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sábado, 31 de janeiro de 2026

Pablo Neruda: Enigma para intranquilos

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[traduzido por Olga Savary]

Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.

Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.

Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.

E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.

Pablo Neruda

Enigma para intranquilos

Por los días del año que vendrá
encontraré una hora diferente:
una hora de pelo catarata,
una hora ya nunca transcurrida:
como si el tiempo se rompiera allí
y abriera una ventana: un agujero
por donde deslizarnos hacia el fondo.

Bueno, aquel día con la hora aquella
llegará y dejará todo cambiado:
no se sabrá ya más si ayer se fue
o lo que vuelve es lo que no pasó.

Cuando de aquel reloj caiga una hora
al suelo, sin que nadie la recoja,
y al fin tengamos amarrado el tiempo,
ay! sabremos por fin dónde comienzan
o dónde se terminan los destinos,
porque en el trozo muerto o apagado
veremos la materia de las horas
como se ve la pata de un insecto.

Y dispondremos de un poder satánico:
volver atrás o acelerar las horas:
llegar al nacimiento o a la muerte
con un motor robado al infinito.
____________________
Pablo Neruda: O coração amarelo, Tradução de Olga Savary, Edição Bilíngue, Volume 359, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; Neruda, ao morrer, deixou-nos oito livros inéditos de poesia, “escritos quase simultaneamente”: este O coração amarelo (El corazón amarillo), além de Livro das perguntas (Libro de las preguntas), Elegia (Elegía), A Rosa separada (La rosa separada), Jardim de Inverno (Jardin de invierno), 2000, O mar e os sinos (El mar y las campañas) e Defeitos escolhidos (Defectos escogidos), todos publicados pela L&PM e com traduções feitas por poetas brasileiros; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Pablo Neruda: Filosofia


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[traduzido por Olga Savary]

Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos
somos escravos da terra
que também é dona do ar.

Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
a geografia e a ambrosia
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.

Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.

Pablo Neruda

Filosofia

Queda probada la certeza
del árbol verde en primavera
y de la corteza terrestre:
nos alimentan los planetas
a pesar de las erupciones
y el mar nos ofrece pescados
a pesar de sus maremotos:
somos esclavos de la tierra
que también es dueña del aire.

Paseando por una naranja
me pasé más de una vida
repitiendo el globo terrestre:
la geografía y la ambrosía:
los jugos color de jacinto
y un olor blanco de mujer
como las flores de la harina.

No se saca nada volando
para escaparse de este globo
que te atrapó desde nacer.
Y hay que confesar esperando
que el amor y el entendimiento
vienen de abajo, se levantan
y crecen dentro de nosotros
como cebollas, como encinas,
como galápagos o flores,
como países, como razas,
como caminos y destinos.
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Pablo Neruda: O coração amarelo, Tradução de Olga Savary, Edição Bilíngue, Volume 359, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; Neruda, ao morrer, deixou-nos oito livros inéditos de poesia, “escritos quase simultaneamente”: este O coração amarelo (El corazón amarillo), além de Livro das perguntas (Libro de las preguntas), Elegia (Elegía), A Rosa separada (La rosa separada), Jardim de Inverno (Jardin de invierno), 2000, O mar e os sinos (El mar y las campañas) e Defeitos escolhidos (Defectos escogidos), todos publicados pela L&PM e com traduções feitas por poetas brasileiros; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Pablo Neruda: Os outros homens


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[traduzido por Geraldo Galvão Ferraz]

Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu. Mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte eu sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá essse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual a 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.

Pablo Neruda

Los otros hombres

En cambio yo, pecador pescador,
ex vanguardero ya pasado de moda,
de aquellos años muertos y remotos
hoy estoy a la entrada del milênio,
anarcopitalista furibundo,
dispuesto a dos carrillos a morder
la manzana del mundo.
Edad más floresciente ni Florencia
conoció, más florida que Florida,
más paraíso que Valparaíso.
Yo respiro a mis anchas
en el jardín bancario de este siglo
que es por fin una gran cuenta corriente
en que por suerte soy acreedor.
Gracias a la inversión y subversión
haremos más higiénica esta edad,
ninguna guerra colonial tendrá este nombre
tan desacreditado y repetido,
la democracia pulverizadora
se hará cargo del nuevo diccionario;
es bello este 2000 igual a 1000;
los tres ceros iguales non resguardan
de toda insurrección innecesaria.
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Defeitos Escolhidos & 2000 — Pablo Neruda, Tradução de Geraldo Galvão Ferraz, edição bilíngue, volume 451, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em 2011, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Pablo Neruda: No entanto me movo

 
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[traduzido por Olga Savary]

De vez em quando sou feliz!,
opinei diante de um sábio
que me examinou sem paixão
e demonstrou que eu estava errado.

Talvez não havia salvação
para meus dentes avariados,
um por um se extraviaram
os fios de minha cabeleira,
melhor era não discutir
sobre minha traqueia cavernosa,
enquanto o sulcado coração
estava cheio de advertências
como o fígado tenebroso
que não me servia de escudo
ou este rim conspirativo.
E com minha próstata melancólica
e os caprichos de minha uretra
me conduziram sem apuro
a um analítico final.

