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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Guillaumme Apollinaire: Salomé

 
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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

Para que uma vez mais João Batista sorria,
Senhor, eu dançarei melhor que um serafim,
Mãe, por que estás imersa em tal melancolia,
vestida de condessa e ao lado do delfim?

Meu coração só de escutá-lo, quando eu vinha
dançar junto ao Funchal, batia angustiado.
Eu lhe bordara lírios numa bandeirinha
destinada a flutuar no alto do seu cajado.

E agora, para quem farei lírios bordados?
Seu bordão refloresce às margens do Jordão.
Vieram prendê-o, ó Rei Herodes, teus soldados,
e em meu jardim lírios murcharam desde então.

Vinde, todos comigo, além, sob os quincôncios…
           Não chores mais, lindo bufão de reis;
em vez do guizo, empunha esta cabeça e dança!
Mãe, sua fronte fria está. Não lhe toqueis.

Senhor, ide na frente, e que a guarda nos siga.
Abriremos um fosso e nele a enterraremos
entre flores, e, em roda, em torno dançaremos,
dançaremos até que eu perca a minha liga,
           o rei a tabaqueira,
           a infanta o seu rosário
           e o cura o seu breviário.

Guillaumme Apollinaire

Salomé

Pour que sourie encore une fois Jean-Baptiste
Sire je danserais mieux que les seraphins
Ma mère dites-moi pourquoi vous êtes triste
En robe de comtesse à côté du Dauphin

Mon coeur battait battait très fort à sa parole
Quand je dansais dans le fenouil en écoutant
Et je brodais des lys sur une banderole
Destinée à flotter au bout de son bâton

Et pour qui voulez-vous qu’à présent je la brode
Son bâton refleurit sur les bords du Jourdain
Et tous les lys quand vos soldats ô roi Hérode
L’emmenèrent se sont flétris dans mon jardin

Venez tous avec moi là-bas sous les quinconces
           Ne pleure pas ô joli fou du roi
Prends cette tête au lieu de ta marotte et danse
N’y touchez pas son front ma mère est déjà froid

Sire marchez devant trabants marchez derrière
Nous creuserons un trou et l’y enterrerons
Nous planterons des fleurs et danserons en rond
Jusqu’à l’heure où j’aurai perdu ma jarretière
           Le roi sa tabatière
           L’infante son rosaire
           Le curé son bréviaire

(Poème d’abord publié en 1905 avant d’être
intégré dans le recueil Alcools [1913])
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial, 7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma Itália, dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris França, transitou por todos os gêneros literários poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; precursor do surrealismo, com sua arte colecionou amigos e colaboradores, entre os quais Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau e Marcel Duchamp; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; em 1903, participou de evento artístico-literário organizado pela revista La Plume, foi cofundador da revista Le Festin d’Esope; em 1907, publicou anonimamente Les Onze Mille Verges [romance erótico]; escreveu textos para o Paris Journal, o Le Mercure de France e outros periódicos; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; suas obras: L’Hérésiarque et Cie (contos, 1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, Alcools, 1913), Os Pintores Cubistas (Peintre cubistes, méditations esthétiques, 1913), O Poeta Assassinado (coleção de contos, Le Poète Assassiné, 1916), Os Seios de Tirésias (drama surrealista, Les Mamelles de Tirésias, 1917), Caligramas (coleção de poemas, Calligrammes, 1918) e outros títulos; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pediu alistamento e participou na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, tendo sido ferido em combate; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade francesa.

sábado, 14 de maio de 2022

Johann Wolfgang von Goethe: Canção dos soldados

 
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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

Cidades cercadas
de torres e praças!
Mentiras armadas
de encantos e graças!
Tomemos de assalto
o campo inimigo!
Se é grande o perigo
o prêmio é mais alto!
As trompas trovejam,
à voz de comando!
Os bravos pelejam
ou bailam cantando!
Como as cidadelas,
resistem as belas...
É tentar o assalto!
Se é forte o inimigo,
se é grande o perigo,
o prêmio é mais alto!

Goethe

Soldatenlied

Burgen mit hohen
Mauern und Zinnen,
Mädchen mit stolzen
Höhnenden Sinnen
Möcht' ich gewinnen!
Kühn ist das Mühen,
Herrlich der Lohn!
Und die Trompete
Lassen wir werben,
Wie zu der Freude,
So zum Verderben.
Das ist ein Stürmen!
Das ist ein Leben!
Mädchen und Burgen
Müssen sich geben.
Kühn ist das Mühen,
Herrlich der Lohn!
Und die Soldaten
Ziehen davon.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Paul Verlaine: No passeio

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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

Pálido, o céu e as árvores delgadas
parecem rir das nossas roupas suaves
que, preguiçosas, vão a voar como aves
em movimentos de asas espalmadas.

