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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Da Costa e Silva: Josafá

 
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A trombeta fatal os meus ouvidos chumba.
Sol Poente. Eu moribundo. Entra o cortejo roxo
Da Morte. O Padre meu irmão parece um mocho...
Rezas, Viático, a Cruz — passaportes da Tumba.

Choro da minha mãe — arrulhos de columba
Meus olhos a ninar... Fecho-os ao claror frouxo
Do círio bento e vejo, aos pulos, Satã Coxo,
Em roda do meu leito, à* espera que eu sucumba.

Deixa o corpo a alma e desce em espirais de tênia
Aos círculos do Inferno, à** maneira de um dobre
De sino, aos giros no ar... Dante faz-me uma nênia,

Voltaire, a assobiar, traça-me o necrológio
Verlaine, Mallarmé, Cruz e Sousa, Anto Nobre
Rezam juntos por mim num profano Eucológio.

(Sangue, pág. 77. — 1908)


Notas do Organizador Andrade Muricy:
  * Está sem acento;
** Idem.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários — o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife — PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos — crônicas e crítica literária — publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou, entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

domingo, 20 de setembro de 2026

Cecília Meireles: As palavras estão com seus pulsos imóveis. . . .

 
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As palavras estão com seus pulsos imóveis.
Caminharia a morte — e sempre o mesmo peso
e a mesma sombra fechariam meus pedidos.

Mas o sangue do amor tem sonos e silêncios,
Sabe do que aparece apenas porque passa:
espera sem temer que o universo se explique.

Mando-te um som de vida, em meus rios de espanto,
solitária de mim, repentina exilada,
com os enigmas ardendo entre inconstantes ondas.

Nada somos. No entanto, há uma força que prende
o instante da minha alma aos instantes da terra,
como se os mundos dependessem desse encontro,

desses prelúdios sobressaltados.

(Solombra, pág. 37 — 1963)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 — 1964), carioca do Bairro do Rio Comprido, diplomou-se pela Escola Normal, estudou Línguas, cursou o Conservatório de Música, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, jornalista, folclorista e tradutora; desde o curso primário a poeta criava versos; concluído o curso “com distinção e louvor, recebeu, em 1910, na Escola Estácio de Sá — recém construída e muito bem equipada —, uma medalha de ouro entregue por Olavo Bilac, inspetor escolar do distrito.”; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias, depois vieram Nunca mais... e Poema dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí e até 1939, seguiram-se extensas atividades literárias e também ligadas à educação (carreira docente): colaborou em vários jornais do Rio acerca dos temas educação, folclore e literatura infantil; seus textos, poéticos ou em prosa, compunham a estética simbolista da época, também se aproximou do modernismo [participou da revista Festa]; escreveu e publicou vários livros infantis, foi pioneira na criação de uma biblioteca especializada em literatura infantil no Rio de Janeiro, lecionou Literatura Brasileira em Portugal (Lisboa e Coimbra), foi nomeada professora de Literatura Luso-Brasileira da recém-fundada Universidade do Distrito Federal [extinta em 1939 e recriada em 1950, hoje compõe a UERJ] e ali também lecionou Técnica e Crítica Literária; a autora escreveu crônicas para O Jornal, Diário de Notícias (dirigiu página diária sobre assuntos da educação), A Manhã, Folha Carioca, todos do Rio, Folha da Manhã e Correio Paulistano, ambos de São Paulo; além das obras já acima citadas, Cecília Meireles também escreveu e publicou Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 — 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Giroflê, Giroflá (prosa lírica, 1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (coleção de poemas de temática infantil, 1964), Escolha o seu Sonho (prosa lírica, 1964), Inéditos (crônicas, 1968) e outros; a autora também escreveu obras dramáticas; como tradutora verteu para o português obras de Rilke, Virginia Woolf, García Lorca, Rabindranath Tagore, As Mil e Uma Noites [2 volumes, manuscritos árabes de várias autorias] etc.; Cecília Meireles recebeu premiações: Prêmio de Poesia da ABL — Academia Brasileira de Letras (em 1938, por Viagem, lançado em 1939), Prêmio Machado de Assis, da ABL (em 1964, post mortum, atribuído à obra toda); muitos de seus livros, em verso e prosa, foram traduzidos e publicados pelo mundo afora.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Da Costa e Silva: Depois da Luta

 
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Tenho no peito, abertas, mais de vinte
Chagas de dor e triste já descambo
Do Palácio do Amor, ferido e bambo,
Sofrendo ainda o derradeiro acinte...

