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terça-feira, 19 de maio de 2026

Angélica Freitas: liz* & lota**

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imagino a bishop entre cajus
toda inchada e jururu
da janela o rio e a seu
lado a lota, com um conta-gotas.

'but you must stay.
forget that ship’, she said.
ao que bishop riu, olho esquerdo
sumiu, afundou na pálpebra.

a americana dormiu em alfa.
e no seu sono, tão geográfica
sonhou com a carioca rica
e com a vastidão da américa.


Notas do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa:
* liz: Elizabeth Bishop (1911 — 1979), poeta e epistológrafa estadunidense;
** lota: Lota [Maria Carlota] de Macedo Soares (1910 — 1967), arquiteta-paisagista e urbanista autodidata brasileira.
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Rilke shake: Angélica Freitas [coletânea de poemas], 2ª edição, 2009, coleção às de colete, Cosac Naify & 7 Letras, São Paulo — SP; Angélica Freitas, gaúcha de Pelotas, nascida em 1973, formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, é jornalista, poeta e tradutora; trabalhou como repórter no jornal O Estado de São Paulo e na revista Informática Hoje, em São Paulo; deixou a capital paulista em 2006, andejou pela Holanda, Bolívia e Argentina, atualmente vive em Berlim Alemanha; Angélica Freitas estreou literariamente no livro Cuatro Poetas recientes del Brasil (Buenos Aires: Black & Vermelho, 2006), uma antologia de poesia brasileira contemporânea publicada na Argentina; tem poemas vindos a público em revistas impressas e eletrônicas: Inimigo Rumor (Rio de Janeiro), Diário de Poesía (Buenos Aires Argentina), águas furtadas (Lisboa Portugal), Hilda (Berlim Alemanha) e Aufgabe (Nova Iorque Estados Unidos); é coeditora da revista de poesia Modo de Usar & Co.; suas obras: Rilke Shake (coletânea de poemas, 1ª edição em 2007), um útero é do tamanho de um punho (2013), Canções de atormentar (2020), Mostra monstra (2025); participação em antologias: Cuatro Poetas Recientes del Brasil (Argentina, 2006), Otra línea de fuego: quince poetas brasileñas ultracontemporaneas (Espanha, 2009), VERSSchmuggel (Contrabando de Versos, [Berlin: Das Wunderhorn / São Paulo: Editora 34], Alemanha, 2009), El libro de los gatos (Argentina, 2009), A Poesia Andando. 13 poetas do Brasil (Portugal, 2008), Skräp-poesi: antologia bilíngue en español y sueco (Suécia, 2008), Natiunea Poetilor (Romênia, 2008), Poesía-añicos y sonares híbridos. Doce poetas latino-americanos (Alemanha, 2007), Caos Portátil (México, 2007) ...; Angélica Freitas traduziu poemas de autorias alemãs, estadunidenses (Zoe Leonard) e argentinas (Susana Thénon e Lucía Bianco).

terça-feira, 7 de abril de 2026

Elizabeth Bishop: Posto de Gasolina

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Ah, mas como ele é sujo!
esse posto de gasolina,
impregnado de óleo,
até ficar de um negrume
transluzente, assustador.
Cuidado com esse fósforo!

O pai usa um macacão
sujo, impregnado de óleo,
que o aperta nas axilas,
e o ajudam vários filhos
respondões, rápidos, sujos
(o posto é de uma família)
de graxa, todos imundos.

Será que moram no posto?
Atrás das bombas se vê
uma varanda de cimento,
com mobília de palhinha
amassada e suja de graxa;
no sofá, um cachorro
bem sujo se refestela.

Há revistas em quadrinhos
o único toque de cor
bem definida largadas
sobre o caminho-de-mesa
que enfeita um banquinho (o qual
combina com os outros móveis),
e uma begônia hirsuta.

Por que essa planta deslocada?
Por que o banquinho? Por quê,
por que o caminho-de-mesa?
(Bordado em ponto de cruz
com margaridas, creio eu,
e um pesado crochê cinzento.)

