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domingo, 7 de abril de 2024

Rimbaud: [Carta de] Rimbaud a Georges Izambard — 13 de maio de 1871.

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[traduzido por Alexandre Ribondi]

          Charleville, 13 de maio de 1871.

          Caro Senhor!
          E eis que o senhor é novamente professor. Temos obrigações com a Sociedade, o senhor me disse; o senhor faz parte do corpo docente; anda no bom caminho. Eu também sigo o princípio: cinicamente deixo que me conversem; desenterrei velhos imbecis do colégio: tudo que posso inventar de estúpido, de sujo, de mal, em ação e em palavras, eu passo para eles: pagam-me com cerveja e vinho. Stat mater dolorosa, dum pender filius. Tenho obrigações com a sociedade, é justo; e tenho razão. O senhor também tem razão, por enquanto. No fundo, em seu princípio, o senhor vê apenas poesia subjetiva: prova-o a sua obstinação em readquirir sempre como um homem satisfeito que não fez nada e que nunca quis fazer nada. Sem contar que a sua poesia subjetiva será sempre horrivelmente insípida. Um dia, espero outros esperam a mesma coisa verei em seu princípio a poesia objetiva, eu a verei com mais sinceridade que o senhor mesmo! Serei um trabalhador: é a idéia que me segura, quando as cóleras loucas me empurram para a batalha de Paris onde, no entanto, tantos trabalhadores morrem ainda enquanto eu lhe escrevo! Trabalhar agora, nunca, jamais; estou em greve.
          No entanto, estou me tornando o maior dos crápulas. Por quê? Quero ser poeta e trabalho para me tornar Vidente: o senhor não compreenderá nada e eu não saberei como lhe explicar. Trata-se de chegar ao infinito pela desorganização de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser forte, nascer poeta, e eu me reconheci poeta. Não é culpa minha, absolutamente. É errado dizer: Eu penso: deveríamos dizer pensam-me.  Perdão pelo jogo de palavras1.
          Eu é um outro. Pior para a madeira que se transforma em violino e desprezo aos inconscientes que argumentam sobre o que ignoram completamente!
          O senhor não é Professor para mim. Dou-lhe isto: é sátira, como diria o senhor? É poesia? É fantasia, sempre. Mas, eu lhe suplico, não sublinhe nem com lápis nem com pensamento:

Le Coeur Supplicié
Mon triste coeur have à la poupe2
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

          Isto não quer dozer nada. RESPONDA-ME: Aos cuidados de Sr. Deverrière, para A. R.
          Bom dia de coração,

          AR. RIMBAUD

Senhor Georges Izambard,
27, rue de l’Abbaye-des-Champs,
Em Douai (Norte)

Rimbaud

Lettre à Georges Izambard

27, rue de l’Abbaye-des-Champs, à Douai (Nord)

          Charleville, [13] mai 1871.
          
