quinta-feira, 30 de setembro de 2021

José Paulo Paes: Poesia e prosa

 
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Pode-se escrever em prosa ou em verso.
Quando se escreve em prosa, a gente enche a linha do caderno até o fim, antes de passar para a outra linha.
E assim por diante até o fim da página.
Em poesia não: a gente muda de linha antes do fim, deixando um espaço em branco antes de ir para a linha seguinte.
Essas linhas incompletas se chamam versos.
Acho que o espaço em branco é para o leitor poder ficar pensando.
Pensando bem no que o poeta acabou de dizer.
Algumas vezes, lendo um verso, a gente tem de voltar aos versos de trás para entender melhor o que ele quer dizer.
Principalmente quando há uma rima, isto é, uma palavra com o mesmo som de outra lida há pouco.
Então a gente vai procurá-la para ver se é isso mesmo.
A prosa é como trem, vai sempre em frente.
A poesia é como o pêndulo dos relógios de parede de antigamente, que ficava balançando de um lado para outro.
Embora balançasse sempre no mesmo lugar, o pêndulo não marcava sempre a mesma hora.
Avançava de minuto a minuto, registrando a passagem das horas: 1, 2, 3, até 12.
Também a poesia vai marcando, na passagem da vida, cada minuto importante dela.
De tanto ir e vir de um verso a outro, de uma rima a outra, a gente acaba decorando um poema e guardando-o na memória.
E quando vê acontecer alguma coisa parecida com um poema que já leu, a gente logo se recorda dele.
Geralmente, a prosa entra por um ouvido e sai pelo outro.
A poesia, não: entra pelo ouvido e fica no coração.

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Varal de Poesia — José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana e Fernando Paixão, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; suas obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Pablo Antonio Cuadra: Meditação ante um poema antigo & A rosa

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[traduzidos por Manuel Bandeira]

A rosa

Quem se arrima à rosa
não tem sombra.

Eu busquei a beleza
e o sol me queima.

Meditação ante um poema antigo

Perguntou a flor: o aroma
acaso me sobreviverá?

Perguntou a lua: alguma
luz guardo depois de morrer?

Mas o homem disse: por que acabo
e fica entre vós o meu canto?

Pablo Antonio Cuadra

La rosa o el solitário

“Quien se arrima a la rosa
no tiene sombra.”

Yo busqué la beleza
y el sol me quema.

Meditación ante un poema antiguo

Preguntó la flor: ¿el perfume
acaso me sobrevivirá?

Preguntó la luna: ¿guardo algo
de luz para después de perecer?

Mas el hombre dijo: ¿por qué termino
y queda entre vosotros mi canto?
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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Pablo Antonio Cuadra Cardenal (1912 2002), nicaraguense de Manágua, foi poeta, ensaísta, crítico de arte e de literatura, dramaturgo, artista gráfico e ideólogo; estudou Direito na Universidad de Oriente y Mediodía de Granada, Nicarágua; foi co-fundador do movimento literário ’Vanguardia’, em Granada; trabalhou no jornal La Prensa e fundou a revista centro-americana cultural El pez y la serpiente, tendo sido diretor de ambos os periódicos; escreveu e publicou Poemas Nicaragüenses (1934), Hacia La Cruz Del Sur (ensaio, 1936), Canto Temporal (1943), Promisión de México Y Otros Ensayos (1945), Entre La Cruz Y La Espada (ensaio, 1946), Poemas con Un Crepúsculo A Cuestas (1949), La Cegua (teatro, 1950), La Tierra Prometida (poesia, 1952), Por Los Caminos Van Los Campesinos (teatro, 1957), El Jaguar Y La Luna (poesia, 1959), El Nicaragüense (ensaio, 1967), Agosto (contos, 1970), Vuelva, Gueguense (contos, 1970), Tierra que Habla (poesia, 1974), Esos Rostros que Asoman En La Multitud (poesia, 1976), Otro Rapto de Europa (ensaio, 1976), Cantos De Cifar Y Del Mar Dulce (poesia, 1979) e outros textos em verso e prosa e para teatro; foi agraciado com diversas premiações.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Elton Carvalho: Lavrador

 
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Nem bem surgiu o rubro da alvorada,
nem bem a noite se aquietou no monte,
já vai o lavrador, levando a enxada,
e  se perde nos longes do horizonte.

E, após uma exaustiva caminhada,
antes mesmo, sequer, que o sol desponte,
rega a terra querida e abençoada
o suor que lhe escorre pela  fronte!