A brisa enruga o tanque, ao perpassar.
E o sol, que na alameda se insinua
e que a sombra das tílias atenua,
discreto, aos nossos pés vem expirar.

Sutis galanteadores inconstantes,
com as belas, ardilosos, alternando,
vamos palrando alegremente em bando,
e os amantes provocam as amantes,

cuja mãozinha, às vezes, num assomo,
sabe vibrar um piparote, o qual
é logo pago em beijos, por sinal
que no dedinho mínimo, e, enfim, como

tudo isso é de uma extravagância louca,
elas nos punem com um olhar gelado,
com o qual contrasta, aliás, a nosso agrado,
o momo clementíssimo da boca.

Paul Verlaine

A la promenade

Le ciel si pâle et les arbres si grêles
Semblent sourire à nos costumes clairs
Qui vont flottant légers avec des airs
De nonchalance et des mouvements d’ailes.

Et le vent doux ride l’humble bassin,
Et la lueur du soleil qu’atténue
L’ombre des bas tilleuls de l’avenue
Nous parvient bleue et mourante à dessein.

Trompeurs exquis et coquettes charmantes,
Cœurs tendres mais affranchis du serment,
Nous devisons délicieusement,
Et les amants lutinent les amantes

De qui la main imperceptible sait
Parfois donner un soufflet qu’on échange
Contre un baiser sur l’extrême phalange
Du petit doigt, et comme la chose est

Immensément excessive et farouche,
On est puni par un regard très sec,
Lequel contraste, au demeurant, avec
La moue assez clémente de la bouche.
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Festas Galantes — Paul Verlaine, Tradução de Onestaldo de Pennafort, 1983, 3ª edição revista, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Paul Verlaine: A alameda

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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

Pintada e empoada como em pastorais de outrora,
frágil dentro dos nós das fitas e laçadas,
na alameda onde o musgo os bancos descolora,
ela passa, sob as ramagens ensombradas,
tão lânguida! e com os mil ademanes airosos
que é hábito ter com os periquitos preciosos.
Arrasta longa cauda azul em derredor.
E às mãos, cheias de anéis, machuca um leque ornado
de motivos sensuais, de um sabor tão alado
que ela sorri, cismando, a cada pormenor.
 Loura, em suma. O nariz pequeno e a rosa fosca
da boca entre orgulhosa e ingênua, dão-lhe um ar
petulante. Aliás, mais vivo do que a mosca
que lhe reanima um pouco o inexpressivo olhar.

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L’allée

Fardée et peinte comme au temps des bergeries,
Frêle parmi les nœuds énormes de rubans,
Elle passe, sous les ramures assombries,
Dans l’allée où verdit la mousse des vieux bancs,
Avec mille façons et mille afféteries
Qu’on garde d’ordinaire aux perruches chéries.
Sa longue robe à queue est bleue, et l’éventail
Qu’elle froisse en ses doigts fluets aux larges bagues
S’égaie un des sujets érotiques, si vagues
Qu’elle sourit, tout en rêvant, à maint détail.
 Blonde, en somme. Le nez mignon avec la bouche
Incarnadine, grasse, et divine d’orgueil
Inconscient.  D’ailleurs plus fine que la mouche
Qui ravive l’éclat un peu niais de l’œil.
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Festas Galantes — Paul Verlaine, Tradução de Onestaldo de Pennafort, 1983, 3ª edição revista, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

sábado, 20 de julho de 2019

Paul Verlaine: Os indolentes

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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

“Ora! Burlando os nossos fados,
queres? morramos abraçados!
 A proposta não é vulgar.

 Logo é boa. Morramos, pois,
qual nos Decamerone, os dois.
 Hi! Hi! que amante singular!

 Singular, não sei. Serei, antes,
o mais perfeito dos amantes.
Então, morremos juntos? Vamos?

 Gracejais e falais tão bem
quanto amais, meu senhor; porém,
se vos não pesa, emudeçamos!”

Assim, nessa tarde, enlaçados,
Tirso e Dorimênia, sentados
junto a dois silvanos hilares,

perderam  tolos!  afinal
uma morte sensacional.
Hi! Hi! que amantes singulares!

Paul Verlaine

Les indolents

“Bah! malgré les destins jaloux,
Mourons ensemble, voulez-vous? 
 La proposition est rare.

 Le rare est bon. Donc mourons
Comme dans les Décamérons.
 Hi! hi! hi! quel amant bizarre! 

 Bizarre, je ne sais. Amant
Irréprochable, assurément.
Si vous voulez, mourons ensemble?