          Cher Monsieur!
          Vous revoilà professeur. On se doit à la Société, m’avez-vous dit; vous faites partie des corps enseignants: vous roulez dans la bonne ornière. Moi aussi, je suis le principe: je me fais cyniquement entretenir; je déterre d’anciens imbéciles de collège: tout ce que je puis inventer de bête, de sale, de mauvais, en action et en paroles, je le leur livre: on me paie en bocks et en filles. Stat mater dolorosa, dum pendet filius. Je me dois à la Société, c’est juste, et j’ai raison, Vous aussi, vous avez raison, pour aujourd’hui. Au fond, vous ne voyez en votre príncipe que poésie subjective: votre obstination à regagner le râtelier universitaire pardon! le prouve! Mais vous finirez toujours comme un satisfait qui n’a rien fait, n’ayant rien voulu faire. Sans compter que votre poésie subjective sera toujours horriblement fadasse. Un jour, j’espère, bien d’autres espèrent la même chose, je verrai dans votre príncipe la poésie objective, je la verrai plus sincèrement que vous ne le feriez! Je serai un travailleur: c’est l’idée qui me retient quand les colères folles me poussent vers la bataille de Paris, où tant de travailleurs meurent pourtant encore tandis que je vous écris! Travailler maintenant, jamais, jamais; je suis en grève.
          Maintenant, je m’encrapule le plus possible. Pourquoi? je veux être poëte, et je travaille à me rendre voyant: vous ne comprendrez pas du tout, et je ne saurais presque vous expliquer. Il s’agit d’arriver à l’inconnu par le dérèglement de tous les sens. Les souffrances sont énormes, mais il faut être fort, être né poëte, et je me suis reconnu poète. Ce n’est pas du tout ma faute. C’est faux de dire: je pense: on devrait dire: On me pense. Pardon du jeu de mots.
          JE est un autre. Tant pis pour le bois qui se trouve violon, et Nargue aux inconscients, qui ergotent sur ce qu’ils ignorent tout à fait!
          Vous n’êtes pas Enseignant pour moi. Je vous donne ceci: est-ce de la satire, comme vous diriez? Est-ce de la poésie? C’est de la fantaisie, toujours. Mais, je vous en supplie, ne soulignez ni du crayon, ni  trop  de la pensée:

Le cœur supplicié
Mon triste cœur bave à la poupe
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

          Ça ne veut pas rien dire.
          RÉPONDEZ-MOI: chez M. Deverrière, pour A. R.
           Bonjour de cœur,

          Arth. Rimbaud.

Notas:
1Rimbaud põe aqui, em desordem e sem desenvolvê-las, idéias que iria afirmar em sua carta a Paul Demeny dois dias mais tarde. (Nota do Editor);
2Tradução literal: O Coração Martirizado / Meu triste coração baba na popa / . . . . . . . (Nota do Tradutor).
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Correspondência de Rimbaud: Cartas da África — Correspondência com Verlaine — Agonia em Marselha, Tradução e Notas de Alexandre Ribondi e Apresentação de Ivo Barroso, 2ª edição, Coleção Rebeldes & Malditos volume 4, agosto de 1991, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Arthur Rimbaud: Noite do Inferno

