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sábado, 31 de dezembro de 2022

Ingrid Martins: faz um tempo que quero escrever sobre o amor . . .


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faz um tempo que quero escrever
sobre o amor que carrego no peito
amor esse que nasceu comigo
amor esse que me pegou de jeito

quero falar também
sobre as festas em família
que fui com minha namorada
sobre os dias que andamos de mãos dadas
e não aconteceu nada
nada que nos causasse medo
nada que nos fizesse voltar pra casa mais cedo
não aconteceu nada
não aconteceu de nos xingar
não aconteceu de nos expulsarem
de um local porque estávamos nos beijando
não vi olhares de quem estivesse nos julgando
não ouvi boatos

aliás, ouvi sim:
e dizia que nós formávamos um belo casal
concordei.
mas há dias
há meses que não escuto:
“AQUI NÃO É LUGAR PRA ISSO”
“OLHA AS CRIANÇAS”
“QUE DESPERDÍCIO”
há tempos que não vejo meu corpo marcado de preconceito
há tempos que não me reinvento
porque meu sapatão natural
não causa mais tanto nojo
tanto ódio
mau efeito
há tempos que não preciso me esconder
já faz um tempo que não tenho motivos para temer
e esse texto até parece ser algo bom
algo que só fale de amor
mas não
não se confunda
eu tô falando de dor
da dor que já senti.
da dor dos que vão nascer viados também vão sentir.
da dor que você não sentiu
mas meus amigos viados sentiram.
mas, a gente só queria amar e ser amado
nos beijar sem precisar ficar olhando para o lado
sem medo de sair bem viado
e ser espancado
há tempos
que só queremos viver sem ser notado
mas não sermos invisíveis
há tempos queremos viver dias menos difíceis
há tempos queremos ter voz

JÁ FAZ UM LONGO TEMPO
QUE SÓ QUEREMOS VIVER
VIVER SEM MEDO
VIVER SEM DOR
VIVER SEM TRAUMA
SIMPLESMENTE
VIVER AMOR.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & mais de 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Ingrid Martins, de São Paulo SP, é cabeleireira, designer, produtora cultural, escritora e poeta; participa da Coletiva Batalha Dominação e do Slam do Norte; A Coletiva Dominação se apresenta em espaços públicos (área do metrô São Bento e outros locais), realizando batalhas poéticas só pras minas e LGBTQIA+, reunindo uma variedade de artistas, MCs, poetas e gerando audiovisuais dos eventos; Ingrid Martins é autora dos zines Poesia e Vertical.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Ingrid Martins: Tudo bem que tenhamos terminado, ouvi dizer que é assim mesmo, . . .

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Tudo bem que tenhamos terminado, ouvi dizer que é assim mesmo, as coisas acabam. Assim como acaba o açúcar, e você  é obrigado a tomar café puro.
Acaba como acaba o bombom, e no final sobra só a embalagem suja, que você tenta passar a língua pra comer o resto, e vê que não sobrou nada. As coisas acabam mesmo.

Não foi diferente com a Joelma e o Chimbinha. Com a Fátima Bernardes e o William Bonner. Comigo. Você. Tudo tem fim, a gente já sabia disso. Minha mãe já dizia: tem coisas que vem, acontece e acaba. Menos as contas pra pagar, isso sempre vai existir. Mas sejamos realistas, nós terminamos e isso é natural, até a natureza acaba. Você viu, o tomate que eu plantei acabou, assim como acabou o pé de hortelã, o pé de cebolinha, e aquela rosa que te dei e você não cuidou muito bem. Cê vê, as coisas acabam. É assim, quando vê já foi, quando foi nem viu, e assim como esse texto ruim, que também terá final, assim foi com a gente, e não que tenha sido intencional, ninguém opta pelo fim, eu mesma se pudesse estaria com meu pé de tomate até hoje! Mas assim é a vida, comigo aconteceu muitas vezes, muitas coisas acabaram pra mim, muitas coisas chegaram no fim, e infelizmente não tem muito o que fazer, não tem pra onde correr.
ENFIM, O QUE EU QUERIA MESMO DIZER, É QUE TUDO ACABA, MENOS A MINHA VONTADE DE BEBER.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & mais de 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Ingrid Martins, de São Paulo SP, é cabeleireira, designer, produtora cultural, escritora e poeta; participa da Coletiva Batalha Dominação e do Slam do Norte; A Coletiva Dominação se apresenta em espaços públicos (área do metrô São Bento e outros locais), realizando batalhas poéticas só pras minas e LGBTQIA+, reunindo uma variedade de artistas, MCs, poetas e gerando audiovisuais dos eventos; Ingrid Martins é autora dos zines Poesia e Vertical.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Lima Barreto: A carroça dos cachorros


