terça-feira, 31 de julho de 2018

Apollinaire: Porque você me falou de vício . . .

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[traduzido por Daniel Fresnot]

Você falou de vício na tua carta ontem
O vício não entra nos amores sublimes
Ele não é mais que um grão de areia no mar
Um só grão descendo no abismo verde-mar

Podemos fazer agir a imaginação
Dançarem nossos sentidos nos destroços do mundo
Usar nossos nervos até a exasperação
Ou lambuzar nossos dois corpos num lodo imundo

E ligados um ao outro num abraço único
Podemos desafiar a morte e seu destino
Quando nossos dentes batem em pânico
Podemos chamar de noite ao matutino

Você pode divinizar minha vontade selvagem
Posso me prosternar como frente a um altar
Diante de tuas ancas que minha raiva vai ensangüentar
Nossos amores continuarão puro como um belo céu

Que importa que exaustos mudos bocas abertas
Feito dois canhões caídos de sua carreta
Quebrados de se amar demais nossos corpos fiquem inertes
Nosso amor será sempre o que tem sido

Vamos enobrecer meu coração a imaginação
Que tanto falta à pobre humanidade aos pares
O vício nisto tudo é só ilusão
Que só podem enganar as almas vulgares

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Apollinaire

Parce que tu m’as parlé de vice...

Tu m'as parlé de vice en ta lettre d'hier
Le vice n'entre pas dans les amours sublimes
Il n'est pas plus qu'un grain de sable dans la mer
Un seul grain descendant dans les glauques abîmes

Nous pouvons faire agir l'imagination
Faire danser nos sens sur les débris du monde
Nous énerver jusqu'à l'exaspération
Ou vautrer nos deux corps dans une fange immonde

Et liés l'un à l'autre en une étreinte unique
Nous pouvons défier la mort et son destin
Quand nos dents claqueront en claquement panique
Nous pouvons appeler soir ce qu'on dit matin

Tu peux défier ma volonté sauvage
Je peux me prosterner comme vers un autel
Devant ta croupe qu'ensanglantera ma rage
Nos amours resteront pure comme un beau ciel

Qu'importe qu'essoufflés muets bouches ouvertes
Ainsi que deux canons tombés de leur affût
Brisés de trop s'aimer nos corps restent inertes
Notre amour restera bien toujours ce qu'il fut

Ennoblissons mon cœur l'imagination
La pauvre humanité bien souvent n'en a guère
Le vice en tout cela n'est qu'une illusion
Qui ne trompe jamais que les âmes vulgaires
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Álcoois e Outros Poemas — Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire (1880  1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary de Wąż-Kostrowicki, em Roma  Itália, escritor e poeta, fez carreira como agitador cultural em Paris — França, transitou por todos os gêneros literários  poesia, prosa, prosa poética, teatro, ensaio, crítica  e foi um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913),  Le Poète Assassiné (1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em 1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto, lhe é concedido a nacionalidade francesa.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

William Shakespeare: Enquanto só, roguei teu patrocínio . . . [soneto]

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[traduzido por Ivo Barroso]

79

Enquanto só, roguei teu patrocínio,
Só meu verso gozou de tua graça,
Mas hoje desgraciado entro em declínio
E a pobre Musa a um outro cede a praça
Confesso, amor, que teu amável tema
Pede uma pena de maior talento,
Mas tudo quanto esse teu poeta extrema
Rouba de ti ao dar-te em pagamento.
Se te empresta virtude é que encontrou-a
Em teu caráter; se te dá beleza,
Ela estava em teu rosto: o que ele entoa
Não é louvor, que o tens por natureza.
    Não lhe agradeças por menção tão leve,
    Pois pagas a ti mesmo o que ele deve.

