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Tinha recebido
pequena herança de uma tia. Queria aplicar o dinheiro numa atividade que lhe
desse algum lucro, porém, mais que lucro, satisfação intelectual. Descartou a
idéia de abrir uma banca de jornal. Jornaleiro tem que acordar de madrugada.
Queria coisa mais suave. Foi pedir conselho a um amigo. Ainda há pessoas que
acreditam em
conselhos. O amigo era criativo.
— Abra um curso de Grego. Todo mundo está abrindo curso de línguas. Inglês, Espanhol... Hoje, com o Mercosul, são comuns jogos de futebol contra a Argentina, o Uruguai, o
Chile, o Espanhol está em alta. Não se admite mais o portunhol de antes. O negócio
hoje é abrir um curso de Espanhol. Inglês também, é claro. Atualmente até para
comer um sanduíche é preciso saber inglês. McDonald’s, Coca, Blue Life... Não se diz mais apartamento. É loft... Daqui a uns vinte anos, quando o
Brasil tiver liquidado sua dívida externa, as relações pessoais com o resto do
mundo serão feitas no idioma de Cervantes, de Carlos Gardel e, claro, na língua
do Clinton... Entendeu?
— Não.
— É simples. É
preciso alargar os horizontes. É a razão por que em qualquer esquina da cidade
surgem placas de curso de línguas. Você tem que ser esperto... Entendeu?
— Ainda não.
— Serei muito
objetivo. A cidade está saturada de cursos de Inglês e de Espanhol... Percebe?
— Percebo.
— Muito bem. Agora me diga: quantos cursos de Grego você conhece na cidade?
— Bem...
— Taí. Nenhum...
Nem um, cara. O que existe é escola de Inglês, de Espanhol, de Informática...
Até de ikebana. Mas de Grego, rapaz, não existe. Então é isso. Você tem que
aproveitar as brechas que o mercado oferece. Abra um curso de Grego.
— Mas...
— Não tem mas. Já pensou formar classes de alunos interessados em ler Xenofonte no
original? O problema do Brasil é que todo mundo quer ir pelo caminho mais
fácil. O sujeito abre uma pizzaria, no mês seguinte outros doze cidadãos
resolvem abrir o mesmo tipo de negócio na mesma rua. Desse jeito é claro que
não pode dar certo... Veja o caso da comida por quilo. Está arruinando com o
negócio do prato feito. O tradicional prato-feito elaborado com carinho,
artesanalmente, cada bar com seu tempero peculiar... Hoje o prato-feito está
indo pro brejo. Só tem comida por quilo. O mercado vai acabar saturado de
comida por quilo. Escute o que lhe digo: daqui a cinqüenta anos, ou um pouco
mais, quando o Brasil tiver se safado da dívida externa, ninguém vai poder nem
olhar comida por quilo... Entendeu?
— Hum...
— Vou explicar
melhor, Anaxágoras. Teu pai não era comandante da marinha mercante grega?
— Foi.
— E tua
genitora? Nasceu onde?
— Em Chipre.
— Era cipriota.
Eu sabia. Perguntei por perguntar. Veja bem. Teu pai era comandante de navio
grego, tua mãe era cipriota, você se chama Anaxágoras, passou a infância
ouvindo os pais falando Grego. Cursou a Universidade... Que curso você fez na
faculdade?
— Grego, ué.
Você sabe disso...
— Aí é que está.
Você tem tudo para abrir o curso de Grego.
— Você acha que
há alguém disposto a aprender Grego? Qual a utilidade prática? Inglês, vá lá...
Até jogador do Palmeiras precisa disso para disputar a taça Toyota...
— Taça
Mitsubishi.
— Mitsubishi,
Honda, tanto faz... Tem o Torneio Mercosul...
— Mercosur.
— Tanto faz.
Mas, Grego? Nem sei se a Grécia tem time de futebol.
— Claro que tem.
Mas não estamos falando de futebol. As pessoas precisam alargar seus horizontes
culturais. Quantas pessoas sabem quem foi Alexandre, o Grande? A vida de
Alexandre é uma novela. Novela — você entende o que quero dizer? No-ve-la. Já
imaginou emplacar uma novela grega na TV? Quem dominou o mundo? Quem chegou a
Roma e a Cartago? Quem atravessou as colunas de Hércules? Os gregos mudaram a
face do mundo, rapaz. Ainda hoje, quando se quer falar que uma mulher é de
fechar o comércio, o que se diz?
— Que é boazuda.
— Isso quem fala
é a ralé. Gente educada diz: “É uma mulher de beleza helênica”. As pessoas
ainda têm muito o que aprender com Tucídides, com o general Brásidas, com o
cerco de Esfactéria, com a guerra do Peloponeso... A Grécia dá samba, amigo.
Infelizmente as pessoas estão sendo induzidas a se entreter com histórias de
macarronada, de amores entre fazendeiros e mucamas... Vá por mim, Anaxágoras.
Abra um curso de Grego. Você vai faturar uma nota. Daqui a cem anos, quando
Brasil...
—... zerar a
dívida externa...
— Exato. O Grego
vai voltar a ter a importância cultural do passado. Mas alguém tem que iniciar
o processo. Entendeu?
— Entendi...
— Então o
próximo passo é bolar o nome da escola. Que tal Ágora? Ágora era a praça onde
os gregos discutiam filosofia. Me parece um bom nome para um curso de
Grego. Gostou da idéia?
— Não é ruim.
Apenas precisa de uns ajustes técnicos...
Três meses
depois Anaxágoras inaugurava o Ágora, um restaurante especializado em delivery de
prato-feito grego.
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Antologia de Crônicas — Crônica Brasileira Contemporânea (diversos cronistas), Organização e
Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 1a. edição, 2005, Editora Moderna,
São Paulo — SP; Lourenço Carlos Diaféria (1933 — 2008), paulista e
paulistano nascido no Brás, foi jornalista, cronista e contista; trabalhou nos
jornais Folha de São Paulo, Jornal da Tarde, Diário Popular, Diário do Grande
ABC, além de ter escrito para rádios e televisão; em 1977, trabalhando no
jornal Folha de São Paulo, foi preso pelo regime militar, por ter escrito a
crônica “Herói. Morto. Nós.”, publicada na edição de 01.09.77 daquele diário e
considerada ofensiva às Forças Armadas; em tal crônica, Diaféria
comenta sobre o heroísmo de um sargento que, para salvar uma criança, pulara em um fosso de ariranhas num
zoológico goiano (a criança sobreviveu e o sargento morreu), e faz comparação com Duque de Caxias, patrono do Exército, que tem uma estátua no centro de São Paulo, lembrando que sua espada “oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de
cavalos”; obras do cronista: Um gato na terra do tamborim (1976), Circo dos Cavalões (1978), A morte sem colete (1983), O Empinador de Estrela (1984), A longa busca
da comodidade (1988), O invisível cavalo voador — Falas contemporâneas (1990), Papéis íntimos de um ex-boy assumido (1994) e outros títulos.