, 1932), Gluho doba (Os Tempos Surdos, romance, 1940), Bagdala (poemas [cancioneiro emotivo], 1954), Buđenje materije (O Despertar da Matéria, ensaio, 1959), Proplanak i um (coleção de ensaios, artigos e entrevistas, O Prado e a Mente, 1969), Bitka oko zida (seleção de ensaios, Uma luta sobre o muro, 1971), André Breton oblique (1976) Tajni plamen (Chama Secreta, 1976) ...; traduziu Émile Zola (Germinal e Son Excellence Eugène Rougon) e Ivan Pavlov (obra sobre reflexos condicionados), foi cotradutor de Roger Martin du Gard (do multivolume Les Thibault: Le Cahier gris [O Caderno Cinzento]); Dušan Matić, que sofreu prisões por suas atividades e teve que se aposentar de dar aulas, sem condenação, foi um dos principais membros da Associação de Cientistas, Escritores e Artistas da Sérvia.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

José Martí: Já sei: de carne se pode . . . & Cultivo uma rosa branca . . .

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[traduzidos por Thiago de Mello]

XXXVI.
Já sei: de carne se pode
Fazer uma flor: se pode
Com o poder do carinho
Fazer um céu e um menino.

De carne se faz também
O escorpião, e também
O verme dentro da rosa
E uma coruja de espanto.

— o —

XXXIX.
Cultivo uma rosa branca
Em julho como em janeiro
Para um amigo sincero
Que me dá sua mão franca.

E para o cruel que me arranca
O coração com que vivo,
Cardo, urtiga, não cultivo:
Cultivo uma rosa-branca.

(Versos sencillos 1891)

José Martí

XXXVI
Ya sé: de carne se puede
Hacer una flor: se puede,
Con el poder del cariño,
Hacer un cielo, ¡y un niño!

De carne se hace también
El alacrán; y también
El gusano de la rosa,
Y la lechuza espantosa.

— o —

XXXIX
Cultivo una rosa blanca
En julio como en enero,
Para el amigo sincero
Que me da su mano franca.

Y para el cruel que me arranca
El corazón con que vivo,
Cardo ni ortiga cultivo;
Cultivo la rosa blanca.

(Versos sencillos 1891)
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; José Julián Martin Pérez ou José Martí (1853 1895), nascido em Havana Cuba, estudou no Instituto de Ensino Secundário de Havana, fez Desenho Elementar na Escola Profissional de Pintura e Escultura, também em Havana, e, tendo sido preso, posteriormente, após comutação da pena em troca de exílio na Espanha, formou-se em Direito, Filosofia e Letras nas universidades de Madri e Zaragoza, foi jornalista, escritor, poeta, filósofo, pensador e político revolucionário cubano; depois de ter passado um período em Paris, Nova Iorque, México e Guatemala, retornou à Cuba e participou da criação do Partido Revolucionário Cubano e da organização da Guerra de [18]95 ou Gerra Necessária; por sua participação político-revolucionária sofreu nova detenção, tendo sido outra vez deportado para a Espanha; escreveu seus primeiros poemas por volta dos quinze anos, o soneto “10 de outubro” entre os quais; teve seus artigos e crônicas publicados no La Opinión Nacional, de Caracas Venezuela, La Nación, de Buenos Aires Argentina, e The Liberal Party, do México; em Caracas, fundou a Revista Venezolana, com duração de apenas dois números; em Nova Iorque, criou e publicou a revista infantil The Golden Age; suas obras: em poesia: Edad de oro (1878-1882), Ismaelillo (1881-1882), Versos sencillos (Versos simples, 1891), Flores del destierro (1878-1895), Versos Libres: 1878 — 1882 (publicados postumamemente, 1913), em prosa e outros: Abdala (drama em 1 ato, em versos octossílabos, 1869), El presidio político en Cuba (ensaio, 1871), La Adúltera (drama em versos octossílabos, 1873), Amor con amor se paga (drama em versos, 1875), Amistad funesta (romance, publicado em fascículos no jornal El Latino Americano, de maio a setembro de 1885), Nuestra América (1891) e outros títulos; o poeta “é considerado o precursor do Modernismo na América Latina, movimento literário que explodiria no continente latino-americano com Rubén Darío [poeta nicaraguense]”; José Martí, com algumas prisões e deportações, viveu boa parte de sua vida no exílio.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Benjamin Péret: Eu

 
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[traduzido por Sérgio Lima e Pierre Clemens]

