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Bem como o lótus que abre o
seio perfumado
Ao doce olhar da estrela
esquiva da amplidão
Assim também, um dia, a um
doce olhar, domado,
Abri meu coração.
Ah! foi um astro puro e
vívido, e fulgente,
Que à noite de minh’alma em
luz veio romper
Aquele olhar divino, aquele
olhar ardente
De uns olhos de mulher...
Escopro1 divinal —
tecido por auroras —
Bem dentro do meu peito, esplêndido,
tombou,
E nele, altas canções e inspirações
sonoras
Sublime burilou!
Foi ele que a minh’alma em noite
atroz, cingida,
Ergueu do ideal, ao rútilo
clarão.
Foi ele — aquele olhar que à
lágrima dorida
Deu-me um berço — a Canção!
Foi ele que ensinou-me as
minhas dores frias
Em estrofes ardentes, altivo,
transformar!
Foi ele que ensinou-me a ouvir
as melodias
Que brilham num olhar...
E são seus puros raios, seus
raios róseos, santos,
Envoltos sempre e sempre em
tão divina cor,
As cordas divinais da lira de
meus prantos,
D’harpa da minha dor!
Sim — ele é que me dá o
desespero e a calma,
O ceticismo e a crença, a
raiva, o mal e o bem,
Lançou-me muita luz no coração
e na alma.
Mas lágrimas também!
É ele que, febril, a espadanar2
fulgores,
Negreja na minh’alma, imenso,
vil, fatal!
É quem me sangra o peito — e
me mitiga as dores.
É bálsamo e punhal.
17 de Novembro 18833
Notas:
da edição:
* Este poema, constante da Obra Completa (Cunha, Euclides da, Nova Aguilar, 2 v., Rio de
Janeiro, 1966) não traz a data de composição;
1. Escopro: instrumento de aço, para
cortar metal ou lavrar pedra, usado pelos escultores, cinzel;
2. Espadanar: deixar cair aos
borbotões; lançar; jorrar.
do blogue Verso e Conversa:
3. Em pesquisa, no site https://euclidesite.com.br/obras-de-euclides-da-cunha/poesias/caderno-ondas/
consta a data 17 de Novembro 1983.
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Ondas: poesias + “Conferência: Castro Alves e seu Tempo” — Euclides da Cunha, Introdução de
Adelino Brandão, Prefácio de Márcio José Lauria, e Textos Complementares de
Abguar Bastos, Guilherme de Almeida e Francisco Venâncio Filho, acerca da
poesia de E. Cunha, 2005, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Euclides Rodrigues Pimenta da
Cunha (1866 — 1909),
nascido em Cantagalo —
RJ, onde também iniciou sua vida escolar — Colégio Caldeira —, foi morar com os avós, em Salvador — BA, época em que estudou no Colégio
Carneiro Ribeiro, de volta ao Rio de Janeiro, frequentou algumas outras
escolas, entre as quais o Colégio Aquino, matriculou-se na Escola Politécnica,
desistiu por razões financeiras, e ingressou na Escola Militar da Praia
Vermelha, complementando depois seus estudos na Escola Superior de Guerra, foi
escritor, sociólogo, ensaísta, repórter jornalístico, historiador, engenheiro
militar e também poeta; seu grande feito literário foi ter escrito Os Sertões,
publicado originalmente em 1902 e, de lá até os dias atuais, dezenas de vezes
republicado e com inclusão de interpretações e análises de estudiosos
consagrados; anteriormente, tal obra saíra em artigos reportagens do jornal O
Estado de São Paulo, à época Província de São Paulo, para quem o autor
trabalhava como colaborador e repórter, enviado que fora na cobertura da quarta
expedição contra a Guerra de Canudos; o livro Os Sertões teve publicações nos
idiomas alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês,
italiano e sueco; outras publicações do autor, a maioria póstumas: Contrastes e
Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907), À Margem da História (1909),
Canudos — diário de uma
expedição (1939), O Rio Purus (1960), Caderneta de Campo (1975), Um paraíso
perdido (1976) entre outros títulos; em poesia, registre-se Caderno Ondas: 1883-1884; Postais: 1902-1906 e Esparsas: 1885-1909; o jornalista Euclides da Cunha,
que em 1884 estreara publicando um artigo em O Democrata, jornal criado por ele
e seus amigos, ainda estudante colaborou na Revista Acadêmica, depois, por
várias ocasiões, colaborou com a então Província de São Paulo, hoje O Estado de
São Paulo, e também na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, além de em outros
periódicos; pertenceu à Academia Brasileira de Letras a ao Instituto Histórico
Geográfico Brasileiro.
