quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Antonio Machado: Pela miséria lenta do caminho . . .

 
____________________
[traduzido por Wilton José Marques]

     Pela miséria lenta do caminho
a hora florida brota
do teu amor, qual solitário espinho
do vale humilde, na ensombrada curva.
O salmo verdadeiro
de tênue voz torna hoje
lento o meu coração e dá-me aos lábios
a palavra quebrantada e trêmula.
Meus velhos mares dormem; apagam-se
as espumas sonoras
sobre a praia estéril. A borrasca
longe vai-se na nuvem irritada.
Retorna a paz ao céu;
a brisa tutelar espalha aromas
outra vez sobre o campo, e eis que aparece
na solidão bendita a tua sombra.

(Soledades — 1903)

Antonio Machado

     En la miseria lenta del camino
la hora florida, brota,
de tu amor, como espino solitario
del valle humilde a la revuelta umbrosa.
El salmo verdadero
de tenue voz hoy torna
lento a mi corazón y da a mis labios
la palabra quebrada y temblosa.
Mis viejos mares duermem; se apagaron
sus espumas sonoras
sobre  la playa estéril. La borrasca
camina lejos en la nube torva.
Vuelve la paz al cielo;
la brisa tutelar esparce aromas
otra vez sobre el campo, y aparece
en la bendita soledad tu sombra.

(Soledades — 1903)
____________________
Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Antonio Cipriano José María Machado Ruiz, ou Antonio Machado (1875 1939), espanhol de Sevilha, ainda bem jovem mudou-se com sua família para Madrid, formou-se na Institución de Libre Enseñanza, foi professor de francês, tornando-se catedrático neste idioma no Instituto de Segunda Enseñanza de Soria e, depois, no Instituto Calderón de Madrid, foi dramaturgo e poeta modernista; colaborou como articulista nas revistas modernistas La caricatura, Helios e Alma española; em 1927 foi eleito membro da Real Academia Española de la Lengua; bibliografia: Soledades (1903), Soledades, galerias y otros poemas (1907), Campos de Castilla (1912), Poesías completas (1917, 1928, 1933, 1936), Nuevas canciones (1924), La guerra (1937), Poesía de guerra (1961) e Poesía y Prosa (1965); Antonio Machado também escreveu as peças de teatro La Lola se vá a los puertos (1929) e La prima Fernanda (1931), ambas em co-autoria com Manuel Machado, seu irmão e também poeta, além de Juan de Mairena: Sentencias, donaires, apuntes de un profesor apócrifo (prosa, 1936) e outros textos; em 1936, com a eclosão da Guerra Civil, na luta contra o franquismo, ditadura imposta por Francisco Franco, o poeta foi forçado a retirar-se de Madrid, mudando-se para Valencia, depois para Barcelona, e daí partiu para o exílio em Paris, onde veio a falecer.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

W. H. Auden: A carta

Livro Poemas W. H. Auden - R$ 20,00 em Mercado Livre
____________________
[traduzido por José Paulo Paes]

Desde a primeira descida a um novo
Vale, com um franzir de sobrolhos
Por causa do sol e dos extravios,
Nele ficas, por certo: hoje ouvi o
Grito de um pássaro inopinado
Contra a tempestade, eu agachado
Atrás de um redil de carneiros; vi
O arco do ano completar-se e aí
Refazer-se o gasto giro do amor,
Sem fim nem desvio enganador.
Há de ver, há de passar, como vimos
A andorinha no teto, o verdeprimo
Arrepio da primavera, passou
Um trem solitário, que encerrou
As manobras de Outono. Mas ei-la,
Interrompendo a reflexão caseira,
O pensamento afeito ao entardecer,
A carta, a tua voz mesma a dizer
Muitas coisas, mas não que regressas.