 
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

          Engoli um senhor gole de veneno. Três vezes abençoado seja o conselho que me deram! As entranhas me ardem. A violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prostra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo se ergue! Queimo como deve ser. Anda, demônio!
          Entrevi a conversão ao bem e à felicidade, a salvação. Pudesse descrever a visão, o ar do inferno não suporta hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que sei?
          As nobres ambições!
          E ainda é a vida! Se a danação é eterna! Um homem que quer se mutilar está condenado, não é? Não creio no inferno, pois estou nele. É a execução do catecismo. Sou escravo do meu batismo. Pais, fizeram a minha desgraça e a de vocês. Pobre inocente! O inferno não pode acometer os pagãos É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da danação vão ser mais profundas. Um crime, ligeiro, que eu caia no nada, segundo a lei humana.
          Cala-te, mas cala-te!... É a vergonha, a censura, aqui: Satã é quem diz que o fogo é abjeto, que minha cólera é terrivelmente tola. Basta!... Os equívocos que me passam, magias, falsos perfumes, músicas pueris. E dizer que aprendo a verdade, discirno a justiça: possuo um julgamento são e moderado, estou pronto para a perfeição. Orgulho. A pele do meu crânio desseca. Piedade! Senhor, tenho medo. E sede, tanta sede! Ah! a infância, a grama, a chuva, o lago sobre as pedras, o luar quando o campanário batia as doze... o diabo está ali nessa hora. Maria! Santa Virgem!... Horror da minha tolice.
          Não estão lá boas gentes, que me querem bem?... Venham... tenho um travesseiro na boca, não me escutam, são fantasmas. Ademais, nunca ninguém pensa no outro. Não cheguemos perto. Sinto cheiro de queimado, é certo.
          As alucinações são inumeráveis. É bem o que eu sempre tive: não mais fé na história, o esquecimento dos princípios. Não falo deles: poetas e visionários teriam inveja. Sou mil vezes mais rico, sejamos avaros como o mar.
          Ah isto! o relógio da vida parou há pouco. Não estou mais no mundo. — A teologia é séria, o inferno é sem dúvida embaixo e o céu, no alto. êxtase, pesadelo, sonho num ninho de chamas.
          Quantas travessuras em atenção ao campo... Satã, Ferdinand*, corre como as sementes selvagens... Jesus caminha sobre as sarças purpúreas, sem curvá-las... Jesus anda sobre as águas encrespadas. A lanterna mostra-o de pé, branco, com tranças escuras, na borda de uma onda de esmeralda...
          Quero desvelar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, nada. Sou mestre em fantasmagorias.
          Ouçam!...
          Tenho todos os talentos! Não há ninguém aqui e há alguém: não gostaria de espalhar meu tesouro. Querem cantos negros, danças de huris? Querem que eu desapareça, que mergulhe em busca do anel? Querem? Farei ouro, remédios.
          Confiem em mim, a fé alivia, guia, cura. Todos, venham mesmo as criancinhas que os consolarei, reparto o coração dele o coração maravilhoso! Pobres homens, trabalhadores! Não peço preces; com sua confiança apenas, estou satisfeito.
           E pensemos em mim. Isso me leva a ter pouca saudade do mundo. Tenho a possibilidade de não sofrer mais. Minha vida não passou de doces loucuras, é lamentável.
          Bah! Façamos todas as caretas imagináveis.
          Decididamente, estamos fora do mundo. Mais nenhum som. Meu tato sumiu. Ah! meu castelo, minha Saxe, meu bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias. Estou ali!
          Deveria ter meu inferno pela cólera, meu inferno pelo orgulho e o inferno da carícia; um concerto de infernos.
          Morro de lassidão. É a tumba, vou para os vermes, horror dos horrores! Satã, farsante, queres me diluir com teus feitiços. Me queixo. Me queixo! Um golpe do tridente, uma gota de fogo.
          Ah! voltar à vida! Lançar os olhos sobre nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueldade do mundo! Meu Deus, piedade, esconde-me, me aguento mal! Estou oculto e não estou.
          É o fogo que cresce, com seu condenado.