As mulheres que, um lúcido requinte
Me mostraram nas faces cor de jambo
E que eu cantei em doce ditirambo,
Me apunhalaram na manhã seguinte...

Meu amor não foi mais do que um suplício...
Em lugar dos amores que eu previa,
Achei as falsas bacanais do Vício.

Hoje sou triste, amortecido e langue!
Ai! se eu soubesse nunca o transporia...
Vede este chão... É sangue! sangue! sangue!

(Sangue, pág. 78. — 1908)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários — o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife — PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos — crônicas e crítica literária — publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou, entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Maranhão Sobrinho: Os Raros

 
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Sangrando de Pesar, todos sangrando,
magros, lívidos  Cristos macerados, *
vão eles, como lázaros, chagados,
a miséria da Vida atravessando!

Romeiros da Descrença, fatigados,
levam no olhar as lágrimas chorando,
que as Dores, como incêndio bronzeados,
vão nos lábios tantálicos, secando...

Tântalos novos do ideal Falerno
do Amor, na sede, que os devora, ardente,
se saciam nas lágrimas do Inferno!

Vão pela Vida humílimas de rastros,
mas seus olhos embebem-se somente
na comunhão altíssima dos Astros...

(Estatuetas, págs. 99-100 — 1909)


* Nota do Organizador Andrade Muricy: Está sem a vírgula.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 — 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML — Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís — MA a Belém — PA e Manaus — AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Da Costa e Silva: Flumen Amoris

 
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O rio ideal do Sentimento,
Que sinto fluir nas minhas veias,
Vive num doce inundamento,
Enquanto as ninfas e as sereias
Cantam ao sol saudando as cheias
Do rio ideal do Sentimento.

Por sobre as águas claras, mansas
Do rio plácido e risonho,
Bóiam esteiras de esperanças,
Rosas divinas do meu sonho,
— Naus de aventura que deponho
Na rósea paz das águas mansas.

Cantando as vagas de um fulgor
De rubra e estranha esplendecência,
Do alegra sátiro do Amor
Foge a naiade* da Inocência...
Tenta escapar... mas ele vence-a
Buscando aumento ao9 seu fulgor...

Vivo comigo a interrogar:
De onde esta enchente se deriva?
De onde esta força que vem dar
Ao sangue, outrora pobre e esquiva
Fonte, uma vida inexpressiva?
E eu vivo sempre a interrogar...

Vivo a chamar comigo mesmo,
De onde este bem de que estou cheio?
E o pensamento vaga a esmo...
— Vem deste afeto que te veio
Encher de dúvida e receio...
Ouço uma voz dentre em mim mesmo.

E então diviso, e então descubro:
Vem, meu amor do nosso afeto
A inundação do rio rubro,
Sempre bravio e sempre inquieto;
— Nasceu do sonho predileto
Meu e de alguém que eu não descubro...

(Sangue, págs. 55-56. — 1908)