O dedo não dorme, a fala não cessa
Quando amor recebe, bem amiúde,
Uma injusta resposta que o ilude.
Eu, a par das estações, vou indo
Sempre vário e com um amor distinto;
Não questiono em demasia o aceno
E o sorriso pétreo deste ameno
Deus rústico que tem receio, sempre,
De dizer algo mais do que pretende.

Um poema do britânico W. H. Auden - Jornal Opção
W. H. Auden

The letter

From the very first coming down
Into a new valley with a frown
Because of the sun and a lost way,
You certainly remain: to-day
I, crouching behind a sheep-pen, heard
Travel across a sudden bird,
Cry out against the storm, and found
The year’s arc a completed round
And love’s worn circuit re-begun,
Endless with no dissenting turn.
Shall see, shall pass, as we have seen
The swallow on the tile, spring’s green
Preliminary shiver, passed
A solitary truck, the last
Of shunting in the Autumn. But now,
To interrupt the homely brow,
Thought warmed to evening through and through,
Your letter comes, speaking as you,
Speaking of much but not to come.

Nor speech is close nor fingers numb,
If love not seldom has received
An unjust answer, was deceived.
I, decent with the seasons, move
Different or with a different love,
Nor question overmuch the nod,
The stone smile of this country god
That never was more reticent,
Always afraid to say more than it meant.

December 1927
____________________
W. H. Auden — Poemas, Seleção de João Moura Jr. Tradução e Introdução de José Paulo Paes e João Moura Jr., edição bilíngue, 1986, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Wystan Hugh Auden ou W. H. Auden (1907 1973), inglês de York, estudou ciências biológicas no Christ Church College da Universidade de Oxford e, se dedicando às artes literárias, foi poeta, roteirista, historiador literário, dramaturgo, escritor, libretista, crítico literário, professor universitário, ensaísta e compositor; bibliografia: Paid on both sides: a Charade (poemas, 1930), The Dance of Death (peça, 1933), Look, Stranger! (poemas, 1936), This Island (poemas, 1937), Episile to a Godson & other poems (1972) e outros títulos, além de libretos de ópera, roteiros de cinema e colaborações musicais; em 1948, Auden foi laureado com o Prêmio Pulitzer de Poesia e, em 1954, com o Prêmio Bollingen.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Bernardo Guimarães: Soneto anacrônico

 
____________________
Eu vi dos pólos o gigante alado,
sobre um montão de pálidos coriscos,
sem fazer caso dos bulcões* ariscos,
devorando em silêncio a mão do fado!

Quatro fatias de tufão gelado
figuravam da mesa entre os petiscos;
e, envolto em manto de fatais rabiscos,
campeava um sofisma ensangüentado!

"Quem és, que assim me cercas de episódios?"
lhe perguntei, com voz de silogismo,
brandindo um facho de trovões serôdios**.

"Eu sou" me disse, "aquele anacronismo,
que a vil coorte de sulfúreos ódios
nas trevas sepultei de um solecismo...”


Notas do organizador Idel Becker:
* bulcão: massa densa de vapores, semelhante a nuvem; nevoeiro espesso, que prenuncia um temporal.
** serôdios: tardios, fora de estação.
____________________
Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1825 1884), mineiro de Ouro Preto, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, romancista, jornalista, magistrado e professor; bibliografia: Cantos da Solidão (poesia, 1852), O Ermitão de Muquém (1858, publicado em 1869), A Voz do Pajé (drama, 1860), Poesias diversas (1865), Evocações (1865), Lendas e Romances: Uma História de Quilombolas, A Garganta do Inferno, A Dança dos Ossos (contos, 1871), O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso (romances, todos de 1872), A Escrava Isaura (romance, 1875), Folhas de Outono (coletânea de versos, 1883) e outros títulos; o romance A Escrava Isaura foi tema de novela de mesmo nome (19761977 e 2004, Globo e Record) e, na versão exibida na Globo, foi exportada para mais de uma centena de países na China, por exemplo, a Escrava Isaura, protagonizada pela atriz Lucélia Santos, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas e, lá, a edição do romance, em livro, contou com pelo menos 300 mil exemplares.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Nicolas Behr: poesia é portal, refúgio . . .