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William Shakespeare

LXXIX

Whilst I alone did call upon thy aid,
My verse alone had all thy gentle grace;
But now my gracious numbers are decay'd,
And my sick muse doth give another place.
I grant, sweet love, thy lovely argument
Deserves the travail of a worthier pen;
Yet what of thee thy poet doth invent
He robs thee of, and pays it thee again.
He lends thee virtue, and he stole that word
From thy behavior; beauty doth he give,
And found it in thy cheek; he can afford
No praise to thee but what in thee doth live.
     Then thank him not for that which he doth say,
     Since what he owes thee thou thyself dost pay.
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50 Sonetos  William Shakespeare, Tradução e Apresentação de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss e Estudo de Nehemias Gueiros, edição bilíngue, 2015, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro  RJ; William Shakespeare (1564  1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura  que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

domingo, 29 de julho de 2018

Rainer Maria Rilke: A minha vida eu a vivo em círculos crescentes . . .

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[traduzido por José Paulo Paes]

A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.

Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos…
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.

O Livro de Horas  1905

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Rainer Maria Rilke

Ich lebe mein Leben in wachsenden Ringen,
die sich über die Dinge ziehn.
Ich werde den letzten vielleicht nicht vollbringen,
aber versuchen will ich ihn.

Ich kreise um Gott, um den uralten Turm,
und ich kreise jahrtausendelang;
und ich weiss noch nicht: bin ich ein Falke, ein Sturm
oder ein grosser Gesang.

Stundenbuch  1905
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Poemas R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras São Paulo SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Geditche (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

sábado, 28 de julho de 2018

Rafael Alberti: O anjo da ira

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[traduzido por Amálio Pinheiro]

Sem dono, por entre urtigas,
pedra por polir, brilhavas.

Pé invisível.
(Por entre as urtigas, nada.)
Iracundo pé invisível.

Línguas de lodo, sumidas,
surdas, recordaram algo.
Tu não estavas.
Que recordaram?

Moveu-se mudo o silêncio
e disse algo.
Não disse nada.

Sem sabê-lo,
mudou de rumo meu sangue,
e pelos fossos
gritos longos se abateram.

Para salvar meus olhos,
para salvar a ti que...

Segredo.

Rafael Alberti

El ángel de la ira

Sin dueño, entre las ortigas, 
piedra por pulir, brillabas.

Pie invisible. 
(Entre las ortigas, nada.) 
Pie invisible de la ira.

Lenguas de légamo, hundidas, 
sordas, recordaron algo. 
Ya no estabas. 
¿Qué recordaron?

Se movió mudo el silencio 
y dijo algo. 
No dijo nada.

Sin saberlo, 
mudó de rumbo mi sangre, 
y en los fosos 
gritos largos se cayeron.

Para salvar mis ojos, 
para salvarte a ti que...

Secreto.

(Sobre los ángeles 1929)
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Sobre os anjos — Rafael Alberti, Introdução, Tradução e Notas de Amálio Pinheiro, Coleção Toda Poesia 13, Edição bilíngue, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Rafael Alberti Merello (1902  1999), espanhol de Puerto de Santa María, Andaluzia, fez seus estudos iniciais no Colégio San Luis Gonzaga, da Compañia de Jesus, de onde foi expulso e, abandonando os estudos, passou a se dedicar à pintura e à literatura; poeta, divulgou seus textos nas publicações literárias e de arte HorizonteAlfarRevista de Occidente, Litoral e outros veículos; conheceu e conviveu com Garcia Lorca, Antonio Machado, Luis Buñuel, Salvador Dali, Ortega y Gasset e outros; fundou em Madri a revista revolucionária Octubre; bibliografia: Marinero en tierra (1925), El alba de Alhelí (1928), Cal y Canto (1928), Sobre los ângeles (1928  1929), Sermones y moradas (1929 1930), El hombre deshabitado (teatro, 1931), Consignas y Un fantasma (1933), Entre el clavel y la espadaLa arboleda perdida — volume 1 (memórias, 1942), El adefesio (teatro, 1944), Coplas de Juan Panadero (1949), A la pintura (1950), Fustigada luz (1980), Prosas (1980), Versos sueltos de cada día (1982), La arboleda perdida — volume 2 (memórias, 1987), e tantos outros textos; Rafael Alberti, em meio à Guerra Civil Espanhola, iniciou um exílio de trinta anos, só retornando à Espanha após a morte de Franco, em 1977; pertenceu ao Partido Comunista espanhol, andejou por diversos países, recebeu premiações por seus textos.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Pedro Paulo Paulino: Eu vou votar no "bandido" mais querido da nação *

