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[traduzido por Onestaldo de
Pennafort]
Para que uma vez mais João Batista
sorria,
Senhor, eu dançarei melhor que um
serafim,
Mãe, por que estás imersa em tal
melancolia,
vestida de condessa e ao lado do
delfim?
Meu coração só de escutá-lo, quando
eu vinha
dançar junto ao Funchal, batia
angustiado.
Eu lhe bordara lírios numa
bandeirinha
destinada a flutuar no alto do seu
cajado.
E agora, para quem farei lírios bordados?
Seu bordão refloresce às margens do Jordão.
Vieram prendê-o, ó Rei Herodes, teus soldados,
e em meu jardim lírios murcharam desde então.
Vinde, todos comigo, além, sob os quincôncios…
Não chores mais, lindo
bufão de reis;
em vez do guizo, empunha esta cabeça e dança!
Mãe, sua fronte fria está. Não lhe toqueis.
Senhor, ide na frente, e que a guarda nos siga.
Abriremos um fosso e nele a enterraremos
entre flores, e, em roda, em torno dançaremos,
dançaremos até que eu perca a minha liga,
o rei a tabaqueira,
a infanta o seu rosário
e o cura o seu breviário.
Salomé
Pour que sourie encore une fois Jean-Baptiste
Sire je danserais mieux que les seraphins
Ma mère dites-moi pourquoi vous êtes triste
En robe de comtesse à côté du Dauphin
Mon coeur battait battait très fort à sa parole
Quand je dansais dans le fenouil en écoutant
Et je brodais des lys sur une banderole
Destinée à flotter au bout de son bâton
Et pour qui voulez-vous qu’à présent je la brode
Son bâton refleurit sur les bords du Jourdain
Et tous les lys quand vos soldats ô roi Hérode
L’emmenèrent se sont flétris dans mon jardin
Venez tous avec moi là-bas sous les quinconces
Ne pleure pas ô joli
fou du roi
Prends cette tête au lieu de ta marotte et danse
N’y touchez pas son front ma mère est déjà froid
Sire marchez devant trabants marchez derrière
Nous creuserons un trou et l’y enterrerons
Nous planterons des fleurs et danserons en rond
Jusqu’à l’heure où j’aurai perdu ma jarretière
Le roi sa
tabatière
L’infante son
rosaire
Le curé son
bréviaire
(Poème d’abord publié en 1905 avant d’être
intégré dans
le recueil Alcools [1913])
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Antologia de Poetas Estrangeiros — Seleção e Notas de Afonso
Telles Alves, [diversos autores e tradutores], Antologia da Literatura Mundial,
7ª edição, 1965, Livraria e Editora Logos Ltda., São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880 — 1918), nascido Wilhelm Albert
Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma — Itália, dramaturgo, romancista,
ensaísta e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris — França, transitou
por todos os gêneros literários — poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio,
crítica — e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX;
precursor do surrealismo, com sua arte colecionou amigos e colaboradores, entre
os quais Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau e Marcel Duchamp;
seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas,
panfletos e livros; em 1903, participou de evento artístico-literário organizado
pela revista La Plume, foi cofundador da revista Le Festin d’Esope; em 1907, publicou
anonimamente Les Onze Mille Verges [romance erótico]; escreveu textos para o Paris
Journal, o Le Mercure de France e outros periódicos; traduziu Pietro Aretino para
o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; suas obras:
L’Hérésiarque et Cie (contos, 1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, Alcools,
1913), Os Pintores Cubistas (Peintre cubistes, méditations esthétiques, 1913), O
Poeta Assassinado (coleção de contos, Le Poète Assassiné, 1916), Os Seios de Tirésias
(drama surrealista, Les Mamelles de Tirésias, 1917), Caligramas (coleção de poemas,
Calligrammes, 1918) e outros títulos; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pediu
alistamento e participou na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, tendo sido ferido
em combate; em 1916, por decreto de governo, concedeu-se ao poeta a nacionalidade
francesa.



