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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Vitorino Nemésio: A égua velha

 
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Pobre égua velha, minha vida,
Quem te dá água e feno?
Aos teus cascos de mãe de tanto andar,
Que azeite doce?
A mosca é mais que abelhas
Na sarna da samarra ainda quente do trilho,
E o poldro do teu sonho ao longe,
Tão bonito, o teu filho!

Pobre égua velha, já de manta e tonta ao cabo,
Entre uma corda e um cardo
Cuida que é milho um tojo!
Por barriga sem erva, no espínhaço sem fardo,
Vai um saco de rojo.

Égua baldia, os mais cavalos novos,
Cruzando-te no pasto, é coice bravo!
Pela estrela da testa te mataram
Os ciganos sem dó que te compraram
E de égua criadeira te tingiram:
Cria era a morte, tudo o mais fingiram.

No ermo de relinchos ainda um passo
Te arredonda a garupa retardada;
Mas quem, pobre égua velha e sem comida?
O poço aonde e a água desejada?

Sinal de terra mexida
Era da égua enterrada.

29-08-1962
(O cavalo encantado — 1963)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da Silva (1901 1978), português açoriano de Santa Cruz Praia da Vitória, Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista, romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir Filologia Românica, em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade, na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel [Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia; traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída; suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955), Poesia 1935-1940 (1961), O Cavalo Encantado (1963), Canto de Véspera (1966), Limite de Idade (1972) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944, laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos (crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia (1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos (Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Vitorino Nemésio: Outro testamento

 
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Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer...
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me só horizonte para o mar.

Poesia 1935-1940 (1961)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da Silva (1901 1978), português açoriano de Santa Cruz Praia da Vitória, Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista, romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir Filologia Românica, em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade, na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel [Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia; traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída; suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955), Poesia 1935-1940 (1961), O Cavalo Encantado (1963), Canto de Véspera (1966), Limite de Idade (1972) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944, laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos (crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia (1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos (Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).

terça-feira, 17 de junho de 2025

Vitorino Nemésio: Versos a uma cabrinha que eu tive

 
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Com seu focinho úmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.

Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.

Sua pelerinha escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.

De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.

Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.

E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocados,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado.

(Eu, comovido a oeste — 1940)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da Silva (1901 1978), português açoriano de Santa Cruz Praia da Vitória, Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista, romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir Filologia Românica em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade, na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel [Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia; traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída; suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955), Canto de Véspera (1966) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944, laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos (crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia (1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos (Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).

domingo, 25 de agosto de 2024

Vitorino Nemésio: O pastor morto

 
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De madrugada a neve envidraçou-o.
Seus olhos rasos de um espanto podre,
As águias o mediram pelo vôo
E se encheu de silêncio como um odre.

Cheirado dos carneiros atrevidos,
Húmido fica já no fio lilás,
Aquilo sim, é que se chama paz,
Ali, à serra e à morte todo ouvidos!

Lá vêm as flores da neve à sua cara
E seu rubor perdido copiado
Pelo extenso corar das ervas gordas.

Atravessa, atravessa os rolos frios
Do tempo, o nevoeiro, e o passo às hordas
Dourado e podre sob os astros frios.

Poesia 1935-1940 (1961)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da Silva (1901 1978), português açoriano de Santa Cruz — Praia da Vitória, Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista, romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir Filologia Românica, em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade, na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel [Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia; traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída; suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955), Poesia 1935-1940 (1961), O Cavalo Encantado (1963), Canto de Véspera (1966), Limite de Idade (1972) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944, laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos (crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia (1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos (Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Vitorino Nemésio: A concha

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A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Poesia, 1935-1940 (1961)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Vitorino Nemésio Mendes Pìnheiro da Silva (1901 1978), português açoriano de Santa Cruz Praia da Vitória, Açores, como aluno externo, concluiu o Curso Geral dos Liceus no Liceu Nacional da Horta [ilha do Faial, Açores], matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cursou três anos, transferiu-se para Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras e, três anos depois, estudou Filologia Românica na mesma faculdade e universidade, foi poeta, cronista, romancista, intelectual e professor universitário; antes de chegar em Horta e concluir o Liceu já se imbuíra de ideais republicanos e anarco-sindicalistas em reuniões literárias e afins, em Angra do Heroísmo [Ilha Terceira, Açores], e já havia estreado com seu livro de poesia Canto Matinal (1916); só veio a concluir Filologia Românica, em 1930, já na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, a partir de 1931, iniciou sua carreira acadêmica na mesma faculdade, na qual lecionou Literatura Italiana e, depois, Literatura Espanhola; ali também doutorou-se; deu aulas também na Vrije Universiteit Brussel [Universidade Livre de Bruxelas] e, em 1958, no Brasil; o poeta, em diferentes períodos, colaborou em vários periódicos lusitanos de arte e cultura: Revista dos Centenários, revista Panorama, Conímbriga, Renovação, Atlântico (revista luso-brasileira), Litoral, Presença (Folha de Arte e Cultura), Seara Nova, O Diabo e Diário Popular; Vitorino Nemésio também atuou na RTP1, onde criou e apresentou o programa televisivo Se Bem me Lembro; dirigiu o jornal O Dia; traduziu, a partir do francês, o romance La Seconde Chance, do autor romeno Constantin Virgil Gheorghiu, publicado em português com o título A Única Saída; suas obras: em poesia, Canto Matinal (1916), O Poeta Povo (1917), A Fala das Quatro Flores (1920), Nave Etérea (1922), Eu, comovido a oeste (1940), O Bicho Harmonioso (1948), Nem toda a Noite a Vida (1953), O Pão e a Culpa (1955), Canto de Véspera (1966) ..., em prosa: Mau tempo no Canal (romance, 1944, laureado com o Prêmio Ricardo Malheiros), O segredo de Ouro Preto e outros caminhos (crônicas, 1954), Corsário das Ilhas (crônicas, 1956), Conhecimento de Poesia (1958) ... e estudos críticos ou crítico-biográficos sobre autores lusitanos (Gil Vicente, Bocage, Gomes Leal e Moniz Barreto) ...; recebeu premiações por suas obras: Prêmio Nacional de Literatura (1965) e Prêmio Montaigne (1974).