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sábado, 31 de janeiro de 2026

Pablo Neruda: Enigma para intranquilos

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[traduzido por Olga Savary]

Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.

Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.

Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.

E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.

Pablo Neruda

Enigma para intranquilos

Por los días del año que vendrá
encontraré una hora diferente:
una hora de pelo catarata,
una hora ya nunca transcurrida:
como si el tiempo se rompiera allí
y abriera una ventana: un agujero
por donde deslizarnos hacia el fondo.

Bueno, aquel día con la hora aquella
llegará y dejará todo cambiado:
no se sabrá ya más si ayer se fue
o lo que vuelve es lo que no pasó.

Cuando de aquel reloj caiga una hora
al suelo, sin que nadie la recoja,
y al fin tengamos amarrado el tiempo,
ay! sabremos por fin dónde comienzan
o dónde se terminan los destinos,
porque en el trozo muerto o apagado
veremos la materia de las horas
como se ve la pata de un insecto.

Y dispondremos de un poder satánico:
volver atrás o acelerar las horas:
llegar al nacimiento o a la muerte
con un motor robado al infinito.
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Pablo Neruda: O coração amarelo, Tradução de Olga Savary, Edição Bilíngue, Volume 359, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; Neruda, ao morrer, deixou-nos oito livros inéditos de poesia, “escritos quase simultaneamente”: este O coração amarelo (El corazón amarillo), além de Livro das perguntas (Libro de las preguntas), Elegia (Elegía), A Rosa separada (La rosa separada), Jardim de Inverno (Jardin de invierno), 2000, O mar e os sinos (El mar y las campañas) e Defeitos escolhidos (Defectos escogidos), todos publicados pela L&PM e com traduções feitas por poetas brasileiros; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Pablo Neruda: Filosofia


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[traduzido por Olga Savary]

Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos
somos escravos da terra
que também é dona do ar.

Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
a geografia e a ambrosia
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.

Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.

Pablo Neruda

Filosofia

Queda probada la certeza
del árbol verde en primavera
y de la corteza terrestre:
nos alimentan los planetas
a pesar de las erupciones
y el mar nos ofrece pescados
a pesar de sus maremotos:
somos esclavos de la tierra
que también es dueña del aire.

Paseando por una naranja
me pasé más de una vida
repitiendo el globo terrestre:
la geografía y la ambrosía:
los jugos color de jacinto
y un olor blanco de mujer
como las flores de la harina.

No se saca nada volando
para escaparse de este globo
que te atrapó desde nacer.
Y hay que confesar esperando
que el amor y el entendimiento
vienen de abajo, se levantan
y crecen dentro de nosotros
como cebollas, como encinas,
como galápagos o flores,
como países, como razas,
como caminos y destinos.
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Pablo Neruda: O coração amarelo, Tradução de Olga Savary, Edição Bilíngue, Volume 359, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; Neruda, ao morrer, deixou-nos oito livros inéditos de poesia, “escritos quase simultaneamente”: este O coração amarelo (El corazón amarillo), além de Livro das perguntas (Libro de las preguntas), Elegia (Elegía), A Rosa separada (La rosa separada), Jardim de Inverno (Jardin de invierno), 2000, O mar e os sinos (El mar y las campañas) e Defeitos escolhidos (Defectos escogidos), todos publicados pela L&PM e com traduções feitas por poetas brasileiros; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Pablo Neruda: No entanto me movo

 
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[traduzido por Olga Savary]

De vez em quando sou feliz!,
opinei diante de um sábio
que me examinou sem paixão
e demonstrou que eu estava errado.

Talvez não havia salvação
para meus dentes avariados,
um por um se extraviaram
os fios de minha cabeleira,
melhor era não discutir
sobre minha traqueia cavernosa,
enquanto o sulcado coração
estava cheio de advertências
como o fígado tenebroso
que não me servia de escudo
ou este rim conspirativo.
E com minha próstata melancólica
e os caprichos de minha uretra
me conduziram sem apuro
a um analítico final.

