segunda-feira, 30 de junho de 2014

Carlos Drummond de Andrade: Legado

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Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho. 


                                           (Claro Enigma  1951)
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¿Que memoria daré al país que me dio
lo que  recuerdo y sé, todo cuanto sentí?
En la noche sin fin, breve el tiempo olvidó
Mi dudosa medalla, y se ríe de mí.

¿Y merezco esperar más que los otros, yo?
Tú no me engañas, mundo, y no te engaño a ti.
Monstruos contemporáneos que Orfeo no rindió
vagando, taciturnos, entre el tal vez y el sí.

No dejaré de mí ningún canto radioso,
ni uma voz matinal palpitando en la bruma
que de alguien arranque su más secreto espino.

De todo cuanto fue mi paso caprichoso
quedará solamente, pues el resto se esfuma,
una piedra que había em medio del camino.

(Traducción: Manuel
 Graña Etcheverry)

Carlos Drummond de Andrade
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100 poemas — Carlos Drummond de Andrade, Organización y traducción de Manuel Graña Etcheverry, edição bilíngüe, segunda reimpressão, 2009, Editora UFMG, Belo Horizonte — MG; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Corpo, novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...

domingo, 29 de junho de 2014

Teixeira de Pascoaes: A um Homem

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Tu que desceste enfim à negra vala,
Sem que ouvisses um grito ou um lamento,
A grande voz do mar que nos embala,
A voz dos pinheirais e a voz do vento...

Tu que não viste a luz do Firmamento
E nem soubeste, em êxtase, adorá-la;
Tu que nunca tiveste o sentimento
Do aroma triste que uma flor exala!...

Tu que não choras, vendo uma flor morta
Ou um pobre que bate à tua porta,
No redentor suspiro derradeiro,

Nunca foste, meu triste semelhante
Nem por acaso, apenas por um instante,
Durante a vida, um homem verdadeiro...

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Teixeira de Pascoaes — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 80, seleção e organização de Jorge de Sena, segunda edição revista, 1970, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Teixeira de Pascoaes, pseudônimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (1877 1952), nascido em Amarante Portugal, formado em Direito pela Faculdade de Coimbra exerceu os ofícios de advogado e juiz por breve período , foi poeta e escritor; em 1911, no Porto, ajudou a fundar o grupo Renascença Portuguesa, o qual tinha como objetivo lutar pela elevação cultural da república portuguesa; fundou a revista Águia, órgão do grupo Renascença, e a dirigiu até 1917; escreveu e publicou: em poesia, Embriões (1895), Belo, 1ª parte (1896), Belo, 2ª parte (1897), À Minha Alma e Sempre (1898), Jesus e Pã (1903), Vida Eterna (1906), As Sombras (1907), Senhora da Noite (1909), Marãnos (1911), Regresso ao Paraíso (1912), Verbo Escuro (1914), Elegia da Solidão (1920), Cantos Indecisos (1921), O Pobre Tolo (1924),Últimos Versos (publicação póstuma, 1953) e outros; em prosa: A Arte de Ser Português (1915), À Beira Num Relâmpago (1916), Os Poetas Lusíadas (conferências, 1919), O Bailado (1921), A Nossa Fome (1923), Livro de Memórias (autobiografia, 1928), O Homem Universal (1937), Napoleão (biografia romanceada, 1940), Camilo Castelo Branco (biografia romanceada, 1942), além de outros escritos e conferências.

