quinta-feira, 31 de maio de 2012

Thiago de Mello: Poema perto do fim


A morte é indolor.
O que dói nela é o nada
que a vida faz do amor.
Sopro a flauta encantada
e não dá nenhum som.
Levo uma pena leve
de não ter sido bom.
E no coração, neve.
Faz Escuro Mas Eu Canto
 Porque A Manhã Vai Chegar (1965)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 50, Seleção e Prefácio de André Seffrin, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2007, São Paulo  SP; Amadeu Thiago de Mello, amazonense de Barreirinha nascido em 1926, é poeta e ensaísta; publicou, entre outros ensaios, Notícia da visitação que fiz no verão de 1953 ao rio Amazonas e seus barrancos (1967), Amazonas, pátria da água (1987); obra poética: Silêncio e Palavra (1951), Narciso Cego (1952), A lenda da Rosa (1956), Vento Geral (1960  1984), Faz Escuro Mas Eu Canto Porque A Manhã Vai Chegar (1965), Num Campo de Margaridas (1986), Campo de Milagres (1998) etc.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Mário Quintana: Poeminha do contra

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Mário Quintana (1906 1994), gaúcho de Alegrete, foi poeta, jornalista e tradutor; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Inéditos e Esparsos (1953), Pé de Pilão (literatura infanto-juvenil, 1968), Quintanares (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1978), Prosa e Verso (1978), Baú de Espantos (1986) etc, além de participação em antologias; traduziu obras de Proust, Balzac, Mérimée, Conrad, Maupassant, Voltaire, Beaumarchais, entre outros autores; trabalhou em jornais gaúchos.

Mário Quintana: Eu faço versos como os saltimbancos

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Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada é livre para os conhecidos...
Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!


Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos...
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!


"Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!"
Protesta a clara voz das Bem Amadas,
"Que tédio!" o coro dos Amigos clama.


"Mas que vos dar de novo e de imprevisto?"
Digo... e reforço as pobres mãos cansadas:
"Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isto!"
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro RJ; Mário Quintana (1906 1994), gaúcho nascido em Alegrete, poeta, trabalhou em vários jornais gaúchos e traduziu Proust, Conrad, Balzac e outros autores de importância; escreveu e publicou A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Espelho Mágico (1951), Quintanares (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977) e tantos outros, além de várias antologias.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Majela Colares: O Soldador de Palavras

Roteiro da poesia brasileira - anos 90 | Amazon.com.br
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fazer poemas é soldar palavras
fundir o signo  literal sentido 
do verbo frio, transformado em chama
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema
fuga do verbo não mais definido

criado o texto com ideia e tinta
forma e figura em linguagem extinta
quebrando regras de comuns fonemas

a ideia é fogo. Fogo... o verbo aquece
a tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas... por fim, poemas

O Soldador de Palavras (1997)

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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo — SP; Majela Colares, nascido em 1964, cearense de Limoeiro do Norte e radicado em Recife  PE, é poeta e contista; membro do Conselho Editorial da revista Calibán, publicou Confissão de Dívida, poesia (Biblioteca O Curumim Sem Nome, 1993), Outono de Pedra (Giordano / Biblioteca O Curumim Sem Nome, 1994), O Soldador de Palavras (Ateliê Editorial, 1997), A Linha Extrema (Calibán, 1999), O Silêncio no Aquário / Die Stille im Aquarium (Calibán, 2004), coletânea de poemas bilingue, português-alemão, traduzida por Curt Meyer-Clason, Quadrante Lunar (Calibán, 2005), As Cores do Tempo (Calibán, 2007), entre outros.

