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sexta-feira, 24 de abril de 2026

joaquim da silva: nanocontos 15, 28, 37, 52, 55 & 63

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15.
noite vinda
multidão de pirilampos reagem em cadeia
começam a piscar
sombras se vão

28.
recolheu-se
peso da idade lhe ia às costas
caramujo era caramujo ficou
tinha uma casa ao menos

37.
idoso caipira já não se acocorava
garimpou tripeça no antiquário
descartou divã

52.
escritor de autoajuda não enganava ninguém:
escrevia e lucrava muito

55.
grave erro não foi desdenhar futuro
querer voltar ao passado foi sua brutal falha

63.
quis rever o ferroviário Sales e seu gramofone
na Turma 29 do Bacelar buscou retrato na parede

[são paulo, jan/fev/mar de 2026]
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joaquim da silva, p. da silva e outros silva, além de genésio dos santos, são uma só pessoa e um só nanocontista.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

joaquim da silva: nanocontos 17, 18, 19, 20, 21 & 25

 
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17.
obsessivo observador de plantão
não olha pro próprio umbigo:
convive com uma hérnia que salta aos olhos
[gsf – sp, 09/2024]

18.
humorista não quis mais brincar com o humor
levava tudo a sério
perdeu a graça

19.
tantã não agia como biruta de aeroporto:
cata-vento em giro contrário viraria suástica

20.
vivia nas nuvens atrás de códigos-fonte
teórico de TI fuçava bannon musk
pentágono & cia

21.
morava no gúgol
cuca fundida arfante usava IA
esboçava minitextos sem inteligência criativa
respirava

25.
perseguia o passado
viciado em nomear tudo chamou isso saudade

[são paulo, fevereiro de 2026]
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joaquim da silva, p. da silva e outros silva, além de genésio dos santos, são uma só pessoa e um só nanocontista.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

joaquim da silva: nanocontos 6, 7, 8, 9 & 10

 
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6.
oriundo das trevas olimbo quis viver na sombra aluz lhe ofuscava
notempo quem sabe um dia se acostumasse à claridade
apesquisa porém foi peremptória: viver para olimbo nunca foi utopia

7.
agulha já havia encontrado
faltava o camelo escondido no monte de feno

8.
médico de plantão verte antídoto em mercado doentio
avia placebo pra males sem remédio

9.
assou castanhas na brasa
usou camaleão pra pinçá-las do fogo
ronron andava fugido

10.
em tom amarelo tomatinho quis virar vermelho consumiu muito adubo e foi devorado por ativista ecovegano

[são paulo, janeiro de 2026]
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joaquim da silva, p. da silva e outros silva, além de genésio dos santos, são uma só pessoa e um só nanocontista.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

joaquim da silva: nanocontos 1, 2, 3, 4 & 5

 
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1.
preguiçoso queria escrever
treinou nos aforismos apreciou façanha se sentiu um bamba

2.
fez imersão nos livros
pra retomar fôlego emergiu com textículo grudado no vão da unha

3.
nónagarganta achava difícil engolir
papou farelo de palavras

4.
avesso a rococós
curtoegrosso coseu texto em linha reta e o disse a conta-gotas

5.
pingo é letra e ponto final

[são paulo, janeiro de 2026]
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joaquim da silva, p. da silva e outros silva, além de genésio dos santos, são uma só pessoa e um só nanocontista.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Paulo Bomfim: Atiro aos vossos pés a mocidade . . . [soneto]

 
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Atiro aos vossos pés a mocidade
e a vida que me destes sem saber.
Senhora, se por vós posso morrer,
a morte me será felicidade.

Coloco ao vosso lado esta saudade
que a distância, entre nós, me faz sofrer.
Senhora, só por vós quero viver
o instante que será de eternidade.

Se a vida, noivo encanto, inda oferece
ao meu olhar atônito, fitando,
o dia inesperado que amanhece,

reponho em vosso peito esta alegria,
pois é do vosso olhar que vem raiando
o encantamento desse novo dia.