Olhando cara a cara o sábio
sem decidir-me a sucumbir
mostrei-lhe que podia ver,
palpar, ouvir e padecer
em outra ocasião favorável.
E que me deixasse o prazer
de ser amado e querer:
procuraria algum amor
por um mês ou por uma semana
ou por um penúltimo dia.

O homem sábio e desdenhoso
olhou-me com a indiferença
dos camelos pela lua
e decidiu orgulhosamente
olvidar-se de meu organismo.

Desde então não estou seguro
se eu devo obedecer
a seu decreto de que eu morra
ou se devo sentir-me bem
como meu corpo me aconselha.

E nesta dúvida não sei
se dedicar-me a meditar
ou alimentar-me de cravos.

Pablo Neruda

Sin embargo me muevo

De cuando en cuando ¡soy feliz!,
opiné delante de un sabio
que me examinó sin pasión
y me demostró mis errores.

Tal vez no había salvación
para mis dientes averiados,
uno por uno se extraviaron
los pelos de mi cabellera:
mejor era no discutir
sobre mi tráquea cavernosa:
en cuanto al cauce coronario
estaba lleno de advertencias
como el hígado tenebroso
que no me servía de escudo
o este riñón conspirativo.
Y con mi próstata melancólica
y los caprichos de mi uretra
me conducían sin apuro
a un analítico final.

Mirando frente a frente al sabio
sin decidirme a sucumbir
le mostré que podía ver,
palpar, oír y padecer
en otra ocasión favorable.
Y que me dejara el placer
de ser amado y de querer:
me buscaría algún amor
por un mes o por una semana
o por un penúltimo día.

El hombre sabio y desdeñoso
me miró con la indiferencia
de los camellos por la luna
y decidió orgullosamente
olvidarse de mi organismo.

Desde entonces no estoy seguro
de si yo debo obedecer
a su decreto de morirme
o si debo sentirme bien
como mi cuerpo me aconseja.

Y en esta duda yo no sé
si dedicarme a meditar
o alimentarme de claveles.
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Pablo Neruda: O coração amarelo, Tradução de Olga Savary, Edição Bilíngue, Volume 359, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; Neruda, ao morrer, deixou-nos oito livros inéditos de poesia, “escritos quase simultaneamente”: este O coração amarelo (El corazón amarillo), além de Livro das perguntas (Libro de las preguntas), Elegia (Elegía), A Rosa separada (La rosa separada), Jardim de Inverno (Jardin de invierno), 2000, O mar e os sinos (El mar y las campañas) e Defeitos escolhidos (Defectos escogidos), todos publicados pela L&PM e com traduções feitas por poetas brasileiros; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

domingo, 1 de agosto de 2021

Renata Pallotini: Cântico dos cânticos*

 
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“meu amor é meu e eu sou dele;
ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.”

O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.

Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.

Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.

Sem terra irei por terra; ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.

[28-09-59, Livro de Sonetos — 1961]

Renata Pallotini

Cantique des cantiques

“Mon amour est à moi, et je sui à lui,
il fait paître son troupeau entre les lis.”

Mon amour est à moi et je suis à lui.
Le lin horizontal est notre maison
et je me niche pour dormir sous son aile;
je l’aime avec ma bouche et ma peau.

C’est lui qui veille et il ne me dit pas de veiller
parce que c’est lui la flamme qui m’embrase.
Sa ferveur à ma ferveur se marie
claire comme la lumière qui nous pousse.

Je suis descendue en rase champagne, il est le champ
où je me couche et l’herbe se répand;
c’est mon regard qui vole, ver luisant.

Sans terre, j’irai par terre; il m’appelle.
Je vais sans savoir par où, à la mer ou à la montagne.
Sans sa bouche, dejà je ne sais plus être fontaine.

