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segunda-feira, 11 de março de 2024

Marcelo Gama: A uma velhinha


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No dia de Natal

Boas-festas, velhinha! Eu te dou boas-festas,
nestes versos que faço à glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, às tuas cãs honestas
linho corado ao sol de trinta mil manhãs.

Consente que eu te beije as mãos mumificadas,
trêmulas de sentir o frio dos desenganos;
mãos secas, espectrais, tiritantes, cansadas
de tanto abençoar, durante oitenta anos.

E tomem essas mãos camélias fenecidas
que ora o Amor elevou, quais ramos de oliveira,
ora o Ódio agitou, crispadas, contraídas
os versos em que evoco a tua vida inteira.

Já no tempo em que os teus cabelos foram pretos
e se usavam bandós e os toucavas de flores,
um poeta de então fizera-te uns sonetos,
onde muito falava em olhos sonhadores.

Inda os sabes de cor Os netos que os confrontem
com os versos de agora... E pões-te a recitar...
Bons tempos!... E parece entanto que foi ontem!
Não te podes conter... e ficas a chorar...

Choras... que a tua vida é uma flor em desfolhos.
Sonhavam, velam hoje, os teus olhos tristonhos.
Os sonhos, noutro tempo, erravam nos teus olhos;
os teus olhos, agora, é que erram pelos sonhos!

O tempo acumulou lembranças nos teus ombros,
e andas assim curvada, ao peso da Saudade...
Olha para o Passado! Olha para os escombros
do feudo, onde viveu a tua Mocidade!

Quase um século vai! Evoca a Meninice
e hás de ver a boneca, o berço, a Carochinha,
quando não se calcula o efeito da meiguice
e recebe-se a rir  a1 Dor que se avizinha.

Mas depois, assaltou-te uma cousa esquisita...
Tua carne te fez promessas, em segredo...
Foi então que te olhaste... e te achaste bonita...
Que estranhas sensações enchiam-te de medo!

Uma noite, febril, acordaste, a tremer...
Que vácuo!... e o coração fugia-te do peito.
Nunca te pareceu tão frágil o teu ser!
Carecias de alguém!... de mais ar!... de mais leito!...

Amaste... e tudo em torno a ti, cantava e ria!
No teu seio trinava, alacre2, um rouxinol!
Teu corpo era um rosal em maio: florescia!
E a tu’alma era como um diamante ao sol!

Foi-se o primeiro amor... Foi-se o primeiro engano...
Veio mais um amor... e foi-se... e um outro veio...
e foi-se... e finalmente eram tantos por ano,
que já entisicava a Esperança em teu seio.

Cada amor que chegava, esboçava em teu rosto
um sorriso fugaz, mas depois, quando ia3,
riscava em teu semblante a ruga de um desgosto,
e era o sulco da mágoa o que jamais saía.

Boas-festas, velhinha! Eu te dou boas-festas,
nestes versos que faço à glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, às tuas cãs honestas
linho corado ao sol de trinta mil manhãs.

Opuseste o artifício aos estragos da idade,
e chegaste, talvez, a pensar num convento...
As tuas Ilusões, a tua Mocidade,
eram como rosais varridos pelo vento.

O beijo já pesava em teu lábio fanado
e exausto de gemer por teus mortos afetos.
Enfim!... chegou-te enfim, a noite do noivado!...
Casaste... e contas hoje alguns tataranetos.

Velhinha encarquilhada, evoca a laranjeira
que deu flores com que te engrinaldaste então...
Há muito ela morreu! Mas tu, nessa canseira,
inda queres viver, arrimada ao bordão.

As idéias, em ti, já são ocas e pecas
e como um cantochão, escapam-te dos lábios.
És uma tradição, cheiras a flores secas,
e me fazes lembrar roídos alfarrábios.

O teu tempo! velhinha... os tempos bons de outrora!...
E crescendo na idade e a mirrar no tamanho,
tens saudades de tudo, e lá vais, vida em fora,
autêntico exemplar os costumes d’antanho!