Os que tratam da terra todo o dia
e fazem do trabalho uma alegria
têm a chama divina dos heróis.

Há centelhas de luz nos seus destinos:
lavradores são deuses pequeninos
que, da terra e do nada, criam sóis!

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Elton Carvalho (1916 1994), carioca de Vila Isabel, foi militar, professor de filosofia e poeta trovador; suas obras: Instantâneos (trovas líricas e filosóficas, 1973), Sogra, Coroa, Bebidas e outras Bombas (trovas humorísticas, 1974), Sogra & Outras Piadas (1993), Ciranda dos Sonhos (trovas líricas e filosóficas, 1979), Aquarelas (trovas líricas e filosóficas, 1981), Rosas na Pedra (sonetos e outros poemas, 1984), A História do Sapateiro (mini romance).

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Henri Murger: A Balada do Desesperado

 
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[traduzido por Castro Alves]

Quem bate à porta a tais horas?
Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

Abre. Teu nome? Há geada,
Abre. Teu nome? És tardio!
Qual é teu nome? Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me Inda não!

Diz teu nome... Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
Passa fantasma irrisório...
Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

 Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
Posso dar-te a tua amante...
Podes dar-me o seu amor?

 Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta!   Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não são?!

Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás-de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!

[tradução feita em S. Paulo, 1868]

Henri Murger

La Ballade du Désespéré

Qui frappe à ma porte à cette heure?
Ouvre, c’est moi. Quel est ton nom?
On n’entre pas dans ma demeure
À minuit ainsi, sans façon.

Ouvre. Ton nom? La neige tombe,
Ouvre. Ton nom? Vite, ouvre-moi!
Quel est ton nom? Ah! dans sa tombe
Un cadavre n’a pas plus froid.

J’ai marché toute la journée
De l’ouest à l’est, du sud au nord.
À l’angle de ta cheminée
Laisse-moi m’asseoir. Pas encor!

Quel est ton nom? Je suis la gloire,
Je mène à l’immortalité.
Passe, fantôme dérisoire!
Donne-moi l’hospitalité.

Je suis l’amour et la jeunesse,
Ces deux belles moitiés de Dieu.
Passe ton chemin: ma maîtresse
Depuis longtemps m’a dit adieu.

Je suis l’art et la poésie:
On me proscrit. Vite, ouvre. Non.
Je ne sais plus chanter ma mie,
Je ne sais même plus son nom.

Ouvre-moi! je suis la richesse,
Et j’ai de l’or, de l’or toujours.
Je puis te rendre ta maîtresse.
Peux-tu me rendre nos amours?

Ouvre-moi: je suis la puissance,
J’ai la pourpre. Vœux superflus!
Peux-tu me rendre l’existence
De ceux qui ne reviendront plus?

Si tu ne veux ouvrir ta porte
Qu’au voyageur qui dit son nom,
Je suis la mort: ouvre, j’apporte
Pour tous les maux la guérison.

Tu peux entendre à ma ceinture
Sonner les clés des noirs caveaux;
J’abriterai ta sépulture
De l’insulte des animaux.

Entre chez moi, maigre étrangère,
Et pardonne à ma pauvreté.
C’est le foyer de la misère
Qui t’offre l’hospitalité.

Entre: je suis las de la vie,
Qui pour moi n’a plus d’avenir.
J’avais depuis longtemps l’envie,
Non le courage de mourir.

Entre sous mon toit, bois et mange,
Dors, et quand tu t’éveilleras,
Pour payer ton écot, cher ange,
Dans tes bras tu m’emporteras.

