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sábado, 24 de dezembro de 2022

Mamba Negro: Rainha pandêmica


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Ei, presta atenção, não adianta falar que o que faço é abominação ou coisa de bandido, quando tudo que eu crio é copiado pelo seu padrão boy, branco, elitista, higienista e rico, você vai torcer o nariz? Cuidado pra eu não quebrar, quero ver me chamar de macaco, de piranha, de cachorra, de viado, são animais demais pra eu prender dentro de um armário e eu também não vou pra sua cama ou fazer de zoológico o seu quarto, mas eu quero te ver me chamar de macaco com a cara quebrada, quando me vê passar na rua sente nojo, sente medo, mas quando bate a abstinência tu sobe a quebrada, sou bicha pre TRA TRA TRA, tipo Linn da Quebrada, desde navio negreiro afiando navalha, se tu bater de frente do vai cair de cara e para, para, para, parça, escancara essa farsa, você entende de mal com L e mau com U, Malcolm X, essa sua cara mal lavada combina com o pozinho branco embaixo do seu nariz. “E eu não sou pennywise, mas tu vai flutuar, com esse teu ego inflado, então é melhor parar” não sou de tirar o chapéu, sou de arrancar a cabeça, respeita a revolução vinda com as bicha preta, respeita os manos, minas, mona preta da quebrada, cobiço a casa grande e recuso senzala, me respeita na cama, me respeita na vida, cansei, não quero novamente ser mercadoria, na sua festa burguesa incorporo Queen Latifah, como uma globeleza, sambo na cara racista, e calma senhora não pira, e calma senhor não pire, teu filhos esquece de tudo quando quica na minha... RAM, vou lhe descer o “pau” é o preço do revide, dentro de um navio negreiro “chegay” terra brasilis, mas eu sinto o seu cheiro, farejo sua hemoglobina, as vozes da minha mente querem ver uma chacina de racista,
IREI LHE DEVOLVER
O SEU EXÉRCITO NAZISTA,
vou lhe caçar e com o couro das suas costas vou fazer um louboutin, vou recrutar todos os pretos que eu conheço e desbancar a klu klux klan, pois eu já estou cansado, da minha capacidade tu dúvida, mas carrego nos dentes navalha, cortando garganta dos “muleke paia” seguidos de Malafaia, eu te destruo pique calendário Maia, tu acha que é melhor que eu só porque carrego melanina, mas se lembra que eu estou tipo Rasputia, te esmago nas rimas, então sente impacto, tô fodendo com o caos tipo Baco, eu te odeio pra caralho não tem como evitar, meu ódio está mais alto que a Pablo Vittar... UKE, tô mais perigoso que o Pablo Escobar, estou tipo mar, então vem brincar com as minhas marés, mas relaxa, porque se meu tsunami não te mata, cuidado pra não te afogar nas minhas ressacas.

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LGBTQIA+ — [10 poetas & 30 poemas] coleção SLAM, Organização de Emerson Alcalde, 2019, Autonomia Literária, São Paulo — SP; Eric Cardoso, ou Mamba Negro, nascido em 2000 [?] na zona leste paulistana, é multiartista, performer, slammer*, escritor e poeta; lida com seus textos desde os treze anos; em seus traços biográficos, o poeta-performer-slammer relata que “começou na arte ainda cedo em igrejas e após perceber que o cristianismo abominava tudo que ele era”, que “abraçou seus demônios internos” e que hoje “tem a arte como escudo em uma guerra contra si mesmo, tentando resistir aos próprios medos e limitações impostas”; Mamba Negro [é só dar um gúgol no iutube!] já fez presença em múltiplas apresentações “na parte mais extrema da zona leste” e região (Slam Interuni, Slam Sujeira, Slam da Guilhermina, Slam Resistência, Movimento Aliança da Praça  M.A.P., ...).

* Nota deste Verso e Conversa: algumas referências sobre SLAM — a) uma palavra inglesa que significa “batida”, to slam = bater, uma expressão cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, é o que nos diz Cynthia Agra de Brito Neves, prefaciadora de Antifa coleção SLAM; b) nos anos oitenta do último século passado, consta que, surgido inicialmente em Chicago — EUA, virou sinônimo de poesia falada; c) a poetry-slam, assim conhecida, também chamada “batalha das letras”, é uma competição de poesia falada que traz questões da atualidade para debate; d) no Brasil, o movimento SLAM veio à tona em 2008; e) slammers: poetas do SLAM, participantes ativos do SLAM.