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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Eudoro Augusto: Inscrição & Ana C

 
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Inscrição

Esta primavera
não é flor que se cheire.

(Dia Sim Dia Não [na parceria
de Francisco Alvim] — 1978)

— o —

Ana C *

Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.

(O Desejo e o Deserto — 1989)


* Nota-comentário de Manuel da Costa Pinto:Ana C” [é um poema feito em] homenagem a Ana Cristina César, poeta [carioca] que se suicidou em 1983.
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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza (1943 2024), português lisboeta e naturalizado brasileiro desde 1953, diplomou-se em Letras, fez mestrado em Literatura Brasileira, ambos pela UNB Universidade de Brasília (Distrito Federal), foi poeta, cronista, jornalista, professor, radialista, pesquisador e crítico literário; na década de 70, início de suas publicações, no Rio, se aproximou do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário; suas obras: Grande Sertão-Veredas (crítica, teoria ou história literária, 1968), O Misterioso Ladrão de Tenerife (poemas, em parceria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia GO), Lincoln (biografia, 1973), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro RJ), Dia Sim Dia Não (na parceria de Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília  DF), Poemas (1979), Carnaval e Cabeças (ambos poemas, Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo SP), Olhos de Bandido (poemas, 7Letras, 2001, Rio de Janeiro RJ), três volumes da ‘Trilogia do Sudoeste’, crônicas e poemas: Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília DF), A natureza humana (2009) e Noite em Claro (2011); recebeu o Prêmio Nacional de Poesia, da Fundação Cultural Distrito Federal (1971); produziu programas de música para a Rádio Câmara, DF; em terras brasileiras, o poeta morou e trabalhou em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Capital Federal.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Antonio Cicero: Merde de Poète & Huis Clos

 
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Merde de Poète

Quem gosta de poesia "visceral",
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.

Huis Clos

Da vida não se sai pela porta:
só pela janela. Não se sai
bem da vida como não se sai
bem de paixões jogatinas drogas.
E é porque sabemos disso e não
por temer viver depois da morte
em plagas de Dante Goya ou Bosh
(essas, doce príncipe, cá estão)
que tão raramente nos matamos
a tempo: por não considerarmos
as saídas disponíveis dignas
de nós, que em meio a fazes e urina,
sangue e dor nascemos para lendas,
mares, amores, mortes serenas.

(A Cidade e os Livros — 2002)

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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Antonio Cicero Correia Lima (1945 — 2024), carioca, fez seus estudos secundários em Washington, D.C, iniciou seu curso de filosofia no Rio de Janeiro (PUC e UFRJ), vindo a conclui-lo na Inglaterra (Universidade de Londres), depois fez pós-graduação pela Georgetown University, nos EUA, onde estudou Grego e Latim, foi compositor, poeta, crítico literário, filósofo, escritor e professor universitário; suas obras: O Mundo desde o Fim (ensaio filosófico, 1995), Guardar (poemas, 1996), A cidade e os livros (poemas, 2002), Finalidades sem fim (ensaio filosófico, 2005), Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo, 2010), Porventura (poemas, 2012), Poesia e Filosofia (ensaio filosófico, 2012), entre outros títulos, além de participações em coletâneas e em parceria de diversas obras reflexões filosóficas, poéticas e artísticas; lecionou Filosofia e Lógica em universidades do Rio de Janeiro, fez parcerias musicais com Waly Salomão, João Bosco, Adriana Calcanhoto, Lulu Santos e Marina Lima [sua irmã, e cantora], foi colunista da Folha de São Paulo; em 2017 tornou-se membro eleito da ABL Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 27; em outubro de 2024, o poeta, filósofo e escritor Antonio Cicero anunciou, em carta de despedida a seus amigos, que tinha sido diagnosticado com o mal de Alzheimer, que se encontrava na Suiça, e optara pela morte assistida [eutanásia]; ali, o procedimento de suicídio assistido é legalizado; sua morte foi anunciada em 23 de outubro.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Nelson Ascher: Encontros

 
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Há gente que eu encontro
na rua e me sorri
(o fósforo, dormindo
ensimesmado dentro

da caixa, sonha incêndios)
e eu lhes sorrio; há gente
que encontro numa loja
e me sorri (a lâmina

da faca que repousa
numa gaveta aguarda
o dedo distraído)
e eu lhes sorrio; há gente

que encontro na garagem
e me sorri (o fio
se aquece na parede
acalentando alguma

faísca) e eu lhes sorrio;
há gente que eu encontro
até no elevador
e me sorri (a carne

que está na geladeira
fermenta aos poucos sua
toxina), eu lhes sorrio
e cada qual de nós,

descendo em seu andar,
ligando o carro (salvo
se acaba de guardá-lo),
fazendo (ou não) as compras

e prosseguindo rua
abaixo ou rua acima,
medita na segunda
lei da termodinâmica.