Arthur Rimbaud

Nuit de l’enfer

          J’ai avalé une fameuse gorgée de poison. Trois fois béni soit le conseil qui m’est arrivé! Les entrailles me brûlent. La violence du venin tord mes membres, me rend difforme, me terrasse. Je meurs de soif, j’étouffe, je ne puis crier. C’est l’enfer, l’éternelle peine! Voyez comme le feu se relève! Je brûle comme il faut. Va, démon!
          J’avais entrevu la conversion au bien et au bonheur, le salut. Puis-je décrire la vision, l’air de l’enfer ne souffre pas les hymnes! C’était des millions de créatures charmantes, un suave concert spirituel, la force et la paix, les nobles ambitions, que sais-je?
          Les nobles ambitions!
          Et c’est encore la vie! Si la damnation est éternelle! Un homme qui veut se mutiler est bien damné, n’est-ce pas? Je me crois en enfer, donc j’y suis. C’est l’exécution du catéchisme. Je suis esclave de mon baptême. Parents, vous avez fait mon malheur et vous avez fait le vôtre. Pauvre innocent! L’enfer ne peut attaquer les païens. C’est la vie encore! Plus tard, les délices de la damnation seront plus profondes. Un crime, vite, que je tombe au néant, de par la loi humaine.
          Tais-toi, mais tais-toi!… C’est la honte, le reproche, ici: Satan qui dit que le feu est ignoble, que ma colère est affreusement sotte. Assez!… Des erreurs qu’on me souffle, magies, parfums faux, musiques puériles. Et dire que je tiens la vérité, que je vois la justice: j’ai un jugement sain et arrêté, je suis prêt pour la perfection… Orgueil. — La peau de ma tête se dessèche. Pitié! Seigneur, j’ai peur. J’ai soif, si soif! Ah! l’enfance, l’herbe, la pluie, le lac sur les pierres, le clair de lune quando le clocher sonnait douze… le diable est au clocher, à cette heure. Marie! Sainte-Vierge!… Horreur de ma bêtise.
          Là-bas, ne sont-ce pas des âmes honnêtes, qui me veulent du bien… Venez… J’ai un oreiller sur la bouche, elles ne m’entendent pas, ce sont des fantômes. Puis, jamais personne ne pense à autrui. Qu’on n’approche pas. Je sens le roussi, c’est certain.
          Les hallucinations sont innombrables. C’est bien ce que j’ai toujours eu: plus de foi en l’histoire, l’oubli des principes. Je m’en tairai: poètes et visionnaires seraient jaloux. Je suis mille fois le plus riche, soyons avare comme la mer.
          Ah ça! l’horloge de la vie s’est arrêtée tout à l’heure. Je ne suis plus au monde. La théologie est sérieuse, l’enfer est certainement en bas et le ciel en haut. Extase, cauchemar, sommeil dans un nid de flammes.
          Que de malices dans l’attention dans la campagne… Satan, Ferdinand, court avec les graines sauvages… Jésus marche sur les ronces purpurines, sans les courber… Jésus marchait sur les eaux irritées. La lanterne nous le montra debout, blanc et des tresses brunes, au flanc d’une vague d’émeraude…
          Je vais dévoiler tous les mystères: mystères religieux ou naturels, mort, naissance, avenir, passé, cosmogonie, néant. Je suis maître en fantasmagories.
          Écoutez!…
          J’ai tous les talents! Il n’y a personne ici et il y a quelqu’un: je ne voudrais pas répandre mon trésor. Veut-on des chants nègres, des danses de houris? Veut-on que je disparaisse, que je plonge à la recherche de l’anneau? Veut-on? Je ferai de l’or, des remèdes.
          Fiez-vous donc à moi, la foi soulage, guide, guérit. Tous, venez, même les petits enfants, que je vous console, qu’on répande pour vous son cœur, le cœur merveilleux! Pauvres hommes, travailleurs! Je ne demande pas de prières; avec votre confiance seulement, je serai heureux.
           Et pensons à moi. Ceci me fait peu regretter le monde. J’ai de la chance de ne pas souffrir plus. Ma vie ne fut que folies douces, c’est regrettable.
          Bah! faisons toutes les grimaces imaginables.
          Décidément, nous sommes hors du monde. Plus aucun son. Mon tact a disparu. Ah! mon château, ma Saxe, mon bois de saules. Les soirs, les matins, les nuits, les jours… Suis-je las!
          Je devrais avoir mon enfer pour la colère, mon enfer pour l’orgueil, et l’enfer de la caresse; un concert d’enfers.
          Je meurs de lassitude. C’est le tombeau, je m’en vais aux vers, horreur de l’horreur! Satan, farceur, tu veux me dissoudre, avec tes charmes. Je réclame. Je réclame! un coup de fourche, une goutte de feu.
          Ah! remonter à la vie! Jeter les yeux sur nos difformités. Et ce poison, ce baiser mille fois maudit! Ma faiblesse, la cruauté du monde! Mon Dieu, pitié, cachez-moi, je me tiens trop mal! — Je suis caché et je ne le suis pas.
          C’est le feu qui se relève avec son damné.

* Nota do tradutor Paulo Hecker Filho: Provável alusão ao imperador germânico que odiava o protestantismo e causou a Guerra dos Trinta Anos no século XVII.
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Rimbaud: Carta de Rimbaud a Georges Izambard [05.09.1870]

 
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[traduzido por Alexandre Ribondi]

Paris, 5 de setembro de 1870.

