terça-feira, 30 de junho de 2015

Juó Bananére: O studenti do Bó Ritiro

La divina increnca – Livraria Expressão Popular
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[Poisia Patriotica]

Antigamenti a scuola éra rizogna e franga;
Du veglio professore a brutta barba branga
Aparicia um cavagnac da relia,
Che pugna rispetto inzima a saparia.
O maestro éra um veglio bunitigno,
I a scuola éra nu Billezigno,
Di tardi inveiz, quano cabava a scuola,
Marcáno o passo i abaténo a sola,
Tutto pissoalo iva saino in ligna,
Uguali come un bando di pombigna.
Ma assí chi a genti pigliava o portó,
Incominciava a insgugliambaçó;
Tuttos pissoalo intó adisparava,
I iva mexeno c'oa genti chi passava.

                    * * *

Oggi inveiz stá tutto mudado!
O maestro é um uómo indisgraziado,
Che o pissoalo stá molto chétamente
E illo giá quére dá na gente.
Inveiz um dí intrô na scuola un rapazigno
Co typio uguali d'un intalianigno,
O perfilo inergico i o visagio bello.
Come a virgia du pittore Rafaello.
Stava vistido di lutto acarregado.
Du páio chi murreu inforgado.
O maestro xamô elli un dia,
I priguntô:
Vuce sabe giograffia?
 Come nó!? Sê molto bê si signore.
 Intó mi diga  aparlô o professore, 
Quale é o maiore distritto di Zan Baolo?
 O maiore distritto di Zan Baolo,
O maise bello e ch'io maise dimiro
É sê duvida o Bó Ritiro.
O maestro, furioso di indignaçó,
Batte con nergia u pé nu chó,
I gritta tutto virmeligno:
 O migliore distritto é o Billezigno.
Ma um aguia du piqueno inveiz,
C'oa brutta carma disse otraveiz:
 O distritto che io maise dimiro,
É sê duvida o Bó Ritiro!
O maestro, furioso di indignacó
Alivantô da mesa come un furacó,
I pigano um mappa du Braiz
Disse: — Mostri o Bó Ritiro aqui se fô capaiz!
Aóra o piqueno tambê si alivantô
I baténo a mon inzima o goraçó,
Disse:  O Bó Ritiro sta aqui!

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La Divina Increnca, Reprodução integral da 1a. edição de 1915, acrescida de textos introdutórios de Otto Maria Carpeaux e Antônio de Alcântara Machado, 2001, 1ª. reimpressão 2007, Editora 34 Ltda., São Paulo  SP; Juó Bananére, pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado (1892  1933), paulista de Pindamonhangaba, formado pela Escola Politécnica da USP  São Paulo, foi engenheiro civil, escritor e poeta satírico; é considerado um dos precursores do Modernismo literário e artístico, que desaguou na Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo; colaborou com seus textos nos periódicos O Estado de São Paulo e O Pirralho; fez paródias de poemas de Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Camões, La Fontaine, Machado de Assis e outros; sua principal obra, La Divina Increnca (1915), parodia A Divina Comédia, de Dante; em 1933, ano de sua morte, criou o jornal semanal Diário do Abax’o Piques e que durou 21 números.

Luís Guimarães Júnior: A Borralheira *

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Meigos pés, pequeninos, delicados,
Como um duplo lilás, se os beija-flores
Vos descobrissem entre as outras flores,
Que seria de vós, pés adorados!

Como dois gêmeos silfos animados,
Vi-vos ontem pairar entre os fulgores
Do baile, ariscos, brancos, tentadores,
Mas, ai de mim! como os mais pés, calçados.

“Calçados como os mais! Que desacato!
Disse eu... Vou já talhar-lhes um sapato
Leve, ideal, fantástico, secreto...”

Ei-lo. Resta saber, Anjo faceiro,
Se acertou na medida o sapateiro:
Mimosos pés, calçai este soneto.