Abençoa-me sempre, ao chegar esta data!
Olha o coveiro, além, cansado de esperar-te...
Mas a Morte venera as tuas cãs de prata!
... E o louco do coveiro, a chamar-te!... a chamar-te...

(Via-Sacra, 2ª edição, págs. 43-45.)


Notas de Andrade Muricy:
1. Falta esse a;
2. Alacre (paroxítono), pronúncia muito generalizada, e que o poeta adotava, convém melhor à cadência do verso;
3. Na edição de Via-Sacra e outros poemas (1944), está: “quando se ia”.
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Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Volume 2 (Coleção de Literatura Brasileira 12), Pesquisa, Prefácio, Introdução, Organização e Notas, por Andrade Muricy, 1973, Ministério de Educação e Cultura — Instituto Nacional do Livro, Brasília — DF; Marcelo Gama, nome literário (1878 1915), pseudônimo de Possidônio Machado, gaúcho de Mostardas, de índole inquieta e boêmia, autodidata, viveu de jornalismo e de modestos empregos e foi poeta, dramaturgo, cronista e editor; em 1898, em Porto Alegre RS, fundou o quinzenário Artes e Letras e, em Cachoeira do Sul RS, a revista A Lua; depois, transferindo-se para o Rio de Janeiro, continuou a levar a mesma vida de noctívago e sonhador, vindo a falecer de forma inusitada ao ter sido lançado para fora do bonde em que viajava, dormindo, em plena madrugada, sobre os trilhos de estrada de ferro; suas obras: Via Sacra (1902), Avatar (poema dramático em um ato, 1904), Noite de Insônia (1907), todos publicados em Porto Alegre; em 1944, a Sociedade Felipe d’Oliveira, no Rio de Janeiro, publicou-lhe as obras completas sob o título de Via Sacra e Outros Poemas, acrescentando os Dispersos aos livros mencionados; foi um dos membros fundadores da Academia Rio-Grandense de Letras e é tido por estudiosos como o poeta que introduziu o Simbolismo no Rio Grande do Sul.

domingo, 14 de março de 2021

Marcelo Gama: Bonita e Feia

 
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Bela, mas fria. Fria, mas bonita.
Misto de graça e de melancolia.
Cedo gelou aspérrima invernia
e coração que no seu peito habita.

Por que bonita, sendo assim tão fria?
Por que tão fria, sendo assim bonita?
De algum pólo talvez, flor esquisita,
exilada, a morrer de nostalgia.

Foge do amor, religião que evita,
desconhecendo a sua liturgia,
e baixa os olhos, quando alguém os fita.

Bela que a indiferença desafia!
Mas, de que serve ser assim bonita,
sendo bonita, mas assim tão fria?

(Avatar — 1904)

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História da Literatura Brasileira — Simbolismo: Massaud Moisés, 1988, 2ª edição, Editora Cultrix, São Paulo — SP; Marcelo Gama, nome literário (1878 1915), pseudônimo de Possidônio Machado, gaúcho de Mostardas, de índole inquieta e boêmia, autodidata, viveu de jornalismo e de modestos empregos e foi poeta, dramaturgo, cronista e editor; em 1898, em Porto Alegre RS, fundou o quinzenário Artes e Letras e, em Cachoeira do Sul RS, a revista A Lua; depois, transferindo-se para o Rio de Janeiro, continuou a levar a mesma vida de noctívago e sonhador, vindo a falecer de forma inusitada ao ter sido lançado para fora do bonde em que viajava, dormindo, em pleno madrugada, caindo de uma ponte sobre os trilhos de estrada de ferro; bibliografia: Via Sacra (1902), Avatar (1904), Noite de Insônia (1907), todos publicados em Porto Alegre; em 1944, a Sociedade Felipe d’Oliveira, no Rio de Janeiro,  publicou-lhe as obras completas sob o título de Via Sacra e Outros Poemas, acrescentando os Dispersos aos livros mencionados; foi um dos membros fundadores da Academia Rio-Grandense de Letras e é tido por estudiosos como o poeta que introduziu o Simbolismo no Rio Grande do Sul.