Entre os desejos simples como uma alface que se ergue acima das
     grandes árvores
o amanhã afogado no cimento escarrado pelos padeiros que não têm pelos no queixo como um pitu não tem
     cofrezinho
entre todas essas uvas que me lembram um mendigo na porta de um
     palacete
dois olhos de pedra azulada pelo último quarto
     minguante
comem lentamente os cogumelos que crescem
     sossegadamente
no interior do pequeno mapa-múndi
animado pelo álcool de tua voz onde dançam os ludiões
Que um leve sol de uva-espim se ergua através da grande roda dos
     teus cílios
que só sabe moer o café
que eu queria beber como um funil quero dizer como um
     marzipã
maior que tua imagem no armário onde tento
     dormir
mas que se perde no cemitério de assombrações
como uma lata de leite condensado num forno de cal e ceifo as pedras do calçamento mais claras que um vôo de
     libélulas*
atravessando uma nuvem de bandeiras negras desbotadas como um pepino em conserva desde a morte de meu
     avô
basta um reflexo aparecer num copo de vinho bordeaux na paisagem onde me procuro como um cão correndo atrás da
     cauda
e as brigadas centrais de aparelhos de rádio
que de ordinário só sabem rosnar como
     enterros
cantarolarão nas minhas orelhas abertas como uma concha que vai-se
     rebentar
Rosa está aí

Benjamin Perét

Je

Parmi les désirs simples comme une salade qui se dresse au-dessus des
     grands arbres
demain noyé dans le ciment craché par les boulangers qui n’ont pas plus de poils au menton qu’une écrevisse n’a de
     tirelire
parmi tous ces raisins qui me rappellent un mendiant à la porte d’un
     hôtel particulier
deux yeux de pierre bleuie par le dernier
     quartier
mangent lentement les champignons qui croissent
     paisiblement
à l’intérieur de la petite mappemonde
animée par l’alcool de ta voix où dansent des ludions
Qu’un léger soleil d’épine-vinette se lève à travers la grande roue de tes
     cils
qui ne sait plus que moudre le café
que je voudrais boire comme un entonnoir je veux dire un
     massepain
plus grand que ton image dans le placard où j’essaie de
     dormir
mais qui se perd dans le cimetière aux fantômes
comme une boîte de lait condensé dans un four à chaux
et je moissonne les pavés plus clairs qu’un vol de
     demoiselles
traversant une nuée de drapeau grecs délavés
comme un cornichon conservé depuis la mort de mon
     grand-père
qu’un reflet apparaisse dans un verre de bordeaux dans le paysage où je me cherche comme un chien qui court après sa
     queue
et les brigades centrales d’appareils de T. S. F.
qui d’ordinaire ne savent que grogner comme des
     enterrements
fredonneront à mes oreilles ouvertes comme un coquillage qui va
     crever
Rosa est là

(Je sublime — 1936)
[Oeuvres completes, tome 2: Benjamin Péret — 1971]

* Nota dos tradutores Sérgio Lima e Pierre Clemens: Demoiselle: palavra plurissemântica podendo significar, no contexto, o inseto, a donzela ou senhorita, o aparelho para colocar pedras ou placas no calçamento. A palavra também é usada como denominação genérica para aviões e planadores, a partir da nomenclatura estabelecida por Santos Dumont.
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Amor sublime — Poesias [bilíngue] e Ensaio: Benjamin Péret, Organização e Apresentação de Jean Puyade, Pequeno texto “à guisa de Introdução”, por André Breton [nota transcrita de Anthologie de l’humour noir], Tradução de Sérgio Lima e Pierre Clemens, 1985, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Victor Maurice Paul Benjamin Péret (1899 1959), francês de Rezé, uma criança resistente à forte sujeição escolar, entre 1912 e 1913 frequentou a Arts et métiers (École Livet), teve ‘breve passagem por uma escola de desenho industrial” e, sem demonstrar interesse nos estudos, abandonou-os, foi importante poeta do movimento surrealista francês e militante trotskista; entre 1914 e 1918, alistou-se, foi designado para atuar na guerra e, num deslocamento do seu regimento, em uma estação entre dois trens encontrou em um banco “um exemplar abandonado da revista Sic contendo poemas de Apollinaire”, permaneceu na guerra até o fim e filiou-se ao Movimento Dadá; desde então passou a tomar contato e participar do convívio dos dadaístas e, logo após, dos surrealistas; de sua biografia, consta que em novembro de 1918 teve publicado seu primeiro poema, Crépuscule, em La Tramontane — revue de l’Association des Jeunes; foi em 1924 que Péret, “ao lado de seus companheiros franceses”, fundou o Movimento Surrealista; entre 1924 e 1929, colaborou no Petit Parisien, foi coeditor da revista La Révolution surréaliste; Benjamin Péret, casado com a cantora lírica Elsie Houston, brasileira, residiu no Rio de Janeiro em duas ocasiões: entre 1929 1931 e 1955 1956, aqui, atuando ao lado dos artistas plásticos e militantes trotskistas Mario Pedrosa, Lívio Xavier e Aristides Lobo, foi um dos cofundadores da Liga Comunista (Oposição de Esquerda), de orientação trotskista; em sua primeira estada no Brasil, o poeta foi preso “acusado de ser um agente comunista” e deportado para a França; Perét participou na primeira guerra e na guerra civil espanhola; com a França ocupada pelos nazistas, na segunda guerra, o poeta viveu no México entre 1942 e 1947; suas obras: publicou cerca de 20 livros, entre os quais Le Passager du transatlantique (1921), 152 Proverbes mis au goût du jour (com Paul Éluard, 1925), Le Grand Jeu (1928), Ne visitez pas l’exposition coloniale (1931), De derrière les fagots (1934), Je sublime (16 poemas, 1936), Je ne mange pas de ce pain-là (1936), Dernier malheur dernière chance (1945), Un point c’est tout (11 poemas, 1946), Les syndicats contre la révolution (1952), Le Livre de Chilam Balam de Chumayel (1955), Anthologie de l’amour sublime (1956) ...