Majela Colares: O Soldador de Palavras

Livro Roteiro Da Poesia Brasileira 90 Anos - Paulo Ferraz - R$ 16 ...
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fazer poemas é soldar palavras
fundir o signo literal sentido
do verbo frio, transformado em chama
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema
fuga do verbo não mais definido

criado o texto com idéia e tinta
forma e figura em linguagem extinta
quebrando regras de comum fonemas

a idéia é fogo... o verbo aquece
a tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas... por fim, poemas

O Soldador de Palavras (1997)

Biblioteca. Livros de Majela Colares
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Roteiro da Poesia Brasileira Anos 90, Seleção e Prefácio de Paulo Ferraz, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2011, São Paulo SP; Majela Colares, nascido em 1964, cearense de Limoeiro do Norte, radicado em Recife PE, bacharel em Direito, é poeta e contista; membro do Conselho Editorial da revista Calibán, publicou Confissão de Dívida (poesia, Biblioteca O Curumim Sem Nome, 1993), Outono de Pedra (Giordano / Biblioteca O Curumim Sem Nome, 1994), O Soldador de Palavras (Ateliê Editorial, 1997), A Linha Extrema (Calibán, 1999), O Silêncio no Aquário / Die Stille im Aquarium (coletânea de poemas bilíngüe, português-alemão, traduzido por Curt Meyer-Clason, Calibán, 2004), Quadrante Lunar (Calibán, 2005), As Cores do Tempo (Calibán, 2007), entre outros.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Julian Assange (Wikileaks) entrevista Rafael Correa, Presidente do Equador - parte 2

Segue a 2ª parte da entrevista imperdível...
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Julian Assange (Wikileaks) entrevista Rafael Correa, Presidente do Equador - parte 1

Imperdível esta entrevista para os que temos o lado esquerdo ativado e que pensamos serem positivas e necessárias as inflexões políticas levadas a efeito pelos últimos governantes eleitos na América Latina, particularmente os do Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina, Venezuela, Brasil... Vale a pena conferir mesmo!
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Raul Bopp: Dona Chica


A negra serviu o café.
 A sua escrava tem uns dentes bonitos dona Chica.
 Ah o senhor acha?

Ao sair
a negra demorou-se com um sorriso na porta da varanda.

Foi entoando uma cantiga casa a dentro:

Ai do céu caiu um galho
Bateu no chão. Desfolhou.

Dona Chica não disse nada.
Acendeu ódios no olhar.

Foi lá dentro. Pegou a negra.
Mandou metê-la no tronco.
 Iaiá Chica não me mate!
 Ah! Desta vez tu me pagas.

Meteu um trapo na boca.
Depois
quebrou os dentes dela com um martelo.


 Agora
junte esses cacos numa salva de prata
e leve assim mesmo,
babando sangue,
pr'aquele moço que está na sala, peste!
Poesia Completa (1998)
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Roteiro da Poesia Brasileira  Anos 30, Seleção e Prefácio de Ivan Junqueira, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo  SP; Raul Bopp (1898  1984), gaúcho de Santa Maria, além de poeta foi memorialista e folclorista; obra poética: Cobra Norato (1931), Urucungo (poemas negros, 1932), Antologia Poética (1967), Putirum (1969), Mironga e outros poemas (1978) e Poesia Completa (1998).

Menotti Del Picchia: Mensagem

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É inútil meu cântico.

Os homens não têm ouvido

para a linguagem das pedras.

Meu mundo é história.

Meus irmãos viraram estátuas.

Os velhos poemas
são hieróglifos que os bárbaros
decifrarão com instrumentos eletrônicos.

No fim se convencerão
que ontem e hoje serão sempre a mesma coisa
e, espantados,
verão que também nós tínhamos
beleza e esperança.
O Deus sem rosto (1968)

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Roteiro da Poesia Brasileira  Modernismo, Seleção e Prefácio de Walnice Nogueira Galvão, Direção de Edla Van Steen, Editora Global, 2008, São Paulo SP; Menotti Del Picchia (1892 1988), paulista e paulistano, poeta e jornalista, empenhou-se em polêmicas na defesa da Semana De Arte Moderna, embora com uma poesia com poucos sinais de vanguardismo; em período tardio lança O Deus sem rosto (1968) onde estão contidos os mais modernistas de seus poemas; além deste, escreveu Juca Mulato (1917), Chuva de Pedra (1924), República dos Estados Unidos do Brasil (1928), Jesus (1933), Noturno (1970), entre tantos outros títulos; trabalhou nos jornais A Tribuna (de Santos), A Gazeta, Correio Paulistano, Diário de São Paulo e Diário da Noite; fundou a revista Papel e Tinta (com Oswald de Andrade) e o jornal Anhanguera (órgão informativo do movimento Bandeira criado junto com Cassiano Ricardo e Cândido Mota Filho).

