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terça-feira, 29 de agosto de 2023

Wallace Stevens: O rei do sorvete


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[traduzido por Décio Pignatari]

Chame o enrolador de grandes charutos,
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passado.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.

Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 24.06.84

Wallace Stevens

The emperor of ice-cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Harmonium (1923, 1931)

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; suas obras: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), Transport to summer (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos Williams e Marianne Moore.

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Wallace Stevens: O homem da neve

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[traduzido por Paulo Venâncio Filho]

É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada

E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro: e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio

Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 08.04.84


The Snow Man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same Wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; suas obras: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), Transport to summer (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos Williams

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Wallace Stevens: A poesia é uma força destrutiva


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[traduzido por Ronaldo Brito]

Isto é que é a miséria,
Nada ter no coração.
É ter ou nada.

É uma coisa ter,
Um leão, um boi no seu peito,
Senti-la respirando ali.

Corazón, cachorro bravo,
Bezerro, urso de pernas tortas,
Ele prova seu sangue, não cospe.

É como um homem
No corpo de uma fera violenta,
São seus os músculos dela...

O leão dorme ao sol.
O nariz entre as patas.
Ela pode matar um homem.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 08.04.84

Wallace Stevens

Poetry Is a Destructive Force

That's what misery is,
Nothing to have at heart.
It is to have or nothing.

It is a thing to have,
A lion, an ox in his breast,
To feel it breathing there.

Corazon, stout dog,
Young ox, bow-legged bear,
He tastes its blood, not spit.

He is like a man
In the body of a violent beast.
Its muscles are his own...

The lion sleeps in the sun.
Its nose is on its paws.
It can kill a man.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; suas obras: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), Transport to summer (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos Williams e Marianne Moore.

domingo, 16 de maio de 2021

Wallace Stevens: Anedota do jarro

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Pousei um jarro em Tennessee,
E era redondo sobre um morro.
O jarro fez o mato amorfo
Cercar o morro.

O mato foi até o jarro,
E virou grama e o circundou.
O jarro era redondo e alto
E algo de um portal no ar.

Por toda parte imperou
O jarro liso e sem cor.
Nele nem pássaro nem planta,
Só nele, em todo Tennessee.

Wallace Stevens

Anecdote of the jar

I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.

The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.

It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.

Harmonium (1923, 1931)
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Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; bibliografia: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.

sábado, 24 de abril de 2021

Wallace Stevens: O imperador do sorvete

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Chama o enrolador de charutos,
O musculoso, e pede que ele bata
Em xícaras caseiras cremes lúbricos.
Que as raparigas vistam as roupas
Que é seu costume usar, e os rapazes
Tragam flores no jornal do mês passado.
Que parecer termine em ser somente.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Pega no armário de pinho,
Com os puxadores de vidro quebrados,
O lençol que ela bordou com pombas
E cobre todo o corpo dela, até o rosto.
Se um pé ossudo aparecer, verão
Que fria e dura que ela está.
Que fixe a lâmpada seu feixe quente.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Wallace Stevens

The emperor of ice-cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Harmonium (1923, 1931)
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Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; bibliografia: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.

terça-feira, 23 de março de 2021

Wallace Stevens: O homem do violão azul * [trechos IV, V e VI]

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

. . .

IV

Então a vida é isso: as coisas como são?
Ela tateia sobre o violão.

Mas numa corda só, toda essa gente?
E tudo que eles são, tão totalmente,

E tudo que eles são, o fraco e o forte,
E tudo que eles são, a vida e a morte?

E loucamente os sentimentos clamam,
Zunindo como moscas no outono,

E a vida é isso: as coisas como são,
Este zunido azul do violão.

V

Não fales na grandeza da poesia,
Em tochas murmurantes subterrâneas,

Na estrutura das tumbas num ponto de luz.
Não há sombras em nosso sol,

Dia é desejo e noite é sono.
Não há sombras em lugar nenhum.

Para nós, a terra é nua e plana.
Não há sombras. A poesia

Mais do que a música há de ocupar
O vazio de um céu sem hinos;

Em nossa poesia o ocuparemos,
Nessa zoeira de teu violão.

VI

Além de nós tais quais somos, uma canção,
Porem nada alterado pelo violão,

Nós na canção como se no ar,
Porém nada alterado, só o lugar

Das coisas como são, e só o lugar
Em que as tocas, no violão azul,

Fora do alcance de qualquer mudança,
Captadas numa atmosfera final;

Finais por um momento, como é final
Pensar na arte, quando pensar

Em deus é feito orvalho enfumaçado.
A canção é espaço. O violão azul

Vira o lugar das coisas como são,
Um conjugar dos sentidos do violão.