Alguém bordou esse pano.
Alguém põe água na planta,
ou óleo, sei lá. Alguém
dispõe as latas de modo
a fazê-las sussurrar:
ESSOSOSOSO
pros automóveis nervosos.
Alguém nos ama, a nós todos.

(Questões de Viagem 1965)

Elizabeth Bishop

Filling Station

Oh, but it is dirty!
this little filling station,
oil-soaked, oil-permeated
to a disturbing, over-all
black translucency.
Be careful with that match!

Father wears a dirty,
oil-soaked monkey suit
that cuts him under the arms,
and several quick and saucy
and greasy sons assist him
(it’s a family filling station),
all quite thoroughly dirty.

Do they live in the station?
It has a cement porch
behind the pumps, and on it
a set of crushed and grease-
impregnated wickerwork;
on the wicker sofa
a dirty dog, quite comfy.

Some comic books provide
the only note of color
of certain color. They lie
upon a big dim doily
draping a taboret
(part of the set), beside
a big hirsute begonia.

Why the extraneous plant?
Why the taboret?
Why, oh why, the doily?
(Embroidered in daisy stitch
with marguerites, I think,
and heavy with gray crochet.)

Somebody embroidered the doily.
Somebody waters the plant,
or oils it, maybe. Somebody
arranges the rows of cans
so that they softly say:
ESSOSOSOSO
to high-strung automobiles.
Somebody loves us all.

(Questions of Travel — 1965)
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O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick — Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Elizabeth Bishop: O Incréu

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Ele dorme no alto de um mastro. Bunyan

Ele dorme no alto de um mastro
com os olhos bem fechados.
As velas se abrem lá embaixo
como os lençóis de seu leito,
deixando a cabeça exposta à noite e ao relento.

Dormindo foi levado ali,
dormindo enrodilhou-se
numa bola dourada no alto do mastro,
ou então se enfiou
numa ave dourada, ou nela, cego, montou.

“Tenho pilares de mármore”,
disse uma nuvem. “Não me movo nunca.
Vê os pilares lá no mar?”
Ele, tranquilo, introspecto,
olha os pilares d’água de seu próprio reflexo.

Uma gaivota com as asas
sob as dele comentou que o ar
“parecia mármore”. Disse ele: “Cá em cima
eu vôo mais alto que o céu,
com as asas de mármore que a torre me deu”.

Mas ele dorme no alto do seu mastro
com os olhos bem apertados.
A gaivota investigou-lhe o sonho,
que era assim: “Não posso cair.
O mar cintilante quer me ver cair.
É duro como diamante; ele nos quer destruir”.

Elizabeth Bishop

The Unbeliever

He sleeps on the top of a mast. — Bunyan

He sleeps on the top of a mast
with his eyes fast closed.
The sails fall away below him
like the sheets of his bed,
leaving out in the air of the night the sleeper's head.

Asleep he was transported there,
asleep he curled
in a gilded ball on the mast's top,
or climbed inside
a gilded bird, or blindly seated himself astride.

"I am founded on marble pillars,"
said a cloud. "I never move.
See the pillars there in the sea?"
Secure in introspection
he peers at the watery pillars of his reflection.

A gull had wings under his
and remarked that the air
was "like marble." He said: "Up here
I tower through the sky
for the marble wings on my tower-top fly."

But he sleeps on the top of his mast
with his eyes closed tight.
The gull inquired into his dream,
which was, "I must not fall.
The spangled sea below wants me to fall.
It is hard as diamonds; it wants to destroy us all."
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O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Elizabeth Bishop: Anáfora

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

In memoriam Marjorie Carr Stevens

Cada dia, cerimonioso,
começa com pássaros, e fábricas
a apitar, estrepitosas;
diante de céus aurialvos
tão claros nossos olhos se abrem,
e por um instante perguntamos:
“De onde essa música, essa energia?
Para qual inefável criatura
que não vimos, foi feito este dia?”.
Logo, logo ela surge, e assume
    sua natureza terrena
    e cai vítima da intriga,
    sob o ônus da memória,
    da mortal, mortal fadiga.

