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domingo, 4 de outubro de 2026

Euclides da Cunha: Verso e reverso *

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Bem como o lótus que abre o seio perfumado
Ao doce olhar da estrela esquiva da amplidão
Assim também, um dia, a um doce olhar, domado,
               Abri meu coração.

Ah! foi um astro puro e vívido, e fulgente,
Que à noite de minh’alma em luz veio romper
Aquele olhar divino, aquele olhar ardente
               De uns olhos de mulher...

Escopro1 divinal — tecido por auroras —
Bem dentro do meu peito, esplêndido, tombou,
E nele, altas canções e inspirações sonoras
               Sublime burilou!

Foi ele que a minh’alma em noite atroz, cingida,
Ergueu do ideal, ao rútilo clarão.
Foi ele — aquele olhar que à lágrima dorida
               Deu-me um berço — a Canção!

Foi ele que ensinou-me as minhas dores frias
Em estrofes ardentes, altivo, transformar!
Foi ele que ensinou-me a ouvir as melodias
               Que brilham num olhar...

E são seus puros raios, seus raios róseos, santos,
Envoltos sempre e sempre em tão divina cor,
As cordas divinais da lira de meus prantos,
               D’harpa da minha dor!

Sim — ele é que me dá o desespero e a calma,
O ceticismo e a crença, a raiva, o mal e o bem,
Lançou-me muita luz no coração e na alma.
               Mas lágrimas também!

É ele que, febril, a espadanar2 fulgores,
Negreja na minh’alma, imenso, vil, fatal!
É quem me sangra o peito — e me mitiga as dores.
               É bálsamo e punhal.

17 de Novembro 18833


Notas:
da edição:
* Este poema, constante da Obra Completa (Cunha, Euclides da, Nova Aguilar, 2 v., Rio de Janeiro, 1966) não traz a data de composição;
1. Escopro: instrumento de aço, para cortar metal ou lavrar pedra, usado pelos escultores, cinzel;
2. Espadanar: deixar cair aos borbotões; lançar; jorrar.
do blogue Verso e Conversa:
3. Em pesquisa, no site https://euclidesite.com.br/obras-de-euclides-da-cunha/poesias/caderno-ondas/ consta a data 17 de Novembro 1983.
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883-1884; Postais: 1902-1906 e Esparsas: 1885-1909; o jornalista Euclides da Cunha, que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Euclides da Cunha: Lirismo à disparada

 
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Eu sou por certo um ente abominável,
A quem nenhuma penitência salva,
Não tiro o meu chapéu à Divindade…
“E dizem que perdi a Estrela d’alva”…

E tão viciado que ainda hoje, à noite,
Um pelotão de serafins risonhos,
Em pleno boulevard da Via Láctea
Prendeu-me porque eu estava ébrio... de sonhos!

Escândalo no céu. Os santos todos,
Perdendo as composturas consagradas,
Atiravam-me estrelas, como pedras,
E riam-se a bandeiras despregadas.

Um desacato escandaloso... e como
O Supremo Fiscal, nessa emergência,
Não conteve os seráficos garotos,
Denunciei à Polícia a Providência.

Fiz bem. A rixa é velha. Há muito tempo
Que eu, o Voltaire1 e o Comte2 nem o intento
Podemos ter de passear à noite
Na grande praça azul do Firmamento.

Se o fazemos, apagam-se as lanternas
Dos céus, num pronto e momentâneo eclipse,
E vemo-nos nas trevas, entre os coices
Da besta divinal do Apocalipse!3

Não vou mais lá, por isso... Mas que importa...
Por que falar nesses sucessos tristes?
Trancam-me os céus: eu tenho o teu olhar...
Nem me faz falta Deus — pois tu existes!


Notas da edição:
1. Voltaire: poeta e prosador francês (1694 — 1778). Célebre por sua ficção espirituosa, irreverência e sátiras contra a Igreja, o clero, a religião e os filósofos de sua época. Defensor da liberdade contra as tiranias;
2. Comte, Augusto: Matemático e filósofo francês (1798 — 1857). Fundador da Sociologia. Criador do sistema filosófico chamado Positivismo, que influiu no pensamento de Euclides da Cunha e na ideologia republicana no Brasil. O positivismo de Comte nega a existência de Deus e rejeita qualquer conhecimento que não possa ser provado ou demonstrado cientificamente;
3. Apocalipse: livro profético, poético e místico do Novo Testamento, atribuído ao evangelista João. A “Besta” do Apocalipse é um animal indefinível, sobrenatural, fabuloso e terrível, que aparecerá no Mundo, espalhando o terror, prenunciando a segunda vinda de Cristo e o fim dos tempos.
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; o jornalista Euclides da Cunha, que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Euclides da Cunha: Se acaso uma alma se fotografasse... [soneto]

 
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Se acaso uma alma se fotografasse1
De sorte que, nos mesmo negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos;

Amigo! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando — deste grupo bem no meio —

Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos, é precisamente,
O mais triste, o mais pálido, o mais feio2.