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Paulo Lébeis Bomfim (1926 2019), paulista e paulistano, foi jornalista, poeta e diretor de rádio e TV; desde criança escrevia seus versos e iniciou-se no jornalismo, em 1945, no Correio Paulistano e, logo após, no Diário de São Paulo (coluna Luz e Sombra), colaborou também com o Diário de Notícias (Notas Paulistas), do Rio; sua obra de estréia, Antônio Triste (poemas, com Ilustrações de Tarsila do Amaral e Prefácio de Guilherme de Almeida, 1946), foi agraciada no ano seguinte com o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras; foi diretor da Fundação Cásper Líbero, produzindo para rádio e televisão, e participando nos programas Universidade na TV, no Canal 2, Crônica da Cidade e Mappin Movietone, no Canal 4 e Hora do Livro e Gazeta é Notícia, na TV Gazeta; escreveu e publicou Transfiguração (1951), Relógio de  sol (1952), Cantiga do desencontro e Poema do silêncio (ambos em 1954), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Poema da descoberta (1958), Sonetos (1959), Colecionador de minutos (1960), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Aquele menino — livro de memórias (2000), Tecido de lembranças, crônicas e memórias (2004), Cancioneiro (2007) e outros títulos; teve obras traduzidas para os idiomas alemão, francês, inglês, italiano e espanhol [castelhano]; teve poemas musicados por Camargo Guarnieri, Dinorah de Carvalho, Oswaldo Lacerda e mais compositores; em 1982, recebeu o Troféu Juca Pato, de intelectual do ano, concedido pela UBE União Brasileira de Escritores.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Paulo Bomfim: Os dias mortos

 
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Os dias mortos, sim, onde enterrá-los?
Que solo se abrirá para acolhê-los
em seus pés indecisos, seus cabelos,
seu galope de sôfregos cavalos!

Os dias mortos, sim, onde guardá-los?
Em que ossário reter seus pesadelos,
seu tecido rompido de novelos,
seus fios graves, relva além dos valos?

Tempo desintegrado, tempo solto,
fátuo fogo de febre e de fuligem,
canteiro de sereia em mar revolto.

Em nossa carne, sim, em nossos portos,
quando o fim regressar à própria origem,
repousarão também os dias mortos!

(Poemas escolhidos — 1974)

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Paulo Lébeis Bomfim (1926 2019), paulista e paulistano, foi jornalista, poeta e diretor de rádio e TV; desde criança escrevia seus versos e iniciou-se no jornalismo, em 1945, no Correio Paulistano e, logo após, no Diário de São Paulo (coluna Luz e Sombra), colaborou também com o Diário de Notícias (coluna Notas Paulistas), do Rio; sua obra de estréia, Antônio Triste (poemas, com Ilustrações de Tarsila do Amaral e Prefácio de Guilherme de Almeida, 1946), foi agraciada no ano seguinte com o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras; foi diretor da Fundação Cásper Líbero, produzindo para rádio e televisão, e participando nos programas Universidade na TV, no Canal 2, Crônica da Cidade e Mappin Movietone, no Canal 4 e Hora do Livro e Gazeta é Notícia, na TV Gazeta; escreveu e publicou Transfiguração (1951), Relógio de  sol (1952), Cantiga do desencontro e Poema do silêncio (ambos em 1954), Sinfonia branca (1955), Armorial (1956), Poema da descoberta (1958), Sonetos (1959), Colecionador de minutos (1960), Sonetos da vida e da morte (1963), Tempo reverso (1964), Canções (1966), Aquele menino — livro de memórias (2000), Tecido de lembranças, crônicas e memórias (2004), Cancioneiro (2007) e outros títulos; teve obras traduzidas para os idiomas alemão, francês, inglês, italiano e espanhol [castelhano]; teve poemas musicados por Camargo Guarnieri, Dinorah de Carvalho, Oswaldo Lacerda e mais compositores; em 1982, recebeu o Troféu Juca Pato, de intelectual do ano, concedido pela UBE União Brasileira de Escritores.

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Ivo Barroso: O céu dos velhos

 
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No céu dos velhos o conforto predomina:
algodões de nuvens doces ou salgadas
que se desfazem no céu da boca já sem dentes
colchões de nimbos que se amoldam à lembrança do corpo
nádegas de cúmulos alimentando a nostalgia do sexo
Os velhos se espreguiçam nas varandas do céu
espiam lá embaixo suas vidas pregressas
a memória é curta e não há rostos conhecidos
ou as faces se transverberam recortadas contra a luz
Mais que em vida o seu tempo desbaratam
na inércia e no abandono dos músculos e da mente
esperam distraídos ou conformados
uma segunda morte que lhes apague para sempre
a sensação de absoluta inutilidade.

