segunda-feira, 31 de maio de 2021

Maria Lúcia Dal Farra: Abacaxi

 
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Parece vir da aurora de antigos reinados
este senhor dos frutos
pela própria natureza coroado.

A grossa crosta belicosa
defende contra as sedes do mundo
a polpa fibrosa e doce
clara como os lugares onde Deus
deposita sua lembrança
e sabor.
Por isso o fruto levanta orgulhoso
a arquitetura vegetal como um gêiser,
como um cálice
fome que jorra a sua brandura
de baixo para cima (para o alto)
abrindo-a em pétalas de uma flor
lindíssima e difícil
porque cavada na pureza áspera do espinho,
da serra que maltrata e cinge o ar.

Cada um dos pequenos losangos dessa malha
de cavaleiro andante
lembra um espelho onde o tempo se mirou e se ruiu
mosaicos da construção de um culto,
traje multicor de um arlequim que esconde
o buda habitante das inefáveis entranhas.

Aromas e sabores ondulantes
movimentos rumorosos nos dentes,
textura vulcânica, inumeráveis penugens
tudo se desprende dele
(contraditoriamente)
a atestar a dupla e pura natureza

de ouriçada doçura.

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Livro de possuídos — Maria Lúcia Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora, poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; suas obras: O narrador ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978), A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia, 1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas, 2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.

domingo, 30 de maio de 2021

Laurindo Rabelo: O jornaleiro

 
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                É igual a ti mesmo, a ti somente
                               (Do poema “O Ganhador”)

Quando ousado o poeta a voz levanta,
Em punho tendo o látego da sátira,
P’ra castigar hipócritas malvados,
É a voz da verdade a voz que soa!

Desmascarar falsários intrigantes,
O vício espezinhar, punir tartufos,
Velhacos suplantar, caluniadores,
São atos que de austera probidade
Louvor sincero e atenção merecem.
Armado pois, de um retorcido relho,
A um negro covil talvez o inferno
Por um forte cabresto bem seguro,
Eu vou buscar um torpe Jornaleiro,
Que entre sujos papéis escrevinhados
(Que só p’ra guardanapo têm valia)
Sentado em tamborete junto à banca,
Tendo nas garras de algum corvo a pena,
Baldões, insultos contra a honra atira!
Trazer pretendo o ganhador escriba
Qual jumento manhoso à praça pública
E expô-lo às apuradas dos moleques,
Por quem apedrejado ser devia...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Quem não conhecerá o Miguelista,
Escória dos sandeus de quem eu falo?!...
Chicanista imoral, doutor em nada,
Insosso prosador alto pedante
Que estudar foi na estranja patacoadas
Para dizer-se aqui homem de letras?
Quem não conhecerá o sábio lente,
Que num certo colégio desta Corte
Ciência geográfica ensinava?
Quem não conhecerá o que na escola,
Onde quer se instruir jovem guerreiro,
Explicando o direito ensina o torto?!...
O homem que insultava adversários,
Alcunhando-os heróis das “vacas gordas”,

E que agora sedento a grossa teta
Bem agarrado, chupitar procura?!
Homens raros assim todos conhecem!...

Eu não preciso retratá-lo ao vivo,
Descrever-lhe o carão, onde grudados
Nos olhos tem pedaços de vidraça,
O corpo infame, o bojo monstruoso,
Qual um balão de fedorentos gases;
E mostrar o letreiro que na fronte
Em letras garrafais diz “Ganhador”!
Todos bem sabem de que peça falo:
O trabalho me tira a grande fama
Que por falso, impudente tem ganhado.

Sim, ó grão1 Redator (a ti me volvo)
Ao público amador quero mostrar-te,
P’ra que faça a justiça que mereces...
És qual tarpéia rocha inabalável
Em teu princípio firme-o da calúnia
És herói dos heróis, quando se trata
De vis aduladores intrigantes!
Um singular portento és na mentira!
Tu és grande! és enorme!! porque arrumas
Patadas, couces mil, no mundo inteiro!!
A natureza pasma ao contemplar-te,
Julgando que não és uma obra sua!
Embasbaca-se o gênio das trapaças
Vendo brilhar o teu saber ingente!
Té o demo de gosto pinoteia,
E berrando que tu, seu protegido,
Que és glória sua comunica à terra!...
E no entanto ninguém teu pai se julga!...