* Nota do Organizador Andrade Muricy: “Naiade”, e não “náiade”, para se manter ao verso a mesma cadência de todos os demais (pausas na 4ª e na 8ª sílaba). Aliás, está escrito “nayáde”, com acento na penúltima sílaba.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Antônio Francisco Da Costa e Silva (1885 — 1950), piauiense de Amarante, licenciado em Direito pela Faculdade de Recife — PE, funcionário concursado do Ministério da Fazenda, exerceu funções públicas no governo federal e foi poeta assentado em dois períodos literários — o Simbolismo e o Parnasianismo; de sua biografia, consta que o próprio “dizia ter tido educação severa e ter começado a se interessar pela poesia ainda criança”, já aos 14 anos ensinou “as primeiras letras a alguns meninos da vizinhança”; infantolescente, também aprendeu e dedicou-se à escultura em madeira e à pintura; aos 16 anos [1901] teve seus primeiros poemas publicados na Revista do Grêmio Literário Amarantino; em Teresina, concluiu os “preparatórios” no Liceu Piauiense, em 1906 seguiu para Recife — PE, fez matrícula na Faculdade de Direito, cursou três anos, interrompeu os estudos por força de sua aprovação em concurso e, a convite do governo federal, iniciou no serviço público em Belo Horizonte, depois São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis do Maranhão, Manaus e Porto Alegre; de volta a Recife, concluiu os estudos em Direito e se formou em 1913; teve seus textos — crônicas e crítica literária — publicados em jornais e revistas dos locais por onde andou, entre os quais o Correio da Manhã, O Malho, Ilustração Brasileira [do RJ], O Diário de Minas [MG], o Estado do Amazonas [AM], o suplemento do Diário de Notícias [foi co-diretor, RS] e outros; obras poéticas: Sangue ([coletânea de poemas escritos entre 1902-1908], 1908), Zodíaco (1917, premiado pela Academia Brasileira de Letras), Verhaeren ([poema/ensaio], 1917, publicado na revista Apollo), Pandora (1919), Verônica (1927), Antologia (seleção dos livros anteriores, 1934), Poesias Completas (coletânea póstuma e inéditos inacabados, 1950); o poeta, reconhecido como “Príncipe dos Poetas Piauienses [1928]”, também escreveu a letra do Hino do Piauí [1923] e foi o primeiro ocupante da Cadeira nº 21 da Academia Piauiense de Letras (1917); Da Costa e Silva, que “sempre fora franzino, frágil, nervoso”, desde o “início de 1932”, por causas emocionais e contingências havidas em seu cargo e no ambiente de trabalho, viu sua saúde se deteriorar, esteve “internado, em 1933, no Sanatório Botafogo [Rio de Janeiro]” e, sem esperanças médicas, passou seus últimos e longos 17 anos de vida com a “mente perturbada”.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Maranhão Sobrinho: Poetas Malditos

 
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Quando, pelo clamor dos meus pecados, tive
de, à Treva Inferior, descer, à voz do Eterno,
ralando-me do Mal no aspérrimo declive,
como um deus rebelado e tonto de falerno,
sobre os antros mais nus, como Alighieri, estive
suspenso, a contemplar o delírio eviterno
das pompas sensuais de Gomorra e Nínive,
situadas ao pé do Stramboli do Inferno...

Gritos e imprecações, que as chamas retalhavam,
como gládios de bronze, em bárbaras campanhas,
de entre as lavas de sangue e sulfo se elevavam,
enquanto, aos olhos meus, nos infernais retiros,
o fogo, devorando o ventre das montanhas,
dava uns tons de gangrena às asas dos vampiros...

Com as unhas lacerando a púrpura sangrenta,
que, dos ombros de auroque, em pregas, lhe caía,
vi Nero, inda exibindo a mesma fronte odienta
que, no incêndio de Roma, às chamas exibia...

Raivava como um cão, mostrando a saburrenta
língua e, a espaços, também, às escâncaras, ria
epiléptico, ao ver as almas em tormenta
atravessando o horror da satânica orgia
de fogo, no solar do Príncipe Demônio,
para, empós, como os cães corridos, lazarentos,
encolher-se, entrevendo o vulto do Petrônio,
que, arrepanhando a toga e erguendo a ebúrnea fronte,
ia e vinha, a cantar, nos antros* pestilentos
do Inferno, uma canção de amor de Anacreonte...

Entre uma legião de cetro e tonsuras,
Voltaire, viu-me e sorriu, com um sorriso endiabrado
de caveira, a expelir das órbitas escuras
ironias, de um tom de bronze avermelhado...

Blasfemava, estalando as hirtas ossaturas
do esqueleto e mostrando o braço descarnado,
num gesto de rebelde às lívidas alturas
e a enterrar-se ainda mais no Inferno, brado a brado...

Erguia, empós, o olhar da treva aos coruchéus
e escarrava, dizendo, em nojo, que o fazia
no orgulho de Lusbel, sobre a fronte de Deus!
E, quando assim falavam os seus lábios, à míngua
de fé, de gota em gota, assombrado, eu via
como um visgo de fogo a escorrer-lhe da língua...