 
____________________
poesia é portal, refúgio
poesia é quarto escuro
poesia é o esconderijo
secreto da alma
poesia é libélula
garça distraída
nuvem arisca
pedra no caminho
andarilho sem destino
(poesia é tudo isso
que você está sentindo agora)
poesia é consolo, afago,
abraço bem dado
beijo de amigo

poesia é pra você parar
pegar um papel
escrever qualquer coisa
se sentir melhor
e seguir em frente

poesia despressuriza

____________________
Boa companhia — poesia (vários autores), Apresentação de Ferreira Gullar, 2003, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Nicolas Behr ou Nikolaus von Behr, nascido em 1958, mato-grossense de Cuiabá, fez o curso primário com padres jesuítas em Diamantino MT, foi/é poeta participante da Geração Mimeógrafo, tendo desenvolvido nos anos 70 a “Poesia Marginal” juntamente com mais uma centena de poetas; até 1980, o poeta publicou 10 livros mimeografados; trabalhou como redator em agências de publicidade e engajou-se no movimento ecológico, tendo desenvolvido trabalho nesta área; a partir de 1993 volta a publicar seus textos; bibliografia: livrinhos mimeografados, Iogurte com Farinha (agosto de 1977), Caroço de Goiaba e Chá com Porrada (ambos em julho de 1978), Bagaço (maio de 1979), Com a Boca na Botija (junho de 1979), Parto do Dia (julho de 1979), Elevador de Serviço, Põe sia nisso! e Entre Quadras (todos em agosto de 1979), Brasiléia Desvairada e Saída de Emergência (ambos em setembro de 1979), entre outros textos; livros: Porque Construí Braxília (1993), Beijo de Hiena (1993), Segredo Secreto (1996), Estranhos Fenômenos (antologia, 1997), Umbigo (2001), Poesília — poesia pau-brasília (2002), Braxília revisitada, volumes 1 e 2 (2004/2005), Iniciação à dendolatria (2005), Laranja seleta (2007), e outros títulos; teve participação nos curta-metragens Braxília, de Danyella Proença (2010) e Babilônia Norte, de Renan Montenegro (2013); sua obra tem sido objeto de estudo em dissertações de mestrado pelo país; em 1978 foi preso e processado pelo DOPS por posse de material pornográfico (seus livrinhos!) e absolvido em 1979.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Konstantinos Kaváfis: Os cavalos de Aquiles *

 
____________________
[traduzido por José Paulo Paes]

Ao verem Pátroclo morrer tão jovem,
em todo o seu vigor e bravura sem par,
os cavalos de Aquiles puseram-se a chorar.
A imortal natureza deles se insurgia
contra o feito de morte a que assistia.
Sacudiam as cabeças, as longas crinas agitavam,
    e, pisoteando o chão com os cascos, pranteavam
Pátroclo, a quem ali percebiam inerme, aniquilado
cadáver ora desprezível o espírito evolado
    indefeso sem sopro de vivente
exilado, da vida, no grande Nada novamente.

O pranto dos seus cavalos imortais
fez pena a Zeus. "No casamento de Peleu",
disse, "irrefletido foi o gesto meu;
    inditosos cavalos, melhor fora, creio,
    não vos ter dado. Que faríeis lá no meio
da mísera humanidade que é joguete da Sorte?
    Vós, a quem velhice não ronda nem espreita morte,
infortúnios fugazes padeceis. Às suas
dores os homens vos prendem". Mas as lágrimas suas
    pelo eterno, sem remissão jamais,
infortúnio da morte vertiam os dois nobres animais.