Nem o podem dizer, porque não sabem...
Quem te acendeu nos cascos esses fogos
Que tudo abrasam, sem queimar-te a bola?

Quem és pois? de onde vens? P’ra onde te atiras?!...
És abutre que mágica do Averno
Em homem transformou p’ra da calúnia
O instrumento ser aqui na terra?
És do zoilo invejoso a alma errante,
Ou um sopro de negra, imunda harpia?
Onde encontraste o ser? a origem tua?...
Vieste por acaso do planeta
Que Vulcano por lei dizem chamar-se?
Onde fixaste o norte de teu rumo,
Ó ente singular, teu paradeiro?
Para onde irás tu, quando partires
Deste imenso teatro em que tens feito
O papel mais infame que se pode?!
Abutre, harpia ou sopro, ou quer que sejas2,
És igual a ti mesmo, a ti somente!
Cansa-se a pena a enumerar teus feitos!
Envergonha-se aquele que o censura,
Olhando para ti, vendo que és homem,
Na figura somente... em nada mais!...

Imortal, Redator do papelucho
A quem um respeitável nome deste
(Sim que o nome da Pátria, para o probo,
Que não p’ra ti, é nome respeitável),
É tempo de voltar ao antro escuro,
Ou p’ra o lugar ignoro donde hás vindo!
Já muito por aqui de mal tens feito...
As cinzas venerandas revolveste

De um dos heróis da “Independência” nossa!...
Tua missão cumpriu-se!... é tempo, volta...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Era minha intenção trazer-te à praça;
Mas desisto da empresa!... A puros homens
É um crime mostrar torpes figuras,
Negros quadros, que infâmias representam!
Vai-te! foge daqui! do vate a destra
Só cordas vibra de doiradas liras:

Se indignado empunha o forte relho
Para surrar hipócritas malvados,
Envergonha-se logo do que há feito!
É nobre o fim p’ra que o Poeta nasce;
E não para amansar bestas bravias
Ou corrigir sicários sevandijas!...


Notas de Antenor Nascentes:
  1. Grão: A forma apocopada de grande hoje só aparece em substantivos compostos;
  2. Quer que seja: Haplologia da expressão o que quer que seja, determinada por motivos estéticos. Há muito que.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; suas obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 29 de maio de 2021

Lêdo Ivo: Manhã de nevoeiro

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Que grande nevoeiro esta manhã!

O Cristo do Corcovado não dirá:
Deixai vir a mim os pequeninos.
Isto sim é que é saber roubar
os turistas argentinos.

O Pão de Açúcar, oculto na enseada,
a todos furta a granítica mirada.
Seu bondezinho nem sobe nem desce.
Cada paisagem tem a névoa que merece.

Dentro de mim também há nevoeiro
e eu ando tateante, às palpadelas,
à procura de mim, e não me enxergo
na hora cor de chumbo, nem percebo

que vagueio na bruma que há lá fora.

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Lêdo Ivo: Crepúsculo Civil — Poesia, 1990, Editora Record, São Paulo — SP; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; suas obras: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Óssip Mandelstam: Cassino

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[traduzido por Augusto de Campos]

Não gosto de prazer premeditado.
O mundo, às vezes, é um borrão escuro.
Eu, meio bêbado, estou condenado
A ver as cores de um viver obscuro.

O vento brinca e às nuvens descabela.
A âncora cai no fundo do oceano.
E inanimada, como numa tela,
A alma pende sobre o abismo insano.

Mas amo estar nas dunas do cassino,
A larga vista da janela baça,
Um fio de luz na toalha que desbota,

À minha volta o mar verde-citrino,
Vinho, como uma rosa, em minha taça
E eu a seguir o voo da gaivota.

1912

Óssip Mandelstam

Казино

Я не поклонник радости предвзятой,
Подчас природа серое пятно.
Мне, в опьяненьи легком, суждено
Изведать краски жизни небогатой.