(A caça virtual — 2001)

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A caça virtual e outros poemas: antologia — Ivo Barroso, Prefácio de Eduardo Portella, 2001, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Ivo do Nascimento Barroso (1929 2021), mineiro de Ervália, formado em Direito pela então Universidade da Guanabara [hoje UERJ], e em Línguas e Literatura Neolatinas pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro [hoje UFRJ], foi escritor, poeta, tradutor e jornalista; traduziu mais de quarenta livros para o português, entre os quais, obras de Rimbaud, Shakespeare, T. S. Eliot, Ítalo Calvino, Erik Axel Karlfeldt, Eugenio Montale, Hermann Hesse, Umberto Eco, etc.; como jornalista, foi editor-adjunto do Suplemento Literário do Jornal do Brasil [Rio de Janeiro], um dos criadores da revista de cultura Senhor [primeira versão], redator da revista Seleções Reader’s Digest [em Lisboa Portugal]; escreveu e publicou Nau dos Náufragos (poesia, 1981), Visitações de Alcipe (poesia, 1991), A caça virtual e outros poemas — antologia (2001); O Corvo e suas traduções (ensaio, acerca da obra de Poe, 2000), Poesia ensinada aos jovens (2010) e outros títulos; o poeta Ivo Barroso trabalhou no Banco do Brasil por trinta e cinco anos, licenciando-se mais de uma vez para o exercício de outros ofícios, e ali aposentou-se após ter transitado por agências do Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Estocolmo, além de ter sido adido comercial do Brasil na Holanda; premiações recebidas: Prêmio Jabuti de tradução (1998, por Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas, de Rimbaud), Prêmio Jabuti de tradução (1992, por Os Gatos, de T. S. Eliot), Prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras (2005, por Teatro completo, também de Eliot) ...

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Wisława Szymborska: A estação

 
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[traduzido por Regina Przybycien e Gabriel Borowski]

A minha não chegada à cidade de N.
aconteceu pontualmente.

Você foi avisado
por uma carta não enviada.

Conseguiu não chegar
na hora prevista.

O trem entrou na plataforma três.
Desceu muita gente.

À multidão rumo à saída
juntou-se a minha ausência.

Algumas mulheres tomaram o meu lugar
às pressas
naquela pressa.

Correu para uma delas
alguém que não conheço,
mas ela o reconheceu
de imediato.

Ambos trocaram
um beijo não nosso,
instante em que sumiu
uma maleta não minha.

A estação da cidade de N.
passou bem na prova
da existência objetiva.

O todo ficou no lugar.
Os detalhes se movimentaram
pelos trilhos designados.

Aconteceu até
um encontro marcado.

Fora do alcance
da nossa presença.

No paraíso perdido
da probabilidade.

Num outro lugar.
Num outro lugar.
Como estas palavrinhas ressoam.

Wisława Szymborska

Dworsec

Nieprzyjazd mój do miasta N.
odbył się punktualnie.

Zostałeś uprzedzony
niewysłanym listem.

Zdążyłeś nie przyjść
w przewidzianej porze.

Pociąg wjechał na peron trzeci.
Wysiadło dużo ludzi.

Uchodził w tłumie do wyjścia
brak mojej osoby.

Kilka kobiet zastąpiło mnie
pośpiesznie
w tym pośpiechu.

Do jednej podbiegł
ktoś nieznany mi,
ale ona rozpoznała go
natychmiast.

Oboje wymienili
nie nasz pocałunek,
podczas czego zginęła
nie moja walizka.

Dworzec w mieście N.
dobrze zdał egzamin
z istnienia obiektywnego.

Całość stała na swoim miejscu.
Szczegóły poruszały się
po wyznaczonych torach.

Odbyło sie nawet
umówione spotkanie.

Poza zasięgiem
naszej obecności.

W raju utraconym
prawdopodobieństwa.

Gdzie indziej.
Gdzie indziej.
Jak te słówka dźwięczą.