Olhando cara a cara o sábio
sem decidir-me a sucumbir
mostrei-lhe que podia ver,
palpar, ouvir e padecer
em outra ocasião favorável.
E que me deixasse o prazer
de ser amado e querer:
procuraria algum amor
por um mês ou por uma semana
ou por um penúltimo dia.

O homem sábio e desdenhoso
olhou-me com a indiferença
dos camelos pela lua
e decidiu orgulhosamente
olvidar-se de meu organismo.

Desde então não estou seguro
se eu devo obedecer
a seu decreto de que eu morra
ou se devo sentir-me bem
como meu corpo me aconselha.

E nesta dúvida não sei
se dedicar-me a meditar
ou alimentar-me de cravos.

Pablo Neruda

Sin embargo me muevo

De cuando en cuando ¡soy feliz!,
opiné delante de un sabio
que me examinó sin pasión
y me demostró mis errores.

Tal vez no había salvación
para mis dientes averiados,
uno por uno se extraviaron
los pelos de mi cabellera:
mejor era no discutir
sobre mi tráquea cavernosa:
en cuanto al cauce coronario
estaba lleno de advertencias
como el hígado tenebroso
que no me servía de escudo
o este riñón conspirativo.
Y con mi próstata melancólica
y los caprichos de mi uretra
me conducían sin apuro
a un analítico final.

Mirando frente a frente al sabio
sin decidirme a sucumbir
le mostré que podía ver,
palpar, oír y padecer
en otra ocasión favorable.
Y que me dejara el placer
de ser amado y de querer:
me buscaría algún amor
por un mes o por una semana
o por un penúltimo día.

El hombre sabio y desdeñoso
me miró con la indiferencia
de los camellos por la luna
y decidió orgullosamente
olvidarse de mi organismo.

Desde entonces no estoy seguro
de si yo debo obedecer
a su decreto de morirme
o si debo sentirme bien
como mi cuerpo me aconseja.

Y en esta duda yo no sé
si dedicarme a meditar
o alimentarme de claveles.
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Pablo Neruda: O coração amarelo, Tradução de Olga Savary, Edição Bilíngue, Volume 359, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; Neruda, ao morrer, deixou-nos oito livros inéditos de poesia, “escritos quase simultaneamente”: este O coração amarelo (El corazón amarillo), além de Livro das perguntas (Libro de las preguntas), Elegia (Elegía), A Rosa separada (La rosa separada), Jardim de Inverno (Jardin de invierno), 2000, O mar e os sinos (El mar y las campañas) e Defeitos escolhidos (Defectos escogidos), todos publicados pela L&PM e com traduções feitas por poetas brasileiros; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Pablo Neruda: Charming


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[traduzido por Geraldo Galvão Ferraz]

A encantadora família
com filhas esquisitamente excêntricas
vai se reunindo na tumba:
uns pela mão da coca,
outros debilitados pela dívida;
com olhos pálidos muito grandes
dirigem-se em fila ao mausoléu.

Algum demorou mais que o previsto
(extraviado num safári ou sauna ou cama),
tardio se juntou no crepúsculo
ao chá final da final família.

A generala austera
dirigia
e cada um contava sua história
de casais muito brigões
que simultaneamente trocavam
golpes de mão, prato ou cafeteira,
em Bombaim, Acapulco, Nice ou Rio.

A menor, olhos suaves e amarelos,
chegou a desvestir-se em todas as partes,
precipitadamente tempestuosa,
e um deles saía de um cárcere
condenado por roubos elegantes.

O mundo ia caminhando
porque o tempo imutável caminhava
de bracinho dado com a Reforma Agrária
e era difícil encontrar dinheiro
pendurado nas paredes: o relógio
já não marcava a hora sorrindo
era outro rosto da tarde imóvel.

Não sei quando se foram:
não é meu papel anotar as saídas:
foi-se aquela família encantadora
e ninguém recorda mais sua existência:
A casa escura é um colégio claro
e na cripta uniram-se os dispersos.

Como se chamam., como se chamarão?

Ninguém pergunta mais, já não há memória,
jã não há piedade, e só eu respondo
para mim mesmo, com certa ternura:
porque seres humanos e folhagens
acabam com suas cores, desfolham-se:
continuam assim as vidas e a terra.

Pablo Neruda

Charming

La encantadora família
con hijas exquisitamente excéntricas
se va reuniendo en la tumba:
unos del brazo de la coca,
otros debilitados por las deudas:
con muchos grandes ojos pálidos
se dirigen en fila al mausoleo.

Alguno tardó más de lo previsto
(extraviado en safari o sauna o cama),
tardío se incorporó al crepúsculo,
al té final de la final familia.

La generala austera
dirigia
y cada uno contaba su cuento
de matrimonios muy malavenidos
que simultáneamente se pegaban
golpes de mano, plato o cafetera,
en Bombay, Acapulco, Niza o Río.