. . .

Wallace Stevens

The man with the blue guitar [excerpts]

. . .

IV

So that's life, then: things as they are?
It picks its way on the blue guitar.

A million people on one string?
And all their manner in the thing,

And all their manner, right and wrong,
And all their manner, weak and strong?

The feelings crazily, craftily call,
Like a buzzing of flies in autumn air,

And that's life, then: things as they are,
This buzzing of the blue guitar.

V

Do not speak to us of the greatness of poetry,
Of the torches wisping in the underground,

Of the structure of vaults upon a point of light.
There are no shadows in our sun,

Day is desire and night is sleep.
There are no shadows anywhere.

The earth, for us, is flat and bare.
There are no shadows. Poetry

Exceeding music must take the place
Of empty heaven and its hymns,

Ourselves in poetry must take their place,
Even in the chattering of your guitar.

VI

A tune beyond us as we are,
Yet nothing changed by the blue guitar;

Ourselves in the tune as if in space,
Yet nothing changed, except the place

Of things as they are and only the place
As you play them, on the blue guitar,

Placed, so, beyond the compass of change,
Perceived in a final atmosphere;

For a moment final, in the way
The thinking of art seems final when

The thinking of god is smoky dew.
The tune is space. The blue guitar

Becomes the place of things as they are,
A composing of senses of the guitar.

. . .

The Man With the Blue Guitar (1937)

* Nota do blogue Verso e Conversa: este atrevido aprendiz de blogueiro anota que o poema O homem do violão azul (The man with the blue guitar) é composto de 33 estrofes.
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Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, edição bilíngue, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; suas obras: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Wallace Stevens: Da Poesia Moderna

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

O poema da mente no ato de encontrar
O que satisfaz. Nem sempre foi preciso
Procurar: o palco estava pronta; bastava repetir
O roteiro.
              Então o teatro transformou-se
Em outra coisa. Seu passado era um souvenir.
Tem que estar vivo, aprender a fala do lugar.
Tem que encarar os homens desse tempo e buscar
As mulheres desse tempo. Tem que pensar na guerra
E achar o que satisfaz. Tem que construir
Um palco novo. Tem que subir nesse palco
E, como um ator insaciável, lentamente e
Com meditação, falar ao pé do ouvido,
No mais sutil ouvido da mente, repetir,
Exatamente, o que ele quer ouvir, ao som
Do qual uma platéia invisível escuta
Não a peça, e sim ela própria, expressa
Numa emoção como de duas pessoas, duas
Emoções virando uma só. O ator
É um metafísico no escuro, tangendo
Um instrumento, uma corda rija que gera
Sons que traspassam súbitas certezas, que contêm
A mente toda, aquém da qual descer não pode,
Além da qual não quer subir.
                                             Tem que ser
A descoberta de uma satisfação, talvez
Um homem patinando, uma mulher que dança ou
Se penteia. O poema do ato da mente.


Of Modern Poetry

The poem of the mind in the act of finding
What will suffice. It has not always had
To find: the scene was set; it repeated what
Was in the script.
                            Then the theatre was changed
To something else. Its past was a souvenir.
It has to be living, to learn the speech of the place.
It has to face the men of the time and to meet
The women of the time. It has to think about war
And it has to find what will suffice. It has
To construct a new stage. It has to be on that stage
And, like an insatiable actor, slowly and
With meditation, speak words that in the ear,
In the delicatest ear of the mind, repeat,
Exactly, that which it wants to hear, at the sound
Of which, an invisible audience listens,
Not to the play, but to itself, expressed
In an emotion as of two people, as of two
Emotions becoming one. The actor is
A metaphysician in the dark, twanging
An instrument, twanging a wiry string that gives
Sounds passing through sudden rightnesses, wholly
Containing the mind, below which it cannot descend,
Beyond which it has no will to rise.
                                                       It must
Be the finding of a satisfaction, and may
Be of a man skating, a woman dancing, a woman
Combing. The poem of the act of the mind.

Parts of a World (1942)
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Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; bibliografia: Harmonium (1923), The Man With the Blue Gitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Wallace Stevens: A casa estava quieta e o mundo calmo

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

A casa estava quieta e o mundo calmo.
Leitor tornou-se livro, e a noite de verão

Era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo calmo.