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          Quando de manhã cedo, saio da minha casa, triste e saudoso da minha mocidade que se foi infecunda, na rua eu vejo o espetáculo mais engraçado desta vida.
          Amo os animais e todos eles me enchem de prazer da natureza.
          Sozinho, mais ou menos esbodegado, eu, pela manhã, desço a rua e vejo.
          O espetáculo mais curioso é o da carroça dos cachorros. Ela me lembra a antiga caleça dos ministros de Estado, tempo do império, quando eram seguidas por duas praças de cavalaria de polícia.
          Era no tempo da minha meninice e eu me lembro disso com as maiores saudades.
           Lá vem a carrocinha! dizem.
          E todos os homens, mulheres e crianças se agitam e tratam de avisar os outros.
          Diz Dona Marocas a Dona Eugênia:
           Vizinha! Lá vem a carrocinha! Prenda o Jupi!
          E toda a “avenida" se agita e os cachorrinhos vão presos e escondidos.
          Esse espetáculo tão curioso e especial mostra bem de que forma profunda nós homens nos ligamos aos animais.
          Nada de útil, na verdade, o cão nos dá; entretanto, nós o amamos e nós o queremos.
          Quem os ama mais, não somos nós os homens; mas são as mulheres e as mulheres pobres, depositárias por excelência daquilo que faz a felicidade e infelicidade da humanidade  o Amor.
          São elas que defendem os cachorros dos praças de polícia e dos guardas municipais; são elas que amam os cães sem dono, os tristes e desgraçados cães que andam por aí à toa.
          Todas as manhãs, quando vejo semelhante espetáculo, eu bendigo a humanidade em nome daquelas pobres mulheres que se apiedam pelos cães.
          A lei, com a sua cavalaria e guardas municipais, está no seu direito em persegui-los; elas, porém, estão no seu dever em acoitá-los.
          
Marginália, 20-09-1919

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Lima Barreto: Crônicas Escolhidas, Apresentação de João Antônio, Coleção Folha de São Paulo, 1995, Editora Ática, São Paulo — SP; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Lucifer Ekant: Descoloniza

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Quem disse que ser trans me torna passiva?
Que roteiro diz que a feminilidade me torna submissa?
Hierarquia sexo social, que capitaliza até meu jeito de foder.
Indústria do pornô que diz que meu sexo é pra vender.
A única forma permitida de desviar é se for pra gerar lucro,
e me comercializar?

Essa indústria também é responsável
por endeusarem macho
e iconizar.

Aaaaaah, se manca.
Seu sistema é frágil e não vai me dominar.
Nem pense em impor desejo para o seu comércio.
As bixa não vai deixar passar.

A sua ideia de ser homem não é suficiente
para todos os corpos com os quais eu vou transar.
E como vou transar?

Pega seu sexo baunilha, de papai e mamãe e afasta pra lá.
A minha foda não é para reprodução.
É para emancipação.
Adeus, colonização.

Conhecer os corpos, experimentar, compartilhar.
E viado, nem venha demonizar nossa vagina.
Ele pode ser homem de xoxota e consegue, sim, me realizar.