sábado, 28 de junho de 2014

Carlos Drummond de Andrade: José, do Mucuri

Boca De Luar - Carlos Drummond De Andrade - Frete Grátis
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                    Como se não bastasse o excesso de população do mundo, há muito andam os homens detectando a existência de outros mundos habitados no espaço sideral, e há quem exclame, emocionado: "Não estamos sós." Mas quem disse que estamos sós, se vivemos tão acotovelados pelas avenidas da Terra, e há tamanha falta de lugar para todos que querem viver? Pois como se tudo isto não fosse suficiente, correm às matas da região banhada pelo Rio Mucuri, lá onde Minas, Bahia e Espírito Santo se confundem, e de suas brenhas retiram José Pedro, o último promeneur solitaire de que havia notícia, o homem que vivia ao lado de uma fogueira acesa, espantando onças e, sobretudo, gente.
                     Vem, rapaz! Queremos que você participe das maravilhas da civilização!
                    Ao que José teria respondido:
                     Vocês me arranjam casa pra morar?
                     Bem, isso está meio difícil, José, ainda mais com o fim da denúncia vazia.
                     E emprego?
                     Só se você for concursado e houver vaga, dentro do período de validade do concurso.
                     Comida?
                     Comida, José, você terá que esperar que as roças plantadas pelo Ministro Delfim cresçam e apareçam. Não importa, venha assim mesmo, estão nos chamando de outras galáxias, está assim de disco voador, e você não pode perder o espetáculo de confraternização cósmica.
                    José recalcitra. Estava tão bem ali! Não paga aluguel, não preenche formulário verde ou azul do imposto de renda, não obedece a horário nem patrão, come carne variada, segunda-feira, paca, terça, peixe, quarta, aves lacustres, quinta, raízes e tubérculos, sexta, frutas, sábado...
                     Mais uma razão para vir. Está desfrutando privilégios, e todos são iguais perante a lei, ainda mais agora, com o Presidente Figueiredo interessado em implantar democracia.
                    Outra razão, que se ministrou a José, é que os fazendeiros do Mucuri reclamam contra o homem estranho, enfurnado no mato, sabe Deus o quê. Coisa boa não é. Será o último subversivo, maquinando sortidas contra o gado, para aliciar gente e destruir as conquistas da Revolução?
                    Inutilmente José alega que ajuda os rurícolas espantando onça com o seu facho noturno. As onças não devem ser espantadas, sustentam o que resta de beleza selvagem na região.
                    Esse homem não trabalha na lavoura de mandioca, tal como os outros homens; não produz, não rende, e, embora não pese a ninguém, pesa globalmente no espírito de todos, com o seu mistério. O fato de não produzir não é o mais grave, e tolera-se no asfalto e na praia, à luz do dia, civilizadamente: mas no interior do mato? Que idéia faz esse sujeito do contrato social? Está-se ninando para o contrato social. Não é possível, dizem os civilizados. Tragam esse homem para perto de nós, ele tem de aprender ou reaprender a vida apertada que levamos.
                    José tem medo. Os homens, as cidades, os códigos, até os prazeres intervalares da vida social lhe causam pavor. O motor de sua volta ao estado natural foi menos o amor à natureza do que o pânico diante do desenvolvimento urbano. Em cada homem vê o perigo, em cada situação a ameaça, em cada palavra a condenação. Com árvores e bichos, ele se entende. Nu e experimentado, conhece e domina o ambiente, e nele vive sem maiores riscos. Na cidade, não praticara ação criminosa, e foi precisamente isso que o fez embrenhar-se no mato. Inocente, faltavam-lhe as provas negativas de sua inocência. Se cometesse qualquer malfeito, poderia mentir e salvar-se, mas estando puro e desarmado diante da ordem social, como mentir senão confessando a falta imaginária e, portanto, condenando-se? A solução era virar bicho. Fez.
                    Agora trazem José para uma capital, ele é fichado, fotografado, carimbado, numerado, entrevistado, televisionado, condenado a viver, como tantos outros, em subcondição humana, mas sob o amparo nominal da lei. De todas as leis da República e da civilização.
                    José está salvo ou perdido? É pergunta dessas de se fazer ao povo nas ruas, cada qual com sua opinião, e as opiniões se multiplicam. Há a intenção de proteger José, ou a intenção de fazer de José um escravo ou um pária como tantos outros, porque não é justo escapar à sorte da maioria? Onde já se viu bancar o índio sem ser índio? E, além do mais, índio solitário, sem ligação com os maxacalis ou os saudosos aimorés? Nada disso. Todos são iguais perante a lei. E, daí, não estamos sós.
                    O certo é que nunca mais brilhará, na noite das matas do Mucuri, aquele foguinho solitário de espantar onça. E gente. José será contribuinte, eleitor e infeliz.
         