(Transcrito de Sonetos e Rimaspor Marques Rebelo, em
Antologia Escolar Brasileira  1a. edição, MEC, p.200)

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Nota das Organizadoras:
* Conferido com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Panorama da Poesia Brasileira, v. III: Parnasianismo, p.27.
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Antologia de Antologias — 101 poetas brasileiros "revisitados", Organização de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, e Prefácio de Alfredo Bosi, 1ª  edição (2ª  reimpressão), Musa Editora, 2004, São Paulo — SP; Luís Caetano Pereira Guimarães Júnior (1845? 1898), nascido no Rio de Janeiro, formado em Direito na Faculdade de Recife, foi poeta, folhetinista, comediógrafo, jornalista e diplomata, e publicou Lírio Branco (1862), Uma Cena Contemporânea (teatro, 1862), Corimbos (poesia, 1866), A Família Agulha (romance, 1870), Noturnos (poesia, 1872), Filigranas (ficção, 1872), Sonetos e Rimas (poesia, 1880) etc.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Emiliana Delminda: Delirando

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Musa, deixa-me só. O ambiente que respiro
A custo, eivado está de lúgubres sinais:
Sobre minha cabeça, ao jeito de um vampiro
Paira a sombra da morte. Adeus! Não voltes mais!

Não! perdoa-me. Vem, num último suspiro
Ouvir-me o cavo som de concentrados ais.
Eu sofro; a dor crucia e bem vês que deliro
Sonhando o rosicler de auroras celestiais!

No azul esplende o sol e eu tenho tanto frio!
Pulsa-me acelerado o coração doentio
E o tédio de viver a mente me entorpece...

O momento supremo aguardo ansiosamente,
Não me abandones, vem piedosa e complacente
Trazer-me a extrema-unção na esmola de uma prece!
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Emiliana Delminda do Amaral (1865  1963?), paulista de Silveiras, foi poetisa, romancista e professora autodidata; durante anos deu aulas particulares; escreveu e publicou Violetas (poesia, 1906), Miragens (poesia, 1908), Crepúsculo (poesia, 1914), Fragmentos d’Alma (poesia, 1918), Segredo Fatal (romance, 1925), Calvário do Amor (romance, 1935), Folhas Caídas (poesia, 1947); seus textos foram divulgados pela imprensa paulista (A Tribuna e Flama, de Santos, Clarim, de Matão, Nova Era, de Franca, e outros periódicos); deixou inéditos Minúsculas (contos) e O despertar da luz (poesia).

Ronald de Carvalho: Soneto azul

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O azul, define o olhar, é a memória do estio,
das cigarras pagãs... dos êxtases no Poente...
das magnólias abrindo as folhas ao luar frio...
das borboletas, voando ao Sol, rubro e inclemente...

O azul, diz ainda o olhar, vi-o no espaço, vi-o
na tristeza polar de um canal transparente,
nuns olhos outonais * que a água morta de um rio
bebeu como dois sóis, a horas de luz morrente...

 Clave de sons azuis que evocam meus sentidos
em ritmos imortais, feitos de nervos flavos
e doçuras ideais de sinos esquecidos...

 Clave de sons azuis... nevoeiro de azuis... fria
cabeça de vitral... saudade azul de cravo...
lábio azul... mãos azuis... minha Monotonia...

(Luz Gloriosa, Oficinas Gráficas da Casa Crés et Cie.,
Paris, MCMXIII. sem numeração de páginas.)


* Nota do Organizador; Está: ontonais.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Ronald de Carvalho (1893 1935), carioca, formado em Direito pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro (atual Direito UFRJ), foi poeta, escritor e político diplomata; um dos expoentes do Modernismo no Brasil, participou da Semana de Arte Moderna de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo; no Rio de Janeiro, colaborou com os periódicos Diário de Notícias, O Jornal, e com as revistas Alma Nova e Atlântida; em Portugal, foi um dos fundadores da revista literária Orpheu (Lisboa, 1915), contribuindo para a introdução do Modernismo naquele país; escreveu e publicou Luz Gloriosa (1913), Pequena História da Literatura Brasileira (1919), Poemas e Sonetos (1919), Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922), Toda a América (1926), Espelho de Ariel (1926), Estudos Brasileiros (três séries, 1924 1931) e outros títulos.

domingo, 28 de junho de 2015

José Oiticica: Última página

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A alma do poeta errou pelo universo afora,
Concentrou-se em si mesma, auscultou seu mistério,
E fez dos sons do mundo uma tumba sonora,
E dos salmos da vida a voz do seu saltério.