(Parte alguma: poesia 1997-2004 — 2005)

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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Nelson Ronny Ascher, nascido em 1958, paulista e paulistano, iniciou curso de Medicina, abandonou, formou-se em Administração pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), São Paulo, especializou-se em Comunicações e Semiótica, é poeta, jornalista, editor, tradutor de poesia e crítico de literatura e cinema; ainda estudante de medicina, no jornal do centro acadêmico da faculdade, em texto de estréia no mundo literário discorreu sobre a obra de Jorge Luís Borges; no final dos anos 70 publicou sua primeira resenha na Folha da Tarde, à época jornal de grande circulação, logo após passou a escrever para a Folha de São Paulo, ali se tornando um dos editores culturais: editou o Folhetim — suplemento dominical de cultura, prestou constante colaboração, escreveu críticas, traduziu T. S. Eliot e Herberto Padilla; criou e editou a Revista da USP; traduziu e ainda traduz poesias de várias línguas: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, russo e húngaro; suas obras: em poesia, Ponta da língua (1983), O sonho da razão (1993), Algo do sol (1996), Parte alguma: poesia 1997-2004 (2005), ensaio: Pomos da discórdia (antologia de traduções, 1996), traduções: Poesia alheia: 124 poemas traduzidos (1998), foi um dos organizadores das antologias Nothing the Sun could not explain: 20 Contemporary Brazilian Poets (1997), Folhetim — poemas traduzidos (1987) e outros.

domingo, 19 de novembro de 2017

Walcyr Carrasco: Diários na web

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               Eu andava supercurioso a respeito dos blogs. Para quem não sabe, é uma espécie de diário que alguém coloca na internet, em geral assinado por pseudônimo. Liberdade total. Alguns comentam sobre a vida. Outros revelam intimidades de arrepiar! Recentemente, um amigo me forneceu o “endereço” de seu blog. Fui ler. Lá pelas tantas, ele falava de nosso último almoço. Concluía que nossa amizade estava no fim! Liguei imediatamente:
                Eu não briguei com você, briguei?
               Esclarecemos o mal-estar. Aproveitei para saber como localizar outros blogs. Adolescentes sabem fazer isso de olhos fechados. Mas um velhusco como eu tem certa dificuldade. Descobri endereços que abrigam uma enormidade de blogs! Como uma grande biblioteca onde se pode entrar, escolher o livro e abrir. Mas é a vida real! Infinitamente verdadeira. Sou do tempo em que ainda se fazia diário com chavinha! Imaginem a chance de ler quantos quiser! Entrei no primeiro. Um adolescente contava como entrou no elevador ao mesmo tempo que a vizinha trintona. Olhou o decote. Ela retribuiu com um sorriso.
                Oi!  disse ele.
                Oi!  respondeu ela.
               Começou a conversa, com piscadas e parte a parte. O elevador parou no quarto andar, o dele. O garotão desceu enquanto a moça continuava até o décimo quarto. Ele ficou se lastimando, pensando no que mais poderia ter dito. Só isso. Um flagrante da vida real. Ri com outro, sugestivamente chamado “Hálito de Virgem”. A autora propõe uma campanha para criar nova lei. Segundo a qual todos os salões de beleza seriam obrigados a assinar revistas interessantes! Alguns são divertidos já no título, como o “Pensar enlouquece. Pense nisso”. Um rapaz adverte: “Perdi os óculos. Isso quer dizer que estou mais perigoso no trânsito”.
               São relatados todos os tipos de experiências, até as sociológicas. Uma garota foi entrevistar camelôs para entender o mundo dos excluídos. Quase caiu dura ao descobrir que o primeiro com quem falou tinha o segundo ano de faculdade de Filosofia! Mais tarde, outro lhe explicou longamente a contradição entre capital e trabalho, na melhor retórica marxista. De queixo caído, a estudante descobriu que excluída estava ela. Da realidade. Outra reage contra o mito da Cinderela. “Foi por causa dessa besta da Cinderela que acreditei em príncipe encantado!”, reclama. Em busca do tal príncipe, aos 27 anos já se casou três vezes! Uma internauta reflete: “qual é a hora certa de romper uma amizade, de terminar um amor?”
               “Emoções e Magias” oferece receitas do tipo: “Para Realizar um Desejo... pegue uma folha de papel branco e...” Achei ótimo o título sarcástico de um blog: “Viver Faz Mal à Saúde”. Fiquei tocado pela mensagem otimista de uma garota que viveu nos Estados Unidos, onde trabalhou como babá. Ao voltar, não conseguia emprego. Finalmente, comemorava um lugar como secretária. “Meu Futuro me acena sorrindo e eu aceno de volta para ele. Não tenho certeza, mas acho que estamos namorando”.
               Tal é o sucesso dos blogs que o autor de “Escrevescreve” assusta-se: “Foram mais de trezentos acessos só esta tarde. Será que foi alguma coisa que eu escrevi?”
               Saí fascinado do passeio pela web. Acredito que os  blogs são uma grande revolução. Sei de gente que tem amigos em outros estados, com quem compartilha de todas as intimidades  e haja intimidade nisso! Sem nunca terem se conhecido pessoalmente! Será uma nova forma de amizade? No futuro, todo relacionamento vai ser assim?