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Boca de Luar, crônicas, 1984, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Corpo, novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Belmiro Braga: Diálogo Sinistro

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Quanta vez junto a um jazigo
alguém murmura de leve:
 Adeus para sempre, amigo!
E diz-lhe o morto:  "Até breve!"

 Descansa em paz! a alegria
no céu imenso é que existe...
Diz-lhe o morto:  É tão sombria
a cova que me abriste...

 Uma vida excelsa e nova
vais ter na mansão celeste...
E diz-lhe o morto:  e uma cova
tão pequenina me deste...

 Ascende às regiões jocundas
dos céus onde a paz se encerra.
 Ascende aos céus... e me afundas
no seio escuro da Terra.

 Teu nome puro, garanto,
jamais o tempo consome...
 Amanhã, (talvez, nem tanto!...)
ninguém saberá meu nome.

 Tua memória perdura
dos teus filhos na lembrança...
 Ah! minha memória dura
enquanto durar a herança...

 A Justiça ser-te-á justa,
que ela é do Direito filha...
 A esta hora, quem sabe? ajusta
com meus filhos a partilha...

(Contas do Meu Rosário, Edição da
 Companhia de Seguros de Vida
 "Cruzeiro do Sul" [Rio], 1918)

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Panorama da Poesia Brasileira, Volume V  Pré-Modernismo, por Fernando Góes, 1960, Rio de Janeiro RJ; Belmiro Belarmino de Barros Braga (1872 1937), mineiro de Vargem Grande, atual município de Belmiro Braga, à época distrito de Juiz de Fora, exerceu diversos ofícios (caixeiro de secos e molhados, empregado de padaria, comerciante, tabelião), foi poeta  escreveu quadras, sonetos humorísticos e peças teatrais, e declarou uma vez: "Aos sete anos, na ânsia de saber tudo, apelidaram-me o Confessor; aos onze, quando no colégio, pelo desejo de aprender sobressaía nos estudos, fui retirado dele; aos treze, em vez de ir para um meio culto, fui conviver com analfabetos e, assim, tudo me tem corrido pela vida fora..."; publicou Montezinas (1902), Cantos e Contos (1906), Rosas (1911), Contas do Meu Rosário (1918), A Moda (1918), Tarde Florida (1923), Redondilhas (1934), Dias Idos e Vividos (memórias, 1936), e deixou também numerosa produção poética esparsa em jornais e revistas; pertenceu à Academia Mineira de Letras. 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Carlos Drummond de Andrade: A Palavra

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Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

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A Paixão Medida, nova edição aumentada, 1980, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo —  Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); A Paixão Medida (nova edição aumentada, 1980), Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Corpo, novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Teixeira de Pascoaes: Paraísos

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Temos dois paraísos: o da infância
E o da velhice;
O da flor e o do fruto,
O da loucura e o da razão.
O Jardim e o Pomar,
A Primavera, Deusa helênica,
O Outono, Deus da Ibéria.
O resto é Inverno até à Groenlândia
E Verão até ao Cabo.