Je t’attendais; je veux te suivre.
Où tu m’emmèneras, j’irai;
Mais laisse mon pauvre chien vivre,
Pour que je puisse être pleuré!
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Castro Alves — Obra Completa, Organização, Fixação do Texto e Notas de Eugênio Gomes, 5ª edição, 1986, Editora Nova Aguilar S/A, Rio de Janeiro — RJ; Louis-Henri Murger ou Henry Murger (1822 1861), francês parisiense, com escassa e fragmentada educação escolar, foi romancista e poeta; abandonando os estudos aos 15 anos, Henry Murger enfrentou uma variedade de trabalhos braçais antes de empregar-se no escritório de um advogado; passou a escrever poemas e, chamando a atenção do escritor Étienne de Jouy, com quem teve ligação, tornou-se secretário do conde Aleksey Tolstoi, um nobre russo que vivia em Paris; iniciou a carreira literária em 1841 com ensaios literários e poéticos e, para sobreviver, escreveu sobre tudo o que o mercado gráfico jornalístico era demandado e aceitava; foi editor de um jornal de moda, Le Moniteur de la Mode, e de comércio de chapelaria, Le Castor; suas obras: Scènes de la vie de bohème (novela, 18471849), Scènes de la vie de jeunesse (1851), Le Bonhomme Jadis (comédia, 1852), Ballades et Fantaisies (poesias, 1854), Les Nuits d’hiver (poesias, 1861) etc.; vários de seus romances surgiram na revista Revue des deux Mondes, entre os quais Les Pays Latin (1851), Adeline Prótat (1853) e Les Buverus d’eau (1854); Murger viveu sempre atormentado por questões financeiras, morreu aos 38 anos e em sua biografia consta que teve o funeral custeado pelo governo francês e que o jornal Le Figaro criou um fundo para arrecadar dinheiro e construir um monumento à memória do poeta e romancista, com ampla aceitação e colaboração de expoentes do jornalismo, literatura, teatro e artes; sua obra Scènes de la vie de bohème inspirou e serviu de base para os compositores Giacomo Puccini e Ruggero Leoncavallo criarem as óperas La Bohème, ambas de mesmo nome, em 1896 e 1897.

domingo, 26 de setembro de 2021

Petrarca: Triunfo da fama [trecho]

 
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trecho do primeiro capítulo

[traduzido por Camões]

Depois que a Morte do vulto triunfou
que triunfar de mim sempre soía,
e deste nosso mundo o sol levou,

soberba se partiu, cruel, impia,
turbada em rostro, fera e temida,
que o lume da beldade morto havia;

quando leda, em uma relva florida,
vi doutra parte aparecer aquela
que os mortos do sepulcro torna à vida.

Qual na madrugada a amorosa estrela1
se vê no Oriente ao sol diante,
que alegre s’acompanha só com ela,

tal vinha, mas não sei qual elegante
estilo se atreverá a pôr em rima
o que segue o meu, rudo e ignorante.

Tão claro era o céu naquele clima
que, quanto em mim o desejo era maior,
menos podia sofrer a vista em cima;

esculpido era na fronte o valor
da nobre companhia, onde conheci
muitos daqueles vencidos do Amor.

Da mão direita da bela dona vi
César e Cipião vitorioso;
mas qual mais perto, a grã pena o compreendi:

um, não servo d’Amor, mas virtuoso,
o outro d’ambos; e foi me mostrada,
logo após o princípio glorioso,

gente de ferro e de valor armada,
como ao Capitólio no tempo antigo
pela Via Lata ou pela Sagrada2.

Todos vinham naquela ordem que digo;
na fronte a cada um claro se lia
o nome e a glória de que foi amigo.

Atento estava ao rumor que ouvia
e ao grave vulto do primeiro par3:
a um o neto4, a outro o filho5 seguia,

que no mundo foi um só sem nenhum par;
e logo os que a seus imigos armados
com seus membros a passo foram cerrar.

De três filhos6 dois pais7 acmpanhados:
os dois iam detrás8 e o um diante9;
o último10 é o primeiro entre os louvados.

Depois, como piropo relumbrante,
aquele, cujo conselho e forte mão
Itália na mor pressa achou diante:

eu digo Cláudio11, que, noturno e chão,
foi a Metauro e quis logo ali purgar
da má semente o bom campo romão.

Olhos houve a ver e asas a voar;
um grande velho12  junto o segundava,
que Aníbal, suspenso, fazia parar.

[ . . . ]

Francesco Petrarca

Trionfo della fama [Triumphus Fame]

[trecho do] Capitolo Primo

Da poi che Morte trionfò nel volto
che di me stesso trionfar solea,
e fu del nostro mondo il suo sol tolto,

partissi quella dispietata e rea,
pallida in vista, orribile e superba,
che 'l lume di beltate spento avea;

quando, mirando intorno su per l'erba,
vidi da l'altra parte giugner quella
che trae l'uom del sepolcro e 'n vita il serba.

Quale in sul giorno un'amorosa stella
suol venir d'oriente innanzi al sole
che s'accompagna volentier con ella,

cotal venìa, ed oh! di quali scole
verrà 'l maestro che descriva a pieno
quel ch'io vo' dir in semplici parole?

Era d'intorno il ciel tanto sereno
che per tutto 'l desir ch'ardea nel core
l'occhio mio non potea non venir meno;

scolpito per le fronti era il valore
de l'onorata gente, dov'io scorsi
molti di quei che legar vidi Amore.