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Luiz Roberto Ramos: "O único jeito de você não ficar velho é morrer cedo."


Reproduzo texto-entrevista com o médico geriatra Luiz Roberto Ramos, diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento da Escola Paulista de Medicina e coordenador do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp (extraído do site da Rede Brasil Atual):
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São Paulo – O Brasil caminha a passos largos para ter uma das maiores populações idosas do planeta. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), nos próximos 13 anos o país ocupará o sexto lugar no ranking daqueles com maior número de idosos. Hoje, 10% da população brasileira, cerca de 15 milhões de pessoas, tem mais de 60 anos.
Em dez anos, esse número vai dobrar. Segundo o geriatra Luiz Roberto Ramos, após os 60 anos a maioria das pessoas terá ao menos uma doença crônica e o que vai determinar a saúde nessa faixa etária é a capacidade de o idoso ter uma vida autônoma.
Ramos, que é diretor do Centro de Estudos do Envelhecimento da Escola Paulista de Medicina e coordena o Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que o país precisa se preparar para cuidar da saúde de seus idosos, inclusive formando mais médicos especializados. A entrevista foi concedida à repórter Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.  
Como o senhor analisa o rápido crescimento da população idosa no Brasil?
O que está ocorrendo no Brasil não é só um envelhecimento populacional nos moldes do que foi observado em outros países anteriormente, mas é um processo muito mais acelerado por conta do fato de que o Brasil está envelhecendo já com algumas questões bastante resolvidas, como anticoncepção, porque para uma população envelhecer precisa cair a fecundidade dessa população.
O Brasil está envelhecendo, porque não só o brasileiro está vivendo mais, mas as mulheres estão tendo menos filhos. Na medida em que entram menos crianças na população, começam a sobressair os idosos. Esse é o processo de envelhecimento. Na época em que a Europa envelheceu a gente não tinha mecanismos de controle da natalidade, a coisa era feita mais na base do calendário e, mesmo assim, houve envelhecimento.
No Brasil, quando isso acontece, no final da década de 70, começa a cair a fecundidade já com os métodos anticoncepcionais bastante desenvolvidos. Foi uma queda muito mais rápida e muito mais intensa fazendo com que esse processo todo no Brasil fosse bastante encurtado. Nós estamos envelhecendo na metade do tempo que a Europa envelheceu.
Qual é a idade média do idoso brasileiro?
A idade média do brasileiro hoje está em 75 anos. As mulheres vivem sempre um pouco mais que a média, os homens sempre um pouco menos. Podemos dizer que o brasileiro ganhou nos últimos 50 anos quase 30 anos a mais de vida. Essa é uma equação complicada, porque mexe com o planejamento de vida das pessoas. Em pouco tempo, as pessoas passam a administrar 20, 30 anos a mais de vida e isso tem uma série de implicações até para o sistema da Previdência Social.            
Quem é o idoso brasileiro? Como identificar essa população?
Do ponto de vista demográfico, chamamos de idosas as pessoas com mais de 60 anos. Alguns países da Europa mais desenvolvidos identificam o idoso com mais de 65 anos. Na Escandinávia, por exemplo, um idoso é um individuo com mais de 70 anos, porque muitas pessoas atingem essa idade em boas condições de saúde, fazendo com que as peculiaridades da velhice fiquem sendo empurradas para frente.
Então o parâmetro nesse caso é a saúde?
O parâmetro é a conservação das pessoas. Em países como a Suécia eles estão preocupados com a população com mais de 70 anos, embora você possa dizer que uma pessoa com mais de 60 é idosa. Eles identificam a população de atenção com mais de 70 anos. No Brasil, a gente ainda trabalha com a noção de que idosos são os indivíduos que têm mais de 60 anos e que hoje representam cerca de 10% da população, ou seja, 15 milhões de pessoas.
O que nos preocupa é que em menos de 10 anos essa população vai dobrar e nós vamos ter 30 e tantos milhões de idosos no Brasil. Aí sim, vai ser uma população grande, uma das maiores do planeta, e que vai ter que ser cuidada.
Quais são os estigmas relacionados aos “velhos”?