(Sto pociech 1967)
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Wisława Szymborska [para o meu coração num domingo], Seleção, Tradução e Prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski, edição bilíngue, 1ª edição, 2020, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Maria Wisława Anna Szymborska (1923 2012), polonesa de Kórnik, fez seus estudos escolares iniciais em Toruń, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, prosseguiu nos estudos de forma clandestina e passou a trabalhar em uma ferrovia, o que a livrou de ser deportada para território nazista, ora ocupado pelo Terceiro Reich, foi poeta, crítica literária e tradutora; assim,  Wisława deu início a seu processo criativo: fez suas primeiras ilustrações para livros (um manual para estudar inglês) e iniciou-se na literatura, com alguns contos e poemas; em 1945, com o fim da guerra, já em Cracóvia, a poeta foi parte importante na vida literária local, participou do grupo literário Ao Contrário, deu início ao curso de Filologia Polaca na Universidade Jaguelônica, depois mudou para Sociologia, desistiu dos estudos, casou, divorciou, colaborou com a revista Kultura (de literatura e política, publicada em Paris por emigrantes polacos), foi membro do Partido Comunista; suas obras: Wolanie do Yeti (Chamando pelo Yeti, 1957), Sól (Sal, 1962), Sto pociech (Muito divertido, 1967), Wszelki wypadek (Todo o caso, 1972), Wielka liczba (Um grande número, 1976), Ludzie na moście (Gente na ponte, 1986), Koniec i początek (Fim e começo, 1993), Chwila (Instante, 2002), Rymowanki dla dużych dzieci (Riminhas para crianças grandes, 2005), Dwukropek (Dois pontos, 2006), Tutaj (Aqui, 2009), Wystarczy (Chega, 2012) ...; seus livros foram traduzidos para 36 línguas, sendo a poeta polonesa que mais recebeu traduções no exterior; premiações: Prêmio Goethe (1991), Prêmio Nobel de Literatura (1996) e Prêmio Niki de Literatura (2006).

domingo, 21 de julho de 2024

genésio dos santos: um poeta no poente

 
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um poeta no poente
expõe não-sei-lá-o-quê
pros passageiros de viagem

portas vão se fechando
enquanto a noite aponta
presentes em cada esquina 
sombras sustos sobressaltos
por onde o poeta passa

a noite não é inóspita
tão somente mostra face
que enorme sombra oculta
e luz do dia ofusca

a noite segue à espreita
pernas cambaleantes
perigam reais tropeços
no indecifrável obstáculo

algum ser que nos proteja
nalgum conforto possível:
domicílio e lareira
aquecem espaço
bruxuleante brasa alumia
cinzalaranjado
outoninverno

calorhumano protege
na hora desprotegida?

sp, julho de 2024

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

sexta-feira, 12 de julho de 2024

genésio dos santos: substantiva

 
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outrora
antes que chegasse
o tempo e a distância a diluíam

hoje
é célere
vem de bate-pronto

é substantiva
já não há dúvida
a olho nu se percebe

não há que agir
tal qual os três macaquinhos:
aqueles do não ouço, não vejo, não falo

por que o poeta
não a nomina?
que não se faça de sonso!

o atinge
dor sem causa alguma:
angústia corrói

sp, junho/julho de 2024

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais ...

segunda-feira, 22 de abril de 2024

genésio dos santos: mudei eu ou mudou meu adestrador?


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não faz muito tempo
meu impulso era segredar a sete chaves ou mais
tudo o que a meu jugo só me dizia respeito

o que me era íntimo por vezes não era revelado nem pra mãe ou irmã
mais velha:
se as enxeridas invadissem o querido e confidente diário
era um berreiro só do guri não tagarela

hoje não: minha vida é um feicebuque escancarado
um tique-toque um instagram um xis
um ípsilon jamais incógnito

numa bolha no uatizap me devasso
protegendo-me de quem?
protegido por quem?

não me entendo
não reflito
nem me emendo

algoritmizado
mudei eu
ou mudou meu adestrador?

sp, 20.04.2024

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais...

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Júlia Cortines: O Tempo

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Passas, leve e sutil, sem trégua e sem cansaço.
Passas, e de teus pés vem rolar sob a planta
Tudo o que ri e chora e se lastima e canta.
Uma esteira de pó fica após o teu passo...

Quanta angústia desfeita em lágrimas, e quanta
Ilusão, que embalou um’hora o teu regaço,
Não pensaram, ness’hora inolvidada e santa,
Seguir contigo a estrada infinita do espaço!

E ao término fatal levaste-as, no entanto.
O monumento eril rui à tua passagem,
E transmuda-se em sombra a mais brilhante imagem.

Tarde ou cedo destróis tudo o que existe: o pranto
Secas, sustas o riso, e emudeces o grito
No lento caminhar através do infinito...