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França;  Renata Pallottini, (1931 — 2021),  paulista e paulistana, formou-se em Filosofia Pura na PUC — SP, em Direito na USP — Largo São Francisco, em Dramaturgia e Crítica na Escola de Arte Dramática na USP — SP, além de ter estudado teatro em cursos livres da Sourbonne Nouvelle, em Paris, foi dramaturga, professora, ensaísta, tradutora e poeta, deixou-nos vasta obra poética e também textos para teatro, ensaios, literatura infanto-juvenil e traduções; obras: Acalanto (1952),  O Cais da SerenidadeO Monólogo Vivo (1956), A Casa (1958), NósPortugalLivro de Sonetos(1961), A Faca e a Pedra (1962),  Antologia PoéticaOs Arcos da Memória  (1971), Mate é a Cor da Viuvez (contos, 1974), Coração Americano  (1976),  Chão de Palavras (1977), Noite Afora (1978), Cantar meu PovoTita, a Poeta (literatura infantil, 1984), A Menina que queria ser Anja  (1987), Esse Vinho Vadio (1988), Obra Poética (1995) etc, além de várias publicações na área do teatro e ensaios; recebeu prêmios por sua obra.

domingo, 18 de julho de 2021

Renata Pallotini: Cerejas, meu amor*

 
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Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...

Renata Pallotini

Cerises, mon amour

Cerises, mon amour,
mais dans ton corps.
Qu’elles te parcourent
par rondes.

Et qu’elles roulent où
je puisse les chercher
là où la vie commence
et où elle finit

et où toutes les faims
se concentrent
dans le rouge de la chair
des cerises...

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Renata Pallottini, (1931  2021), paulista e paulistana, formou-se em Filosofia Pura na PUC SP, em Direito na USP Largo São Francisco, em Dramaturgia e Crítica na Escola de Arte Dramática na USP SP, além de ter estudado teatro em cursos livres da Sourbonne Nouvelle, em Paris, foi dramaturga, professora, ensaísta, tradutora e poeta, deixou vasta obra poética e também textos para teatro, ensaios, literatura infanto-juvenil e traduções; obras: Acalanto (1952), O Cais da Serenidade, O Monólogo Vivo (1956), A Casa (1958), Nós, Portugal, Livro de Sonetos (1961), A Faca e a Pedra (1962), Antologia Poética, Os Arcos da Memória (1971), Mate é a Cor da Viuvez (contos, 1974), Coração Americano (1976), Chão de Palavras (1977), Noite Afora (1978), Cantar meu Povo, Tita, a Poeta (literatura infantil, 1984), A Menina que queria ser Anja (1987), Esse Vinho Vadio (1988), Obra Poética (1995) etc, além de várias publicações na área do teatro e ensaios; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Astrid Cabral: Bainha aberta & Cegueira*

 
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Bainha aberta

Crava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão.

Cegueira

No começo
o amor era tão cego
que vivíamos
de tropeço em tropeço.
No começo
o amor era tão cego
que não nos víamos.
Carecíamos do tato
para nos conhecer.

Astrid Cabral

Gaine ouverte

Enfonce dans mon corps cette épée crue.
Je veux  l’ardeur et l’extase de la lutte
dans laquelle je me rends volontaire et nue.
Ma crainte est la paix post-union:
dénouement déroute solitude.

Aveuglement

Au début
l’amour était si aveugle
qu’on vivait
d’achoppement en achoppement.
Au début
l’amour était si aveugle
qu’on ne se voyait pas.
On avait besoin du toucher
pour se connaître.

Nota da edição: Poemas compilados por Olga Savary / Poèmes compilés par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Astrid Cabral Félix de Sousa, nascida em 1936, amazonense de Manaus, ainda adolescente mudou-se para o Rio, diplomou-se em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, lecionou inglês, língua e literatura no nível médio e na UNB Brasília, e, por concurso, ingressou no Itamaraty, tendo prestado serviços de chancelaria no Rio de Janeiro, em Brasília e nos escritórios de representação brasileira em Beirute e em Chicago; desempenhou variados trabalhos fora e dentro da área cultural, tendo sido colaboradora em jornais e revistas especializadas; escreveu e publicou Alameda (contos, 1963), Ponto de cruz (poesia, 1979), Toma-viagem (poesia, 1981), Zé Pirulito (1982), Lição de Alice (poesia, 1986), Visgo da terra (poesia, 1986), Rês desgarrada (poesia, 1994), De déu em déu (poesia reunião de 5 livros, 1998), Intramuros (1998), Rasos d'água (2003) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra.

sábado, 12 de junho de 2021

Myriam Fraga: Cicatrizes*

 
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A face calcinada,
O desespero
Do amargo desengano.