Mais lentamente, aparecem
os rostos sarapintados,
condensam sua luz, e a escurecem;
apesar de tantos sonhos
gastos nela em tal olhar,
atura nosso uso e abuso,
mergulha no fluxo de corpos,
mergulha no fluxo de classes
até chegar ao mendigo exausto,
sem livro, sem luz, no lusco-fusco,
    imerso em estupendos estudos:
    este incandescente evento
    de cada dia em constante
    constante consentimento.

(Norte & Sul — 1946)

Elizabeth Bishop

Anaphora

In memory of Marjorie Carr Stevens

Each day with so much ceremony
begins, with birds, with bells,
with whistles from a factory;
such white-gold skies our eyes
first open on, such brilliant walls
that for a moment we wonder
"Where is the music coming from, the energy?
The day was meant for what ineffable creature
we must have missed?" Oh promptly he
appears and takes his earthly nature
    instantly, instantly falls
    victim of long intrigue,
    assuming memory and mortal
    mortal fatigue.

More slowly falling into sight
and showering into stippled faces,
darkening, condensing all his light;
in spite of all the dreaming
squandered upon him with that look,
suffers our uses and abuses,
sinks through the drift of bodies,
sinks through the drift of classes
to evening to the beggar in the park
who, weary, without lamp or book
    prepares stupendous studies:
    the fiery event
    of every day in endless
    endless assent.

(North & South — 1946)
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O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Elizabeth Bishop: Convite a Marianne Moore

 
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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Do Brooklyn, sobre a Brooklyn Bridge, nesta manhã tão bela,
      venha voando.
Numa clara nuvem química de fogo,
      venha voando,
ao rápido rufar de mil tambores azuis
a descer do céu encarneirado
e se espalhar sobre a arquibancada brilhante da enseada,
      venha voando.

Apitos, fumaça e flâmulas dançam ao vento. Navios
trocam sinais cordialmente com uma abundância de bandeiras
que sobem e descem como pássaros por todo o porto.
Entram dois rios, portando, graciosos,
tantas geleiazinhas translúcidas
em centros de mesa de cristal a arrastar correias de prata.
É céu de brigadeiro, conforme o combinado.
As ondas se sucedem como versos nesta manhã tão bela.
      Venha voando.

Venha traçando com o bico fino de cada sapato preto
uma trilha cor de safira,
a capa cheia de asas de borboleta e blagues,
e só Deus sabe quantos anjos encarapitados
na aba negra e larga do chapéu,
      venha voando.

Trazendo um ábaco inaudível, musical,
a fronte um pouco franzida de censura, e fitas azuis,
      venha voando.
Fatos e arranha-céus brilham na água; Manhattan
está inundada de moral e bons costumes nesta manhã tão bela,
      por isso venha voando.

Singrando os céus com heroísmo natural,
sobrevoando os acidentes, os filmes perniciosos,
todos os táxis e injustiças à solta,
enquanto as buzinas ressoam nos seus belos ouvidos
que ao mesmo tempo escutam
uma harmonia suave, incriada, digna do almiscareiro,
      venha voando.

Por quem os museus severos hão de comportar-se
como corteses tangarás,
por quem os simpáticos leões aguardam
na escadaria da Biblioteca Pública,
ansiosos por seguir-lhe os passos
até as salas de leitura,
      venha voando.
Podemos chorar; podemos ir às compras,
ou jogar o jogo de estar sempre equivocadas
com nossos preciosos vocabulários,
ou, implacáveis, nos queixar, mas por favor
      venha voando.

Com dinastias de estruturas negativas
escurecendo e morrendo a sua volta,
com uma sintaxe que de súbito vira e brilha
qual maçaricos a voar em bando,
      venha voando.

Venha feito uma luz no alvo céu encarneirado,
feito um cometa à luz do dia
com uma cauda longa de palavras nem um pouco nebulosos,
do Brooklyn, por sobre a Brooklyn Bridge, nesta manhã tão bela,
      venha voando.