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Ascenso Ferreira: A cavalhada

 
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Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis,

Alegria nervosa de bandeirinhas trêmulas!
Bandeirinhas de papel bulindo no vento!…
Foguetes do ar…

"De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai começar!"

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis…

Lá vem Papa-Légua em toda carreira
e vem com os arreios luzindo no sol!
Danou-se! Vai tirar a argolinha!
Pra quem será?

Lá vem Pé-de-Vento!
Lá vem Tira-Teima!
Lá vem Fura-Mundo!
Lá vem Sarará!

Passou lambendo!
Se tivesse cabelo tirava!…
Andou beirando!…
Tirou!!!

Música, seu mestre!

Foguetes, moleque!
Palmas, negrada!
Tiraram a argolinha!
Foi Sarará!

Fitas e fitas…
Fitas e fitas…
Fitas e fitas…

                 Roxas,
                        verdes,
                                brancas,
                                        azuis…

Viva a cavalhada!
Vivoôôô!!!
“De ordem do Rei dos Cavaleiros,
a cavalhada vai terminar!”


* Nota da edição — Vocabulário:
Cavalhada — Desfile a cavalo, corrida de cavaleiros, jogo de canas, jogo de argolinhas ou de manilha (**). O autor assistiu em Bebedouro, arredores de Maceió, Alagoas, janeiro de 1952, a uma cavalhada. “Os cavaleiros, sempre em número par, vestem branco, e os prêmios simbólicos são faixas de fazendas vistosas, na maioria azuis e encarnadas, cores que dividem as duas alas. Cada ala tem o seu maquinador, reminiscência do “mantenedor” clássico. O maquinador da direita é do cordão encarnado, e denomina-se Roldão obrigatoriamente, e o da esquerda, do azul, Oliveiros. Depois da corrida de argolinhas, os cavaleiros em ordem foram render graças diante da Capela, etc.”.
(**) Do “Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895 1965), pernambucano de Palmares, Zona da Mata, foi funcionário público, poeta, letrista-compositor, declamador e cantador dos próprios versos; em 1911, publicou seu primeiro poema ‘Flor fenecida’ no jornal A Notícia, de Palmares e, depois, colaborou com o Diário de Pernambuco e outros jornais; participou do Movimento Modernista de Pernambuco; suas obras: Catimbó (1927), Cana Caiana (1939), Xenhenhém (1951), Poemas 1922 — 1951 (1951), O Maracatu (publicação póstuma, 1986) ...; como letrista, teve poemas musicados por Heitor Villa Lobos (O Trem de Alagoas), Alceu Valença (Vou danado pra Catende, refrão de ‘O trem de Alagoas’), Hekel Tavares (Chove chuva!), Capiba (Onde o sol descamba) e outros compositores.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Augusto dos Anjos: Sonetos I [a meu Pai doente], II [a meu Pai morto] e III

 
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I

A meu Pai doente

Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!

Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!

Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!

II

A meu Pai morto

Madrugada de Treze de Janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu Pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
“Acorda-o!” deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu...

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

III

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Microrganismos fúnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!...

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgíacos festins!...

Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

(Eu — 1912)

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Toda a Poesia de Augusto dos Anjos — Estudo crítico de Ferreira Gullar (Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina) e Apresentação de Otto Maria Carpeaux, 1976, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro — RJ; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transferiu-se para a capital da Paraíba, passou a dar aulas particulares e foi nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assumiu o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina MG, foi nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continuou a dar aulas particulares de Português, Francês, Inglês, Grego, Latim; seus poemas, e alguma prosa, foram publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio, Nonevar, A União, todos da Paraíba, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Sylvia Plath: Lesbos

 
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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes
e Maurício Arruda Mendonça]

Safadeza na cozinha!
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel 
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha  olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir 
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.

Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.

O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico,
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.