Também lá te encontrei, Tristan Corbière, nas grutas
do Demônio, cantando umas canções remotas
como o oceano, que morde as praias de oiro, enxutas,
no virente esplendor das vivas bergamotas...

Tremia-te entre as mãos, em púrpuras volutas
de sons, a Harpa do Mal, fazendo sob as cotas
dos hoplitas do Inferno, o amor ao sangue e às lutas
triunfar transluminoso, em túmidos Eurotas...
Os seus olhos cruéis, em flamas de palhetas
de oiro jalde, varando as vastidões aflitas
silenciavam do fogo as púrpuras trombetas
de bronze, que, a planger, nas místicas oblatas
sangrentas do Demônio, em helicinas malditas,
acordavam do Inferno as furnas escarlatas...

Desbordes e Mallarmé oscularam-me a fronte
e passaram, por uma azul chama impelidos;
chamei-os e o rumor das lavas do Aqueronte
triste abafou-me a voz, cerceando-me os sentidos...
Quando acordei-me vi perto da negra fonte,
entre um vivo clamor de pragas e gemidos,
diante do inquieto olhar de um cérebro bifronte
com os olhos como dois santelmos acendidos...

Vi, momentos depois, em palidez exangue,
Rimbaud e Villiers de L’Isle-Adam, chorando,
e o seu pranto infernal era de lodo e sangue...
E, quando recuei de agro pavor, Lelian**
surgiu-me e, empós, se foi pelas trevas clamando:
Satã! Satã! Satã! Satã! Satã! Satã!

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do Simbolo,
págs. 169-176 — 1908)


Notas do Organizador Andrade Muricy:
  * Está: “outros”;
** Está “Lilian”. A alusão é a Verlaine.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 — 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML — Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís — MA a Belém — PA e Manaus — AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Maranhão Sobrinho: Soror Teresa

 
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... E um dia as monjas foram dar com ela
morta, da cor de um sonho de noivado,
no silêncio cristão da estreita cela,
lábios nos lábios de um Crucificado...

Somente a luz de uma piedosa vela
ungia, como um óleo derramado,
o aposento tristíssimo de aquela
que morrera num sonho, sem pecado...

Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,
e ninguém soube de que dor escrava
morrera a divinal soror Teresa...

Não creio que, de amor, a morte venha,
mas, sei que a vida da soror boiava
dentro dos olhos do Senhor da Penha...

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça do
Simbolo, págs. 23-24 — 1908)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 — 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML — Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís — MA a Belém — PA e Manaus — AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

sábado, 14 de março de 2026

Maranhão Sobrinho: Satã

 
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Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,
cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,
vê-se o imenso solar sonolento e medonho
do dragão infernal das Princesas espúrias...

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho
desse antigo solar, de malditas luxúrias,
em que fulge o brasão heráldico do sonho1
não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

Sobre o mármore azul das colunas austeras,
que, em noivados de luz, o luar engrinalda2
brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

Velam desse dragão o oriental tesoiro,
sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,
dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...

(Papéis Velhos ...roídos pela Traça
do Simbolo, págs. 105-106 — 1908)


* Notas do Organizador Andrade Muricy:
1. Está sem a vírgula;
2. Idem.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 — 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML — Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís — MA a Belém — PA e Manaus — AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Maranhão Sobrinho: Perdida

 
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Vais pelo Mundo, em Tentações sagradas,
os tristes corações perdendo em bando,
nos arrancos das Águias esfaimadas
sobre os rebanhos sem Pastor pairando...

Por onde passas, nesse orgulho pando,
vais poluindo as Almas descuidadas
e, sobre as curvas dos teus pés, calcando
as grossas Multidões bestializadas!

E após o carro dos teus Loiros deixas,
envolto na Epopéia da Miséria,
todo crivado de solenes Queixas...

o cadáver da Crença ensanguentado
na podridão das Mágoas, deletéria,
na Via Scelerata do Pecado!