(1897)

Konstantinos Kaváfis

ΤΑ ΆΛΟΓΑ ΤΟΥ ΑΧΙΛΛΈΩΣ

Τον Πάτροκλο σαν είδαν σκοτωμένο,
που ήταν τόσο ανδρείος, και δυνατός, και νέος,
άρχισαν τ’ άλογα να κλαίνε του Αχιλλέως•
η φύσις των η αθάνατη αγανακτούσε
για του θανάτου αυτό το έργον που θωρούσε.
Τίναζαν τα κεφάλια των και τες μακρυές χαίτες κουνούσαν,
την γη χτυπούσαν με τα πόδια, και θρηνούσαν
τον Πάτροκλο που ενοιώθανε άψυχο αφανισμένο
μιά σάρκα τώρα ποταπή το πνεύμα του χαμένο
ανυπεράσπιστο χωρίς πνοή
εις το μεγάλο Τίποτε επιστραμένο απ’ την ζωή.

Τα δάκρυα είδε ο Ζεύς των αθανάτων
αλόγων και λυπήθη. «Στου Πηλέως τον γάμο»
είπε «δεν έπρεπ’ έτσι άσκεπτα να κάμω:
καλύτερα να μην σας δίναμε άλογά μου
δυστυχισμένα! Τι γυρεύατ’ εκεί χάμου
στην άθλια ανθρωπότητα πούναι το παίγνιον της μοίρας.
Σεις που ουδέ ο θάνατος φυλάγει, ουδέ το γήρας
πρόσκαιρες συμφορές σας τυραννούν. Στα βάσανά των
σας έμπλεξαν οι άνθρωποι». Όμως τα δάκρυά των
για του θανάτου την παντοτεινή
την συμφοράν εχύνανε τα δυό τα ζώα τα ευγενή.

(1897)

* Nota do tradutor José Paulo Paes: Os cavalos de Aquiles — O poema versa uma passagem da Ilíada (XVII, 423—455), cujos antecedentes são os seguintes: tendo Aquiles se sentido insultado por Agamémnon, comandante dos exércitos gregos, por este ter-lhe tirado uma presa de guerra, a jovem Briseide, recusou-se a continuar lutando contra Tróia. Pátroclo, seu amigo mais querido, tomou-lhe então as armas e com elas realizou grandes feitos contra os troianos, mas acabou sendo morto por Heitor. Os cavalos de Aquiles haviam sido presenteados ao pai deste, Peleu, por ocasião de seu casamento com Tétis. Presenteou-os não Zeus, como está dito no texto de Kaváfis, mas Posídon. Chamavam-se, os dois cavalos imortais, Bálio e Xanto.
____________________
Poemas — Konstantinos Kaváfis, Seleção, Estudo crítico, Notas e Tradução direta do grego por José Paulo Paes, Coleção Poiesis, 1982 — Editora Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Konstantinos Kaváfis (1863 1933), greco-otomano de Alexandria Egito, à época Império Otomano, foi poeta; ainda em sua primeira infância Kaváfis e família mudaram-se para Liverpool, no Reino Unido e, depois, retornou para Alexandria e ali viveu; teve seus primeiros versos escritos em inglês, e dominava também os idiomas francês e italiano, além do grego; em vida, o poeta não publicou nenhum livro, seus poemas foram distribuídos em feuilles volantes (folhas soltas) ou então divulgados em alguns veículos literários, entre os quais a revista ateniense Panathenea e o jornal de língua grega Hespera, editado em Leipzig, e também teve impressos dois opúsculos (o primeiro, em 1904, com dezesseis folhas, e o segundo, com vinte e quatro); já postumamente, em 1935, através de seus amigos e herdeiros literários Aleko e Rika Singopoulos, editou-se um livro contendo 154 poemas, os considerados canônicos, e cujo conteúdo constituía basicamente de uma coletânea das diversas feuilles volantes anteriormente divulgadas; o poeta deixou-nos outros textos, inéditos, inacabados ou repudiados, os quais não fizeram parte da edição de 1935.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Lêdo Ivo: A chuva sobre a cidade *

 
____________________
Chove sobre a cidade
e a chuva inunda o asfalto, difunde o desastre e o desencontro
e procura abater as palmeiras que do fim da tarde
queriam apenas graça plena as estrelas.