O único jeito de você não ficar velho é morrer cedo, então essa inevitabilidade tem um lado positivo. Os brasileiros estão vivendo mais, mas todo mundo recusa um pouco a ideia de envelhecer porque associa envelhecimento com decrepitude, no sentido das pessoas ficarem fragilizadas e principalmente se tornarem velhos dependentes e incapazes de tocar a sua própria vida.
Algumas pessoas vão envelhecer com perda funcional e consequentemente vão se tornar dependentes no dia a dia, mas elas são a minoria. A grande maioria das pessoas envelhece capaz de administrar a própria vida. No entanto, a gente tem que ter presente que a ocorrência de doenças crônicas é quase que inevitável ou seja, após os 60 anos a grande maioria das pessoas vai ter pelo menos uma doença crônica, seja pressão alta, diabete, catarata, um problema cardíaco.
Mas isso não quer dizer que ela vai ser uma pessoa limitada, dependente. Significa sim, que ela vai ter que administrar diariamente uma ou mais doenças crônicas que são inevitavelmente desenvolvidas na medida que os anos passam. O que é evitável é o individuo perder função, perder capacidade de tocar a vida de forma independente.
Esse é o foco principal das pesquisas que a gente realizou durante todos esses anos, ou seja, saúde na velhice é a manutenção da função suficiente para o individuo ter uma vida independente, autônoma. Esse é o novo conceito de saúde.
Aquele idoso que vive sozinho, que se vira sozinho.
Ele é capaz de viver sozinho porque ele consegue realizar as atividades que todo mundo faz, como se vestir, tomar banho, comer, fazer compras, cuidar das finanças, enfim, manter a sua casa e a sua família sem precisar de ajuda específica de ninguém. Esse indivíduo pode ter várias doenças. Tenho uma conhecida, a dona Clemência, que tem 90 anos e mora sozinha. Toma seus remédios, mas não depende da família para a própria sobrevivência.
Eu costumo dizer que viver sozinho na velhice, não é para quem quer, é para quem pode. É uma conquista você poder depois de uma certa idade, ter capacidade funcional suficiente para viver sozinho. Dá para você ser saudável na velhice e, ao mesmo tempo, tomar remédio para pressão, diabete, e isso não comprometer a sua saúde global.
Qual a receita para um envelhecimento saudável?
Primeiro, se manter ativo é uma grande ajuda para todas as pessoas depois da suposta idade da aposentadoria. A outra coisa é o próprio “viver sozinho” que estimula o indivíduo a se manter independente e capaz de realizar tudo que ele precisa durante o dia. E terceiro, ter claro o benefício de fazer atividade física. Um bom exemplo de manter a saúde funcional é permanecer ativo do ponto de vista laboral e do ponto de vista físico e mental.
O mercado de trabalho no Brasil está aberto à terceira idade?
Ainda não da mesma forma que se observa na Europa, onde já existem políticas bastante explícitas de recontratação e pessoas aposentadas podem ter determinadas funções que não demandam muita agilidade física, mas demandam comprometimento. É um mercado que se abre para idosos.
No Brasil, algumas áreas já identificam nos idosos pessoas mais confiáveis, com responsabilidade maior nas suas funções e que, portanto, atrairiam contratações apesar da idade e do fato de já serem aposentados em outras funções. Mas acho que é uma coisa que o Brasil vai precisar desenvolver mais. É um campo de trabalho para pessoas que já se aposentaram em alguma função e que ainda tem condições físicas e mentais de servir a sociedade.
Quais são os direitos dos idosos no Brasil?
Existe um Estatuto do Idoso bastante desenvolvido, com uma série de direitos nem sempre acessíveis a todos, pelo menos no momento. Nós vivemos num país com problemas econômicos, desemprego. Nessa disputa é óbvio que os idosos que necessitem de uma atividade laboral para fins econômicos certamente vão ter alguns problemas, porque esse mercado não está desenvolvido.
Agora, a própria necessidade de precisar trabalhar nessas idades já coloca esses indivíduos em uma situação de mais risco, porque eles certamente vêm de uma situação carente já de mais tempo. Mas o ideal é que as pessoas se mantenham ativas, sem a premência econômica, ou seja, terem uma aposentadoria mínima para poderem viver e trabalhar para melhorar essa situação e não como única alternativa. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Vladimir Safatle: Quanto menos poder e margem de manobra o sistema financeiro tiver, melhor é a sociedade.