Palavras eram ditas como se livro não houvesse,
Só que o leitor debruçado sobre a página

Queria debruçar-se, queria mais que muito ser
O sábio para quem o livro é verdadeiro

E a noite de verão é perfeição da mente.
A casa estava quieta porque tinha de estar.

Estar quieta era parte do sentido e da mente:
Acesso da perfeição à página.

E o mundo estava calmo. Em mundo calmo,
Em que não há outro sentido, a verdade

É calma, é verão e é noite, a verdade
É o leitor insone debruçado a ler.

Wallace Stevens

The house was quiet and the world was calm

The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night

Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.

The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,

Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom his book is true, to whom

The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.

The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.

And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself

Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.

Transport to summer (1947)
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Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, edição bilíngue, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; bibliografia: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), Transport to summer (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Wallace Stevens: O homem do violão azul * [trechos I, II e III]

 

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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

I

Homem curvado sobre violão,
Como se fosse foice. Dia verde.

Disseram: “É azul teu violão,
Não tocas as coisas tais como são”.

E o homem disse: “As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão”.

E eles disseram: “Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,

No violão azul, toca a canção
Das coisas justamente como são”.

II

Não sei fechar um mundo bem redondo,
Ainda que o remende como sei.

Canto heróis de grandes olhos, barbas
De bronze, mas homem jamais cantei.

Ainda que o remende como sei
E chegue quase ao homem que não cantei.

Mas se cantar só quase ao homem
Não chega às coisas tais como são,

Então que seja só o cantar azul
De um homem que toca violão.

III

Ah, poder tocar o homem primeiro,
Cravar-lhe o punhal no coração,

Abrir-lhe o cérebro sobre uma mesa,
E dele retirar as cores ácidas,

Pregar-lhe o pensamento sobre a porta,
De asas abertas para a neve e a chuva,

Atingir-lhe o lá-ri-lá da vida,
Vará-lo, vazá-lo, virá-lo verdade,

Sacá-lo de um azul selvagem,
Desafinando o metal das cordas...

. . .

Wallace Stevens

The man with the blue guitar [excerpts]

I

The man bent over his guitar,
A shearsman of sorts. The day was green.

They said, “You have a blue guitar,
You do not play things as they are.”

The man replied, “Things as they are
Are changed upon the blue guitar.”

And they said then, “But play, you must,
A tune beyond us, yet ourselves,

A tune upon the blue guitar
Of things exactly as they are.”

II

I cannot bring a world quite round,
Although I patch it as I can.

I sing a hero’s head, large eye
And bearded bronze, but not a man,

Although I patch him as I can
And reach through him almost to man.

If to serenade almost to man
Is to miss, by that, things as they are,

Say that it is the serenade
Of a man that plays a blue guitar.

III

Ah, but to play man number one,
To drive the dagger in his heart,

To lay his brain upon the board
And pick the acrid colors out,

To nail his thought across the door,
Its wings spread wide to rain and snow,

To strike his living hi and ho,
To tick it, tock it, turn it true,

To bang if form a savage blue,
Jangling the metal of the strings…

. . .

The Man With the Blue Guitar (1937)

* Nota do blogue Verso e Conversa: este atrevido aprendiz de blogueiro anota que o poema O homem do violão azul (The man with the blue guitar) é composto de 33 estrofes.
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Poemas — Wallace Stevens, Seleção, Tradução e Introdução de Paulo Henriques Britto, edição bilíngue, 1987, Companhia das Letras, Editora Schwarcz, São Paulo — SP; Wallace Stevens (1879 1955), estadunidense de Reading, Pensilvânia, estudou Direito em Harward e na New York Law School, foi poeta, jornalista, advogado e administrador de companhia de seguros; em 1914, teve seus primeiros poemas divulgados na revista Poetry, de Harriet Monroe; como jornalista, por um breve período foi repórter do New York Evening Post; bibliografia: Harmonium (1923), The Man With the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942) Esthétique Du Mal (1945), Three Academic Pieces (1947), The Auroras of Autumn (1950), The Necessary Angel (ensaios, 1951); Collected Poems (1954), Opus Posthumous (1957) e outros títulos, além de duas peças para teatro; recebeu premiações por sua obra (Prêmio Bollingen, National Book Award Poesia e Prêmio Pulitzer de Poesia); hoje, considerável parte da crítica o posiciona literariamente como um dos maiores poetas americanos, ao lado de Ezra Pound, T. S. Eliot, William Carlos William e Marianne Moore.