Viu, nos sem-fins do caos como o ser se incorpora,
Que o "fiat" sideral provém do vácuo etéreo;
Ouviu a dor do peito humano quando chora
Mas não lhe pôde dar, na rima, um refrigério!

Volta, assim, da excursão cheia de luz, mais triste...
Sente que tudo é um logro; ama a glória e, no entanto,
Sofre, por não saber a causa do que existe!

E abrindo o olhar sem fé para o antro ou para a serra,
Vê que o pranto de agora é o mesmo e amargo pranto
Que há seis mil anos cai sobre as mágoas da terra!
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os períodicos Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa e colaborou com a imprensa operária libertária, através dos jornais A Lanterna, Spartacus, Livre Pensador, A Plebe, e a revista A Vida; obras: Sonetos, primeira série (1911), Ode Ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Roteiro de Fonética Fisiológica, Técnica do Verso e Dicção (1955), e outros títulos.

sábado, 27 de junho de 2015

Adelina Lopes Vieira: A jornada

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Infância! Trilha doce, em farta messe
De rosas, cheias de aves multicores,
Onde, do sol aos últimos fulgores,
No regaço materno se adormece.

Adolescência! O mundo que parece
Um perene jardim de eternas flores,
Em que, entre sonhos, pressentindo amores,
O som do baile se mistura à prece.

Mocidade! Luz plena! O céu na terra!
A vida intensa! Amar e ser amada!
Eis a maior das bem aventuranças!

Velhice! Atra avalanche que soterra
Em densíssima trova ilimitada
Ilusões, devaneios, esperanças...

outubro de 1897

[publicado em A Mensageira,
Ano I, número 2, de 30 de
Outubro de 1897, São Paulo]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira, Diretora: Presciliana Duarte de Almeida (1897 a 1900), Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Adelina Amélia Lopes Vieira (1850 —  ?  ), portuguesa de Lisboa, desde seu primeiro ano de idade vivendo no Rio de Janeiro, foi professora, poeta, contista e teatróloga; colaborou em jornais e revistas brasileiras, entre as quais O Tempo e A Mensageira; publicações: Margaritas (poesias, 1879), Contos Infantis (em co-autoria com Júlia Lopes de Almeida, 1886), Destinos (contos, 1900), A virgem de Murilo, As duas dores e Expiação (dramas, todos sem data); traduziu a comédia teatral A Terrina (de Ernesto Hervelly, 1909).