Afasta de mim esse falo.
Não me diga o que é ser macho.
Invisibilizar transhomem, só revela
o quanto seu desejo é manipulado.

Para o corpo como objeto do simulacro,
desejo de consumo do patriarcado.
Na base do teu sexo social,
o corpo do viado feminino,
se torna invisível e solitário.

O macho branco forte rico e musculoso tá no topo.
E quando ela é bixa, trans, preta, gorda e pobre:
“joga pra margem, pro esgoto”.

Estamos na base dessa cadeia,
mas não é por isso que eu abaixo a cabeça.
E nem me peça pra foder.
Sou desejada,
mas só quando ninguém vê.

Hahaha
sei que não somos opção,
só nos escolhe quando somos resto.
Pensa que vou foder só pra te satisfazer?

O meu prazer não importa quando
a sua pica goza
no escuro do banheiro já quer me esconder,
só pra defender que bixa é depósito de porra,
que não é de merecer andar ao teu lado,
nem de reconhecer.

Somos transbixa e temos poder.
E você, gay, não é obrigado a “enviadecer”.
Até porque, ninguém quer perder
O PRIVILÉGIO
de parecer
e nem quer ser atacado por outros machos
que não aceitam um corpo de pau feminino.

Agora me diga, macho:
 Quando você foi proibido de ser homem?
 Quando te condenaram por homem cis?
 Quantas vezes te forçaram a ser homem?
 Quantas vezes ouviu que não pode?

É.
Bem diferente de ser transviado.
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Antologia Trans — 30 poetas trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio, gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo — SP; sobre Lucifer Ekant, assim como sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço biobliográfico foi registrado pela edição; em pesquisa ‘googleana’, o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa também nada encontrou; a visitant(e)s e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta página agradece.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Bernardo Enoch Mota: Eu não

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Eu não odeio meu corpo.
Eu não nasci no corpo errado.
Não me venha falar que ele é inadequado.
Se eu mudo é para melhorar o que sinto
que possa ser melhorado.
Se eu mudo é porque mudança faz parte da vida
e eu não quero me sentir parado.
Cada forma.
Cada traço.
São todos pedaços
de quem eu sou.
Comecei só como um rabisco.
Agora estou transcendendo o padrão fabricado.
E ninguém tem nada com isso.
E não tem nada de errado.
Eu sou eterno rascunho da vida.
Nunca vou ser terminado.
Apaga.
Refaz.
Tira.
Acrescenta.
Só não deixa igual,
porque aí ninguém aguenta.
Eu não odeio meu corpo.
Eu não nasci no corpo errado.
Sou eterno rascunho da vida, estou aqui
para ser melhorado.
Na eterna busca do buscar por toda eternidade.
Rabisco
Rascunho
Desenho
Obra prima
Transbordando
Transcendendo
Transgredindo
Apenas sendo mais eu
Mais meu a cada dia.

Resultado de imagem para fotos bernoch
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Antologia Trans 30 poetas trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio, gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução-orelha de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo SP; sobre Bernardo Enoch Mota, assim como sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço biobliográfico foi registrado pela edição; no entanto, em pesquisa ‘googleana’, o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa encontrou que Bernardo Enoch Mota, ou Bernoch, é fotógrafo, poeta e vídeotuber quando dá vontade; a visitant(e)s e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta página agradece.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Teodoro Albuquerque: Construção

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Não eu não sou um homem de verdade.
Definitivamente não sou, nunca serei.
Vou te falar o que eu sei sobre homem de verdade.

É forma viva da sapiência e erudição que urina fora do vaso,
senta de perna muito aberta no busão,
te agride se sente que está perdendo o altar em que se fez macho,
escarra forte no chão.
Tá sempre calculando o nível de esculacho
que vai direcionar sem dó
para todo e qualquer ser vivo desviante da condição de submissão
cis-heteronormativa.

E eu juro que não tô gastando palavra bonita,
que comigo o verbo é torto mesmo,
como eu sempre fui.