Играет ветер тучею косматой,
Ложится якорь на морское дно,
И бездыханная, как полотно,
Душа висит над бездною проклятой.

Но я люблю на дюнах казино,
Широкий вид в туманное окно
И тонкий луч на скатерти измятой;

И, окружен водой зеленоватой,
Когда, как роза, в хрустале вино,
Люблю следить за чайкою крылатой!

1912
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Traços biobibliográficos e Introdução de Augusto de Campos, Coleção Signo volume 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Óssip Mandelstam (1891 1938), polonês de Varsóvia, à época Império Russo, estudou Filologia e História na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta, tendo iniciado suas atividades literárias em 1910, com a publicação de alguns de seus poemas na revista Apollón; suas obras: Каменьn (Pedra, 1913), Tristia (1922), Poemas (1928), Cadernos de Vorôniej (preservados por Nadeja, mulher do poeta)...; Óssip Mandelstam, por ter elaborado poemas com críticas à atuação de Stálin no então governo soviético, foi alvo de alguns processos e duas prisões, veio a morrer num exílio interno, o “campo de trânsito” de Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok, e foi postumamente reabilitado.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Marianne Moore: Poesia

 
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[traduzido por Jorge Wanderley]

Eu também não gosto dela: há coisas bem mais
                    importantes que toda esta frioleira.
Lendo-a, porém, com um profundo desprezo por ela, a
                    gente descobre
nela, de qualquer modo, um lugar para o que é genuíno.
                    Mãos que podem reter, olhos
                    que podem se ampliar, cabelos que podem se
                         eriçar
                         se for preciso, essas coisas são importantes,
                         não porque

uma altissonante interpretação lhes possa ser dada mas
                     porque são úteis. Quando elas começam a
                     derivar a ponto de se tornarem ininteligíveis,
a mesma acusação pode ser feita a nós outros,
                     que não admiramos o que
                     não podemos entender: o morcego
                          pendente de cabeça para baixo ou à
                          procura de algo para

comer, elefantes se empanturrando, um cavalo selvagem
                     rolando,
                     um lobo incansável sob
uma árvore, o crítico imóvel com arrepios no pelo como
                     um cavalo que sente uma pulga, o torcedor de
                     baseball, o técnico em estatística...
                                E nem vale o argumento
para discriminar entre "documentos profissionais e

livros escolares"; todos esses fenômenos são importantes.
                     É preciso fazer uma distinção,
porém: quando arrastada à fama por meios-poetas, o
                     resultado não é poesia,
                     a menos que os poetas entre nós possam ser
                          "intérpretes rigorosos da
                          imaginação"  acima
                     de insolência e trivialidades e que possam apresentar
para inspeção, jardins imaginários contendo rãs
                     verdadeiras; então nós a teremos encontrado.
Nesse ínterim, se você exige para uma mão
                          o rude material da poesia em
                     toda a sua rudeza e
                     para o que está na outra mão
                                legitimidade, então você se interessa por poesia.

Marianne Moore

Poetry

I, too, dislike it: there are things that are important beyond
                     all this fiddle.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
                     discovers in
it, after all, a place for the genuine.
                     Hands that can grasp, eyes
                     that can dilate, hair that can rise
                          if it must, these things are important not
                          because a

high-sounding interpretation can be put upon them but
                     because
they are useful. When they become so derivative as to
                     become unintelligible,
the same thing may be said for all of us, that we
                     do not admire what
                     we cannot understand: the bat
                          holding on upside down or in quest of
                          something to

eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
                     wolf under
a tree, the immovable critic twitching his skin like a horse
                     that feels a flea, the baseball fan, the statistician 
                          nor is it valid
to discriminate against “business documents and