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Crônica Brasileira Contemporânea — Antologia de Crônicas, Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 2005, 1a. edição, Editora Moderna, São Paulo — SP; Walcyr Rodrigues Carrasco, nascido em 1951, paulista de Bernardino de Campos, é escritor, novelista, roteirista, dramaturgo e cronista; escreveu, roteirizou e adaptou séries, minisséries e novelas nas tevês SBT  Cortina de Vidro, Fascinação , Manchete  Chica da Silva, Filhos do Sol, O Guarani  e Globo  Alma Gêmea, O Profeta, Êta Mundo Bom!, Brava Gente, Sítio do Picapau Amarelo, etc. ; para o teatro, produziu A Filha da Branca de Neve, Uma Cama entre Nós, Até que o sexo nos separe, A Mulher do Candidato, Êxtase, e outros textos; bibliografia literária: O caçador de palavras (1994), O Menino que tocou a sombra (1999), Vida de droga (2000), O Menino Narigudo (2003), O Garoto as Novela (2003), Pequenos delitos e outras crônicas (2004), Contos de Pânico (2004), A Menina que queria ser anjo (2005), A Palavra não dita (2007), Veneno digital (2013) e outros textos; recebeu premiações por suas obras; é colunista da revista Época.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Mário Prata: Da importância do diploma