          Caro Senhor,
          O que o senhor me aconselhou a não fazer, eu fiz: parti para Paris e abandonei a casa materna! Fiz esta viagem dia 29 de agosto.
          Preso ao descer do vagão por não ter um tostão e dever treze francos à estrada de ferro, fui conduzido à delegacia e hoje aguardo meu julgamento em Mazzas! Oh! Confio no senhor como em minha mãe; o senhor sempre foi para mim como um irmão: peço-lhe imediatamente a ajuda que me ofereceu. Escrevi a minha mãe, ao procurador imperial, ao comissário de polícia de Charleville; se o senhor não receber nenhuma notícia minha até quarta-feira, antes do trem que parte de Douai para Paris, tome este trem, venha aqui reclamar-me por carta ou apresentando-se ao procurador, implorando, respondendo por mim, pagando minha dívida! Faça tudo que puder e quando receber esta carta, escreva, o senhor também, eu o ordeno, sim, escreva à minha pobre mãe (Quai de la Madeleine, 5, Charleville) para consolá-la. Escreva-me também; faça tudo! Eu o amo como um irmão eu o amarei como um pai.
          Aperto sua mão.

Do seu pobre

Arthur Rimbaud
detido em Mazas.

          (e se conseguir me libertar, o senhor me levará consigo para Douai).

          Senhor Georges Izambard,
          em Douai.

Arthur Rimbaud

[Correspondance] Rimbaud à Georges Izambard

Paris, 5 septembre 1870.

          Cher Monsieur,
          Ce que vous me conseilliez de ne pas faire, je l’ai fait: je suis allé à Paris, quittant la maison maternelle! J’ai fait ce tour le 29 août.
          Arrêté en descendant de wagon pour n’avoir pas un sou et devoir treize francs de chemin de fer, je fus conduit à la préfecture, et, aujourd’hui, j’attends mon jugement à Mazas! oh!  J’espère en vous comme en ma mère; vous m’avez toujours été comme un frère: je vous demande instamment cette aide que vous m’offrîtes. J’ai écrit à ma mère, au procureur impérial, au commissaire de police de Charleville; si vous ne recevez de moi aucune nouvelle mercredi, avant le train qui conduit de Douai à Paris, prenez ce train, venez ici me réclamer par lettre, ou en vous présentant au procureur, en priant, en répondant de moi, en payant ma dette! Faites tout ce que vous pourrez, et, quand vous recevrez cette lettre, écrivez, vous aussi, je vous l’ordonne, oui, écrivez à ma pauvre mère (Quai de la Madeleine, 5, Charlev[ille]) pour la consoler. Écrivez-moi aussi; faites tout! Je vous aime comme un frère, je vous aimerai comme un père.
          Je vous serre la main.

Votre pauvre

Arthur Rimbaud
[détenu] à Mazas.

          (et si vous parvenez à me libérer, vous m’emmènerez à Douai avec [vous].)

          Monsieur Georges Izambard,
          A Douai.
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Correspondência de Rimbaud: Cartas da África — Correspondência com Verlaine — Agonia em Marselha, Tradução e Notas de Alexandre Ribondi e Apresentação de Ivo Barroso, 2ª edição, Coleção Rebeldes & Malditos volume 4, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Rimbaud: Carta de Rimbaud a Georges Izambard [25.08.1870]

 
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[traduzido por Alexandre Ribondi]

Charleville, 25 de agosto de 1870.