O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.

Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso.
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.

Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."

Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar,
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras.

Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.

Sylvia Plath

Lesbos

Viciousness in the kitchen!
The potatoes hiss.
It is all Hollywood, windowless,
The fluorescent light wincing on and off like a terrible migraine,
Coy paper strips for doors
Stage curtains, a widow’s frizz.
And I, love, am a pathological liar,
And my child look at her, face down on the floor,
Little unstrung puppet, kicking to disappear
Why she is schizophrenic,
Her face is red and white, a panic,
You have stuck her kittens outside your window
In a sort of cement well
Where they crap and puke and cry and she can’t hear.
You say you can’t stand her,
The bastard’s a girl.
You who have blown your tubes like a bad radio
Clear of voices and history, the staticky
Noise of the new.
You say I should drown the kittens. Their smell!
You say I should drown my girl.
She’ll cut her throat at ten if she’s mad at two.
The baby smiles, fat snail,
From the polished lozenges of orange linoleum.
You could eat him. He’s a boy.
You say your husband is just no good to you.
His Jew-Mama guards his sweet sex like a pearl.
You have one baby, I have two.
I should sit on a rock off Cornwall and comb my hair.
I should wear tiger pants, I should have an affair.
We should meet in another life, we should meet in air,
Me and you.

Meanwhile there’s a stink of fat and baby crap.
I’m doped and thick from my last sleeping pill.
The smog of cooking, the smog of hell
Floats our heads, two venemous opposites,
Our bones, our hair.
I call you Orphan, orphan. You are ill.

The sun gives you ulcers, the wind gives you T. B.
Once you were beautiful.
In New York, in Hollywood, the men said: 'Through?
Gee baby, you are rare.'
You acted, acted for the thrill.
The impotent husband slumps out for a coffee.
I try to keep him in,
An old pole for the lightning,
The acid baths, the skyfuls off of you.
He lumps it down the plastic cobbled hill,
Flogged trolley. The sparks are blue.
The blue sparks spill,
Splitting like quartz into a million bits.

O jewel! O valuable!
That night the moon
Dragged its blood bag, sick
Animal
Up over the harbor lights.
And then grew normal,
Hard and apart and white.
The scale-sheen on the sand scared me to death.
We kept picking up handfuls, loving it,
Working it like dough, a mulatto body,
The silk grits.
A dog picked up your doggy husband. He went on.

Now I am silent, hate
Up to my neck,
Thick, thick.
I do not speak.
I am packing the hard potatoes like good clothes,
I am packing the babies,
I am packing the sick cats.
O vase of acid,
It is love you are full of. You know who you hate.
He is hugging his ball and chain down by the gate
That opens to the sea
Where it drives in, white and black,
Then spews it back.
Every day you fill him with soul-stuff, like a pitcher.
You are so exhausted.

Your voice my ear-ring,
Flapping and sucking, blood-loving bat.
That is that. That is that.
You peer from the door,
Sad hag. 'Every woman’s a whore.
I can’t communicate.'

I see your cute décor
Close on you like the fist of a baby
Or an anemone, that sea
Sweetheart, that kleptomaniac.
I am still raw.
I say I may be back.
You know what lies are for.

Even in your Zen heaven we shan’t meet.

18 October 1962
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Sylvia Plath: Poemas, bilíngue, Organização, Tradução, Ensaios e Notas de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça, 2ª edição, 2ª reimpressão, 2007, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Sylvia Plath (1932 1963), estadunidense de Boston, Massachusets, estudou no Smith College de Boston e no Newnham College da Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi poeta, romancista e contista; seu primeiro poema foi publicado em 1940, seu primeiro conto, em 1950; também em 1950, seu poema Bitter Strawberries foi publicado pelo Christian Science Monitor, jornal diário de alcance nacional, e a poeta iniciou sua dedicação integral à literatura; de 1953 a 1961, teve textos publicados em jornais e revistas: Mademoiselle [revista feminina], The Lyric, Grecourt Review, Smith Review, The Christian Science Monitor, Arts in Society, The Atlantic Monthly e Encounter; desde 1956 viveu na Inglaterra após se casar com o britânico Ted Hughes, também poeta; suas obras: The Colossus and Other Poems (1960), The Bell Jar (romance um tanto autobiográfico, com o pseudônimo de Victoria Lucas, 1963), Ariel (coleção de poemas, edição póstuma, 1965), The Collected Poems (edição póstuma, obra poética completa, 1981) e outros textos; Sylvia Plath foi a primeira mulher a receber postumamente o Prêmio Pulitzer, em 1982, por The Collected Poems; reincidente em tentativas de suicídio, a poeta, que mais de uma vez foi interna e obteve tratamento em casa de saúde mental, concretizou seu propósito suicidando-se em 11 de fevereiro de 1963.