La menor, de ojos dulces y amarillos,
alcanzó a desvestirse en todas partes,
precipitadamente tempestuosa,
y uno de ellos salía de una cárcel
condenado por robos elegantes.

El mundo iba caminando
porque el tiempo inmutable caminaba
del bracete de la Reforma Agraria
y era difícil encontrar dinero
colgado en las paredes: el reloj
ya no marcaba la hora sonriendo:
era otro rostro de la tarde inmóvil.

No sé cuándo se fueron:
no es mi papel anotar las salidas:
se fue aquella familia encantadora
y nadie ya recuerda su existencia:
La oscura casa es un colegio claro
y en la cripta se unieron los dispersos.

Cómo se llaman, cómo se llamaron?

Nadie pregunta ya, ya no hay memoria,
ya no hay piedad, y sólo yo contesto
para mí mismo, con cierta ternura:
porque seres humanos y follajes
cumplen con sus cobres, se deshojan:
siguen así las vidas y la tierra.
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Defeitos Escolhidos & 2000 — Pablo Neruda, Tradução de Geraldo Galvão Ferraz, edição bilíngue, volume 451, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em 2011, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Pablo Neruda: Repertório


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[traduzido por Geraldo Galvão Ferraz]

Aqui há gente com nomes e com pés
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.

Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.

Ai, salve-se quem puder!

O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.

Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.

Pablo Neruda

Repertorio

AQUÍ HAY gente con nombres y con pies
con calle y apellido:
también yo voy en la hilera
con el hilo.
Hay los ya desgranados
en
el
pozo
que hicieron y en el que cayeron:
hay los buenos y malos a la vez,
los sacrificadores y la piedra
donde les cercenaron la cabeza
a cuantos se acercaron a su abismo.

Hay de todo en la cesta: sólo son
cascabeles aquí, ruidos de mesa,
de tiros, de cucharas, de bigotes:
no sé qué me pasó ni qué pasaba
conmigo mismo ni con ellos,
lo cierto es que los vi,
los toqué y como anda la vida
sin detener sus ruedas
yo los viví cuando ellos me vivieron,
amigos o enemigos o paredes,
o inaceptables santos que sufrían,
o caballeros de sombrero triste,
o villanos que el viento se comió,
o todo más: el grano del granero
las culpas mías sin cesar desnudas
que al entrar en el baño cada día
salieron más manchadas a la luz.

Ay sálvese quien pueda!
 
Yo el archivista soy de los defectos
de un solo día de mi colección
y no tengo crueldad sino paciencia:
ya nadie llora, se pasó de moda
la bella lágrima como una azucena,
y hasta el remordimiento falleció.

Por eso yo presento mi corona
de inicuo juez que no contenta a nadie,
ni a los ladrones, ni a su digna esposa:
ya lo saben ustedes:
yo que hablo por hablar hablo de menos:
de cuanto he visto, de cuanto veré
me voy quedando ciego.
____________________
Defeitos Escolhidos & 2000 — Pablo Neruda, Tradução de Geraldo Galvão Ferraz, edição bilíngue, volume 451, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em 2011, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Pablo Neruda: Chove . . .

 
____________________
[traduzido por Luiz de Miranda]

Chove sobre a areia,
sobre o teto
o tema da chuva,
os largos eles da chuva lenta,
caem sobre as páginas
de meu amor sempiterno,
o sal de cada dia,
regressa chuva a teu ninho anterior,
volta com tuas agulhas ao passado,
hoje quero o espaço branco,
o tempo de papel para um ramo
de roseira verde e de rosas douradas,
algo da infinita primavera
que hoje esperava, com o céu aberto
quando voltou a chuva
a tocar tristemente
a janela,
depois a dançar
com fúria desmedida
sobre meu coração e sobre o teto, reclamando
seu lugar,
pedindo-me um cálice
para enchê-lo uma vez mais de agulhas,
de tempo transparente,
de lágrimas.

Pablo Neruda

Llueve . . .

Llueve
sobre la arena, sobre el techo
el tema
de la lluvia:
las largas eles de la lluvia lenta
caen sobre las páginas
de mi amor sempiterno,
la sal de cada día:
regresa lluvia a tu nido anterior,
vuelve con tus agujas al pasado:
hoy quiero el espacio blanco,
el tiempo de papel para una rama
de rosal verde y de rosas doradas:
algo de la infinita primavera
que hoy esperaba, con el cielo abierto
y el papel esperaba,
cuando volvió la lluvia
a tocar tristemente
la ventana,
luego a bailar con furia desmedida
sobre mi corazón y sobre el techo, reclamando
su sitio,
pidiéndome una copa
para llenarla una vez más de agujas,
de tiempo transparente,
de lágrimas.
____________________
Pablo Neruda — Últimos Poemas (O Mar e os Sinos), Tradução de Luiz de Miranda, Edição Bilíngue, Volume 60 Coleção L&PM Pocket, reimpressão, 2017, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.