(Estatuetas, págs. 127-128 — 1909)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; José Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho (1879 — 1915), maranhense de Barra do Corda, “frequentador irregular dos primeiros estudos no colégio do Dr. Isaac Martins, educador”, matriculou-se na Escola Normal de São Luís, se indispôs com professores, abandonou o curso, “aos poucos entregou-se à vida boêmia”, foi escritor, jornalista, funcionário público e poeta simbolista; em 1900, foi um dos fundadores da Oficina dos Novos [instituição precursora da AML — Academia Maranhense de Letras, agregava literatos], “boêmio notório, de vida desregrada”, “escrevia seus versos em bares, mesas de botequim ou qualquer ambiente em que predominasse álcool, papel e tinta”, andejou de São Luís — MA a Belém — PA e Manaus — AM; em Belém, trabalhou no jornal Notícias, colaborou na também paraense Folha do Norte e em outros periódicos de São Luís e mais estados, entre os quais a maranhense Revista do Norte; suas obras: Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo (1908), Estatuetas (1909) e Vitórias-Régias (1911), além de inúmeros poemas esparsos publicados em revistas e periódicos da época, nos três estados amazônicos; após idas e vindas, de retorno a Manaus, fixou-se e se tornou funcionário público estadual; Maranhão Sobrinho foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e Patrono da Cadeira nº 7 da Academia Amazonense de Letras ([antes Associação Literária, 1906, depois, Núcleo Amazonense de Letras], 1918); o poeta, e outros intelectuais maranhenses, “no ambiente das letras, tiveram inspirações nas obras dos escritores de destaque do continente europeu, entre estes Paul Verlaine, Rimbaud, Stéphane Mallarmé e Charles Baudelaire”; Maranhão Sobrinho, tido como poeta de transição, experienciou um Romantismo [tardio], transitou pelo Parnasianismo e abraçou o Simbolismo “ortodoxo”; faleceu jovem, aos 36 anos, “de cirrose”.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Emilio Kemp: Almas Negras

 
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Abram-se as portas lôbregas do inferno,
Para as almas sem crença e sem bondade,
Para as almas forradas de maldade,
Escuras, negras, de um negror supremo.

Almas frias, de gelo, sempiterno,
Que um só raio de amor jamais invade
Pelos que sofrem fome e soledade,
Pelos que vivem sempre em pleno Inverno.

Sejam malditas, essas almas vesgas
Que a terra sujam de execráveis manchas...
Répteis cruzando pelo chão, de borco,

Não vislumbram, do céu, nem dúbias nesgas,
E só terão, na morte, amplas ensanchas
De entrar, uivando, nas entranhas do orco...

(Luz Suprema, págs.  55, 57-58. — 1938)

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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Emilio Kemp Larbeck Filho (1874 — 1955), nascido no Rio de Janeiro, formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Paraná, tendo exercido a profissão, mas também foi pedagogo, poeta, romancista, comediógrafo, crítico literário e jornalista; no jornalismo, trabalhou como redator no Cidade do Rio [jornal de José do Patrocínio], foi co-fundador de O Comércio e redator da Gazeta de Petrópolis, ambos em Petrópolis — RJ; fundou a revista Avenida (Rio de Janeiro), redigiu O Fluminense (Niterói — RJ), colaborou n’A Gazeta da Tarde, n’O Malho, n’A Imprensa, todos do Rio de Janeiro, e em outros periódicos; a partir de 1910, já em Porto Alegre — RS, dirigiu e foi redator do Correio do Povo, dirigiu O Diário e Norte-Sul, fundou o jornal A Manhã, foi diretor da Imprensa Oficial, todos na capital gaúcha; ocupou cargos técnicos e administrativos em instituições ligadas à saúde pública e ao magistério, lecionou na Escola Superior de Comércio, na Escola Normal e na Escola Médico-Cirúrgica, dirigiu o Museu Julio de Castilhos, sempre em Porto Alegre; como poeta e literato, participou do simbolismo, colaborou na Revista Vera-Cruz [órgão simbolista], e ali subscreveu suas obras com o próprio nome e também com os pseudônimos Acúrcio Benigno e Baianave; escreveu e publicou: Matinal (teatro, em versos, 1898, 2ª edição em 1918), Poesia (1900, 2ª edição 1920), O Senhor Ministro (teatro, 1906), Pobre amor, o amor de Dona Amanda (romance ou novela, 1908), A Defesa da Saúde Pública no Rio Grande do Sul (tese acadêmica, 1916), Gente Alegre (comédia, teatro, 1918), Enciclopédia Brasileira de Educação — 6 volumes (compilação de trabalhos pedagógicos, 1922-1934), Luz Suprema (versos, 1938), Cantos de Amor ao Céu e à Terra (versos, 1943), A Boneca de Sofia e o Batizado (literatura infantil, 1950) e outros títulos, além de operetas e outros textos dispersos em folhetins e colunas de jornais e revistas da época.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cruz e Sousa: O padre