Notas da edição:
1. Este soneto foi escrito no verso de uma fotografia enviada por Euclides a José Veríssimo. Datado de 1905, de Manaus, onde o poeta se encontrava, em vésperas de partir para o Alto Purus como chefe da Comissão Mista Brasílio-Peruana, param demarcação das fronteiras entre o Brasil e o Peru;
2. É impossível não relacionar este soneto de Euclides com o célebre Mal Secreto, de Raimundo Correia, que começa com os conhecidíssimos versos:
"Se a cólera que espuma e a dor que mora
N’alma e destrói cada ilusão que nasce.
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse...".
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; o jornalista Euclides da Cunha, que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Euclides da Cunha: Mundos extintos

 
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São tão remotas as estrelas que, apesar da
vertiginosa velocidade da luz, elas se apagam,
e continuam a brilhar durante séculos.

Morrem os mundos... Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da altura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...

Mas para nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias...
Pelos séculos em fora a luz fulgura
Traçando-lhes as órbitas vazias.

Meus ideais! extinta claridade —
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos
Da minh’alma a revolta imensidade...

E sois ainda todos os enganos
E toda a luz, e toda a mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos...*


* Nota da edição: Datado de 1886. O poeta nasceu em 1866.
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; o jornalista Euclides da Cunha, que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

sábado, 20 de abril de 2024

Euclides da Cunha: Ontem, quando soberba, escarnecias . . . [soneto]


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[Rimas]

Ontem, quando, soberba, escarnecias
dessa minha paixão louca, suprema,
e no teu lábio, essa rosada algema,
a minha vida gélida prendias,

eu meditava em loucas utopias,
tentava resolver grave problema:
— Como engastar tua alma num poema?
Se eu não chorava quando tu rias...

Hoje, que vives desse amor ansioso
e és minha, és minha, extraordinária sorte,
hoje eu sou triste sendo tão ditoso!...

E tremo e choro pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito fervoroso,
esse excesso de vida, que é a morte...


* Nota do blogue Verso e Conversa: A respeito da vida de Euclides da Cunha, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe o que se segue:
     ‘"Tragédia da Piedade" — A esposa de Euclydes, conhecida como Anna de Assis, tornou-se amante de um jovem cadete 17 anos mais novo do que ela, Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermando. Um deles morreu ainda bebê. O outro filho era chamado por Euclides de "a espiga de milho no meio do cafezal", por ser  único louro numa família de morenos. Aparentemente, Euclides aceitou como seu esse menino.
     A traição de Anna desencadeou uma tragédia em 1909, quando Euclydes entrou armado na casa de Dilermando dizendo-se disposto a matar ou morrer. Dilermando reagiu e matou Euclides, mas foi absolvido pela justiça militar. Até hoje discute-se o episódio. Dilermando mais tarde casou-se com Anna. O casamento durou 15 anos.’ [transcrito de https://pt.wikipedia.org/wiki/Euclides_da_Cunha]
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra; foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época A Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; Euclides da Cunha, que em 1884 fizera sua estréia publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, depois, por várias ocasiões colaborou com a então A Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Euclides da Cunha: Se acaso uma alma se fotografasse . . . [soneto]


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Se acaso uma alma se fotografasse
de sorte que, nos mesmos negativos,
a mesma luz pusesse em traços vivos
o nosso coração e a nossa face.

e os nossos ideais, e os mais cativos
de nossos sonhos... Se a emoção que nasce
em nós, também nas chapas se gravasse,
mesmo em ligeiros traços fugitivos,

amigo! Tu terias com certeza
a mais completa e insólita surpresa
notando — deste grupo bem no meio —

que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
destes sujeitos é, precisamente,
o mais triste, o mais pálido, o mais feio.


* Nota do blogue Verso e Conversa: A respeito da vida de Euclides da Cunha, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe o que se segue:
     ‘"Tragédia da Piedade" — A esposa de Euclydes, conhecida como Anna de Assis, tornou-se amante de um jovem cadete 17 anos mais novo do que ela, Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermando. Um deles morreu ainda bebê. O outro filho era chamado por Euclides de "a espiga de milho no meio do cafezal", por ser o único louro numa família de morenos. Aparentemente, Euclides aceitou como seu esse menino.
     A traição de Anna desencadeou uma tragédia em 1909, quando Euclydes entrou armado na casa de Dilermando dizendo-se disposto a matar ou morrer. Dilermando reagiu e matou Euclides, mas foi absolvido pela justiça militar. Até hoje discute-se o episódio. Dilermando mais tarde casou-se com Anna. O casamento durou 15 anos.’ [transcrito de https://pt.wikipedia.org/wiki/Euclides_da_Cunha]
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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras escolas, matriculou-se na Escola Politécnica, desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra; foi escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O Estado de São Paulo, à época A Província de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883 — 1884; Postais: 1902 — 1906 e Esparsas: 1885 — 1909; Euclides da Cunha, que em 1884 fizera sua estréia publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele e seus amigos, depois, por várias ocasiões colaborou com a então A Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro.

