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[traduzido
por Alexandre Ribondi]
Charleville,
13 de maio de 1871.
Caro
Senhor!
E eis que
o senhor é novamente professor. Temos obrigações com a Sociedade, o senhor me
disse; o senhor faz parte do corpo docente; anda no bom caminho. — Eu também
sigo o princípio: cinicamente deixo que me conversem; desenterrei velhos imbecis do colégio: tudo que posso
inventar de estúpido, de sujo, de mal, em ação e em palavras, eu passo para
eles: pagam-me com cerveja e vinho. Stat mater dolorosa, dum
pender filius. — Tenho obrigações com a sociedade, é justo; — e tenho razão. — O
senhor também tem razão, por enquanto. No fundo, em seu princípio, o senhor vê
apenas poesia subjetiva: prova-o a sua obstinação em readquirir sempre como um
homem satisfeito que não fez nada e que nunca quis fazer nada. Sem contar que a
sua poesia subjetiva será sempre horrivelmente insípida. Um dia, espero —
outros esperam a mesma coisa — verei em seu princípio a poesia objetiva, eu a
verei com mais sinceridade que o senhor mesmo! — Serei um trabalhador: é a
idéia que me segura, quando as cóleras loucas me empurram para a batalha de
Paris — onde, no entanto, tantos trabalhadores morrem ainda enquanto eu lhe
escrevo! Trabalhar agora, nunca, jamais; estou em greve.
No
entanto, estou me tornando o maior dos crápulas. Por quê? Quero ser poeta e
trabalho para me tornar Vidente: o senhor não compreenderá nada e eu não saberei como lhe
explicar. Trata-se de chegar ao infinito pela desorganização de todos os sentidos. Os
sofrimentos são enormes, mas é preciso ser forte, nascer poeta, e eu me
reconheci poeta. Não é culpa minha, absolutamente. É errado dizer: Eu penso:
deveríamos dizer pensam-me. — Perdão pelo jogo de palavras1.
Eu é um outro. Pior para a madeira que se transforma em
violino e desprezo aos inconscientes que argumentam sobre o que ignoram
completamente!
O senhor
não é Professor
para mim. Dou-lhe isto: é sátira, como diria o senhor? É poesia? É fantasia,
sempre. — Mas, eu lhe suplico, não sublinhe nem com lápis nem com pensamento:
Le Coeur SuppliciéMon triste coeur have à la poupe2. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Isto não
quer dozer nada. — RESPONDA-ME: Aos cuidados de Sr. Deverrière, para A. R.
Bom dia
de coração,
AR.
RIMBAUD
Senhor
Georges Izambard,
27, rue
de l’Abbaye-des-Champs,
Em Douai
(Norte)
Lettre à Georges Izambard
27, rue
de l’Abbaye-des-Champs, à Douai (Nord)
Charleville,
[13] mai 1871.
Cher
Monsieur!
Vous revoilà
professeur. On se doit à la Société, m’avez-vous dit; vous faites partie des
corps enseignants: vous roulez dans la bonne ornière. — Moi aussi, je suis le
principe: je me fais cyniquement entretenir; je déterre d’anciens imbéciles de collège: tout ce que je
puis inventer de bête, de sale, de mauvais, en action et en paroles, je le leur
livre: on me paie en bocks et en filles. Stat mater
dolorosa, dum pendet filius. — Je me dois à la
Société, c’est juste, — et j’ai raison, — Vous aussi, vous avez raison, pour aujourd’hui.
Au fond, vous ne voyez en votre príncipe que poésie subjective: votre obstination
à regagner le râtelier universitaire — pardon! — le prouve! Mais vous finirez toujours
comme un satisfait qui n’a rien fait, n’ayant rien voulu faire. Sans compter que
votre poésie subjective sera toujours horriblement fadasse. Un jour, j’espère, —
bien d’autres espèrent la même chose, — je verrai dans votre príncipe la poésie
objective, je la verrai plus sincèrement que vous ne le feriez! — Je serai un
travailleur: c’est l’idée qui me retient quand les colères folles me poussent vers
la bataille de Paris, — où tant de travailleurs meurent pourtant encore tandis
que je vous écris! Travailler maintenant, jamais, jamais; je suis en grève.
Maintenant,
je m’encrapule le plus possible. Pourquoi? je veux être poëte, et je travaille à
me rendre voyant: vous ne comprendrez pas du tout, et je ne saurais presque vous
expliquer. Il s’agit d’arriver à l’inconnu par le dérèglement de tous les sens. Les souffrances
sont énormes, mais il faut être fort, être né poëte, et je me suis reconnu poète.
Ce n’est pas du tout ma faute. C’est faux de dire: je pense: on devrait dire: On
me pense. — Pardon du jeu de mots. —
JE est un
autre. Tant pis pour le bois qui se trouve violon, et Nargue aux inconscients, qui
ergotent sur ce qu’ils ignorent tout à fait!
Vous n’êtes
pas Enseignant pour moi. Je vous donne ceci: est-ce de la satire, comme vous diriez?
Est-ce de la poésie? C’est de la fantaisie, toujours. — Mais, je vous en
supplie, ne soulignez ni du crayon, ni — trop — de
la pensée:
Le cœur suppliciéMon triste cœur bave à la poupe. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ça ne veut
pas rien dire.
RÉPONDEZ-MOI:
chez M. Deverrière, pour A. R.
Bonjour de
cœur,
Arth. Rimbaud.
Notas:
1Rimbaud põe aqui, em desordem e sem desenvolvê-las, idéias
que iria afirmar em sua carta a Paul Demeny dois dias mais tarde. (Nota do Editor);
2Tradução literal: O Coração Martirizado / Meu triste
coração baba na popa / . . . . . . . (Nota do Tradutor).
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Correspondência
de Rimbaud: Cartas da África — Correspondência com Verlaine — Agonia em
Marselha, Tradução e Notas de Alexandre Ribondi e Apresentação de Ivo
Barroso, 2ª edição, Coleção Rebeldes & Malditos volume 4, agosto de
1991, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 —
1891), francês de Charleville, estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo
francês; recebeu influências de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de
retórica —, Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado
um dos nomes mais influentes da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20
anos de idade abandonou a literatura e retomou a vida sem rumo que levava desde
a adolescência, escreveu praticamente as suas obras primas entre os 15 e 18 anos;
publicou em vida apenas Uma Temporada no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém
escreveu também Poésies (1871) e Iluminações (Illuminations, 1873—1875); Rimbaud,
além de, talvez, ter sido um dos primeiros poetas a viver sua própria poesia, influenciou
autores da geração perdida, beatniks e existencialistas, tais como Ernest Hemingway,
F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs
etc.; em 1878, deixou a Europa e partiu para o Oriente Médio e a África, passou
a viver em Aden, Harar e outras localidades, realizando expedições, comercializando
peles e marfim e traficando armas em regiões inóspitas e de deserto; em 1886, a
revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations, com a informação errada
de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud morreu cinco anos
depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha e ter a perna
amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.