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Num país de tanta fraude,
De roubo e corrupção,
Onde nem se sabe mais
Quem é santo ou é ladrão,
Eu já estou decidido
Que vou votar no “bandido”
Mais querido da Nação!

Votei nele cinco vezes
E volto a votar de novo!
Pois diante de injustiça
Todo dia eu me comovo.
Já estou determinado:
vou votar no “acusado”
Mais querido pelo povo!

Na gestão desse “bandido”,
Não me sai do pensamento,
Foi que o Brasil conquistou
O seu grau de investimento;
E a pobreza no país
(Pesquisa séria é quem diz)
Caiu cinquenta por cento.

Bateu um recorde histórico
Sua popularidade!
Pois mais de um milhão de pobres
Botou na universidade!
E combateu, no Brasil,
Desnutrição infantil
E a grande mortalidade.

Dezoito universidades,
Esse “bandido” criou.
A quinze milhões de lares
Luz elétrica chegou.
Três milhões de moradias
Em várias periferias
Esse “bandido” entregou!

Através do PRONATEC
 Também sua criação 
Oito milhões de estudantes
Pobres e sem condição
Cursaram gratuitamente,
Aprendendo gentilmente
Uma nova profissão.

E ainda na educação,
De maneira genial,
Setenta e cinco por cento
Dos royalties do Pré-sal,
Conseguiu ele aprovar!
Isso para incentivar
O campo educacional.

Convém lembrar que na lista
Dos seus feitos altaneiros,
Criou também o “Mais Médicos”,
Dos profissionais guerreiros
Que atendem com condições
Mais de 50 milhões
De cidadãos brasileiros!

No governo do “bandido”
Mais querido da Nação,
Cisternas para o Nordeste
Contou-se meio milhão.
Sem falar que o “delinquente”
Fez cair sensivelmente
Todos níveis de inflação.

O desemprego caiu
De doze a cinco por cento.
Da saúde e educação,
Triplicou o orçamento.
E também o operário,
No seu mínimo salário
Conquistou um grande aumento.

Além disso, esse “bandido”,
Da maneira mais leal,
Conseguiu pagar a dívida
Chamada internacional.
Fez o quadro reverter
E fez o Brasil crescer
No cenário mundial.

E tem mais: esse “bandido”
Em Pernambuco nasceu.
Fala o sotaque que eu falo,
Nordestino que nem eu!
Esse “bandido” de peso,
Preso ou solto, solto ou preso,
Terá sempre o voto meu!

Nas gestões do “delinquente”
Mais querido da Nação,
Todo pobre, no Brasil,
Teve a nobre condição
De ser gente e ser feliz
E ir ao Sul do país
Viajando de avião!

A ações desse “bandido”
Foram cobertas de glória:
Seus programas sociais
Foram sua trajetória.
Tudo é fato e não é lenda:
A concentração de renda
Foi a menor da história.

Por isso e por muito mais,
Eis minha declaração:
Meu voto pra presidente
Nesta vindoura eleição,
No meio do fogaréu
Vai direto para o réu
Mais querido da Nação!

Nestes versos de cordel,
Não pretendo ser afoito,
Mas injustiça na cara,
Eu morro e jamais acoito.
Pra voltar a ser feliz,
O Brasil inteiro diz:
LULA DOIS MIL E DEZOITO!