[Vibrações — 1905]

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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; da vida da poetisa e cronista Maria Júlia Cortines Laxe (1863 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco se sabe: de sua avó recebeu “instrução elementar”, prosseguiu seus estudos em Niterói e, autodidata, adquiriu formação literária e pedagógica; portas foram abertas para que ela atuasse no magistério, é o que se supõe; colaborou com as revistas A Semana e A Mensageira, redigiu para o jornal O País, no qual manteve a coluna “Através da Vida”; no início do século XX, no meio literário brasileiro, foi considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); escreveu seus primeiros versos aos 13 anos, e aos 21 já colaborava em periódicos da Corte Imperial; deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905), ambos de poesia; ”praticamente esquecida em nossos dias”, em 2010 a Academia Brasileira de Letras publicou o volume Versos & Vibrações de Júlia Cortines e mais três poemas inéditos, “Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32”, com apresentação/estudo, Descortinando Júlia, de Gilberto Araújo e o texto A poesia esquecida de Júlia Cortines, de Fausto Cunha; no Rio de Janeiro existe uma rua com seu nome, além de também ter o nome emprestado a escolas e logradouros de outras cidades (Rua Júlia Cortines, em São Paulo, Escola Municipal Julia Cortines, em Niterói...).

sábado, 17 de fevereiro de 2024

matusalém da silva: "tropeçando em risca de ladrilho"


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Constatei-me velho desde o instante em que
me vi tropeçando em taco, em risca de ladrilho.
[Ziraldo, carthumorista].

sinto em mim sua presença
embora ausente põe limites no que faço
até controla o que penso
imagino-a à espreita
na curva do caminho

quando eu estiver bem velhinho
alquebrado com vista fraca ouvindo pouco
“tropeçando em risca de ladrilho”
é inevitável que venha

o ontem: acabou-se o que era doce
o instantâneo hoje: de modo algum traz amargor
o amanhã? deixemos pra depois...

sem pressa sem pressa...
não sou vidente mas ela vem
que assim seja

sp — 05.02.24
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matusalém da silva e alguns outros silva, além de genésio dos santos, são um só ativista da palavra.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Dalton Trevisan: Dois velhinhos


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          Dois inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela do asilo.
          Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um consegue espiar lá fora.
          Junto à porta, no fundo da cama, para o outro é a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, pergunta o que acontece. Deslumbrado, anuncia o primeiro:
           Um cachorro ergue a perninha no poste.
          Mais tarde:
           Uma menina de vestido branco pulando corda.
          Ou ainda:
           Agora é um enterro de luxo.
          Sem nada ver, o amigo remorde-se no seu canto. O mais velho acaba morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
          Não dorme, antegozando a manhã. O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo o circo mágico do cachorro, da menina, do enterro de rico.
          Cochila um instante é dia. Senta-se na cama, com dores espicha o pescoço: no beco, muros em ruína, um monte de lixo.

(O conto Dois velhinhos, publicado originalmente em
Mistérios de Curitiba — 1968, foi revisto pelo autor
para a edição deste Quem tem medo de vampiro?)

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Quem tem medo de vampiro? — contos, Dalton Trevisan, 2013, 1ª edição, Editora Ática, São Paulo — SP; Dalton Jérson Trevisan, nascido em 1925, paranaense e curitibano, formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná (atual UFPR Universidade Federal do Paraná), foi advogado, jornalista e é escritor e contista; suas obras: Sonata ao Luar (contos, 1945) e Sete Anos de Pastor (1948), ambos posteriormente renegados pelo autor, Novelas Nada Exemplares (1959), Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres de Amor (1968), A Guerra Conjugal (1969), A Trombeta do Anjo Vingador (1977), A Polaquinha (romance, 1985), Pico na Veia (2002), além de mais uma vintena de obras; Pico na Veia é composto, em sua maior parte, por microcontos (minicontos ou nanocontos), uma das especialidades do escritor; o eterno curitibano Dalton Trevisan editou entre abril de 1946 e dezembro de 1948, fora do eixo cultural Rio São Paulo, a Joaquim — revista mensal de arte em homenagem a todos os joaquins do Brasil, porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais e que reunia ensaios assinados por Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, poemas até então inéditos como "O caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade, além de trazer traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre, Gide e ilustrações de artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres; em 2002, os vinte e um números da Joaquim foram reeditados em edição fac-similar pela Imprensa Oficial do Paraná, patrocinados pela Secretaria da Justiça e da Cidadania do Governo do Paraná; o contista teve obras publicadas nos idiomas alemão, espanhol, francês, inglês, holandês, polonês, e participou com contos em antologias alemãs, argentinas, americanas, polonesas, sueca, venezuelana, dinamarquesa e portuguesa; seu livro A Guerra Conjugal serviu de base para o filme de mesmo nome, com histórias e diálogos do autor, e com roteiro e direção do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, em 1975; Dalton Trevisan foi várias vezes premiado pela sua atividade literária: o Prêmio Camões (Instituto Camões, Lisboa Portugal), o Prêmio Machado de Assis (Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra), ambos em 2012, diversos prêmios Jabuti de Literatura e outros.