Lourenço Diaféria: Conversa de Grego

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          Tinha recebido pequena herança de uma tia. Queria aplicar o dinheiro numa atividade que lhe desse algum lucro, porém, mais que lucro, satisfação intelectual. Descartou a idéia de abrir uma banca de jornal. Jornaleiro tem que acordar de madrugada. Queria coisa mais suave. Foi pedir conselho a um amigo. Ainda há pessoas que acreditam em conselhos. O amigo era criativo.
          Abra um curso de Grego. Todo mundo está abrindo curso de línguas. Inglês, Espanhol... Hoje, com o Mercosul, são comuns jogos de futebol contra a Argentina, o Uruguai, o Chile, o Espanhol está em alta. Não se admite mais o portunhol de antes. O negócio hoje é abrir um curso de Espanhol. Inglês também, é claro. Atualmente até para comer um sanduíche é preciso saber inglês. McDonald’s, Coca, Blue Life... Não se diz mais apartamento. É loft... Daqui a uns vinte anos, quando o Brasil tiver liquidado sua dívida externa, as relações pessoais com o resto do mundo serão feitas no idioma de Cervantes, de Carlos Gardel e, claro, na língua do Clinton... Entendeu?
           Não.
           É simples. É preciso alargar os horizontes. É a razão por que em qualquer esquina da cidade surgem placas de curso de línguas. Você tem que ser esperto... Entendeu?
           Ainda não.
           Serei muito objetivo. A cidade está saturada de cursos de Inglês e de Espanhol... Percebe?
           Percebo.
           Muito bem. Agora me diga: quantos cursos de Grego você conhece na cidade?
           Bem...
           Taí. Nenhum... Nem um, cara. O que existe é escola de Inglês, de Espanhol, de Informática... Até de ikebana. Mas de Grego, rapaz, não existe. Então é isso. Você tem que aproveitar as brechas que o mercado oferece. Abra um curso de Grego.
           Mas...
           Não tem mas. Já pensou formar classes de alunos interessados em ler Xenofonte no original? O problema do Brasil é que todo mundo quer ir pelo caminho mais fácil. O sujeito abre uma pizzaria, no mês seguinte outros doze cidadãos resolvem abrir o mesmo tipo de negócio na mesma rua. Desse jeito é claro que não pode dar certo... Veja o caso da comida por quilo. Está arruinando com o negócio do prato feito. O tradicional prato-feito elaborado com carinho, artesanalmente, cada bar com seu tempero peculiar... Hoje o prato-feito está indo pro brejo. Só tem comida por quilo. O mercado vai acabar saturado de comida por quilo. Escute o que lhe digo: daqui a cinqüenta anos, ou um pouco mais, quando o Brasil tiver se safado da dívida externa, ninguém vai poder nem olhar comida por quilo... Entendeu?
           Hum...
           Vou explicar melhor, Anaxágoras. Teu pai não era comandante da marinha mercante grega?
           Foi.
           E tua genitora? Nasceu onde?
           Em Chipre.
           Era cipriota. Eu sabia. Perguntei por perguntar. Veja bem. Teu pai era comandante de navio grego, tua mãe era cipriota, você se chama Anaxágoras, passou a infância ouvindo os pais falando Grego. Cursou a Universidade... Que curso você fez na faculdade?
           Grego, ué. Você sabe disso...
           Aí é que está. Você tem tudo para abrir o curso de Grego.
           Você acha que há alguém disposto a aprender Grego? Qual a utilidade prática? Inglês, vá lá... Até jogador do Palmeiras precisa disso para disputar a taça Toyota...
           Taça Mitsubishi.
           Mitsubishi, Honda, tanto faz... Tem o Torneio Mercosul...
           Mercosur.
           Tanto faz. Mas, Grego? Nem sei se a Grécia tem time de futebol.
           Claro que tem. Mas não estamos falando de futebol. As pessoas precisam alargar seus horizontes culturais. Quantas pessoas sabem quem foi Alexandre, o Grande? A vida de Alexandre é uma novela. Novela você entende o que quero dizer? No-ve-la. Já imaginou emplacar uma novela grega na TV? Quem dominou o mundo? Quem chegou a Roma e a Cartago? Quem atravessou as colunas de Hércules? Os gregos mudaram a face do mundo, rapaz. Ainda hoje, quando se quer falar que uma mulher é de fechar o comércio, o que se diz?
           Que é boazuda.
           Isso quem fala é a ralé. Gente educada diz: “É uma mulher de beleza helênica”. As pessoas ainda têm muito o que aprender com Tucídides, com o general Brásidas, com o cerco de Esfactéria, com a guerra do Peloponeso... A Grécia dá samba, amigo. Infelizmente as pessoas estão sendo induzidas a se entreter com histórias de macarronada, de amores entre fazendeiros e mucamas... Vá por mim, Anaxágoras. Abra um curso de Grego. Você vai faturar uma nota. Daqui a cem anos, quando Brasil...
          ... zerar a dívida externa...
           Exato. O Grego vai voltar a ter a importância cultural do passado. Mas alguém tem que iniciar o processo. Entendeu?
           Entendi...
           Então o próximo passo é bolar o nome da escola. Que tal Ágora? Ágora era a praça onde os gregos discutiam filosofia. Me parece um bom nome para um curso de Grego. Gostou da idéia?
           Não é ruim. Apenas precisa de uns ajustes técnicos...
          Três meses depois Anaxágoras inaugurava o Ágora, um restaurante especializado em delivery de prato-feito grego.