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          Desde que os meus filhos se fizeram entender, coloquei na cabeça deles a importância de se ter um diploma no Brasil.
           Um homem sem diploma está perdido! Não é nada!
          Eles foram crescendo e quando já poderiam e quando já poderiam entender a importância no Brasil, fui logo explicando. 
            O diploma é importante, meu filho, porque se você for preso e tiver diploma, você não fica com os bandidos. Você fica numa sala especial, com geladeira, televisão e telefone, sozinho.
           Mesmo se for bandido?
           Mesmo se for bandido. Principalmente. Entendeu? Tendo um diploma  de qualquer coisa, de qualquer faculdade , você tem privilégios. Quando você vê aquele bando de gente amassado dentro de uma cela de dois metros por dois metros, pode ter certeza que ali ninguém tem diploma. Quem mandou não estudar, não é mesmo? Se tivessem estudado, tirado seu diplominha, estariam numa boa.
           O Lalau tem diploma?
           Vários, meu filho. Vários.
           Mas em todo lugar do mundo é assim? É para isso que o diploma serve?
           Não, claro que não. Só no Brasil. Por isso que tem tanta faculdade sobrando por aí e ensinando porcaria. É para os caras serem presos com o mínimo de educação.
           Mas é só para isso que existe diploma no Brasil, pá?
           Claro que não. Serve de decoração também. Quanto maior, melhor fica na moldura e na parede. Se tiver aquela fitinha verde-e-amarela então é um luxo. Tem uns que têm um brasão bonito que só vendo. Tem gente que compra só para colocar na parede. Tem analfabeto que tem quatro, cinco diplomas.
          Coleciona. Esses, se forem presos, vão ficar numa cobertura com vista para o mar.
          Antes que alguém venha criticar minhas aulas aos meus filhos, vou logo avisando que o Antonio está quase terminando Ciências Sociais (estará apto à Presidência da República?), a Maria se forma no fim do ano em Moda e o Pedro estuda Arquitetura em Sevilha.
          Quanto a mim, quase consegui um. Larguei a Faculdade de Economia da USP no último ano. Fui aluno do Delfim Neto, com muito orgulho. Mas as letras me pescaram com mais força. Confesso que em certa época de minha vida temia a prisão e pensava que não tinha o bendito do diploma. Mas passou.
          Agora falando sério (se é que possível falar sério sobre diploma), eu gostaria muito de saber em que governo inventaram esse negócio de preso com diploma superior (superior!!!) ter regalias. Quando conto isso para um estrangeiro, ele não acredita. Sim, na cabeça deles, significa que o judiciário brasileiro considera que o analfabeto tem de sofrer até o dia da morte (provavelmente assassinado dentro da prisão) e o diplomado não deve ser tão bandido assim, tão ladrão assim, tão corrupto assim, tão mentiroso assim, tão mau assim. Afinal, o cara estudou tanto...
          Minha mãe tem diploma de normalista, mas nunca usou, porque nunca foi presa e se casou com o meu pai, que tinha um de médico. Para tanto estudou uns 15 anos e trabalhou mais 40. Morreu no ano passado e o diploma dele está comigo. Nem sei bem por quê. Mas eu dizia que trabalhou 40 anos e, se eu contar a pensão que a minha mãe recebe hoje, você não vai acreditar.
          Quem sabe um dia, um presidente sem diploma resolva olhar com mais carinho para todos os nossos aposentados com diploma que vivem quase na miséria...
          Quem sabe?

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Crônica Brasileira Contemporânea — Antologia de Crônicas, Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 2005, 1a. edição, Editora Moderna, São Paulo — SP; Mário Alberto Campos de Morais Prata, nascido em 1946, mineiro de Uberaba, é escritor, dramaturgo, jornalista e cronista; no jornalismo, foi repórter da Gazeta de Lins, trabalhou no Última Hora (São Paulo), escreveu crônicas para os periódicos O Pasquim (Rio de Janeiro), O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, revistas Isto É e Época; sua bibliografia: para o teatro, estreou com a peça O Cordão Umbilical (1970), depois vieram E se a Gente Ganhar a Guerra? (1971), Fábrica de Chocolate (1979), Besame Mucho (1982) etc; para o cinema, roteirizou e escreveu argumentos para O Jogo da Vida e da Morte (1971), Chico Rei (1985), Besame Mucho (em parceria com Francisco Ramalho Jr., 1987), Banana Split (1988) e outros; para a televisão, escreveu a novela Estúpido Cupido (Rede Globo, 1976), além de ter colaborado e escrito para várias outras novelas, minisséries, telerromances e programas das TV Cultura, TV Tupi e Rede Globo; na literatura, estreou com O Morto que Morreu de Rir (1969), depois vieram Besame Mucho (peça teatral, editada em 1987), Schifaizfavoire (1993), Mas Será o Benedito? (1996), Diário de um Magro 1 e 2 (1997 e 2004), A Verdadeira História de Dante e Beatriz (2008), Sete de Paus e Os Viúvos (ambos do gênero policial, 2008 e 2010) e outros, além de produções para o público infantil e participação em coletâneas; recebeu premiações por suas obras; nos anos 60/70, abandonou a Faculdade de Economia —  USP e pediu demissão do Banco do Brasil, onde trabalhara por 8 anos, para se dedicar inteiramente à vida de escritor; atualmente reside em Florianópolis  SC.