Da man destra, ove gli occhi in prima porsi,
la bella donna avea Cesare e Scipio,
ma qual più presso a gran pena m'accorsi:

l'un di vertute, e non d'Amor mancipio,
l'altro d'entrambi; e poi mi fu mostrata
dopo sì glorioso e bel principio

gente di ferro e di valore armata,
siccome in Campidoglio al tempo antico
talora o per Via Sacra o per Via Lata.

Venian tutti in quell'ordine ch'i' dico,
e leggeasi a ciascuno intorno al ciglio
il nome al mondo più di gloria amico.

Io era intento al nobile pispiglio,
ai volti, agli atti; ed ecco i primi due:
l'un seguiva il nipote e l'altro il figlio,

che sol senza alcun pari al mondo fue;
e quei che volser a' nemici armati
chiuder il passo colle membra sue,

duo padri, da tre figli accompagnati,
l'un giva inanzi e due venian dopo,
e l'ultimo era il primo fra' laudati.

Poi fiammeggiava a guisa d'un piropo
colui che col consiglio e co la mano
a tutta Italia giunse al maggior uopo:

di Claudio dico, che notturno e piano,
come il Metauro vide, a purgar venne
di ria semenza il buon campo romano;

egli ebbe occhi a vedere, a volar penne;
ed un gran vecchio il secondava appresso,
che con arte Anibàle a bada tenne.

[ . . . ]

Notas da edição:
1. amorosa estrela: planeta Vênus.
2. Via Lata ou pela Sagrada: as duas principais ruas por onde passavam os cortejos triunfais para chegar ao Capitólio.
3. primeiro par: Júlio César e Cipião, o Africano, (“T. amor”, I, v. 89).
4. o neto: Públio Cornélio Cipião (século II a.C.), conhecido como o Cipião Menor em relação ao avô, Cipião Africano.
5. o filho: Júlio César Otávio Augusto (63 a.C.  14 d.C.), sobrinho de Júlio César, mas adotado pelo tio (“T. amor”, I, v. 95).
6. de três filhos: os irmãos Públio Cornélio Cipião Africano (235 — 183 a.C.), Lúcio Cornélio Cipião Asiático (séculos III — II a.C.) filho de Gneu.
7. dois pais: Públio Cornélio Cipião (século III a.C.) e Gneu Cornélio Cipião (século III a.C.), também irmãos.
8. dois iam detrás: os dois menos importantes, Cipião Asiático e Cipião Nasica.
9. um diante: Cipião Africano.
10. o último: Cipião Nasica, o mais louvado entre todos por sua doutrina e seus costumes.
11. Cláudio: Caio Cláudio Nero, (séculos III — II a.C.), o cônsul que, de noite, sorrateiramente, derrotou o exército cartaginês no rio Metauro (Itália meridional).
12. um grande velho: Quinto Fábio Máximo (275 — 203 a.C.), mais conhecido como o contemporizador, pois adotou tal tática para derrotar o general cartaginês Aníbal.
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Petrarca: Triunfos — edição bilíngue italiano-português, Introdução de Pedro Heise e Tradução de Camões, 2006, Editora Hedra, São Paulo — SP; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Edgar Allan Poe: Eldorado

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[traduzido por Gondin da Fonseca]

Garboso, ligeiro,
       bravo cavaleiro,
Ao sol e à sombra, sem cuidado,
       ia caminhando,
       e cantarolando
uma canção, em busca do Eldorado.

       Quando a idade breve,
       o cobriu de neve,
viu-se de sombra amortalhado...
       E um pesar profundo
       teve, pois, no mundo,
nada encontrou, feito o Eldorado.

       Já sem força, um dia,
       viu a sombra fria
de um peregrino; e, angustiado,
       perguntou: “aonde,
       aonde se esconde
ó sombra, o reino do Eldorado?”

“Para além da Lua,
       há uma terra nua,
Vale de Sombras, povoado...
       Avança ligeiro,”
       disse-lhe o romeiro,
“se é que procuras o Eldorado”.

Poe

Eldorado

Gaily bedight,
       A gallant knight,
In sunshine and in shadow
       Had journeyed long
       Singing a song
In search of Eldorado.

       But he grew old...
       This knight so bold...
And o'er his heart a shadow
       Fell as he found
       No spot of ground
That looked like Eldorado.

       And, as his strength
       Failed him at length
He met a pilgrim shadow...
       "Shadow," said he,
       "Where can it be
This land of Eldorado?"