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Antologia de Crônicas — Crônica Brasileira Contemporânea (diversos cronistas), Organização e Apresentação de Manuel da Costa Pinto, 1a. edição, 2005, Editora Moderna, São Paulo SP; Lourenço Carlos Diaféria (1933 2008), paulista e paulistano nascido no Brás, foi jornalista, cronista e contista; trabalhou nos jornais Folha de São Paulo, Jornal da Tarde, Diário Popular, Diário do Grande ABC, além de ter escrito para rádios e televisão; em 1977, trabalhando no jornal Folha de São Paulo, foi preso pelo regime militar, por ter escrito a crônica “Herói. Morto. Nós.”, publicada na edição de 01.09.77 daquele diário e considerada ofensiva às Forças Armadasem tal crônica, Diaféria comenta sobre o heroísmo de um sargento que, para salvar uma criança, pulara em um fosso de ariranhas num zoológico goiano (a criança sobreviveu e o sargento morreu), e faz comparação com Duque de Caxias, patrono do Exército, que tem uma estátua no centro de São Paulo, lembrando que sua espada “oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos”; obras do cronista: Um gato na terra do tamborim (1976), Circo dos Cavalões (1978), A morte sem colete (1983), O Empinador de Estrela (1984), A longa busca da comodidade (1988), O invisível cavalo voador Falas contemporâneas (1990), Papéis íntimos de um ex-boy assumido (1994) e outros títulos.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Júlia Cortines: Indiferente

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E vão assim as horas!...  Vão fugindo
Um após outro os dias voadores,
Ao túmulo do olvido conduzindo
As alegrias como os dissabores.

O sonho agita as asas multicores
E vai-se, vai-se rápido sumindo,
Enquanto a vaga quérula das dores
Soluça e rola pelo espaço infindo...

A mim, porém, a mim, a mim que importa,
A mim, cuja esperança há muito é morta,
Que o tempo, como um rio que se escoa,

Nos arrebate as ilusões que temos?
 Deixo em descanso os fatigados remos
E que o barco da vida boie à toa.

1887
(Versos  1894)


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Antologia de Poetas Fluminenses (vários autores) — Rubens Falcão, Carta-Prefácio de Agripino Grieco, 1968, Gráfica Record Editora, Rio de Janeiro — RJ; da vida da poetisa e cronista Júlia Cortines Laxe (1868 1948), fluminense de Rio Bonito, apesar de sua longevidade, pouco ou nada se sabe, supondo-se que tenha sido professora; no início do século XX, no meio literário brasileiro, chegou a ser considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época (as outras foram Francisca Júlia, também poetisa, e Júlia Lopes de Almeida, romancista); deixou-nos como legado Versos (1894) e Vibrações (1905).

Maria Sabina: Eterno amor

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Não sei se o grande amor que hoje floresce
Nossa existência, embalsamando tanto,
Será da própria essência do que cresce
Dia a dia na vida, eterno e santo.

Dizem, que o afeto que hoje me enriquece
Será diluído em pérolas de pranto,
Porque o homem que adora, um dia esquece
Por outro amor o seu maior encanto...

Que importa? Viverei pela saudade,
Venturosa talvez, mesmo esquecida,
Pois meu amor contém a eternidade...

Amor forte demais para esquecê-lo,
Que passa além da Morte, porque a Vida
É pequena demais para contê-lo!
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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª  edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; Maria Sabina de Albuquerque (1898 1991), mineira de Barbacena, doutora em Letras Inglesas pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, foi professora, jornalista, poetisa e feminista atuante; lecionou inglês, francês, literatura universal, arte poética e oratória, escreveu e publicou Na Penumbra do Sonho (poesia, 1921), Água Dormente (poesia, 1925), Alma Tropical (contos, 1928), O País sem Caminhos (poesia, 1931), Entusiasmo (poesia, 1ª. edição em 1938), Adolpho Lutz (biografia), e outros títulos.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Cruz e Sousa: Livre

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Livre! Ser livre da matéria escrava,
Arrancar os grilhões que nos flagelam
E livre, penetrar nos Dons que selam
A alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
Dos corações daninhos que regelam,
Quando os nossos sentidos se rebelam
Contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
Mais junto à Natureza e mais seguro
Do seu amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
Para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

Últimos Sonetos  1905

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Cruz e Sousa — Últimos Sonetos, Texto estabelecido pelo manuscrito autógrafo e Notas por Adriano da Gama Kury, 5a. edição revista, 2013, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); em 1885, já publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável como arquivista na Estrada de Ferro Central (do Brasil); foram editados postumamente Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).