(Uma Primavera Fria — 1955)

Elizabeth Bishop

Invitation to Miss Marianne Moore

From Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
      please come flying.
In a cloud of fiery pale chemicals,
      please come flying,
to the rapid rolling of thousands of small blue drums
descending out of the mackerel sky
over the glittering grandstand of harbor-water,
      please come flying.

Whistles, pennants and smoke are blowing.  The ships
are signaling cordially with multitudes of flags
rising and falling like birds all over the harbor.
Enter: two rivers, gracefully bearing
countless little pellucid jellies
in cut-glass epergnes dragging with silver chains.
The flight is safe; the weather is all arranged.
The waves are running in verses this fine morning.
      Please come flying.

Come with the pointed toe of each black shoe
trailing a sapphire highlight,
with a black capeful of butterfly wings and bon-mots,
with heaven knows how many angels all riding
on the broad black brim of your hat,
      please come flying.

Bearing a musical inaudible abacus,
a slight censorious frown, and blue ribbons,
      please come flying.
Facts and skyscrapers glint in the tide; Manhattan
is all awash with morals this fine morning,
      so please come flying.

Mounting the sky with natural heroism,
above the accidents, above the malignant movies,
the taxicabs and injustices at large,
while horns are resounding in your beautiful ears
that simultaneously listen to
a soft uninvented music, fit for the musk deer,
      please come flying.

For whom the grim museums will behave
like courteous male bower-birds,
for whom the agreeable lions lie in wait
on the steps of the Public Library,
eager to rise and follow through the doors
up into the reading rooms,
      please come flying.
We can sit down and weep; we can go shopping,
or play at a game of constantly being wrong
with a priceless set of vocabularies,
or we can bravely deplore, but please
      please come flying.

With dynasties of negative constructions
darkening and dying around you,
with grammar that suddenly turns and shines
like flocks of sandpipers flying,
      please come flying.

Come like a light in the white mackerel sky,
come like a daytime comet
with a long unnebulous train of words,
from Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
      please come flying.

(A Cold Spring — 1955)
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O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto — MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Elizabeth Bishop: Sextina

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[traduzido por Paulo Henriques Britto]

Cai a chuva de setembro sobre a casa.
À luz de fim de tarde, a velha avó
está à mesa da cozinha com a menina,
ambas sentadas ao pé do fogão,
lendo as piadas que vêm no almanaque,
rindo e falando para ocultar as lágrimas.

A avó imagina que as suas lágrimas
outonais e a chuva a cair na casa
foram ambas previstas pelo almanaque,
mas reveladas apenas para a avó.
Canta a chaleira de ferro no fogão.
A avó corta o pão e diz à menina:

É hora do chá; porém a menina
assiste à dança das pequenas lágrimas
duras da chaleira que caem no fogão,
tal como a chuva há de dançar sobre a casa.
Arrumando a cozinha, a velha avó
pendura no barbante o almanaque

sábio. Como um pássaro, o almanaque
paira entreaberto acima da menina,
paira sobre a xícara da velha avó,
cheia de escuras, de pesadas lágrimas.
Ela arrepia-se, e diz que aquela casa
está fria, e põe mais lenha no fogão.

Tinha de ser, sentencia o fogão.
Eu sei o que sei, afirma o almanaque.
Surge, tosca e rígida, uma casa
no papel em que desenha a menina,
e um homem com botões em forma de lágrimas.
Ela mostra, orgulhosa, o desenho à avó.

Mas em segredo, enquanto a velha avó
está arrumando, ocupada, o fogão,
as luazinhas caem como lágrimas
das páginas abertas do almanaque
exatamente no canteiro que a menina
teve o cuidado de pôr em frente à casa.

Tempo de plantar lágrimas, diz o almanaque.
Enquanto a avó cantarola para o fogão,
a menina faz outra inescrutável casa.