domingo, 1 de maio de 2016

Luis Fernando Veríssimo: Livre

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                    Decidi renunciar à civilização e seus descontentamentos. Deixo minhas posses para a financeira, minha conta bancária para o imposto de renda, meu seguro de vida e meu exemplo para a família e minhas dívidas para a posteridade. Rasgarei, em ato público, minha carteira de identidade, minha carteira profissional, meu passaporte, meu atestado de vacinação, licença de motorista, meu título de eleitor, meu certificado de reservista e meu cartão do Touring. Peço que minha carteira do INPS e meu cartão do CIC sejam queimados e as cinzas espalhadas ao vento. Que meu nome seja sumariamente riscado de todos os cadastros. Depois de dois milhões de anos, volto para o jângal, de onde nunca devia ter saído.
                    Empenhe-se meu relógio e leiloe-se minha coleção da “Playboy”. Há um resto de Ballantine na  cozinha, que deve ser dividido entre os amigos depois que eu me for. Meus vinhos para o povo. Do guarda-roupa levo apenas o suficiente para chegar, com um mínimo de recato, até Manaus. Depois a nudez e a selva. Queimem-se minhas três gravatas.
                    Meus livros? Queimem-se todos. Não. Vou precisar de alguma coisa para ler no avião. Deixa um policial qualquer, não quero nem saber o título. Não, esse não. Levo todos os meus livros, isso. Vou desaprender a ler assim que me instalar na minha clareira na Amazônia. Começarei com a “Crítica da Razão Pura” * e irei desaprendendo, desaprendendo até a cartilha. Só serei livre quando Eva, a uva e vovó não significarem nada além de riscos pretos numa página branca, e aí queimarei a página. Com quê? É bom levar fósforos, não sei se vou conseguir fazer fogo por fricção. Aliás, tem um livro aí que ensina a sobreviver na selva. Esse é melhor guardar.
                    Vão pedir meus documentos para embarcar no avião. E se eu dissesse, simplesmente,  "sou um ser humano, sem nome e sem número, meu único documento é esta cara honesta?". Me prendiam, claro. Levo a carteira de identidade. A última concessão. Depois, a liberdade.
                    Já sei!  Vou de carro. Sem parar. Desbravarei matas e pradarias com o meu temível Passat. O meu adeus à engenharia alemã. Irei largando peças e acessórios pelo caminho. Me despindo, simbolicamente, de camadas de civilização. Chegarei à selva montado num esqueleto de máquina, que enferrujará lentamente na umidade, enquanto eu reaprendo a andar sobre os dois pés nus. O homem, que sobreviveu ao dinossauro, certamente sobreviverá ao Wolkswagen.
                    Agora me dei conta que vai ter espinhos no chão e coisa pior. Melhor levar um estoque de sandálias para os primeiros anos. E quem sabe um bom impermeável. Outra coisa, vou precisar de dinheiro para comida, gasolina e pneus no caminho. E minha licença de motorista. E, por via das dúvidas, carteira do Touring.
                    Então, vamos ver: Livros, fósforos. licença, Touring, sandálias, dinheiro...e só. Nada mais. Queime-se o resto. Vivi milhares de anos sem máquinas e roupas feitas, posso fazer o mesmo outra vez. Me bastam os dentes, o dedão opositor e a imaginação. Vou precisar de relógio, claro. E de uma bússola para me orientar na selva até aprender a ler a direção nas estrelas e cheirar o vento. Depois, de cultura só me bastará o olfato.
                    Uma machadinha, um facão, uma lanterna e um estoque de pilhas até que eu aprenda a enxergar no escuro. Pregos e martelos pra construir um abrigo. Um canivete suíço. E nada mais. Livre. Só comerei o que caçar e pescar com as próprias mãos. Beberei a água pura das vertentes. Cozinharei a carne e o peixe em espetos de pau-brasil. Vou precisar de sal. Umas latinhas de ervilha, um patezinho, e, muito importante: um abridor de latas. Puxa, e cerveja. E nada mais.
                    Um homem sozinho com sua fibra e seu poder criador. Só voltarei à civilização se precisar ir ao dentista. Outra coisa: rede de mosquito. E band-aid. Contarei os dias pela passagem do Sol e os meses pelas fases da Lua. Aparelho de barbear, lâminas, loção. Me banharei na chuva. Sabonete, tesourinha para unhas. Aspirina. E pomada contra assadura.
                    Meu Deus, será que tem muita cobra?
                    Livre. Com uma televisãozinha portátil para não perder o futebol.