 Monsieur, vous raillez mieux encor
Que vous n’aimez, et parlez d’or;
Mais taisons-nous, si bon vous semble? 

Si bien que ce soir-là Tircis
Et Dorimène, à deux assis
Non loin de deux silvains hilares,

Eurent l’inexpiable tort
D’ajourner une exquise mort.
Hi! hi! hi! les amants bizarres!
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Festas Galantes — Paul Verlaine, Tradução de Onestaldo de Pennafort, 1983, 3ª edição revista, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844 1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, influenciado inicialmente pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.

sábado, 4 de maio de 2019

Paul Verlaine: Ouve a canção em doce clave que para agradar-te é que chora . . .

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[traduzido por Onestaldo de Pennafort]

I

Ouve a canção em doce clave
que para agradar-te é que chora:
frêmito de água, alegre embora,
entre musgos flui, mansa e grave.

Familiar e amada (seria?)
era outrora essa voz. Velada
como uma viúva desolada,
ei-la hoje, e altiva, todavia.

E, através do véu que a envolvê-la
à outonal aragem palpita,
ora esconde ou mostra à alma aflita
a verdade, como uma estrela.

Diz essa voz reconhecida
que o que vale é só a bondade,
e que a inveja, como a maldade,
para nada serve na vida.

Ela fala também da glória
de ser simples sem outro intento,
de bodas de ouro e o encantamento
de uma paz feliz sem vitória.

Acolhe a voz que no seu canto
epitalâmico persiste.
Tornar uma alma menos triste
a quem o faz conforta tanto!

É fugidia e se recata,
a alma que em silêncio padece.
E que belo exemplo oferece!...
Olha, escuta a canção sensata.

Sabedoria — 1880

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I

Écoutez la chanson bien douce
Qui ne pleure que pour vous plaire.
Elle est discrète, elle est légère:
Un frisson d'eau sur de la mousse!

La voix vous fut connue (et chère?),
Mais à présent elle est voilée
Comme une veuve désolée,
Pourtant comme elle encore fière,

Et dans les longs plis de son voile
Qui palpite aux brises d'automne,
Cache montre au cœur qui s'étonne
La vérité comme une étoile.

Elle dit, la voix reconnue,
Que la bonté c'est notre vie,
Que de la haine et de l'envie
Rien ne reste, la mort venue.

Elle parle aussi de la gloire
D’être simple sans plus attendre,
Et de noces d’or et du tendre
Bonheur d’une paix sans victoire.

Accueillez la voix qui persiste
Dans son naïf épithalame
Allez, rien n'est meilleur à l'âme
Que de faire une âme moins triste!

Elle est en peine et de passage
L'âme qui souffre sans colère,
Et comme sa morale est claire!...
Écoutez la chanson bien sage.

Sagesse — 1880
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Festas Galantes — Paul Verlaine, Tradução de Onestaldo de Pennafort, 1983, 3ª edição revista, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Paul Marie Verlaine (1844  1896), francês nascido em Metz, educou-se no Liceu Bonaparte (atual Liceu Condorcet), em Paris, trabalhou como funcionário público e desde cedo começou a escrever poesias, no início influenciado pelo parnasianismo; considerado um dos expoentes da poesia e literatura francesa, usou a expressão poètes maudits (poetas malditos) para se referir aos poetas de sua época e de seu convívio Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Paul Valery, ... , grupo ao qual ele se incluía, e que privilegiavam a luta contra as convenções poéticas vigentes e sofriam reprimendas sociais por isso, tendo sido muitos deles ignorados pelos críticos; só posteriormente, em 1886, com a publicação do Manifesto Simbolista, por Jean Moréas, o termo "simbolismo" passou a nominar aquele novo ambiente literário; Paul Verlaine escreveu e publicou em poesia, Poèmes Saturniens (1866), Les Amies (1867), Fêtes Galantes (1869), La Bonne Chanson (1870), Romances Sans Paroles (1874), Sagesse (1880), Jadis et naguère (1884), Amour (1888), Parallèlement (1889) e outros títulos, e, em prosa, Les Poètes maudits (1884), Louise Leclercq (1886), Les Memoires d'un veuf (1886), Mes hôpitaux (1891), Mes prisons (1893), Quinze jours en Hollande (1893) etc.; o poeta, que foi casado com Mathilde Mauté, participou da Comuna de Paris sem ser atuante nas ruas, teve relacionamento sentimental amoroso conturbado com Rimbaud e o feriu com dois tiros, foi preso e encarcerado e, nos anos finais de sua vida, Paris o viu dependente de drogas e de alcoolismo, vivendo em bairros pobres e se socorrendo em hospitais públicos.