Elizabeth Bishop

Sestina

September rain falls on the house.
In the failing light, the old grandmother
sits in the kitchen with the child
beside the Little Marvel Stove,
reading the jokes from the almanac,
laughing and talking to hide her tears.

She thinks that her equinoctial tears
and the rain that beats on the roof of the house
were both foretold by the almanac,
but only known to a grandmother.
The iron kettle sings on the stove.
She cuts some bread and says to the child,

It's time for tea now; but the child
is watching the teakettle's small hard tears
dance like mad on the hot black stove,
the way the rain must dance on the house.
Tidying up, the old grandmother
hangs up the clever almanac

on its string. Birdlike, the almanac
hovers half open above the child,
hovers above the old grandmother
and her teacup full of dark brown tears.
She shivers and says she thinks the house
feels chilly, and puts more wood in the stove.

It was to be, says the Marvel Stove.
I know what I know, says the almanac.
With crayons the child draws a rigid house
and a winding pathway. Then the child
puts in a man with buttons like tears
and shows it proudly to the grandmother.

But secretly, while the grandmother
busies herself about the stove,
the little moons fall down like tears
from between the pages of the almanac
into the flower bed the child
has carefully placed in the front of the house.

Time to plant tears, says the almanac.
The grandmother sings to the marvelous stove
and the child draws another inscrutable house.
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O Iceberg Imaginário e outros poemas — Elizabeth Bishop [edição bilíngue], Seleção, Tradução, Estudo Crítico e Notas de Paulo Henriques Britto, 2001, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Elizabeth Bishop (1911 1979), estadunidense de Worcester, Massachusets, concluiu o secundário no Walnut Hill School, Natick Massachusetts, depois estudou no Vassar College, Poughkeepsie estado de Nova York, faculdade na qual cursou Inglês e Literatura dos Séculos XVI e XVII, foi poeta, professora, escritora e epistológrafa; viveu no Brasil entre 1951 e 1969, residindo na cidade do Rio de Janeiro e em Petrópolis e, depois, em Ouro Preto MG, onde adquiriu uma casa; escreveu reportagens para a revista Time-Life, reunidas na obra Brazil (1962-1963, em parceria com Emanuel Brasil); suas obras: antologia Trial balances (estréia da publicação em livro, apresentada pela poeta Marianne Moore, 1935), North & South (coleção de poemas, 1946), Poems: North & South. A Cold Spring (1955), Questions of Travel (com numerosos poemas feitos no Brasil, 1965), The Complete Poems (1969), Geography III (1976), One Art: Letters, selected and edited by Robert Giroux (Uma Arte — As Cartas de Elizabeth Bishop, 1994-1995), Edgar Allan Poe & The Juke-Box: Uncollected Poems, Drafts, and Fragments by Elizabeth Bishop (editado e anotado por Alice Quinn, 2006) e outros textos em verso e prosa; verteu para o inglês poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Manuel Bandeira, João Cabral do Melo Neto, Joaquim Cardozo, os quais constaram de uma edição por ela organizada, An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry (1972), em parceria com Emanuel Brasil; recebeu premiações: Pulitzer Prize for Poetry (1956, por Poems: North & South. A Cold Spring), National Book Award for Poetry (1970, por The Complete Poems), Books Abroad/Neustadt International Prize (1976) + outros prêmios e honrarias; em 1949, a poeta foi consultora de poesia na Biblioteca do Congresso, em Washington D. C. e, em 1966, iniciando-se a dar aulas de literatura, lecionou na University of Washington, Seatle, depois vieram Harvard University, Cambridge Massachusets, e New York University; em sua estada em terras brasileiras, Elizabeth Bishop envolveu-se amorosamente com a arquiteta autodidata e paisagista Lota de Macedo Soares (Maria Carlota), com quem passou a conviver [de 1951 a 1967], e cuja história é mostrada no filme Flores Raras (2013), dirigido por Bruno Barreto, e tendo no elenco a atriz Gloria Pires como Lota, e a atriz australiana Miranda Otto representando a poeta.