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Mário de Andrade, depressa
A moça caiu no mar...
A MOÇA CAIU NO MAR!
Não estão ouvindo vocês?
Vamos todos, vamos todos.
Venha quem quer ajudar.
Murilo põe na vitrola
Um concerto de Mozart,
Sobral Pinto mande cartas
Brigadeiro desça do ar,
General chame os amigos
Que a moça caiu no mar.
A moça caiu no mar,
Já sente o gosto de sal,
Seus cabelos estão feios,
Chamai Tristão para rezar.
Vêm os peixes fluorescentes
Comer-lhe os dedos da mão;
Vem doutor Getúlio Vargas
Devorar-lhe o coração;
Vêm os peixinhos do DIP,
Os peixes dos Institutos,
Peixões da Coordenação.
Chico Campos, Góes Monteiro
Receitam constituição
De 37 — não, não!
Se ela não morre afogada
Morrerá dessa poção,
Marcondes Filho oferece
Uma complementação.
Ah que vontade que eu sinto
De dizer um palavrão
Amigos por que esperais?
A moça caiu no mar!
Palimércio, Palimércio,
Traze a tua legião,
Ressuscita Castro Alves
Vejam todos quantos são.
João que chame Maria
Maria chame João
Venha o homem pequenino,
Que mora numa prisão,
Venha também meu irmão,
Meu pai, você nem precisa
Fazer mais revolução.
Chamem todos os meninos,
Homens, feras, militares,
Doutores, gênios, muares,
Professores, funcionários,
Sujeitos que não têm carne,
Mulheres que não têm pão,
Pretos, brancos e mulatos,
Venham todos, venham todos,
Aqueles que têm razão,
Prostitutas, engraxates,
Estudantes, marinheiros,
Carpinteiros, fazendeiros,
Operários, bailarinas,
Donzelas, estivadores,
Pobres e ricos, pois não,
Vamos todos dar a mão
Que a moça caiu no mar!
Chiquinha toca o abre-alas
Que nós queremos passar;
Não posso esperar mais não,
A moça caiu no mar.
Ah! Quem a pode salvar?
Santo Onofre, São João,
Companheiros, camaradas,
Venham todos ajudar,
Que a moça está se afogando,
A moça caiu no mar.
Mário de Andrade, depressa
A moça caiu no mar...
A MOÇA CAIU NO MAR!
Não estão ouvindo vocês?
Vamos todos, vamos todos.
Venha quem quer ajudar.
Murilo põe na vitrola
Um concerto de Mozart,
Sobral Pinto mande cartas
Brigadeiro desça do ar,
General chame os amigos
Que a moça caiu no mar.
A moça caiu no mar,
Já sente o gosto de sal,
Seus cabelos estão feios,
Chamai Tristão para rezar.
Vêm os peixes fluorescentes
Comer-lhe os dedos da mão;
Vem doutor Getúlio Vargas
Devorar-lhe o coração;
Vêm os peixinhos do DIP,
Os peixes dos Institutos,
Peixões da Coordenação.
Chico Campos, Góes Monteiro
Receitam constituição
De 37 — não, não!
Se ela não morre afogada
Morrerá dessa poção,
Marcondes Filho oferece
Uma complementação.
Ah que vontade que eu sinto
De dizer um palavrão
Amigos por que esperais?
A moça caiu no mar!
Palimércio, Palimércio,
Traze a tua legião,
Ressuscita Castro Alves
Vejam todos quantos são.
João que chame Maria
Maria chame João
Venha o homem pequenino,
Que mora numa prisão,
Venha também meu irmão,
Meu pai, você nem precisa
Fazer mais revolução.
Chamem todos os meninos,
Homens, feras, militares,
Doutores, gênios, muares,
Professores, funcionários,
Sujeitos que não têm carne,
Mulheres que não têm pão,
Pretos, brancos e mulatos,
Venham todos, venham todos,
Aqueles que têm razão,
Prostitutas, engraxates,
Estudantes, marinheiros,
Carpinteiros, fazendeiros,
Operários, bailarinas,
Donzelas, estivadores,
Pobres e ricos, pois não,
Vamos todos dar a mão
Que a moça caiu no mar!
Chiquinha toca o abre-alas
Que nós queremos passar;
Não posso esperar mais não,
A moça caiu no mar.
Ah! Quem a pode salvar?
Santo Onofre, São João,
Companheiros, camaradas,
Venham todos ajudar,
Que a moça está se afogando,
A moça caiu no mar.
Nota deste aprendiz de blogueiro: O ano de 1945, quando Guilherme de Figueiredo criou o poema, foi o ano dos estertores da 2ª Guerra Mundial (1937-1939 a setembro/1945) e do fim do Estado Novo (novembro/1937 a janeiro/1946) no Brasil; o poeta-bissexto ingressaria na Esquerda Democrática, ala autônoma dentro da UDN, que daria origem ao PSB-Partido Socialista Brasileiro (1947-1965); Maria Victoria de Mesquita Benevides em A UDN e o udenismo – ambiguidades do Liberalismo Brasileiro (1945-1965), nos conta que ‘em versos modernistas o autor lança um apelo a todos — militares, juristas, cidadãos e até ao “homem pequenino que mora numa prisão” (Luis Carlos Prestes) para que salvem o país que está se afogando.”'; o aprendiz de blogueiro acrescenta, em 2018: com o sinal invertido, digamos assim, neste ano de 2018 o apelo está no ar... a moça está caindo no mar.
* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia (1946) consta que o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados”.
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização e Prefácio de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Guilherme de Oliveira Figueiredo (1915 — 1997), paulista nascido em Campinas, formado em Direito, foi crítico literário e de teatro, tradutor e autor, dramaturgo e também poeta bissexto; colaborou em O Jornal, com críticas teatrais, e no Diário de Notícias, com crítica literária, ambos periódicos do Rio de Janeiro; foi professor de História do Teatro na Escola de Serviço Nacional de Teatro — SNT; como dramaturgo, são de sua autoria a comédia Lady Godiva, o drama Greve Geral, entre outras peças; traduziu Shakespeare, Molière, Bernard Shaw, etc.; teve textos premiados: A Raposa e as Uvas e Um Deus dormiu lá em casa.
Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização e Prefácio de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Guilherme de Oliveira Figueiredo (1915 — 1997), paulista nascido em Campinas, formado em Direito, foi crítico literário e de teatro, tradutor e autor, dramaturgo e também poeta bissexto; colaborou em O Jornal, com críticas teatrais, e no Diário de Notícias, com crítica literária, ambos periódicos do Rio de Janeiro; foi professor de História do Teatro na Escola de Serviço Nacional de Teatro — SNT; como dramaturgo, são de sua autoria a comédia Lady Godiva, o drama Greve Geral, entre outras peças; traduziu Shakespeare, Molière, Bernard Shaw, etc.; teve textos premiados: A Raposa e as Uvas e Um Deus dormiu lá em casa.