Não, homem de verdade eu não sou, não.
Eu saí de uma outra fornada.
Eu nasci e fui criado
na feminilidade,
me ensinaram que a minha genitália foi criada
para se invadir.

Fecha a perna, garota.
Não usa esse short perto do menino,
é curto demais.
Não adiantou.

Eu tô vivendo a consequência da minha invasão
desde 1999.
Hoje eu tenho 23 anos
Cês tão fazendo a conta?
Porque homem que é homem de verdade, não faz.
Nem da idade, nem do consentimento.
Palavras que vários deles não conhecem,
tipo clitóris, orgasmo, fazer gozar
e pode parar,
para agora mesmo.

Nesse poema não tem espaço pra problematização
nem pra feminista radical sorrir de escárnio
pensando em socialização.

Eu tô falando de masculinidade.
Vamo combinar que é um problema maior que
a vulnerabilidade da buceta.
Até porque eu conheço homens de buceta que
a cada dia que passa
estão se esforçando pra ser homens de verdade
jogando no vento a carta da criação,
justificando incansavelmente a reprodução
daquilo que os fez sofrer tanto quanto eu.

Pronto, falei.
Saiu direto das minhas tetas indesejadas,
da minha ausência de pelo e falo,
da minha voz aguda,
da baixa estatura,
da inconfundível distribuição muscular,
dos meus quadris largos,
da minha raxa.

Tá bem aqui o boy que vai humilhar a masculinidade de vocês.
E cês pode crer que a minha arma
tá pronta e empunhada
por mim e pelas minhas irmãs.
Quem tá apontando é cada mina cis, trans e travesti,
cada transviado, cada bicha,
cada uma das pessoas afeminadas que vocês querem destruir.
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Antologia Trans — 30 poetas trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio, gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo — SP; sobre Teodoro Albuquerque, assim como sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço biobliográfico foi registrado pela edição; em pesquisa ‘googleana’, o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa também nada encontrou; a visitant(e)s e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta página agradece.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Luq Souto Ferreira: Olhem para mim

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Olhem para mim e vejam
que no meu masculino
meu feminino é lindo.

Ornamental,
para a sociedade tão sacal,
a minha alma tão natural.

Experimento,
já que no fluido que sou
tudo está em movimento.

És lindo.
Mas eu tenho que ser findo?
Para quem me resumi a um menino?

Para rodar a saia
tenho que ter uma vagina?
Deixar que me determinem
a um ponto na esquina?

Para ser viril
tenho que negar
a flor do meu gentil?

Em ideologias brigar?
E rezar pra um dia estar
onde eu sempre pude transitar?

Porque tenho que ser Marina?
Ou me conformar em ser Roberto?
Mas se tudo no ser é incerto,
eu só não posso ser liberto?

Sou, fui.
Serei, seremos.
Será que o mundo todo
está em dois extremos?

Em duas caixas?
Só por fugir disso tenho uma moral baixa?
Mas, e se minha alma não se encaixa?

Querido, querida, queride,
E se eu lhe contar que ainda há quem duvide?
Da identidade de pessoas
que só querem ser felizes,
reconhecides e ouvides.

Bom, mas e se eu for
quem dizem quem eu sou

Tudo bem, me deixe que eu vou
aos poucos descobrir.
Só me deixe fluir
para nessa ideologização
de homem e mulher
eu não sucumbir.

Não precisamos ser eternamente
o que nos determinaram
quando nascemos.
Nós somos transformação,
tudo isso é construção.
É que para o capital
para onde eu vou é contra-mão!

Tudo isso é nascer.
Tudo isso é viver.
Tudo isso é ser.
Na boa, quem tá recitando isso aqui
não é Lucas,
é Luq, muito prazer!

Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar”. *


* Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que os versos em itálico são fragmentos da composição ‘Preciso me encontrar’, letra e música de Candeia; clique no título lá em cima, veja o vídeo e ouça a música nas vozes de Zeca Pagodinho e Marisa Monte e instrumentação musical de Yamandu Costa e Hamilton de Holanda.
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Antologia Trans 30 poetas trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio, gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo SP; sobre Luq Souto Ferreira, assim como sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço biobliográfico foi registrado pela edição; em pesquisa ‘googleana’, o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa também nada encontrou; a visitant(e)s e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta página agradece.

domingo, 7 de abril de 2019

Bastos Tigre: Mal discreto

Resultado de imagem para Humor e Humorismo Idel Becker
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Se a prontidão, a pinda, a quebradeira
e os vários males desta mesma classe,
tudo o que punge a tísica algibeira,
sobre o rosto do "pronto" se estampasse;

Se se pudesse a crise financeira
ler "através da máscara da face",
quanta gente, talvez, que da primeira
fila, então, para a última passasse...

Quanta gente nós vemos, quanta gente,
cuja gravata, cautelosamente, *
uma camisa enxovalhada esconde!...

Quanto moço elegante e perfumado
que anda, imponente, de automóvel... fiado,
porque lhe faltam niqueis para o bonde!

Imagem relacionada

Nota de Idel Becker: Variante: cujo largo plastrão, discretamente.
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Humor e Humorismo — Poesias e Versos e Paródias de Poemas Famosos — Antologia, Organização de Idel Becker, 1961, Editora Brasiliense, São Paulo — SP; Manuel Bastos Tigre (1882 1957), pernambucano de Recife, formado engenheiro civil pela Escola Nacional de Engenharia, Rio de Janeiro, foi engenheiro, poeta, jornalista, bibliotecário, compositor, humorista e publicitário; redigiu programas de rádio, colaborou em diversos jornais e revistas (Tagarela, A Noite, Gazeta de Notícias, A Rua, Careta, O Malho); fundou a revista O Xiquote e escreveu por longuíssimo tempo a coluna "Pingos & Respingos" do Correio da Manhã; escreveu peças e revistas teatrais; obra literária: Saguão da Posteridade (Tipografia Altina, Rio de Janeiro, 1902), Versos Perversos (Livraria Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1905), Moinhos de Vento (J. Silva, Rio de Janeiro, 1913), Bolhas de Sabão (Leite Ribeiro & Maurillo, Rio de Janeiro, 1919), Fonte da Carioca (1922), Arlequim (Tipografia Fluminense, Rio de Janeiro, 1922), Penso, logo eis isto... (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1923), A Ceia dos Coronéis (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1924), Poemas da Primeira Infância (Tipografia Coelho, Rio de Janeiro, 1925), Poesias Humorísticas (seleção de versos já publicados e mais poemas novos, Flores & Mano, Rio de Janeiro, 1933) e outros títulos; Bastos Tigre é considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil, em sua homenagem criou-se o dia do Bibliotecário, comemorado em 12 de março, data do seu nascimento.