domingo, 30 de junho de 2013

Euclides da Cunha: O estouro da boiada

          Em Os Sertões, Euclides da Cunha nos mostra o que ocorria pelas bandas do sertão baiano (a terra) com o sertanejo (o homem) e seu cotidiano, para descrever e explicar (a luta) a Guerra de Canudos.
          Num pequeno trecho do livro, o autor relata o estouro da boiada. Naquele sertão descrito pelo autor, o clique para o estouro podia ser qualquer coisa, bastava um incidente trivial como “o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo”.
          E ao vaqueiro, era em vão todo o esforço para acalmar a manada e, assim, trazê-la de volta à trilha e conduzí-la ao seu destino pré-estabelecido. Restava aguardar. Só com o atropelo dos brutos cessado é que "reaviam-no à vereda da fazenda".

PS: Os grifos do texto, em negrito, são um puro atrevimento de responsabilidade deste blogueiro que aqui está postando.
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A arribada

          Segue a boiada vagarosamente, à cadência daquele canto triste e preguiçoso. Escanchado, desgraciosamente, na sela, o vaqueiro, que a revê unida e acrescida de novas crias, rumina os lucros prováveis: o que toca ao patrão, e o que lhe toca a ele, pelo trato feito. Vai dali mesmo contando as peças destinadas à feira; considera, aqui, um velho boi que ele conhece há dez anos e nunca levou à feira, mercê de uma amizade antiga; além, um mumbica claudicante, em cujo flanco se enterra estrepe agudo, que é preciso arrancar; mais longe, mascarado, cabeça alta e desafiadora, seguindo apenas guiado pela compressão dos outros, o garrote bravo, que subjugou, pegando-o "de saia", e derrubando-o, na caatinga; acolá, soberbo, caminhando folgado, porque os demais o respeitam, abrindo-lhe em roda um claro, largo pescoço, envergadura de búfalo, o touro vigoroso, inveja de toda a redondeza, cujas armas rígidas e curtas relembram, estaladas, rombas e cheias de terra, guampaços formidáveis, em luta com os rivais possantes, nos logradouros; além, para toda a banda, outras peças, conhecidas todas, revivendo-lhe todas, uma a uma, um incidente, um pormenor qualquer da sua existência primitiva e simples.

          E prosseguem, em ordem, lentos, ao toar merencório da cantiga, que parece acalentá-los, embalando-os com o refrão monótono:

                                   E cou mansão
                                  E cou... ê caõ...

ecoando saudoso nos descampados mudos...

Estouro da boiada
         
          De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura. . . (*)
          A boiada arranca.
          Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos campeiros.
          Origina o incidente mais trivial — o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta e o contágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-os embolados, em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos.
          E lá se vão: não há mais contê-los ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas, estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam, britando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos tabuleiros ruído soturno e longo de trovão longínquo...
         Destroem-se em minutos, feito montes de leivas, antigas roças penosamente cultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se, apisoados, os pousos; ou esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos, fugindo para os lados, evitando o rumo retilíneo em que se despenha a "arribada" —  milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-se impetuoso na esteira de destroços, que deixa após si aquela avalancha viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos, e cerros, e galhadas — enristado o ferrão, rédeas soltas, soltos os estribos, estirado sobre o lombilho, preso às crinas do cavalo — o vaqueiro!
         Já se lhe tem associado, em caminho, os companheiros, que escutaram, de longe, o estouro da boiada. Renova-se a lida: novos esforços, novos arremessos, novas façanhas, novos riscos e novos perigos a despender, a atravessar e a vencer, até que o boiadão, não já pelo trabalho dos que o encalçam e rebatem pelos flancos senão pelo cansaço, a pouco e pouco afrouxe e estaque, inteiramente abombado.
         Reaviam-no à vereda da fazenda; e ressoam, de novo, pelos ermos, entristecedoramente, as notas melancólicas do aboiado.

(*) Estourar, arrancar, ou arribar a boiada, são sinônimos do mesmo fato que nos sertões do norte reproduzem, talvez mais intensas, as disparadas dos pampas.

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Os Sertões, Livro I, 1973, Editora Três, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (1866 — 1909), nascido em Cantagalo — RJ, foi escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador e engenheiro; seu grande feito literário foi Os Sertões, publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos-reportagens do jornal O Estado de São Paulo, para quem o autor trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora à cobertura da quarta expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos idiomas alemão, chinês, francês, inglês, espanhol, dinamarquês, holandês, italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909), Canudos — diário de uma expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso perdido (1976) entre outros títulos.