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* Nota deste aprendiz de blogueiro: Clique no título lá em cima, ouça o cordel e veja o vídeo/conteúdo deste poema. 
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Eu vou votar no "bandido" mais querido da nação  literatura de cordel: Pedro Paulo Paulino, 2018, 1ª edição, Tupynanquim Editora, Fortaleza —  CE; Pedro Paulo Paulino, nascido em 1967, cearense de Canindé, cursou o Ensino Médio no Colégio Estadual Paulo Sarasate, deste município; jornalista prático, escritor e profissional em artes gráficas, poeta cordelista desde a adolescência, atua na imprensa escrita regional como editor do jornal Folha do Povo; com vários folhetos publicados e participação em diversos livros, o poeta tem seus textos divulgados em jornais, revistas e páginas da internet; pilota o blogue vilacamposonline, de informação e cultura regional; atualmente, o cordelista reside em Vila Campos, zona rural do município de Canindé.

Friedrich Nietzsche: A pequena feiticeira

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[traduzido por Paulo César de Souza]

Enquanto é belo meu corpo
Vale a pena ser devota.
Sabe-se que Deus ama as mulheres,
As belas acima de tudo.
Ele certamente perdoará
Ao gentil monge, que,
Como muitos monges, tanto
Gosta de estar ao meu lado.

Não é um cinzento pai da Igreja!
Não, ainda jovem e rubicundo,
Muitas vezes, como o mais escuro gato,
Cheio de ciúme a aflição!
Eu não gosto dos idosos,
Ele não gosta das velhas:
De que forma singular e sábia
Deus arranjou isso!

A Igreja sabe como viver,
Ela sonda o coração e o rosto.
Está sempre disposta a me perdoar: 
Sim, pois quem não me perdoa?
Cochicham à boca pequena,
Ajoelham-se e vão embora,
E com um novo pecadilho
Tiram o velho da memória.

Louvado seja Deus neste mundo
Por amar as moças bonitas
E tais dores do coração
A si mesmo perdoar!
Enquanto é belo meu corpo
Vale a pena ser devota:
Quando eu for velha e gagá
Que o Diabo me peça a mão!

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Die kleine Hexe

So lang noch hübsch mein Leibchen, 
Lohnt sich’s schon, fromm zu sein. 
Man weiss, Gott liebt die Weibchen, 
Die hübschen obendrein. 
Er wird's dem art'gen Mönchlein 
Gewisslich gern verzeihn, 
Dass er, gleich manchem Mönchlein, 
So gern will bei mir sein.

Kein grauer Kirchenvater! 
Nein, jung noch und oft roth, 
Oft gleich dem grausten Kater 
Voll Eifersucht und Not! 
Ich liebe nicht die Greise, 
Er liebt die Alten nicht: 
Wie wunderlich und weise 
Hat Gott dies eingericht!

Die Kirche weiss zu leben, 
Sie prüft Herz und Gesicht. 
Stäts will sie mir vergeben: — 
Ja wer vergibt mir nicht! 
Man lispelt mit dem Mündchen, 
Man knixt und geht hinaus,
Und mit dem neuen Sündchen 
Löscht man das alte aus.

Gelobt sei Gott auf Erden, 
Der hübsche Mädchen liebt 
Und derlei Herzbeschwerden 
Sich selber gern vergibt! 
So lang noch hübsch mein Leibchen, 
Lohnt sich's schon, fromm zu sein: 
Als altes Wackelweibchen 
Mag mich der Teufel frein!

(Ydyllen aus Messina)


Nota deste aprendiz de blogueiro: O tradutor Paulo César de Souza, no Apêndice deste Aurora, nos relata que este poema e outros sete, todos denominados por Nietzsche “Idílios de Messina”, foram publicados no ano de 1882 (após abril) em uma revista mensal dirigida por Ernst Schmeitzner, então editor de seus livros; em sua maioria, tais poemas compuseram as “Canções do príncipe Vogelfrei” e foram incorporados à segunda edição de A Gaia Ciência (1887), sendo que todos tiveram seus títulos alterados e alguns sofreram outras mudanças.
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Aurora — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844  1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, professor, crítico cultural, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música  (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente),  David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873),  Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886),  Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth  (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais  (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 — 1885),  Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886),  Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é  (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.