       "Over the Mountains
       Of the Moon
Down the Valley of the Shadow,
       Ride, boldly ride,"
       The shade replied,
"If you seek for Eldorado!"
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O Livro de Ouro da Poesia de Angústia, Sofrimento e Morte — edição bilíngue (diversos autores), tradução de Gondin da Fonseca, sem data, Ediouro, Rio de Janeiro — RJ; Edgar Allan Poe (1809 1849), norte-americano nascido em Boston Massachusetts, foi escritor, contista, romancista, poeta, crítico literário, conferencista e editor; Poe, órfão de mãe e com o pai abandonando a família, foi acolhido por família rica, o que lhe possibilitou boa educação; ingressou na Universidade de Virgínia, se destaca em Línguas Românicas antigas e modernas (neolatinas); envolveu-se com mulheres, bebidas e jogos, se endividou, saiu da faculdade, engajou-se no exército, de onde foi expulso por indisciplina; escreveu abundantemente e publicou seus textos em uma diversidade de jornais e revistas, ganhou diversos prêmios; foi colaborador no jornal Messenger, de Richmond, no qual chegou a ser editor; também foi editor associado da revista Burton’s Gentleman’s Ma­gazine e da Graham’s, além de ter tido acesso e contribuído em outros periódicos; Edgar Allan Poe, escrevendo contos de terror, policiais e de mistério, é tido como inaugurador de um novo gênero e estilo na literatura, sendo considerado figura expoente do romantismo americano e tendo influenciado e inspirado muitos escritores Melville, Conan Doyle, Agatha Christie, Chesterton, Jorge Luis Borges e outros; suas obras: em poesia, Tamerlane and other Poems (1827), Al Aaraaf (1829), The City in the Sea (1831), Silence (1840), Lenore (1843), The Raven (O Corvo, 1845), A Dream Within a Dream (1849), Annabel Lee (1849), The Bells (1849), em prosa, contos, Berenice (1835), The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher, 1839), The Murders in the Rue Morgue (Os Assassinatos da Rua Morgue, 1841), The Pit and the Pendulum (O Poço e o Pêndulo, 1842), The Gold-Bug (O Escaravelho de Ouro, 1843), The Black Cat (O Gato Preto, 1843), The Cask of Amontillado (O Barril Amontillado, 1846), The philosophy of composition (A Filosofia da Composição — ensaio-análise do poema O Corvo, 1846), e outros textos em verso e prosa.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Benedita de Melo: Velhice

 
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Velhice é a borra do final da taça...
O sabor derradeiro da bebida,
Visão que, terna, a criatura abraça,
porém que sempre a encontra distraída.

Tem de tudo que finda, a eterna graça.
Por todos, com tristeza é recebida...
Qualquer fase da vida surge e passa,
sem que por isso passe-nos a vida.

Ela, não. Ela fica. É a mais sincera...
É mais que o Outono e mais que a Primavera...
Para atingi-la, quanto não fazemos!

Vai-se a infância e risonhos prosseguimos...
A mocidade foge e resistimos...
Mas se a velhice morre, nós morremos!...

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O Mundo Maravilhoso do Soneto, de Vasco de Castro Lima [inúmeros sonetistas e tradutores], Prefácio de Rangel Coelho, 1987, Livraria Freitas Bastos S/A, Rio de Janeiro — RJ; Benedita de Melo Amaral (1906 1991), pernambucana de Vicência, cega de nascença, fez seus cursos no Instituto Benjamin Constant (antigo Imperial Instituto dos Meninos Cegos) no Rio de Janeiro, onde também lecionou português, foi professora, poetisa e escritora; suas obras: Lanterna Acesa (1939), Sol nas Trevas (1944), Versos do Meu Brasil (1945), Luz Interior (1972), Lâmpadas Coloridas (1984); hoje o Instituto Benjamin Constant é centro de referência nacional para questões relativas à deficiência visual e, além da escola, capacita profissionais da área da deficiência visual, assessora escolas e instituições em geral e oferece reabilitação física; consta que o nome de batismo da poetisa fosse Benedicta de Mello.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Cecília Meireles: Desenho

 
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Fui morena e magrinha como qualquer polinésia1,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam.

Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão2, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel3 colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas,
Levai-me aonde quiserdes! Aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

[Mar Absoluto e Outros Poemas (1945)]


Notas da edição — Vocabulário:
1. Polinésia: Pessoa de uma raça que se espalha pela Oceania.
2. Burlão: Que pratica burla, isto é, logro ou zombaria.
3. Vergel: Jardim; pomar.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversos autores), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), nascida no Rio de Janeiro RJ, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919, publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; mais obras da poeta: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1a. edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.