domingo, 19 de novembro de 2017

Walcyr Carrasco: Diários na web

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               Eu andava supercurioso a respeito dos blogs. Para quem não sabe, é uma espécie de diário que alguém coloca na internet, em geral assinado por pseudônimo. Liberdade total. Alguns comentam sobre a vida. Outros revelam intimidades de arrepiar! Recentemente, um amigo me forneceu o “endereço” de seu blog. Fui ler. Lá pelas tantas, ele falava de nosso último almoço. Concluía que nossa amizade estava no fim! Liguei imediatamente:
                Eu não briguei com você, briguei?
               Esclarecemos o mal-estar. Aproveitei para saber como localizar outros blogs. Adolescentes sabem fazer isso de olhos fechados. Mas um velhusco como eu tem certa dificuldade. Descobri endereços que abrigam uma enormidade de blogs! Como uma grande biblioteca onde se pode entrar, escolher o livro e abrir. Mas é a vida real! Infinitamente verdadeira. Sou do tempo em que ainda se fazia diário com chavinha! Imaginem a chance de ler quantos quiser! Entrei no primeiro. Um adolescente contava como entrou no elevador ao mesmo tempo que a vizinha trintona. Olhou o decote. Ela retribuiu com um sorriso.
                Oi!  disse ele.
                Oi!  respondeu ela.
               Começou a conversa, com piscadas e parte a parte. O elevador parou no quarto andar, o dele. O garotão desceu enquanto a moça continuava até o décimo quarto. Ele ficou se lastimando, pensando no que mais poderia ter dito. Só isso. Um flagrante da vida real. Ri com outro, sugestivamente chamado “Hálito de Virgem”. A autora propõe uma campanha para criar nova lei. Segundo a qual todos os salões de beleza seriam obrigados a assinar revistas interessantes! Alguns são divertidos já no título, como o “Pensar enlouquece. Pense nisso”. Um rapaz adverte: “Perdi os óculos. Isso quer dizer que estou mais perigoso no trânsito”.
               São relatados todos os tipos de experiências, até as sociológicas. Uma garota foi entrevistar camelôs para entender o mundo dos excluídos. Quase caiu dura ao descobrir que o primeiro com quem falou tinha o segundo ano de faculdade de Filosofia! Mais tarde, outro lhe explicou longamente a contradição entre capital e trabalho, na melhor retórica marxista. De queixo caído, a estudante descobriu que excluída estava ela. Da realidade. Outra reage contra o mito da Cinderela. “Foi por causa dessa besta da Cinderela que acreditei em príncipe encantado!”, reclama. Em busca do tal príncipe, aos 27 anos já se casou três vezes! Uma internauta reflete: “qual é a hora certa de romper uma amizade, de terminar um amor?”
               “Emoções e Magias” oferece receitas do tipo: “Para Realizar um Desejo... pegue uma folha de papel branco e...” Achei ótimo o título sarcástico de um blog: “Viver Faz Mal à Saúde”. Fiquei tocado pela mensagem otimista de uma garota que viveu nos Estados Unidos, onde trabalhou como babá. Ao voltar, não conseguia emprego. Finalmente, comemorava um lugar como secretária. “Meu Futuro me acena sorrindo e eu aceno de volta para ele. Não tenho certeza, mas acho que estamos namorando”.
               Tal é o sucesso dos blogs que o autor de “Escrevescreve” assusta-se: “Foram mais de trezentos acessos só esta tarde. Será que foi alguma coisa que eu escrevi?”
               Saí fascinado do passeio pela web. Acredito que os  blogs são uma grande revolução. Sei de gente que tem amigos em outros estados, com quem compartilha de todas as intimidades  e haja intimidade nisso! Sem nunca terem se conhecido pessoalmente! Será uma nova forma de amizade? No futuro, todo relacionamento vai ser assim?

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Crônica Brasileira Contemporânea — Antologia de Crônicas, Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 2005, 1a. edição, Editora Moderna, São Paulo — SP; Walcyr Rodrigues Carrasco, nascido em 1951, paulista de Bernardino de Campos, é escritor, novelista, roteirista, dramaturgo e cronista; escreveu, roteirizou e adaptou séries, minisséries e novelas nas tevês SBT  Cortina de Vidro, Fascinação , Manchete  Chica da Silva, Filhos do Sol, O Guarani  e Globo  Alma Gêmea, O Profeta, Êta Mundo Bom!, Brava Gente, Sítio do Picapau Amarelo, etc. ; para o teatro, produziu A Filha da Branca de Neve, Uma Cama entre Nós, Até que o sexo nos separe, A Mulher do Candidato, Êxtase, e outros textos; bibliografia literária: O caçador de palavras (1994), O Menino que tocou a sombra (1999), Vida de droga (2000), O Menino Narigudo (2003), O Garoto as Novela (2003), Pequenos delitos e outras crônicas (2004), Contos de Pânico (2004), A Menina que queria ser anjo (2005), A Palavra não dita (2007), Veneno digital (2013) e outros textos; recebeu premiações por suas obras; é colunista da revista Época.