          Senhor,
          Feliz é o senhor por não morar em Charleville! Minha cidade natal é superiormente idiota entre as cidadezinhas da província. Saiba que não tenho mais ilusões a este respeito. Por ser ao lado de Mézières uma cidade que ninguém encontra , por ver peregrinar em suas ruas duzentos ou trezentos soldadinhos, esta população hipócrita gesticula, ridiculamente fanfarrona, de maneira bem diferente dos sitiados de Metz e Strasbourg! São assustadores os merceeiros reformados que voltam a vestir seus uniformes! São surpreendentes, e como têm charme, os notários, os vidraceiros, os perceptores, os marceneiros e todas as panças que, com o fuzil no coração, fazem patrulhotismos às portas de Mézières; minha pátria se levanta!... Quanto a mim, prefiro vê-la sentada; não movam as botas! É o meu princípio.
          Estou desorientado, doente, furioso, brutalizado, confuso; esperava banhos de sol, passeios infinitos, repouso, viagens, aventuras, boemia, enfim; esperava sobretudo jornais, livros... Nada! Nada! O correio não envia nada mais aos livreiros; Paris se diverte conosco: nem um único livro novo! É a morte! Eis-me reduzido no que diz respeito a jornais ao honorável Courrier des Ardennes proprietário, gerente, diretor, chefe de redação e redator único: A. Pouillard! Este jornal resume as aspirações, os anseios e as opiniões da população: julgue-o portanto! Tudo muito limpo!... Estou exilado em minha pátria!!!
          Felizmente tenho o seu quarto: o senhor se lembra da permissão que me deu. Levei a metade de seus livros! Peguei Le Diable à Paris1. Diga-me depressa se já houve alguma coisa mais idiota que os desenhos de Grandville Tenho Costal l’Indien, tenho La Robe de Nessus2, dois romances interessantes. Além disto, que mais lhe dizer?... Li todos os seus livros; faz três dias desci as Épreuves, em seguida até as Glaneuses3 sim! Reli este volume! E foi tudo!... Nada mais. Sua biblioteca, minha única tábua de salvação, se esgotou!... O Dom Quixote se apresentou a mim4; ontem, por duas horas, passei em revista o bosque de Doré: agora, não tenho mais nada!
          Estou-lhe enviando versos; leia-os uma manhã, ao sol, como eu os fiz: o senhor não é mais professor agora, espero!...
          Me pareceu que o senhor queria conhecer Louisa Seifert, quando eu lhe emprestei seus últimos versos; acabo de conseguir partes de seu primeiro volume de poesias, os Rayons Perdus, 4ª edição. Eis uma peça muito comovente e extremamente bela. Marguerite5.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Estava afastada, tendo em meu colo,
Minha priminha de grandes e tão doces olhos azuis:
É uma criança encantadora. A Marguerite,
Com seus cabelos louros, sua boca tão pequena
E sua tez transparente...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Marguerite é bem jovem. Oh, se fosse minha filha,
Se tivesse uma criança, loura e gentil,
Frágil criatura em que eu reviveria,
Rósea e cândida com grandes olhos indiscretos!
Lágrimas quase surgem em minha pálpebra
Quando penso na criança que tanto orgulho me daria
E que não terei, que não teria jamais;
Pois o futuro, cruel àquele que amei,
Quer que também desta criança eu perca a esperança...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Jamais dirão de mim: é uma mãe!
E jamais me dirá uma criança: mamãe!
Acabou-se para mim o celeste romance
Com que sonha toda a jovem de minha idade...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Minha vida, aos dezoito anos, conta toda um passado.

          É tão belo quanto os lamentos de Antígona άγϰηφη, em Sófocles.
          Tenho o Fêtes Galantes de Paul Verlaine, um belo in-doze. É bastante bizarro, muito engraçado; mas realmente, é adorável. Às vezes, licenças ousadas: assim,

Et la tigresse épou-vantable d’Hyrcanie

é um verso deste volume. Compre, eu o aconselho, La Bonne Chanson um pequeno volume de versos do mesmo poeta; acaba de ser lançado pela Lemerre; eu ainda não o li: nada chega aqui; mas vários jornais falam muito bem dele.
          Até a vista, envie-me uma carta de 25 páginas posta restante e depressa!

A. Rimbaud

P.S. Em breve, revelações sobre a vida que vou levar após... as férias...

Senhor Georges Izambard
29, rue de l’Abbaye-des-Prés,
Douai (Norte).

Urgente

Arthur Rimbaud

[Correspondance]
Rimbaud a Georges Izambard (25 août [18]70).

Charleville, 25 août [18]70.

          Monsieur,
          Vous êtes heureux, vous, de ne plus habiter Charleville! Ma ville natale est supérieurement idiote entre les petites villes de province. Sur cela, voyez-vous, je n’ai plus d’illusions. Parce qu’elle est à côté de Mézières une ville qu’on ne trouve pas , parce qu’elle voit pérégriner dans ses rues deux ou trois cents de pioupious, cette benoîte population gesticule prudhommesquement spadassine, bien autrement que les assiégés de Metz et de Strasbourg! C’est effrayant, les épiciers retraités qui revêtent l’uniforme! C’est épatant, comme ça a du chien, les notaires, les vitriers, les percepteurs, les menuisiers, et tous les ventres, qui, chassepot au cœur, font du patrouillotisme aux portes de Mézières; ma patrie se lève!… Moi, j’aime mieux la voir assise; ne remuez pas les bottes! c’est mon principe.
          Je suis dépaysé, malade, furieux, bête, renversé; j’espérais des bains de soleil, des promenades infinies, du repos, des voyages, des aventures, des bohémienneries, enfin; j’espérais surtout des journaux, des livres… Rien! Rien! Le courrier n’envoie plus rien aux libraires; Paris se moque de nous joliment; pas un seul livre nouveau! c’est la mort! Me voilà réduit, en fait de journaux, à l’honorable Courrier des Ardennes, propriétaire, gérant, directeur, rédacteur en chef et rédacteur unique: A. Pouillard! Ce journal résume les aspirations, les vœux et les opinions dela population: ainsi, jugez! c’est du propre!… On est exilé dans sa patrie!!!
          Heureusement, j’ai votre chambre: Vous vous rappelez la permission que vous m’avez donnée. J’ai emporté la moitié de vos livres! J’ai pris le Diable à Paris. Dites-moi un peu s’il y a jamais eu quelque chose de plus idiot que les dessins de Granville? J’ai Costal l’indien, j’ai la Robe de Nessus, deux romans intéressants. Puis, que vous dire?… J’ai lu tous vos livres, tous; il y a trois jours, je suis descendu aux Épreuves, puis aux Glaneuses, oui, j’ai relu ce volume! — puis ce fut tout!… Plus rien; votre bibliothèque, ma dernière planche de salut, était épuisée!… Le Don Quichotte m’apparut; hier, j’ai passé, deux heures durant, la revue des bois de Doré: maintenant, je n’ai plus rien!
          Je vous envoie des vers; lisez cela un matin, au soleil, comme je les ai faits: vous n’êtes plus professeur, maintenant, j’espère!…
          [Vous aviez] l’air de vouloir connaître Louisa Siefert, quand je vous ai prêté ses derniers vers; je viens de me procurer des parties de son premier volume de poésies, les Rayons perdus, 4e édition. J’ai là une pièce très émue et fort belle, Marguerite;

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Moi j’étais à l’écart, tenant sur mes genoux
Ma petite cousine aux grands yeux bleus si doux;
C’est une ravissante enfant que Marguerite
Avec ses cheveux blonds, sa bouche si petite
Et son teint transparent…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Marguerite est trop jeune. Oh! si c’était ma fille,
Si j’avais une enfant, tête blonde et gentille,
Fragile créature en qui je revivrais,
Rose et candide avec de grands yeux indiscrets!
Des larmes sourdent presque au bord de ma paupière
Quand je pense à l’enfant qui me rendrait si fière,
Et que je n’aurai pas, que je n’aurai jamais;
Car l’avenir, cruel en celui que j’aimais,
De cette enfant aussi veut que je désespère.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Jamais on ne dira de moi: c’est une mère!
Et jamais un enfant ne me dira: Maman!
C’en est fini pour moi du céleste roman
Que toute jeune fille à mon âge imagine...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ma vie, à dix-huit ans, compte tout un passé.