 
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A João Lopes

Um padre escravocrata!... Horror!

          Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo do Cristo...
          Um padre que comunga, que bate nos peitos, religiosamente, automaticamente, que se confessa, que jejua, que reza o — Orate fratres, que prega os preceitos evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula.
          Um escravocrata de... batina e breviário... horror!
          Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um prostíbulo...
          Um padre, amancebado com a treva, de espingarda a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho, como um garoto, para assassinar a consciência.
          Um canibal que pega nos instintos e atira-os à vala comum da noite da matéria onde se revolvem as larvas esverdeadas e vítreas da podridão moral.
          Um padre que benze-se e reza, instante a instante, que gagueja à frente do cadáver o aforismo de Horácio — Hodie mihi cras tibi.
          Um padre que deixando explosir todas as interjeições da ira, estigmatiza a abolição.
          Ela há de fazer-se malgrado os exorcismos crus dos padres escravocratas; depende de um esforço moral e os esforços morais são, quase sempre, para a alta filosofia, — mais do que os esforços físicos — o fio condutor da restauração política de um país!...
          O interesse egoístico de um indivíduo não pode prevalecer sobre o interesse coletivo de uma nação, disse-o um moço de alevantado talento, Artur Rocha.
          Não é com a ênfase dogmática do didatismo ou com a fraseologia tecnológica dos cinzelados folhetins de Teófilo Gautier que o trabalho da abolição se fará.
          Mas com a palavra educada, vibrante — essa palavra que fulmina — profunda, nova, salutar como as teorias de Darwin.
          Com a palavra inflamável, com a palavra que é o raio e dinamite, como o era na boca de Gambetta, a maior concretização do estupendo — depois do sol.
          A palavra que ri... de indignação; um riso convulso... de réprobo, funambulesco... de jogral.
          Um riso que atravessa séculos como o de Voltaire.
          Um riso aberto, franco, eloquentemente sinistro.
          O riso das trevas, na noite do calvário.
          O riso de um inferno... dantesco.
          Ouves, padre?...
          Compreendes, sacerdote?...
          Entendes, apóstolo?...
          Então para que empunhas o chicote e vais vibrando, vibrando, sem compaixão, sem amor, sem te lembrares daquele olhar doce e aflitivo que tinha sobre a cruz, o filho de Maria?...
          O filho de Maria, sabes?!...
          Aquele revolucionário do bem e aquele cordeiro manso, manso como um ósculo da alvorada nas grimpas da montanha, como o luar a se esbater num lago diamantino...
          Lembras-te?!...
          Era tão triste aquilo...
          Não era padre, ó padre?!...
          Não havia naquela suprema angústia, naquela dor cruciante, naquela agonia espedaçadora, as mesmas contorções de uma cólica frenética, os mesmos arrancos informes de um escravo?...
          Não compreendes se açoitares um mísero que for pai, uma desgraçada que for mãe, as bocas dos filhinhos, daquelas criancinhas negras, sintetizando o remorso, o aguilhão da tua consciência, se abrirão nuns gritos desoladores que, como uns bisturis envenenados, trespassar-te-ão as carnes?...
          Não compreendes que de seus olhos, acostumados a paralisarem-se ante o terror, irromperão as lágrimas, esse líquido precioso das alminhas inocentes?!!...
          Pois tu, nunca choraste?!...
          Nunca sentiste os engasgos de um soluço saltarem-te pela garganta, quando te lembras de trocar as tuas magníficas conquistas, os teus manjares especiais, os teus licores dulçorosíssimos pela noite escura, muito escura, onde grasnam surdamente as aves da treva, onde Dante se acentua no Lasciate ogni speranza, onde os espíritos vis desaparecem e os Homeros e Camões e Virgílios surgem e se levantam pelo braço hercúleo da posteridade, pelo fôlego intérmino e secular da História?
          Nunca?!...
          Sim, tu estás comigo, padre!...
          Estás!...
          És bondoso, eu sei, tens a alma tão serena e tão lúcida como uma imagem de N. S. da Conceição.
          Eu sei disso!...
          Olha, quando morreres — se é que morres, irás de palmito e capela, na mudez dos justos e as virgens tímidas e cloróticas, entoando grave De profundis, murmurarão lacrimosas:
          — Coitado, foi o pai carinhoso das donzelas...
          Requiescat in pace!...
          Que bonito será, não!...
          E depois o céu!
          Sim, porque tu irás para o céu!
          Não crês no céu, padre?
          Pois crê, esses filólogos mentem, têm princípios errôneos e tu, padre, és um sábio...
          Tu és bom...
          Porém... por Deus, como é que vendes a Cristo como um quilo de carne verde no mercado?!...
          Ah! É verdade, és muito pobre, andas com os sapatos rotos, não tens que comer e... és muito caridoso...
          Mas, escuta, vem cá: —
          Eu tenho também minhas fantasias; gosto de sonhar às vezes com o azul.
          O Azul!...
          Deslumbro-me quando o sol se atufa no oceano, espadanando os raios purpureados, como flechas de fogo, pela enormidade côncava do espaço; inebrio-me quando a natureza com seu tropicalismo, ergue-se do banho de alvoradas, jorrando nos organismos de ouro o licor olímpico e santo do ideal, as músicas maviosíssimas e puras da inspiração, nos crânios estrelejados!...
          Pois façamos uma cousa:
          Eu escrevo um livro de versos que intitularei:

O abutre de batina

puros alexandrinos, todos iguais, corretos, com os acentos indispensáveis, com aquele tic da sexta, — tipo elzevir, papel melado — e ofereço-to, dou-to.
          Prescindo dos meus direitos de autor e tu o assinas!...
          Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo.
          Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e assim terás loiras para a tua subsistência, porque tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo nome um mimo qualquer.
          Faz isso, mas... não te metas com o abolicionismo; é a ideia que se avigora.
          Talvez digas, mastigando o teu latim: — Primo vivere deinde philosophari.
          Mas é porque tu és míope e os míopes não podem encarar o sol...
          Mas eu dou-te uns óculos, uns óculos feitos da mais fina pele dos negros que tu azorragas...
          Pode ser que a influência animal da matéria excite o espírito e que tu... vejas.
          Pode ser...
          Há cegos de nascença que veem... pelos olhos da alma.
          E se tu és padre e se tu és metafísico... deves ter alma...
          Compreendes?...
          Faz-se preciso que desapareçam os Torquemadas, os Arbues, maceradores da carne, como tu, padre.
          Em vez de prédicas beatíficas, em vez de reverências hipócritas, proclama antes a insurreição...
          Tens dentro de ti, bate-te no peito, nas palpitações da seiva, um coração que eu penso não ser um músculo oco.
          Vibra-o pois, fibra por fibra, se não queres que os meus ditirambos e sarcasmos, quentes, inflamados, como brasas, persigam-te eternamente, por toda a parte, no fundo de tua consciência, como uns outros medonhos Camilos de Zola; vibra-o se não queres que eu te estoure na cabeça um conto sinistro, negro de Edgar Poe.
          É tempo de zurzirmos os escravocratas no tronco do direito, a vergastadas de luz...
          Sejam-te as virtudes teologais, padre, — a liberdade, a igualdade e a fraternidade — maravilhosa trilogia do amor.
          Unge-te nas claridões modernas e expansivas dessas três veias — artérias da verdadeira Filosofia Universal.

[texto publicado em Tropos e Fantasias — 1885]

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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 — 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena — MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).