Últimos Versos  1953

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Teixeira de Pascoaes — Poesia, Coleção Nossos Clássicos, Volume 80, seleção e organização de Jorge de Sena, segunda edição revista, 1970, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Teixeira de Pascoaes, pseudônimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (1877  1952), nascido em Amarante  Portugal, formado em Direito pela Faculdade de Coimbra exerceu os ofícios de advogado e juiz por breve período , foi poeta e escritor; em 1911, no Porto, ajudou a fundar o grupo Renascença Portuguesa, o qual tinha como objetivo lutar pela elevação cultural da república portuguesa; fundou a revista Águia, órgão do grupo Renascença, e a dirigiu até 1917; escreveu e publicou: em poesia, Embriões (1895), Belo, 1ª parte (1896), Belo, 2ª parte (1897), À Minha Alma e Sempre (1898), Jesus e Pã (1903), Vida Eterna (1906), As Sombras (1907), Senhora da Noite (1909), Marãnos (1911), Regresso ao Paraíso (1912), Verbo Escuro (1914), Elegia da Solidão (1920), Cantos Indecisos (1921), O Pobre Tolo (1924), Últimos Versos (publicação póstuma, 1953) e outros; em prosa: A Arte de Ser Português (1915), À Beira Num Relâmpago (1916), Os Poetas Lusíadas (conferências, 1919), O Bailado (1921), A Nossa Fome (1923), Livro de Memórias (autobiografia, 1928), O Homem Universal (1937), Napoleão (biografia romanceada, 1940), Camilo Castelo Branco (biografia romanceada, 1942), além de outros escritos e conferências. 

Joaquim Peixoto: Pedra

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Pedra! quem pode ouvir tua voz, tuas queixas,
No longo padecer, de milênio em milênio?
Desde o sub-solo à crosta, ascendendo ao proscênio
Da vida, aspiras o ar pelo solo que fechas...

Quem pode ouvir-te, ó Pedra, o grito, quando o gênio
Da arte te ergue em coluna e capitéis?... E deixas,
No entanto, a mão do artista explorar-te. E ainda enfeixas
Dores no coração quase humano e homogêneo...

Fere-te face a face o buril que dimana
De Fídias, de Bernini, e empolga o que a arte alcança
Para gozo do gênio e da vaidade humana.

Todos te pisam... sim! mas sobre todos pousas
E, num gesto, reagindo, exerces a vingança,
Cobrindo-lhes o corpo, alfim, com as tuas lousas.
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Antologia de Poetas Fluminenses — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; Joaquim Eugênio Peixoto (1872 1929), fluminense de São Gonçalo, foi tabelião, vereador e um dos fundadores da Academia Fluminense de Letras; foi poeta, editou e dirigiu, em Niterói, Vida Fluminense, a gazeta Manhã Matutina e, juntamente com outros, O Diário; escreveu e publicou Topázios (versos esboçados entre um a dois decênios, 1923); produziu ainda Arco-Íris e Iteroínos.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Luiz Leitão: Ponto

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Por fazer ponto em quase todo ponto,
Vivo em diversos pontos apontado.
Não sendo ponto, também banco o ponto,
Pois várias peças tenho já pontado.

No ponto em que trabalho, assino o ponto,
Mal em seu ponto o sol tem despontado.
Perseguido dos pontos, chego ao ponto
De um ponto ter nas calças pontilhado.

Quanto à mulher, que é o ponto que me entala,
Quero-a no ponto bom, ponto de bala,
Que é o ponto divinal, convidativo.

Mas de todos os pontos, afinal,
O melhor ponto, o ponto principal
É o que o Governo faz facultativo...


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Antologia de Poetas Fluminenses  Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ;  Luiz Antonio Gondim Leitão, (1890 1936), mais conhecido como Lili Leitão, fluminense de Niterói, além de funcionário municipal, foi jornalista, teatrólogo, humorista e poeta satírico; foi um dos integrantes do movimento literário do Estado do Rio de Janeiro à época, e frequentador do Café Paris, de Niterói, para onde se dirigiam e ali discutiam os profissionais liberais, boêmios, artistas plásticos, jornalistas...; escreveu e publicou Sonetos (1913), Vida Apertada, sonetos humorísticos (1926), e produziu peças teatrais: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá, O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçone (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924), O rendez-vous amarelo (1930); o poeta-humorista também usou o pseudônimo Bacorinho.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Carlos Drummond de Andrade: Eu, Etiqueta

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Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo.
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou 
 vê lá  anúncio contratado. 
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal, 
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.


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Corpo, novos poemas, segunda edição, 1984, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Corpo, novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...