Os trovões reboam, espantando os pássaros
que vieram refugiar-se no meu quarto.
Os relâmpagos, fotógrafos do absoluto, iluminam as pessoas que
passam
são outros rostos, minha irmã, são as faces
revoltadas porque as divindades impossibilitaram os idílios,
a chegada pontual a uma casa, o já adiado trespasse com o inefável.

As sarjetas recebem finalmente a Poesia. Como são belos
e nítidos os barcos de papel
que navegam buscando os reinos fantásticos, os inacessíveis!

A chuva tem uma canção. Jamais uma elegia
para saudar sua gentileza. Jamais uma ode,
um himeneu, uma écloga deploratória.

Meu irmão, deixa que a goteira molhe tuas últimas
poesias. Pouco importa que amanhã te reconcilies com os grandes
temas poéticos.
O amanhã é inconsumível. A chuva te ensina
a ser invariável sem se repetir.


La pluie sur la ville

Il pleut sur la ville
et la pluie inonde la chaussée, répand le désastre
et le manque de rencontre
et elle cherche à abattre les palmiers qui à la fin de l’aprés-midi
voulaient à peine — grâce pleine — les étoiles.

Le tonerre retentit, em épouvantant les oiseaux
qui sont venus se réfugier dans ma chambre.
Les éclairs, photographes de l’absolu, illuminent les gens qui passent
— ce sont d’autres visages, ma soeur, ce sont les faces
révoltées parce que les divinités ont rendu impossibles les idylles,
l’arrivée à l’heure dans une maison, le dejà ajourné transperce
l’ineffable.

Les rigoles d’écoulements reçoivent finalement la Poésie. Comme ils sont beaux
et nets les bateaux en papiers
qui naviguent en cherchant les règnes fantastiques, les inaccessibles!

La pluie a une chanson. Jamais une élégie
pour saluer sa gentillesse. Jamais une ode,
un hyménée, une églogue qui déplore.

Mon frère, laisse la gouttière tremper tes dernières
poésies. Peu importe que demain tu te reconcilies avec les grands
thèmes poétiques.
Le lendemain n’est pas consommable. La pluie t’enseigne
à  être invariable sans se répéter.

* Nota da edição: Poema compilado por Henrique Alves / Poème compilé par Henrique Alves
____________________
Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Castro Alves: Bárbora

____________________
Erguendo o cálix, que o xerez perfuma,
loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
dentes níveos em lábios tão vermelhos,
como boiando em purpurina escuma;

um dorso de valquíria... alvo de bruma,
pequenos pés sob infantis artelhos,
olhos vivos, tão vivos, como espelhos,
mas como eles também sem chama alguma;

garganta de um palor alabastrino,
que harmonias e músicas respira...
No lábio um beijo... no beijar um hino;

harpa eólia a esperar que o vento a fira,
Um pedaço de mármore divino...
É o retrato de Bárbora a Hetaira.

____________________
Livro das Cortesãs, 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Antônio Frederico de Castro Alves (1847 1871), baiano nascido na Fazenda Cabaceiras, antiga Vila de Curralinho, hoje Castro Alves, estudou nas faculdades de Direito de Recife e de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta e também escritor; na poesia, destacando-se como um poeta da liberdade, antiescravagista, escreveu poemas-denúncia que ainda hoje constituem referências na luta contra a escravidão e em favor da liberdade no Brasil; escreveu Espumas Flutuantes, Os Escravos, A Cachoeira de Paulo Afonso e Poesias Coligidas, além de obras em prosa; em Os Escravos, quem não há de recordar dos poemas épicos nos quais trata a questão dos negros escravizados, do tráfico e do comércio, na sociedade brasileira da época do império?!; além de O Navio Negreiro, cito Bandido Negro, Mater Dolorosa, Vozes d'África, A Canção do Africano, A Mãe do Cativo, A Cruz da Estrada, Tragédia no Lar...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Pablo Neruda: Que faz uma mosca encarcerada em um soneto de Petrarca? *

 
____________________
[traduzido por Olga Savary]

X

Que pensarão de meu chapéu
daqui a cem anos os polacos?