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* Nota da OrganizaçãoTratado filosófico do pensador alemão Emmanuel Kant (1724  1804).
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Crônica Brasileira Contemporânea Antologia de Crônicas, Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 2005, 1a. edição, Editora Moderna, São Paulo SP; Luís Fernando Veríssimo, nascido em 1936, gaúcho de Porto Alegre, fez e faz-se como escritor, tradutor, jornalista, cronista, humorista, chargista e outros istas, além de saxofonista; fez parte de seus estudos nos Estados Unidos, onde morou em virtude de seu pai (o escritor Érico Veríssimo) para ali ter-se transferido por razões profissionais; trabalhou no Zero Hora, de Porto Alegre  RS, e na Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo); seus textos restaram e restam presentes em muitos periódicos da imprensa nacional: revistas Playboy, Cláudia, Domingo (Suplemento dominical do JB) Veja, e jornais Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo; sua obra reunida em livros: A Grande Mulher Nua (1975), Ed Mort e outras histórias (1979), Sexo na cabeça (1980), O Analista de Bagé (1981), A Mesa Voadora (1982), A Velhinha de Taubaté (1983), A Mulher do Silva (1984), A Mãe de Freud (1985), Comédias da Vida Privada (1985), Aquele estranho Dia que Nunca Chega (1999), As Cobras, romances: O Jardim do Diabo (1987), Guia O Clube dos Anjos (1998), Borges e os Orangotangos (2000), O Opositor (2004), poesia: Poesia numa hora dessas?! (2002), infanto-juvenis: O arteiro e o tempo (ilustrações de Glauco Rodrigues), O Santinho (ilustrações de Edgar Vasques e Glenda Rubenstein), Pof (ilustrações do autor) e tantos outros textos, publicações em antologias e republicações; é tido como um dos autores mais editados hoje; recebeu premiações (Juca Pato e Jabuti de Literatura).

