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Pobre égua velha, minha vida,
Quem te dá água e feno?
Aos teus cascos de mãe de tanto andar,
Que azeite doce?
A mosca é mais que abelhas
Na sarna da samarra ainda quente do trilho,
E o poldro do teu sonho ao longe,
Tão bonito, o teu filho!
Pobre égua velha, já de manta e tonta ao cabo,
Entre uma corda e um cardo
Cuida que é milho um tojo!
Por barriga sem erva, no espínhaço sem fardo,
Vai um saco de rojo.
Égua baldia, os mais cavalos novos,
Cruzando-te no pasto, é coice bravo!
Pela estrela da testa te mataram
Os ciganos sem dó que te compraram
E de égua criadeira te tingiram:
Cria era a morte, —
tudo o mais fingiram.
No ermo de relinchos ainda um passo
Te arredonda a garupa retardada;
Mas quem, pobre égua velha e sem comida?
O poço aonde e a água desejada?
Sinal de terra mexida
Era da égua enterrada.
29-08-1962
(O cavalo
encantado — 1963)
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Poesia portuguesa
contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota
inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno &
Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da
Silva (1901 — 1978), português açoriano de Santa Cruz — Praia da Vitória,
Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional
da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da
Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências
Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou
Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista,
romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e
concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em
reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já
havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir
Filologia Românica, em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade,
na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali
também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel
[Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes
períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista
dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista
luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O
Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e
apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia;
traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno
Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída;
suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das
Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho
Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955),
Poesia 1935-1940 (1961), O Cavalo Encantado (1963), Canto de Véspera (1966),
Limite de Idade (1972) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944,
laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos
(crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia
(1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos
(Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por
suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).