school-books”; all these phenomena are important. One
                     must make a distinction
however: when dragged into prominence by half poets the
                     result is not poetry,
                     nor till the poets among us can be
                          “literalists of
                          the imagination”  above
                     insolence and triviality and can present
for inspection, imaginary gardens with real toads in them,
                     shall we have
it. In the meantime, if you demand on the one hand,
                     the raw material of poetry in
all its rawness and
that which is on the other hand
                     genuine, then you are interested in poetry.
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Antologia da Nova Poesia Norte-Americana — Seleção, Tradução e Notas de Jorge Wanderley, edição bilíngue, 1992, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Marianne Moore (1887 1972), estadunidense de Kirkwood, Missouri, estudou no Bryn Mawr College e no Carlisle Commercial College, foi professora, escritora e poetisa modernista; trabalhou como editora da revista literária e cultural The Dial e foi divulgadora de novos poetas, tais como Allen Ginsberg e Elizabeth Bishop; lecionou no Carlisle Indian School; em 1921, teve seu primeiro livro, Poems, publicado em Londres, com seus poemas tendo sido coletados em revistas e jornais, selecionados, organizados e editados pela poeta imagista H. D. (Hilda Doolittle), sem que houvesse conhecimento da autora; suas obras: Poems (1921), Selected Poems (1935), What Are Years (1941), Nevertheless (1944), Fables of La Fontaine (tradução, 1955), Idiosyncrasy and Technique (1956), The Absentee: A Comedy in Four Acts (dramatização de novela de Maria Edgeworth, 1962), The Complete Poems (1967), The Accented Syllable (1969) etc; além dos livros editados, Marianne Moore também teve seus poemas divulgados em jornais e revistas estadunidenses; foi laureada pelos Prêmio Pulitzer de Poesia, National Book Award e Prêmio Bollingen.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Johann Wolfgang von Goethe: Mar calmo

 
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[traduzido por Francisca Júlia]

Tranqüilo, o mar não canta nem ondeia.
O nauta, imerso noutro mar de mágoas,
Os olhos tristes e úmidos passeia
Pela tranqüila quietação das águas.

A onda, que dorme quieta, não espuma;
O astro, que sonha plácido, não canta,
E em todo o vasto mar, em parte alguma
A mais pequena vaga se levanta.

Goethe

Meeresstille

Tiefe Stille herrscht im Wasser,
Ohne Regung ruht das Meer,
Und bekümmert sieht der Schiffer
Glatte Fläche rings umher.

Keine Luft von keiner Seite!
Todesstille fürchterlich!
In der ungeheuern Weite
Reget keine Welle sich.
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O Livro de Ouro da Poesia Alemã — Antologia de Poetas da Língua Alemã (diversos autores e tradutores), Apresentação e Seleção de Geir Campos, edição bilíngue, Clássicos de Bolso, 1985, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; suas obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), Clavigo (1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (1779), Torquato Tasso (1780), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Glauco Mattoso: Soneto para os inutensílios

 
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1893

Agora a esferográfica vigora,
mas caneta-tinteiro é o que se usava,
além do eterno lápis. Sua hora
tem tudo, desde a espada à “forte clava”...

Máquina de escrever hoje decora
os museus e antiquários. Quem gostava
do disco de vinil faz, sem demora,
a cópia digital e em cedê grava...

Também as embalagens mudam: leite
já vem numa caixinha, e há quem o aceite
até num saco plástico nojento...

Apenas o soneto nunca muda:
dinâmico, assimila, testa, estuda,
mas continua sempre à forma atento...

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As Mil e Uma Línguas — Série Mattosiana, Volume 3, Glauco Mattoso, 2008, Dix Editorial — Annablume, São Paulo — SP; Glauco Mattoso, ou Pedro José Ferreira da Silva, nascido em 1951, paulista e paulistano, é poeta, ensaísta, ficcionista e articulista em diversas mídias; seu pseudônimo e nome artístico trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995); cursou Biblioteconomia (Escola de Sociologia e Política, São Paulo) e Letras Vernáculas, na USP São Paulo; tem publicado uma extensa obra poética e outros textos: Jornal Dobrábil — de 1977 a 1981 (compilado em um único volume pela Iluminuras, São Paulo SP, em 2001), Revista Dedo Mingo (duas parcelas, 1982, completa o Jornal Dobrábil), Memórias de um Pueteiro: As Melhores Gozações de Glauco Mattoso (poemas, 1982, Edições Trote, Rio de Janeiro RJ), Línguas na Papa (poemas, 1982, Edições Pindaíba, São Paulo SP), Paulisséia Ilhada: Sonetos Tópicos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (1999, Ciência do Acidente, São Paulo SP), Panacéia — Sonetos Colaterais (2000, Nankin Editorial, São Paulo SP), Melopéia: Sonetos Musicados (2001, compact-disc, com diversos compositores e intérpretes, Rotten Records, São Paulo SP), O que é Poesia Marginal (ensaio, 1981, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O que é Tortura (ensaio, 1984, Editora Brasiliense, São Paulo SP), O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, 1985, EMW Editores, São Paulo SP) etc etc etc, e bota etecetera nisso; colaborou em vários jornais e revistas da imprensa alternativa e em diversos periódicos literários, e ainda colabora; Pedro José Ferreira da Silva, hoje bancário aposentado, foi funcionário do Banco do Brasil; é sonetista inveterado.

Ana Akhmátova: A loucura com sua asa . . .

 
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[em tradução livre por Aurora Fononi Bernardini e Hadasa Cytrynowikz]

9.

A loucura com sua asa
Já cobriu meia alma,
Ela verte um vinho inflamado
E atrai-me ao vale negro.

Já compreendi que a ela
Devo ceder a vitória,
Ouvindo meu delírio
Como se fosse o alheio.

E nada ela permite
Que leve embora comigo
(Por mais que lhe implore
E a enfade, lamurienta):

Nem os olhos terríveis do filho 
Petrificada dor ,
Nem o dia em que veio a tempestade,
Nem a hora de adeus no calabouço,

Nem o frescor de mãos suaves,
Nem as sombras agitadas das tílias,
Nem o leve som longínquo
Dos últimos consolos.

4 de maio de 1940, Casa da Fontanka.

Ana Akhmátova

9.

Уже безумие крылом
Души накрыло половину,
И поит огненным вином,
И манит в черную долину.

И поняла я, что ему
Должна я уступить победу,
Прислушиваясь к своему
Уже как бы чужому бреду.

И не позволит ничего
Оно мне унести с собою
(Как ни упрашивай его
И как ни докучай мольбою):

Ни сына страшные глаза —
Oкаменелое страданье,
Ни день, когда пришла гроза,
Ни час тюремного свиданья,

Ни милую прохладу рук,
Ни лип взволнованные тени,
Ни отдаленный легкий звук —
Слова последних утешений.

4 мая 1940, Фонтанный Дом.
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Réquiem — Ana Akhmátova, Tradução livre e Notas de Aurora Fononi Bernardini e Hadasa, Cytrynowicz e Prefácio de Leo Gilson Ribeiro, edição bilíngue, Coleção Toda Poesia 10, 1991, Art Editora, São Paulo — SP; Ana Akhmatóva (1889 1966), ou Ana Andréevna Gorenko, ucraniana de Odessa, antigo Império Russo, foi poetisa, tradutora e biógrafa; após iniciar seus estudos, inscreveu-se na Faculdade de Direito de Kiev e, mais tarde, transferindo-se para Petersburgo, estudou Literatura e História; suas obras: Entardecer (1912), Rosário (1914), Rebanho branco (1917), Capim (1921), Anno Domini MCMXXI (1922), De Seis Livros (antologia de poemas já publicados e novos poemas, 1940), Poemas 19091960 (a obra Poemas, que fora censurada anteriormente, foi publicada em 1961), Réquiem (1963), O vôo do tempo (1965), e outros títulos; a poetisa sofreu expurgo na era stalinista, teve obras censuradas e vetadas para circulação e foi forçada a fazer deslocamentos dentro da própria União Soviética; em 1956 deu-se o início de sua reabilitação e, a partir daí, Ana Akhmátova pode viajar para o exterior e receber premiações literárias.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Leopardi: A noite do dia de festa

 
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[traduzido por Décio Pignatari]