Que dirão de minha poesia
os que não tocaram meu sangue?

Como se mede a espuma
que resvala da cerveja?

Que faz uma mosca encarcerada
em um soneto de Petrarca?

XI

Até quando falam os outros
se nós temos falado?

Que diria José Martí
do pedagogo Marinello?

Quantos anos tem novembro?

Que segue pagando o outono
com tanto dinheiro amarelo?

Como chamar esse coquetel
que mistura vodca com relâmpagos?

Pablo Neruda

X

¿Qué pensarán de mi sombrero
en cien años más, los polacos?

¿Qué dirán de mi poesia
los que no tocaran mi sangre?

¿Cómo se mide la espuma
que resbala de la cerveza?

¿Qué hace una mosca encarcelada
en un soneto de Petrarca?

XI

¿Hasta cuándo hablan los demás
si ya hemos hablado nosotros?

¿Qué diría José Martí
del pedagogo Marinello?

¿Cuántos años tiene Noviembre?

Qué sigue pagando el Otoño
con tanto dinero amarillo?

¿Cómo se llama ese cocktail
que mezcla vodka con relámpagos?

Libro de las preguntas (1974)

* Nota do blogue Verso e Conversa: Este atrevido aprendiz de blogueiro expõe que o Livro das perguntas (Libro de las preguntas) é composto de 74 poemas, sendo todos seus versos feitos em forma de perguntas.
____________________
Livro das Perguntas — Pablo Neruda, edição bilíngüe, Tradução e Introdução de Olga Savary, volume 360 da Coleção L&PM Pocket (1ª edição na coleção: maio de 2004), reimpressão de 2019, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Las uvas y el viento (1954), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970), Libro de las preguntas (1974), Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Jarid Arraes: Aqualtune

