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terça-feira, 25 de junho de 2019

Maciel Monteiro: Formosa

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Formosa, qual pincel em tela fina
debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
formosa, qual jamais desabrochara
na primavera a rosa purpurina;

Formosa, qual se a própria mão divina
lhe alinhara o contorno e a forma rara;
formosa, qual jamais no céu brilhara
astro gentil, estrela peregrina;

formosa, qual se a natureza e a arte,
dando as mãos em seus dons, em seus lavores,
jamais soube imitar no todo ou parte;

mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!

(Poesias. Organização de José Aderaldo Castello, 1962, São Paulo:
Conselho Estadual de Cultura/Comissão de Literatura, pp. 82—83.)

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Maciel Monteiro, Série essencial 74, Academia Brasileira de Letras, Organização de André Seffrin, 2014, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Antônio Peregrino Maciel Monteiro (1804 1868), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Paris em Letras, Ciências e Medicina, foi médico, poeta, jornalista, orador, político e diplomata; como médico, clinicou em Recife; como jornalista, foi redator e colaborador de O Lidador, jornal do Partido Republicano, colaborador d’A Carranca, periódico político-moral-satírico-cômico, d’A União, órgão do Partido Conservador, d’O Progresso, revista social, literária e científica, todos de Recife, e de Álbum Sentimental e Revista Popular, ambos do Rio de Janeiro; foi diretor da Faculdade de Direito de Olinda; bibliografia: Poesias (Organização de João Batista Regueira e Alfredo de Carvalho, 1905), Poesias (Organização de José Aderaldo Castello, 1962)...; Maciel Monteiro exerceu funções públicas e diplomáticas; foi escolhido patrono da cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Maciel Monteiro: Amanhã

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Extremoso mancebo adorava
gentil moça, feitiço de amor;
era dama que em graças primava,
e primava também no rigor;
que esperanças constante acendia,
mas que nunca um favor concedia.

Dia e noite o mancebo gastava
em provar terno amor pela bela,
dia e noite o mancebo chorava.
Por deleites gozar ao pé dela!
mas, tão fera, quão linda e louçã,
ela sempre dizia: Amanhã!

Ah! senhora, exclamava o amante,
até quando quereis ver-me assim?
nem sequer o favor dum instante,
nunca, nunca tereis dó de mim?
Quando, pois, pagareis tanto afã?
E a cruel respondia: Amanhã!

Amanhã! esta frase do inferno,
já mil vezes de vós tenho ouvido,
já mil vezes amor louco e terno
abrasado vos tenho pedido,
mas, tão fera, quão linda e louçã,
vós dizeis rindo sempre: Amanhã!

Do horizonte limite afastado,
que debalde se quer conhecer,
de uma flor o botão desbotado,
que jamais flor aberta há de ser,
ironia, ilusão, frase vã,
eis o que é esse vosso: Amanhã!

Basta enfim de zombar. Eu vos amo,
como ama o favônio uma flor;
por gozar-vos ardente me inflamo,
junto a vós morrer quero de amor!
quando, pois, pagareis tanto afã?
e a cruel respondia: Amanhã!

E o mancebo esperava, esperava
que chegasse essa hora de amor;
cada dia mais terno voltava
a pedir da ternura o penhor;
mas tão fera, quão linda e louçã,
ela sempre dizia: Amanhã!

Chega um dia (era noite formosa),
tudo em doce sossego jazia,
‘stava a lua no céu radiosa,
bela dama entre flores dormia.
No jardim foi do sono apanhada,
pelas auras da noite embalada.

Junto dela ninguém ‘stá velando,
mas, por entre os arbustos viçosos,
os raminhos co’as mãos afastando,
vem o amante com passos cuidosos.
Ei-la ali a dormir descuidada!
Ei-lo ali com su’alma abrasada!

O que mais se passou ninguém viu,
sabe-o a lua que estava no céu;
só do amante um suspiro se ouviu...
e um ai terno que a moça gemeu...
E depois que algum tempo passou
todo em fogo o mancebo exclamou:

Ah! é pouco... Não basta um favor
para a chama que ardendo em mim vês?
Dizei quando, p’ra glória de amor,
dormireis no jardim outra vez!
E vermelha, qual flor de romã,
ela disse outra vez: Amanhã!

Rio de Janeiro, 1851.

(Poesias. Organização de José Aderaldo Castello, 1962, São Paulo:
Conselho Estadual de Cultura/Comissão de Literatura, pp. 4850.)

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Maciel Monteiro, Série essencial 74, Academia Brasileira de Letras, Organização de André Seffrin, 2014, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo  SP; Antônio Peregrino Maciel Monteiro (1804  1868), pernambucano de Recife, formado pela Universidade de Paris em Letras, Ciências e Medicina, foi médico, poeta, jornalista, orador, político e diplomata; como médico, clinicou em Recife; como jornalista, foi redator e colaborador de O Lidador, jornal do Partido Republicano, colaborador d’A Carranca, periódico político-moral-satírico-cômico, d’A União, órgão do Partido Conservador, d’O Progresso, revista social, literária e científica, todos de Recife, e de Álbum Sentimental e Revista Popular, ambos do Rio de Janeiro; foi diretor da Faculdade de Direito de Olinda; bibliografia: Poesias (Organização de João Batista Regueira e Alfredo de Carvalho, 1905), Poesias (Organização de José Aderaldo Castello, 1962)...; Maciel Monteiro exerceu funções públicas e diplomáticas; foi escolhido patrono da cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras.