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terça-feira, 26 de maio de 2026

Maranhão Sobrinho: Poetas Malditos

 
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Quando, pelo clamor dos meus pecados, tive
de, à Treva Inferior, descer, à voz do Eterno,
ralando-me do Mal no aspérrimo declive,
como um deus rebelado e tonto de falerno,
sobre os antros mais nus, como Alighieri, estive
suspenso, a contemplar o delírio eviterno
das pompas sensuais de Gomorra e Nínive,
situadas ao pé do Stramboli do Inferno...

Gritos e imprecações, que as chamas retalhavam,
como gládios de bronze, em bárbaras campanhas,
de entre as lavas de sangue e sulfo se elevavam,
enquanto, aos olhos meus, nos infernais retiros,
o fogo, devorando o ventre das montanhas,
dava uns tons de gangrena às asas dos vampiros...

Com as unhas lacerando a púrpura sangrenta,
que, dos ombros de auroque, em pregas, lhe caía,
vi Nero, inda exibindo a mesma fronte odienta
que, no incêndio de Roma, às chamas exibia...

Raivava como um cão, mostrando a saburrenta
língua e, a espaços, também, às escâncaras, ria
epiléptico, ao ver as almas em tormenta
atravessando o horror da satânica orgia
de fogo, no solar do Príncipe Demônio,
para, empós, como os cães corridos, lazarentos,
encolher-se, entrevendo o vulto do Petrônio,
que, arrepanhando a toga e erguendo a ebúrnea fronte,
ia e vinha, a cantar, nos antros* pestilentos
do Inferno, uma canção de amor de Anacreonte...

Entre uma legião de cetro e tonsuras,
Voltaire, viu-me e sorriu, com um sorriso endiabrado
de caveira, a expelir das órbitas escuras
ironias, de um tom de bronze avermelhado...

Blasfemava, estalando as hirtas ossaturas
do esqueleto e mostrando o braço descarnado,
num gesto de rebelde às lívidas alturas
e a enterrar-se ainda mais no Inferno, brado a brado...

Erguia, empós, o olhar da treva aos coruchéus
e escarrava, dizendo, em nojo, que o fazia
no orgulho de Lusbel, sobre a fronte de Deus!
E, quando assim falavam os seus lábios, à míngua
de fé, de gota em gota, assombrado, eu via
como um visgo de fogo a escorrer-lhe da língua...

Também lá te encontrei, Tristan Corbière, nas grutas
do Demônio, cantando umas canções remotas
como o oceano, que morde as praias de oiro, enxutas,
no virente esplendor das vivas bergamotas...

Tremia-te entre as mãos, em púrpuras volutas
de sons, a Harpa do Mal, fazendo sob as cotas
dos hoplitas do Inferno, o amor ao sangue e às lutas
triunfar transluminoso, em túmidos Eurotas...
Os seus olhos cruéis, em flamas de palhetas
de oiro jalde, varando as vastidões aflitas
silenciavam do fogo as púrpuras trombetas
de bronze, que, a planger, nas místicas oblatas
sangrentas do Demônio, em helicinas malditas,
acordavam do Inferno as furnas escarlatas...

Desbordes e Mallarmé oscularam-me a fronte
e passaram, por uma azul chama impelidos;
chamei-os e o rumor das lavas do Aqueronte
triste abafou-me a voz, cerceando-me os sentidos...
Quando acordei-me vi perto da negra fonte,
entre um vivo clamor de pragas e gemidos,
diante do inquieto olhar de um cérebro bifronte
com os olhos como dois santelmos acendidos...

Vi, momentos depois, em palidez exangue,
Rimbaud e Villiers de L’Isle-Adam, chorando,
e o seu pranto infernal era de lodo e sangue...
E, quando recuei de agro pavor, Lelian**
surgiu-me e, empós, se foi pelas trevas clamando:
Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do Simbolo,
págs. 169-176  1908)


Notas do Organizador Andrade Muricy:
  * Está: “outros”;
** Está “Lilian”. A alusão é a Verlaine.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Maranhão Sobrinho: Soror Teresa

 
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... E um dia as monjas foram dar com ela
morta, da cor de um sonho de noivado,
no silêncio cristão da estreita cela,
lábios nos lábios de um Crucificado...

Somente a luz de uma piedosa vela
ungia, como um óleo derramado,
o aposento tristíssimo de aquela
que morrera num sonho, sem pecado...

Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,
e ninguém soube de que dor escrava
morrera a divinal soror Teresa...

Não creio que, de amor, a morte venha,
mas, sei que a vida da soror boiava
dentro dos olhos do Senhor da Penha...

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do
Simbolo, págs. 23-24 — 1908)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

sábado, 14 de março de 2026

Maranhão Sobrinho: Satã

 
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Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,
cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,
vê-se o imenso solar sonolento e medonho
do dragão infernal das Princesas espúrias...

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho
desse antigo solar, de malditas luxúrias,
em que fulge o brasão heráldico do sonho1
não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

Sobre o mármore azul das colunas austeras,
que, em noivados de luz, o luar engrinalda2
brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

Velam desse dragão o oriental tesoiro,
sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,
dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça
do Simbolo, págs. 105-106 — 1908)


* Notas do Organizador Andrade Muricy:
1. Está sem a vírgula;
2. Idem.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Maranhão Sobrinho: Perdida

 
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Vais pelo Mundo, em Tentações sagradas,
os tristes corações perdendo em bando,
nos arrancos das Águias esfaimadas
sobre os rebanhos sem Pastor pairando...

Por onde passas, nesse orgulho pando,
vais poluindo as Almas descuidadas
e, sobre as curvas dos teus pés, calcando
as grossas Multidões bestializadas!

E após o carro dos teus Loiros deixas,
envolto na Epopéia da Miséria,
todo crivado de solenes Queixas...

o cadáver da Crença ensanguentado
na podridão das Mágoas, deletéria,
na Via Scelerata do Pecado!

(Estatuetas, págs. 127-128 — 1909)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís MA a Belém PA e Manaus AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Emilio Kemp: Almas Negras

 
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Abram-se as portas lôbregas do inferno,
Para as almas sem crença e sem bondade,
Para as almas forradas de maldade,
Escuras, negras, de um negror supremo.

Almas frias, de gelo, sempiterno,
Que um só raio de amor jamais invade
Pelos que sofrem fome e soledade,
Pelos que vivem sempre em pleno Inverno.

Sejam malditas, essas almas vesgas
Que a terra sujam de execráveis manchas...
Répteis cruzando pelo chão, de borco,

Não vislumbram, do céu, nem dúbias nesgas,
E só terão, na morte, amplas ensanchas
De entrar, uivando, nas entranhas do orco...

(Luz Suprema, págs.  55, 57-58. — 1938)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Emilio Kemp Larbeck Filho (1874 1955), nascido no Rio de Janeiro, formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Paraná, tendo exercido a profissão, mas também foi pedagogo, poeta, romancista, comediógrafo, crítico literário e jornalista; no jornalismo, trabalhou como redator no Cidade do Rio [jornal de José do Patrocínio], foi co-fundador de O Comércio e redator da Gazeta de Petrópolis, ambos em Petrópolis RJ; fundou a revista Avenida (Rio de Janeiro), redigiu O Fluminense (Niterói RJ), colaborou n’A Gazeta da Tarde, n’O Malho, n’A Imprensa, todos do Rio de Janeiro, e em outros periódicos; a partir de 1910, já em Porto Alegre RS, dirigiu e foi redator do Correio do Povo, dirigiu O Diário e Norte-Sul, fundou o jornal A Manhã, foi diretor da Imprensa Oficial, todos na capital gaúcha; ocupou cargos técnicos e administrativos em instituições ligadas à saúde pública e ao magistério, lecionou na Escola Superior de Comércio, na Escola Normal e na Escola Médico-Cirúrgica, dirigiu o Museu Julio de Castilhos, sempre em Porto Alegre; como poeta e literato, participou do simbolismo, colaborou na Revista Vera-Cruz [órgão simbolista], e ali subscreveu suas obras com o próprio nome e também com os pseudônimos Acúrcio Benigno e Baianave; escreveu e publicou: Matinal (teatro, em versos, 1898, 2ª edição em 1918), Poesia (1900, 2ª edição 1920), O Senhor Ministro (teatro, 1906), Pobre amor, o amor de Dona Amanda (romance ou novela, 1908), A Defesa da Saúde Pública no Rio Grande do Sul (tese acadêmica, 1916), Gente Alegre (comédia, teatro, 1918), Enciclopédia Brasileira de Educação — 6 volumes (compilação de trabalhos pedagógicos, 1922-1934), Luz Suprema (versos, 1938), Cantos de Amor ao Céu e à Terra (versos, 1943), A Boneca de Sofia e o Batizado (literatura infantil, 1950) e outros títulos, além de operetas e outros textos dispersos em folhetins e colunas de jornais e revistas da época.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cruz e Sousa: O padre

 
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A João Lopes

Um padre escravocrata!... Horror!

          Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo do Cristo...
          Um padre que comunga, que bate nos peitos, religiosamente, automaticamente, que se confessa, que jejua, que reza o  Orate fratres, que prega os preceitos evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula.
          Um escravocrata de... batina e breviário... horror!
          Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um prostíbulo...
          Um padre, amancebado com a treva, de espingarda a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho, como um garoto, para assassinar a consciência.
          Um canibal que pega nos instintos e atira-os à vala comum da noite da matéria onde se revolvem as larvas esverdeadas e vítreas da podridão moral.
          Um padre que benze-se e reza, instante a instante, que gagueja à frente do cadáver o aforismo de Horácio  Hodie mihi cras tibi.
          Um padre que deixando explosir todas as interjeições da ira, estigmatiza a abolição.
          Ela há de fazer-se malgrado os exorcismos crus dos padres escravocratas; depende de um esforço moral e os esforços morais são, quase sempre, para a alta filosofia, mais do que os esforços físicos o fio condutor da restauração política de um país!...
          O interesse egoístico de um indivíduo não pode prevalecer sobre o interesse coletivo de uma nação, disse-o um moço de alevantado talento, Artur Rocha.
          Não é com a ênfase dogmática do didatismo ou com a fraseologia tecnológica dos cinzelados folhetins de Teófilo Gautier que o trabalho da abolição se fará.
          Mas com a palavra educada, vibrante essa palavra que fulmina profunda, nova, salutar como as teorias de Darwin.
          Com a palavra inflamável, com a palavra que é o raio e dinamite, como o era na boca de Gambetta, a maior concretização do estupendo — depois do sol.
          A palavra que ri... de indignação; um riso convulso... de réprobo, funambulesco... de jogral.
          Um riso que atravessa séculos como o de Voltaire.
          Um riso aberto, franco, eloquentemente sinistro.
          O riso das trevas, na noite do calvário.
          O riso de um inferno... dantesco.
          Ouves, padre?...
          Compreendes, sacerdote?...
          Entendes, apóstolo?...
          Então para que empunhas o chicote e vais vibrando, vibrando, sem compaixão, sem amor, sem te lembrares daquele olhar doce e aflitivo que tinha sobre a cruz, o filho de Maria?...
          O filho de Maria, sabes?!...
          Aquele revolucionário do bem e aquele cordeiro manso, manso como um ósculo da alvorada nas grimpas da montanha, como o luar a se esbater num lago diamantino...
          Lembras-te?!...
          Era tão triste aquilo...
          Não era padre, ó padre?!...
          Não havia naquela suprema angústia, naquela dor cruciante, naquela agonia espedaçadora, as mesmas contorções de uma cólica frenética, os mesmos arrancos informes de um escravo?...
          Não compreendes se açoitares um mísero que for pai, uma desgraçada que for mãe, as bocas dos filhinhos, daquelas criancinhas negras, sintetizando o remorso, o aguilhão da tua consciência, se abrirão nuns gritos desoladores que, como uns bisturis envenenados, trespassar-te-ão as carnes?...
          Não compreendes que de seus olhos, acostumados a paralisarem-se ante o terror, irromperão as lágrimas, esse líquido precioso das alminhas inocentes?!!...
          Pois tu, nunca choraste?!...
          Nunca sentiste os engasgos de um soluço saltarem-te pela garganta, quando te lembras de trocar as tuas magníficas conquistas, os teus manjares especiais, os teus licores dulçorosíssimos pela noite escura, muito escura, onde grasnam surdamente as aves da treva, onde Dante se acentua no Lasciate ogni speranza, onde os espíritos vis desaparecem e os Homeros e Camões e Virgílios surgem e se levantam pelo braço hercúleo da posteridade, pelo fôlego intérmino e secular da História?
          Nunca?!...
          Sim, tu estás comigo, padre!...
          Estás!...
          És bondoso, eu sei, tens a alma tão serena e tão lúcida como uma imagem de N. S. da Conceição.
          Eu sei disso!...
          Olha, quando morreres se é que morres, irás de palmito e capela, na mudez dos justos e as virgens tímidas e cloróticas, entoando grave De profundis, murmurarão lacrimosas:
           Coitado, foi o pai carinhoso das donzelas...
          Requiescat in pace!...
          Que bonito será, não!...
          E depois o céu!
          Sim, porque tu irás para o céu!
          Não crês no céu, padre?
          Pois crê, esses filólogos mentem, têm princípios errôneos e tu, padre, és um sábio...
          Tu és bom...
          Porém... por Deus, como é que vendes a Cristo como um quilo de carne verde no mercado?!...
          Ah! É verdade, és muito pobre, andas com os sapatos rotos, não tens que comer e... és muito caridoso...
          Mas, escuta, vem cá:
          Eu tenho também minhas fantasias; gosto de sonhar às vezes com o azul.
          O Azul!...
          Deslumbro-me quando o sol se atufa no oceano, espadanando os raios purpureados, como flechas de fogo, pela enormidade côncava do espaço; inebrio-me quando a natureza com seu tropicalismo, ergue-se do banho de alvoradas, jorrando nos organismos de ouro o licor olímpico e santo do ideal, as músicas maviosíssimas e puras da inspiração, nos crânios estrelejados!...
          Pois façamos uma cousa:
          Eu escrevo um livro de versos que intitularei:

O abutre de batina

puros alexandrinos, todos iguais, corretos, com os acentos indispensáveis, com aquele tic da sexta, tipo elzevir, papel melado e ofereço-to, dou-to.
          Prescindo dos meus direitos de autor e tu o assinas!...
          Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo.
          Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e assim terás loiras para a tua subsistência, porque tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo nome um mimo qualquer.
          Faz isso, mas... não te metas com o abolicionismo; é a ideia que se avigora.
          Talvez digas, mastigando o teu latim:  Primo vivere deinde philosophari.
          Mas é porque tu és míope e os míopes não podem encarar o sol...
          Mas eu dou-te uns óculos, uns óculos feitos da mais fina pele dos negros que tu azorragas...
          Pode ser que a influência animal da matéria excite o espírito e que tu... vejas.
          Pode ser...
          Há cegos de nascença que veem... pelos olhos da alma.
          E se tu és padre e se tu és metafísico... deves ter alma...
          Compreendes?...
          Faz-se preciso que desapareçam os Torquemadas, os Arbues, maceradores da carne, como tu, padre.
          Em vez de prédicas beatíficas, em vez de reverências hipócritas, proclama antes a insurreição...
          Tens dentro de ti, bate-te no peito, nas palpitações da seiva, um coração que eu penso não ser um músculo oco.
          Vibra-o pois, fibra por fibra, se não queres que os meus ditirambos e sarcasmos, quentes, inflamados, como brasas, persigam-te eternamente, por toda a parte, no fundo de tua consciência, como uns outros medonhos Camilos de Zola; vibra-o se não queres que eu te estoure na cabeça um conto sinistro, negro de Edgar Poe.
          É tempo de zurzirmos os escravocratas no tronco do direito, a vergastadas de luz...
          Sejam-te as virtudes teologais, padre, a liberdade, a igualdade e a fraternidade maravilhosa trilogia do amor.
          Unge-te nas claridões modernas e expansivas dessas três veias artérias da verdadeira Filosofia Universal.

[texto publicado em Tropos e Fantasias — 1885]

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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Saturnino de Meireles: Templo Oculto

 
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A Gonçalo Jácome

Desce enfim a ti mesmo sem receio,
Como quem desce à própria sepultura,
Com esse riso vago de quem veio
Por entre os roseirais da desventura.

Desde sem ver a glória do torneio
Dos que só de ouro trazem a armadura,
Na luz consoladora do teu seio
Encontrarás a luz de outra ventura.

É na paz dessa eterna florescência
Que sentimos de perto a consciência
Como de Deus o misterioso vulto.

É por esse caminho iluminado
Que entramos afinal nesse noivado
Transpondo a porta desse templo oculto.

(Astros Mortos, págs. 39, 41-42 — 1903.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Saturnino Soares de Meireles Filho (1878 1906), nascido no Rio de Janeiro [cidade e estado], foi poeta, ensaísta e ativista do simbolismo; apesar de ter tido apenas um emprego modesto numa companhia de seguros, foi de uma dedicação absoluta a Cruz e Sousa, de quem era amigo e discípulo e a quem reservava a quarta parte de seu parco salário; sobre Saturnino, escreveu Andrade Muricy "Mais do que a sua produção, a sua ação garante-lhe durabilidade à memória."; em seu único livro publicado em vida, Astros Mortos (1903), o poeta Saturnino Meireles fez dedicatória ao paupérrimo poeta negro, chamando-o de "grande mestre e divino amigo"; morto Cruz e Sousa em 19 de março de 1898, pagou-lhe a edição de Evocações [publicada postumamente naquele ano] e contribuiu para a publicação de Faróis [1900]; adquiriu, no Cemitério São Francisco Xavier, o terreno onde se ergueu o mausoléu do amigo e, finalmente, foi um dos fundadores e sustentadores da revista Rosa-Cruz (1901 1904), a qual tinha a finalidade de cultuar a memória de Cruz e Sousa, seu ídolo; sem dúvida, chefe desse grupo, Saturnino acabou por se tornar um dos mais importantes ativistas do movimento simbolista; suas obras: Astros Mortos (sonetos, 1903), Intuições (edição póstuma, prosa: crítica, teoria ou história literária, 1906), e o poeta também deixou inéditos: Kyola [drama teatral], Meus Íntimos [prosa], Estufa Espiritual [poemas], Meu Arquivo [coletânea de artigos publicados em jornais e revistas]; teve textos publicados com o pseudônimo Satur.

sábado, 4 de outubro de 2025

Cruz e Sousa: Pacto de Almas *

 
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A Nestor Vítor
Por devotamento e admiração.
12 de outubro de 1897.

I
Para sempre!

Ah! para sempre! para sempre! Agora
não nos separaremos nem um dia...
Nunca mais, nunca mais, nesta harmonia
das nossas almas de divina aurora.

A voz do céu pode vibrar sonora
ou do Inferno a sinistra sinfonia,
que num fundo de astral melancolia
minh'alma com a tu'alma goza e chora.

Para sempre está feito o augusto pacto!
Cegos serenos do celeste tato,
do Sonho envoltos na estrelada rede.

E perdidas, perdidas no Infinito
as nossas almas, no Clarão bendito,
hão de enfim saciar toda esta sede...

II
Longe de tudo

É livres, livres desta vã matéria,
longe, nos claros astros peregrinos
que havemos de encontrar os dons divinos
e a grande paz, a grande paz sidérea.

Cá nesta humana e trágica miséria,
nestes surdos abismos assassinos
termos de colher de atros destinos
a flor apodrecida e deletéria.

O baixo mundo que troveja e brama
só nos mostra a caveira e só a lama,
ah! só a lama e movimentos lassos...

Mas as almas irmãs, almas perfeitas,
hão de trocar, nas Regiões eleitas,
largos, profundos, imortais abraços!

III
Alma das almas

Alma das almas, minha irmã gloriosa,
divina irradiação do Sentimento,
quando estarás no azul Deslumbramento,
perto de mim, na grande Paz radiosa?!

Tu que és a lua da Mansão de rosa
da Graça e do supremo Encantamento,
o círio astral do augusto Pensamento
velando eternamente a Fé chorosa;

Alma das almas, meu consolo amigo,
seio celeste, sacrossanto abrigo,
serena e constelada imensidade;

entre os teus beijos de etereal carícia,
sorrindo e soluçando de delícia,
quando te abraçarei na Eternidade?!

(Últimos Sonetos — 1905)


* Nota de Andrade Muricy: GT [jornal Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro — RJ], 22 mar. 1898.
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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Edgar Mata: Lembro-me desse misterioso poente . . .

 
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Lembro-me desse misterioso poente
Quando meus olhos sobre os teus pousados
Tinham presságios de uma Dor latente
E as agonias dos que são amados.

E a tarde morre sonolenta e fria
Como morreste de saudade e mágoas
E a lua triste como a Nostalgia
Chora na branca quietação das águas.

(Códice III, págs. 111-112.)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Edgar da Mata Machado (1878 1907), mineiro de Vila Rica (atual Ouro Preto), aprendeu as primeiras letras no Rio de Janeiro, estudou Humanidades no Colégio Aquino, também no Rio, foi poeta do Simbolismo e jornalista; de retorno a Minas, passou a integrar o grupo literário Jardineiros do Ideal que se formara na ainda jovem Belo Horizonte, cidade construída para ser a nova capital do Estado; o grupo Jardineiros do Ideal foi responsável pelo surgimento do Lótus, primeiro jornal literário da nova capital; em 1901 surgiu o Minas Artistica, cuja direção pertenceu a Edgar Mata; em 1902, foi fundada a Horus, revista “de feitio nitidamente simbolista” que teve a participação de Edgar Mata e outros; em 1903, o poeta, a convite de Afonso Arinos, seguiu para São Paulo e passou a fazer parte da redação do Comércio de São Paulo, periódico no qual escreveu crônicas diárias, sob o pseudônimo “Mário Corvo”; ainda em 1903, voltando para Minas, passou a residir em Diamantina, com sua avó paterna, e “ali viveu dolorosa boêmia, até completa obnubilação das faculdades mentais, falecendo repentinamente na madrugada de 26 de fevereiro de 1907, com a idade de 28 anos, quatro meses e sete dias”, conforme relato de Andrade Muricy, organizador deste Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro ...; Edgar Mata colaborou em numerosos jornais e revistas de Minas Gerais e de São Paulo, sua produção ainda permanece dispersa; “Reza a tradição familiar, a esse respeito, que o poeta, num acesso de desespero ou hipocondria, queimou os seus versos no pátio da sua casa de Diamantina. O pouco que existe foi salvo por suas irmãs e primas que acorreram. O que resta, presentemente em mãos de seu parente Professor Celso Cunha a quem devo a gentilíssima comunicação do material que apresento são três códices com poesias de Edgar Mata e de Otávio Mata, seu parente, copiadas por várias mãos femininas.”; é o que também nos conta Andrade Muricy.