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[traduzido por Daniel Fresnot]
Você falou de vício na tua carta
ontem
O vício não entra nos amores
sublimes
Ele não é mais que um grão de areia
no mar
Um só grão descendo no abismo
verde-mar
Podemos fazer agir a imaginação
Dançarem nossos sentidos nos
destroços do mundo
Usar nossos nervos até a
exasperação
Ou lambuzar nossos dois corpos num
lodo imundo
E ligados um ao outro num abraço
único
Podemos desafiar a morte e seu
destino
Quando nossos dentes batem em
pânico
Podemos chamar de noite ao matutino
Você pode divinizar minha vontade
selvagem
Posso me prosternar como frente a
um altar
Diante de tuas ancas que minha
raiva vai ensangüentar
Nossos amores continuarão puro como
um belo céu
Que importa que exaustos mudos
bocas abertas
Feito dois canhões caídos de sua
carreta
Quebrados de se amar demais nossos
corpos fiquem inertes
Nosso amor será sempre o que tem
sido
Vamos enobrecer meu coração a
imaginação
Que tanto falta à pobre humanidade aos
pares
O vício nisto tudo é só ilusão
Que só podem enganar as almas
vulgares
| Apollinaire |
Parce que tu m’as parlé de vice...
Tu m'as parlé de vice en ta lettre d'hier
Le vice n'entre pas dans les amours sublimes
Il n'est pas plus qu'un grain de sable dans la mer
Un seul grain descendant dans les glauques abîmes
Nous pouvons faire agir l'imagination
Faire danser nos sens sur les débris du monde
Nous énerver jusqu'à l'exaspération
Ou vautrer nos deux corps dans une fange immonde
Et liés l'un à l'autre en une étreinte unique
Nous pouvons défier la mort et son destin
Quand nos dents claqueront en claquement panique
Nous pouvons appeler soir ce qu'on dit matin
Tu peux défier ma volonté sauvage
Je peux me prosterner comme vers un autel
Devant ta croupe qu'ensanglantera ma rage
Nos amours resteront pure comme un beau ciel
Qu'importe qu'essoufflés muets bouches ouvertes
Ainsi que deux canons tombés de leur affût
Brisés de trop s'aimer nos corps restent inertes
Notre amour restera bien toujours ce qu'il fut
Ennoblissons mon cœur l'imagination
La pauvre humanité bien souvent n'en a guère
Le vice en tout cela n'est qu'une illusion
Qui ne trompe jamais que les âmes vulgaires
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Álcoois e Outros Poemas —
Apollinaire, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Fresnot, 2005, Martin
Claret, São Paulo — SP; Guillaume Apollinaire
(1880 — 1918), nascido Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary
de Wąż-Kostrowicki, em Roma — Itália, escritor e poeta, fez
carreira como agitador cultural em Paris — França, transitou por
todos os gêneros literários — poesia, prosa, prosa poética, teatro,
ensaio, crítica — e foi um dos expoentes da vanguarda artística do
início do século XX; com sua arte, colecionou amigos e colaboradores, entre
eles, Pablo Picasso, Georges Braque, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marcel
Duchamp e outros; seus textos e criações foram publicados por diversos anos em
jornais, revistas, panfletos e livros; bibliografia: L’Hérésiarque e
Cie (1910), Álcoois (coletânea de trabalhos poéticos, 1913), Os Pintores Cubistas (1913), Le Poète Assassiné
(1916), Caligramas (1918) e outros; traduziu Pietro Aretino para
o francês e organizou bibliografias e antologias de autores “libertinos”; em
1914, ainda estrangeiro em Paris, pede alistamento e participa na linha de
frente da 1ª Guerra Mundial, onde é ferido; em 1916, por decreto, lhe é
concedido a nacionalidade francesa.

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