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[traduzido
por Olga Savary]
Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.
Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.
Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.
E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
Enigma para intranquilos
Por los días del año que vendrá
encontraré una hora diferente:
una hora de pelo catarata,
una hora ya nunca transcurrida:
como si el tiempo se rompiera allí
y abriera una ventana: un agujero
por donde deslizarnos hacia el fondo.
Bueno, aquel día con la hora aquella
llegará y dejará todo cambiado:
no se sabrá ya más si ayer se fue
o lo que vuelve es lo que no pasó.
Cuando de aquel reloj caiga una hora
al suelo, sin que nadie la recoja,
y al fin tengamos amarrado el tiempo,
ay! sabremos por fin dónde comienzan
o dónde se terminan los destinos,
porque en el trozo muerto o apagado
veremos la materia de las horas
como se ve la pata de un insecto.
Y dispondremos de un poder satánico:
volver atrás o acelerar las horas:
llegar al nacimiento o a la muerte
con un motor robado al infinito.
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Pablo Neruda: O coração amarelo,
Tradução de Olga Savary, Edição Bilíngue, Volume 359, Coleção L&PM Pocket,
reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e
reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 — 1973), nascido Ricardo
Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na
Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a
contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo
Neruda, publicou poemas no periódico
literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana
do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y
una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante
y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952),
Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales
(1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto
(1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros
títulos; Neruda, ao morrer, deixou-nos oito livros inéditos de poesia,
“escritos quase simultaneamente”: este O coração amarelo (El corazón amarillo),
além de Livro das perguntas (Libro de las preguntas), Elegia (Elegía), A Rosa
separada (La rosa separada), Jardim de Inverno (Jardin de invierno), 2000, O
mar e os sinos (El mar y las campañas) e Defeitos escolhidos (Defectos
escogidos), todos publicados pela L&PM e com traduções feitas por poetas
brasileiros; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio
Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do
governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires,
Barcelona e Madri.
