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sábado, 3 de abril de 2021

Matthias Claudius: O semeador

 
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[traduzido por Olívia Krahenbuhl]

Lança a semente o semeador.
Recebe-a a terra; e dentro em pouco
Germina, aponta a flor.

Tua a amavas: por ela desprezaste
Os outros dons que a vida oferecia
e sozinho ficaste.

Chorar próximo à tumba sossegada,
Para a nuvem da morte erguer os braços
Que valem gestos ante o nada?

Passa o homem qual erva emurchecida,
Qual folha de arvoredo; é muito breve
A mascarada desta vida.

O pouso da águia pouco dura:
Logo, a poeira das asas sacudindo,
Remonta ao sol na altura...


Der Saemann säet den Samen

Der Saemann säet den Samen.
Die Erd empfängt ihn, und über ein kleines
Keimet die Blume herauf-

Du liebtest sie. Was auch dies Leben
Sonst für Gewinn hat, war klein dir geachtet,
Und sie entschlummerte dir.

Was weinest du neben dem Grabe
Und hebst die Hände zur Wolke des Todes
Und der Verwesung empor?

Wie Gras auf dem Felde sind Menschen
Dahin, wie Blätter! Nur wenige Tage
Gehn wir verkleidet einher.

Der Adler besuchet die Erde,
Doch säumt nicht, schüttelt vom Flügel den Staub und
Kehret zur Sonne zurück.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Matthias Claudius (1740 1815), alemão de Reinfeld, Holstein, aprendeu Latim, estudou Teologia e Direito na Universidade de Jena, foi poeta e jornalista, tendo sido editor dos jornais Der Wandsbecker Bothe e Hessen-Darmstädtische; bibliografia: Tändeleyen und Erzählungen (1763), além de publicações de início esparsas em almanaques e revistas de museus, escritas entre 17701775, e reunidas em textos multivolumes Asmus omnia sua secum portans (oder Sämtliche Werke des Wandsbecker Bothen); Matthias Claudius também usou o pseudônimo de Asmus.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Georg Trakl: Decadência

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[traduzido por Olívia Krahenbuhl]

Anunciando a paz, tocam na tarde os sinos.
Em bandos a evocar romarias piedosas,
Aves, cuja revoada em maravilha eu sigo,
Somem-se em outonais distâncias luminosas.

Vagueando no jardim que o crepúsculo assalta,
Seus destinos de luz eu sigo no meu sonho...
O tempo foge e eu nem sequer reparo ponho.
Atento à viagem sua até a nuvem mais alta...

De súbito estremeço a um ar de decadência:
Um rouxinol soluça em rama desfolhada,
Freme purpúrea a vinha em treliça oxidada...

Dança macabra de crianças macilentas
Rodeando a margem negra em cisterna arruinada.
Dobram-se azuis ao vento as astérias friorentas...

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Georg Trakl

Verfall

Am Abend, wenn die Glocken Frieden läuten,
Folg ich der Vögel wundervollen Flügen,
Die lang geschart, gleich frommen Pilgerzügen,
Entschwinden in den herbstlich klaren Weiten.

Hinwandelnd durch den dämmervollen Garten
Träum ich nach ihren helleren Geschicken
Und fühl der Stunden Weiser kaum mehr rücken.
So folg ich über Wolken ihren Fahrten.

Da macht ein Hauch mich von Verfall erzittern.
Die Amsel klagt in den entlaubten Zweigen.
Es schwankt der rote Wein an rostigen Gittern,

Indes wie blasser Kinder Todesreigen
Um dunkle Brunnenränder, die verwittern,
Im Wind sich fröstelnd blaue Astern neigen.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã, (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ;  Georg Trakl (1887  1914), austríaco de Salzburgo (antigo Império Austríaco), mestre em Farmácia, foi poeta expressionista; na Primeira Guerra, voluntariou-se e exerceu o ofício de farmacêutico em Hospital Militar; Georg Trakl publicou em vida apenas um livro, Poemas (1913), além de textos esparsos em edições da revista Der Brenner e em outros jornais; logo após sua morte, publicou-se Sebastião no Sonho (1915); de sua curta biografia, consta que o poeta nutria uma paixão desmedida por sua irmã mais nova, Gretl, personagem presente em grande parte de sua poesia, sentimento esse também compartilhado por ela, a quem se atribui uma forte personalidade e a decidida condução da relação incestuosa; Georg e Gretl, ambos dependentes de narcóticos, cometeram suicídio: ele em agosto de 1914, e ela, já mentalmente transtornada, em 1917.