          — C’est, aussi beau que les plaintes d’Antigone άγϰηφη, dans Sophocle.
          J’ai les Fêtes galantes de Paul Verlaine, un joli in-12 écu. C’est fort bizarre, très drôle; mais vraiment, c’est adorable. Parfois, de fortes licences; ainsi,

Et la tigresse épou — vantable d’Hyrcanie

est un vers de ce volume. Achetez, je vous le conseille, la Bonne Chanson, un petit volume de vers du même poète: ça vient de paraître chez Lemerre; je ne l’ai pas lu; rien n’arrive ici; mais plusieurs journaux en disent beaucoup de bien.
          Au revoir, envoyez-moi une lettre de 25 pages. — poste restante — et bien vite!

A. Rimbaud.

          P.-S. — À bientôt, des révélations sur la vie que je vais mener après… les vacances...

          Monsieur Georges Izambard,
          29, rue de l’Abbaye-des-Prés,
          Douai (Nord)
          Très pressé.

Notas do tradutor Alexandre Ribondi:
1. Le Diable à Paris, de George Sand, P. J. Stahl, Léon Gozlan, Charles Nodier, etc., 1845;
2. Le Dragon de la Reine ou Costal l’Indien, romance de Gabriel Ferry, 1885 e La Robe de Nessus, romance de Amédée Achard, 1885;
3. Les Épreuves, poesias de Sully Prudhomme, 1886 e Les Glaneuses, de Paul Demeny, 1870;
4. A edição de Don Quixotte ilustrada por Gustave Doiré foi publicada em 1863;
5. [trecho do poema Marguerite, de Louisa Seifert, Rayons perdus] — Tradução literal.
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Correspondência de Rimbaud: Cartas da África — Correspondência com Verlaine — Agonia em Marselha, Tradução e Notas de Alexandre Ribondi e Apresentação de Ivo Barroso, 2ª edição, Coleção Rebeldes & Malditos volume 4, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica , Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 18731875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu a 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Rimbaud: Manhã

UMA TEMPORADA NO INFERNO SEGUIDO DE CORRESPONDÊNCIA - Arthur ...
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[traduzido por Paulo Hecker Filho]

               Não tive uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, a ser narrada sobre folhas de ouro, muita sorte! Por que crime, por que erro, mereci minha fraqueza atual? Os que creem que os animais têm soluços de pena, que os doentes desesperam, que os mortos tenham maus sonhos, tratem de contar a minha queda e o meu sono. Eu não posso me explicar mais que o mendigo com seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!
               Porém hoje creio ter terminado o relato do meu inferno. Era o inferno; o velho, de que o filho do homem abriu as portas.
               Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados se abrem para a estrela de prata, sempre, sem que se comovam os reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, adorar os primeiros! O Natal na terra!
               O Cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

Uma Temporada no Inferno — 1873

Rimbaud

               Matin

               N'eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d'or, trop de chance! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m'expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave mariaJe ne sais plus parler!
               Pourtant, aujourd'hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C'était bien l'enfer; l'ancien, celui dont le fils de l'homme ouvrit les portes.
               Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l'étoile d'argent, toujours, sans que s'émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur, l'âme, l'esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer les premiers! Noël sur la terre!
               Le chant des cieux, la marche des peuples! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

Une saison en enfer — 1873 
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Rimbaud — Uma temporada no inferno (edição bilíngue) seguido de Correspondência (Cartas familiares, Correspondência com Verlaine, Agonia em Marselha, Cartas da África), Edição, Introdução e Notas de Ivan Pinheiro Machado e Tradução de Paulo Hecker Filho, Alexandre Ribondi, Júlia da Rosa Simões e Ivo Barroso, Coleção Rebeldes & Malditos, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 1891), nascido em Charleville França, foi poeta do simbolismo francês, recebeu influências de Victor Hugo, George Izambard, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandona a literatura e retoma a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.