sábado, 27 de junho de 2015

Lourenço Diaféria: Conversa de Grego

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          Tinha recebido pequena herança de uma tia. Queria aplicar o dinheiro numa atividade que lhe desse algum lucro, porém, mais que lucro, satisfação intelectual. Descartou a idéia de abrir uma banca de jornal. Jornaleiro tem que acordar de madrugada. Queria coisa mais suave. Foi pedir conselho a um amigo. Ainda há pessoas que acreditam em conselhos. O amigo era criativo.
          Abra um curso de Grego. Todo mundo está abrindo curso de línguas. Inglês, Espanhol... Hoje, com o Mercosul, são comuns jogos de futebol contra a Argentina, o Uruguai, o Chile, o Espanhol está em alta. Não se admite mais o portunhol de antes. O negócio hoje é abrir um curso de Espanhol. Inglês também, é claro. Atualmente até para comer um sanduíche é preciso saber inglês. McDonald’s, Coca, Blue Life... Não se diz mais apartamento. É loft... Daqui a uns vinte anos, quando o Brasil tiver liquidado sua dívida externa, as relações pessoais com o resto do mundo serão feitas no idioma de Cervantes, de Carlos Gardel e, claro, na língua do Clinton... Entendeu?
           Não.
           É simples. É preciso alargar os horizontes. É a razão por que em qualquer esquina da cidade surgem placas de curso de línguas. Você tem que ser esperto... Entendeu?
           Ainda não.
           Serei muito objetivo. A cidade está saturada de cursos de Inglês e de Espanhol... Percebe?
           Percebo.
           Muito bem. Agora me diga: quantos cursos de Grego você conhece na cidade?
           Bem...
           Taí. Nenhum... Nem um, cara. O que existe é escola de Inglês, de Espanhol, de Informática... Até de ikebana. Mas de Grego, rapaz, não existe. Então é isso. Você tem que aproveitar as brechas que o mercado oferece. Abra um curso de Grego.
           Mas...
           Não tem mas. Já pensou formar classes de alunos interessados em ler Xenofonte no original? O problema do Brasil é que todo mundo quer ir pelo caminho mais fácil. O sujeito abre uma pizzaria, no mês seguinte outros doze cidadãos resolvem abrir o mesmo tipo de negócio na mesma rua. Desse jeito é claro que não pode dar certo... Veja o caso da comida por quilo. Está arruinando com o negócio do prato feito. O tradicional prato-feito elaborado com carinho, artesanalmente, cada bar com seu tempero peculiar... Hoje o prato-feito está indo pro brejo. Só tem comida por quilo. O mercado vai acabar saturado de comida por quilo. Escute o que lhe digo: daqui a cinqüenta anos, ou um pouco mais, quando o Brasil tiver se safado da dívida externa, ninguém vai poder nem olhar comida por quilo... Entendeu?
           Hum...
           Vou explicar melhor, Anaxágoras. Teu pai não era comandante da marinha mercante grega?
           Foi.
           E tua genitora? Nasceu onde?
           Em Chipre.
           Era cipriota. Eu sabia. Perguntei por perguntar. Veja bem. Teu pai era comandante de navio grego, tua mãe era cipriota, você se chama Anaxágoras, passou a infância ouvindo os pais falando Grego. Cursou a Universidade... Que curso você fez na faculdade?
           Grego, ué. Você sabe disso...
           Aí é que está. Você tem tudo para abrir o curso de Grego.
           Você acha que há alguém disposto a aprender Grego? Qual a utilidade prática? Inglês, vá lá... Até jogador do Palmeiras precisa disso para disputar a taça Toyota...
           Taça Mitsubishi.
           Mitsubishi, Honda, tanto faz... Tem o Torneio Mercosul...
           Mercosur.
           Tanto faz. Mas, Grego? Nem sei se a Grécia tem time de futebol.
           Claro que tem. Mas não estamos falando de futebol. As pessoas precisam alargar seus horizontes culturais. Quantas pessoas sabem quem foi Alexandre, o Grande? A vida de Alexandre é uma novela. Novela você entende o que quero dizer? No-ve-la. Já imaginou emplacar uma novela grega na TV? Quem dominou o mundo? Quem chegou a Roma e a Cartago? Quem atravessou as colunas de Hércules? Os gregos mudaram a face do mundo, rapaz. Ainda hoje, quando se quer falar que uma mulher é de fechar o comércio, o que se diz?
           Que é boazuda.
           Isso quem fala é a ralé. Gente educada diz: “É uma mulher de beleza helênica”. As pessoas ainda têm muito o que aprender com Tucídides, com o general Brásidas, com o cerco de Esfactéria, com a guerra do Peloponeso... A Grécia dá samba, amigo. Infelizmente as pessoas estão sendo induzidas a se entreter com histórias de macarronada, de amores entre fazendeiros e mucamas... Vá por mim, Anaxágoras. Abra um curso de Grego. Você vai faturar uma nota. Daqui a cem anos, quando Brasil...
          ... zerar a dívida externa...
           Exato. O Grego vai voltar a ter a importância cultural do passado. Mas alguém tem que iniciar o processo. Entendeu?
           Entendi...
           Então o próximo passo é bolar o nome da escola. Que tal Ágora? Ágora era a praça onde os gregos discutiam filosofia. Me parece um bom nome para um curso de Grego. Gostou da idéia?
           Não é ruim. Apenas precisa de uns ajustes técnicos...
          Três meses depois Anaxágoras inaugurava o Ágora, um restaurante especializado em delivery de prato-feito grego.

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Antologia de Crônicas — Crônica Brasileira Contemporânea (diversos cronistas), Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 1a. edição, 2005, Editora Moderna, São Paulo SP; Lourenço Carlos Diaféria (1933 2008), paulista e paulistano nascido no Brás, foi jornalista, cronista e contista; trabalhou nos jornais Folha de São Paulo, Jornal da Tarde, Diário Popular, Diário do Grande ABC, além de ter escrito para rádios e televisão; em 1977, trabalhando no jornal Folha de São Paulo, foi preso pelo regime militar, por ter escrito a crônica “Herói. Morto. Nós.”, publicada na edição de 01.09.77 daquele diário e considerada ofensiva às Forças Armadasem tal crônica, Diaféria comenta sobre o heroísmo de um sargento que, para salvar uma criança, pulara em um fosso de ariranhas num zoológico goiano (a criança sobreviveu e o sargento morreu), e faz comparação com Duque de Caxias, patrono do Exército, que tem uma estátua no centro de São Paulo, lembrando que sua espada “oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos”; obras do cronista: Um gato na terra do tamborim (1976), Circo dos Cavalões (1978), A morte sem colete (1983), O Empinador de Estrela (1984), A longa busca da comodidade (1988), O invisível cavalo voador Falas contemporâneas (1990), Papéis íntimos de um ex-boy assumido (1994) e outros títulos.