 
____________________
Como filha de um rei
Aqualtune era princesa
Era no reino do Congo
Da mais alta realeza
E na tradição que tinha
Encontrava fortaleza.
Lá no Congo era feliz
De raiz no ancestral
Mas havia outros reinos
Dos quais Congo era rival
E por isso houve guerra
Com desfecho vendaval.
Na disputa dessa guerra
Foi seu povo humilhado
E o reino de seu pai
Foi vendido como escravo
Mais de dez mil lutadores
Igualmente enjaulados
Aqualtune foi vendida
Em escrava transformada
Foi levada para um porto
Onde foi então trocada
Por moeda, por dinheiro
Pruma vida aprisionada.
Acabou num navio negreiro
Que ao Brasil foi viajar
Nos porões do sofrimento
Muito teve que enfrentar:
As doenças e tristezas
E a maldade a transbordar.
Aqualtune com seu povo
Nos porões muito sofreu
Tinham febres e doenças
Pela dor que só cresceu
Era fome e era castigo
Muita gente padeceu.
Foi no Porto de Recife
Que o navio então parou
Quando muito finalmente
No Brasil desembarcou
Aqualtune novamente
Teve alguém que a comprou.
Foi vendida como escrava
Chamada reprodutora
Imagine o pesadelo
Que função mais redutora
Pois seria estuprada
De escravos genitora.
Sua principal função
Seria a de procriar
Estuprada na rotina
Muita dor pra suportar
Imagine uma princesa
Isso tudo enfrentar!
Foi levada a Porto Calvo
Pernambuco, a região
E vivendo como escrava
Enfrentou a solidão
Os castigos e torturas
Do seu corpo a agressão.
Imagine quantos filhos
Aqualtune teve então
Tudo fruto de estupro
Fruto de violação
E ainda eram tomados
No meio dum sopetão.
Mas na vida de tortura
Aqualtune ouviu falar
Sobre a pura resistência
Dos escravos a lutar
E soube de Palmares
O que pode admirar.
Aqualtune se empolgou
Do seu povo quis a luta
E pensou em se juntar
Pra somar nessa labuta
Mesmo estando em gravidez
Ela estava resoluta.
A gravidez já avançada
Não causou impedimento
Aqualtune foi com tudo
Formando esse movimento
De convicta esperança
E com muito entendimento.
Junto com outras pessoas
Negras de muita coragem
Aqualtune fez a fuga
Mesmo com toda voragem
Foi parar em um quilombo
E falou de sua linhagem.
Todos lá reconheceram
Que era ela uma princesa
E por isso concederam
Território e realeza
Para a brava Aqualtune
Coroada de firmeza.
Nos quilombos do Brasil
Era forte a tradição
De manter vivas raízes
Africanas na nação
Aqualtune isso queria
Disso fazia questão.
Mas a sua importância
Muito mais se mostraria
Não se sabe com certeza
Mas pelo que se anuncia
Aqualtune teve um filho
E Ganga Zumba ele seria.
Segundo essa tradição
Foi avó doutro guerreiro
De imensa relevância
Para o negro brasileiro
Era Zumbi dos Palmares
Liderança por inteiro.
Aqualtune, infelizmente
Faleceu numa armação
Planejada por paulistas
Com fim de destruição
Do quilombo de Palmares
E de sua tradição.
Sua aldeia foi queimada
Pelos brancos assassinos
Não se sabe bem a data
Do seu fim e desatino
Mas a sua história viva
Para isso a descortino.
Quando ela faleceu
Bem idosa já estava
Aqualtune sim viveu
Como líder destacava
Essa força feminina
Que a princesa exaltava.
Eu só acho um absurdo
Porque nunca ouvi falar
Na escola ou na tevê
Nunca vi ninguém contar
Sobre a garra de Aqualtune
E o que pôde conquistar.
Uma história como a dela
Deveria ser contada
Em todo livro escolar
Deveria ser lembrada
No teatro e no cinema
Que ela fosse retratada.
Mas eu tive que sozinha
As informações buscar
Foi porque ouvi seu nome
Uma amiga mencionar
E por curiosidade
Fui on-line pesquisar.
A história do meu povo
Nordestino negro forte
É tão rica e importante
É vitória sobre a morte
Pois ainda do passado
Modificam nossa sorte.
Quando penso em Aqualtune
Sinto esse encorajamento
A vontade de enfrentar
De mudar neste momento
Tudo aquilo que é racismo
E plantar conhecimento.

____________________
Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis Jarid Arraes, Prefácio de Jaqueline Gomes de Barros, 1ª edição, selo Seguinte, Editora Schwarcz São Paulo SP; Jarid Arraes, nascida em 1991, cearense de Juazeiro do Norte, região do Cariri, é escritora, cordelista e poeta; a cordelista Jarid, que recebeu influência do pai e também do avô, ambos poetas de cordel e xilogravuristas, aos 20 anos teve seus textos divulgados no blog Mulher Dialética; bibliografia: As Lendas de Dandara (prosa, 2015), Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis (2017), Um buraco em meu nome (poesia, 2018) e Redemoinho em dia quente (contos, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte, 2019), além de dezenas de livretos de literatura de cordel e cordéis para o público infantil; fixando residência em São Paulo, a poeta criou o Clube da Escrita para Mulheres, foi colunista da revista Fórum e passou a colaborar com as páginas Blogueiras Feministas e Blogueiras Negras; Jarid Arraes teve sua obra As Lendas de Dandara traduzida para o idioma francês e divulgada naquele país (Dandara et les esclaves libres, 2018).