Reproduzo texto de Vladimir Safatle, pensador do Departamento de Filosofia da USP (Folha de São Paulo, 08.05.2012)



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Pobres bancos
          Quando o governo resolveu, enfim, denunciar a "lógica perversa" que guia o sistema financeiro brasileiro, era de esperar que os consultores e economistas regiamente recompensados pelos bancos aparecessem para contemporizar. Como em uma peça de teatro na qual as máscaras acabam por cair, foi isto o que ocorreu.
          Há algo de cômico em ver adeptos do livre mercado e da concorrência procurando argumentos para defender uma banca de oligopólio especializada em espoliar os brasileiros com "spreads" capazes de deixar qualquer banco mundial corado de vergonha.
          Se os bancos brasileiros estão entre os que mais lucram no Universo, é porque nunca precisaram, de fato, viver em um sistema no qual o poder estatal impediria a extorsão institucionalizada à qual ainda estamos submetidos.
          No mundo inteiro, o sistema bancário faz jus à frase do dramaturgo Bertolt Brecht: "O que é roubar um banco se você imaginar o que significa fundar um banco?".
          Nos últimos anos, vimos associações bancárias com comportamentos dignos da máfia, pois são especializadas em maquiar dados e balanços, criar fraudes, ajudar a evasão fiscal, operar em alto risco e passar a conta para a frente, além de corromper entes públicos.
          Mas a maior astúcia do vício é travestir-se de virtude. Assim, o sistema financeiro criou a palavra "austeridade" a fim de designar o processo de assalto dos recursos públicos para pagamento de rombos bancários e "stock-options" de executivos criminosos, com a consequente descapitalização dos países mais frágeis.
          Se não tivemos algo da mesma intensidade no Brasil, vemos agora um processo semelhante do ponto de vista retórico. Assim, os "spreads" bancários seriam o resultado indigesto do risco alto de inadimplência, já que a população brasileira teria o hábito pouco salutar de não pagar suas dívidas e se deixar endividar além da conta.
          Neste sentido, os lucros bancários seriam (vejam só vocês) o remédio amargo, porém necessário, até que a população brasileira aprenda a viver com o que tem e assuma gastos de maneira responsável. O mais impressionante é encontrar pessoas que se acham capazes de nos fazer acreditar nessa piada de mau gosto.
          A verdade é que quanto menos poder e margem de manobra o sistema financeiro tiver, melhor é a sociedade. Há sempre aqueles "consultores" que dirão: "É fácil falar mal dos bancos", apresentando o espantalho do populismo. A estas pessoas devemos dizer: "Sim, é fácil. Ainda mais quando não se está na folha de pagamento de um". Já sobre o "risco" do populismo, pobres são aqueles para os quais a defesa dos interesses econômicos da população sempre é sinal de irracionalidade.