Noite sem vento, doce, clara. A lua
Flutua sobre tetos e pomares,
Serena, revelando, ao longe, os montes.
As ruas e os caminhos silenciam,
Minha amada. Pelos balcões, são raros
Os lampiões, um sono suave invade
Os aposentos, você dorme, nada
Perturba o seu repouso, muito menos
A chaga que me abriu dentro do peito!
Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
E à antiga natureza onipotente
Que me vota à aflição dirijo os olhos.
“Para você nem mesmo uma esperança;
Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas”,
Ela me disse. Mas que dia magnífico!
Dormem danças e jogos, mas, em sonho
Talvez para você desfilem todos
De quem gostou ou aos quais agradou
(Menos eu, que nesse rol não compareço).
Mas se calculo os dias que me restam,
Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
Que vida horrível numa vida jovem!
Vai pela rua o canto solitário
De quem já trabalhou, passou na tasca,
E volta tarde para a casa pobre.
Vai-me apertando, amargo, o coração,
Se penso sem como tudo passa e passa,
Quase sem deixar rastro. Já se foi
O dia de festa, e agora chega o dia
Normal, e tudo se escoa no tempo,
Todos os atos humanos. E o estrondo
Dos antigos, as vozes dos heróis
De ontem, onde estão? e o grande império,
E as armas e o fragor que faz tremer
Os caminhos da terra e do oceano?
Tudo é paz e silêncio. O mundo
Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
Quando criança, vinha a espera ansiosa
Do dia de festa, que findava logo.
Sofrendo, comprimia o travesseiro,
Ao ouvir pela noite aquele canto
Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,
Morrendo e me apertando o coração.

([1820] publicado em Canti  1831)

Giacomo Leopardi

XIII

La sera del dì di festa

Dolce e chiara è la notte e senza vento,
E queta sovra i tetti e in mezzo agli orti
Posa la luna, e di lontan rivela
Serena ogni montagna. O donna mia,
Già tace ogni sentiero, e pei balconi
Rara traluce la notturna lampa:
Tu dormi, che t’accolse agevol sonno
Nelle tue chete stanze; e non ti morde
Cura nessuna; e già non sai nè pensi
Quanta piaga m’apristi in mezzo al petto.
Tu dormi: io questo ciel, che sì benigno
Appare in vista, a salutar m’affaccio,
E l’antica natura onnipossente,
Che mi fece all’affanno. A te la speme
Nego, mi disse, anche la speme; e d’altro
Non brillin gli occhi tuoi se non di pianto.
Questo dì fu solenne: or da’ trastulli
Prendi riposo; e forse ti rimembra
In sogno a quanti oggi piacesti, e quanti
Piacquero a te: non io, non già, ch’io speri,
Al pensier ti ricorro. Intanto io chieggo
Quanto a viver mi resti, e qui per terra
Mi getto, e grido, e fremo. Oh giorni orrendi
In così verde etate! Ahi, per la via
Odo non lunge il solitario canto
Dell’artigian, che riede a tarda notte,
Dopo i sollazzi, al suo povero ostello;
E fieramente mi si stringe il core,
A pensar come tutto al mondo passa,
E quasi orma non lascia. Ecco è fuggito
Il dì festivo, ed al festivo il giorno
Volgar succede, e se ne porta il tempo
Ogni umano accidente. Or dov’è il suono
Di que’ popoli antichi? or dov’è il grido
De’ nostri avi famosi, e il grande impero
Di quella Roma, e l’armi, e il fragorio
Che n’andò per la terra e l’oceano?
Tutto è pace e silenzio, e tutto posa
Il mondo, e più di lor non si ragiona.
Nella mia prima età, quando s’aspetta
Bramosamente il dì festivo, or poscia
Ch’egli era spento, io doloroso, in veglia,
Premea le piume; ed alla tarda notte
Un canto che s’udia per li sentieri
Lontanando morire a poco a poco,
Già similmente mi stringeva il core.

([1820] Canti — 1831)
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31 Poetas 214 Poemas — do Rig-Veda e Safo a Apollinaire: Antologia de poemas traduzidos, Seleção, Apresentação, Notas e Comentários de Décio Pignatari, 1996 — Companhia das Letras, São Paulo — SP; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi ensaísta, filólogo e poeta; suas obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.