A alegria se foi.
Restou-me o canto,
Derradeiro refúgio
Último quarto
Da obscura morada.

Restou o canto
Ao pássaro,
Restou o canto,
O abecedário,
A palavra;
Inventário do homem.

Sobrou o que sobrou
O estilo na carne,

Sobrou o que sobrou,
O louco intérprete
Da alma de ninguém
Do coração de tudo.

Hoje o homem é a sombra
Do pássaro,
Hoje o homem é o canto vivo
Da ramagem

A lembrança de fundas cicatrizes.

Myriam Fraga

Cicatrices

La face calcinée,
le désespoir
de l amère désilusion.

La joie s’en est allée.
Il m’est resté le chant,
dernier refuge
dernière chambre
de l’obscure demeure.

Il est resté le chant
à l’oiseau,
il est resté le chant,
l’abécédaire,
le mot;
inventaire de l’homme.

Il est resté ce qui a excédé
le style dans la chair,

Il est resté ce qui a excédé,
le fol interprète
de l’âme de personne
du coeur de tout.

Aujourd’hui l’homme est l’ombre
de l’oiseau,
aujourd’hui l’homme est le chant vif
de la ramure

le souvenir de profondes cicatrices.

Nota da edição: Poema compilado por Olga Savary / Poème compilé par Olga Savary
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Chemins Scabreux — revue littéraire bilíngue 13, septembre 1997, Paris: Poésie du Brésil, Sélection et Presentacion de Lourdes Sarmento, Texto-prefácio de Olga Savary, edição bilíngue, tradutores: Lucilo Varejão Neto, Maria Nilda Pessoa e outros, 1997, Editions Vericuetos, Paris — França; Myriam Fraga (1937 2016), baiana de Salvador, foi poeta, biógrafa e administradora cultural (diretora executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, desde a sua fundação em 1986); membro da Associação Baiana de Imprensa, foi colaboradora de diversos jornais e revistas e, de 1984 a 2004, manteve coluna semanal no jornal A Tarde, em Salvador; obras: Marinhas (1964), Sesmaria (1969, Prêmio Arthur Salles), O livro de Adynata (1975), A ilha (1975), O risco na pele (1979), A cidade (1979), As purificações ou O sinal de Talião (1981), A lenda do pássaro que roubou o fogo (1983) entre outros títulos.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Pablo Neruda: Quando de novo vejo o mar o mar me viu ou não me viu? *

 
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[traduzido por Olga Savary]

XLVIII

São os seios das sereias
os redondos caracóis?

Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?

Não se incendiou a pradaria
com os vaga-lumes selvagens?

Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?

XLIX

Quando de novo vejo o mar
o mar me viu ou não me viu?

Por que me perguntam as ondas
o mesmo que lhes pergunto?

E por que golpeiam a rocha
com tanto entusiasmo perdido?

Não se cansam de repetir
sua declaração à areia?

L

Quem pode convencer o mar
para que seja razoável?

De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?

E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?

Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?

Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?

Pablo Neruda

XLVIII

¿Son los senos de las sirenas
las redondescas caracolas?

¿O son olas petrificadas
o juego inmóvil de la espuma?

¿No se ha incendiado la pradera
con las luciérnagas salvajes?

¿Los peluqueros del otoño
despeinaron los crisantemos?

XLIX

¿Cuando veo de nuevo el mar
el mar me ha visto o no me ha visto?

¿Por qué me preguntan las olas
lo mismo que yo les pregunto?

¿Y por qué golpean la roca
con tanto entusiasmo perdido?

¿No se cansan de repetir
su declaración a la arena?

L

¿Quién puede convencer al mar
para que sea razonable?

¿De qué le sirve demoler
ámbar azul, granito verde?

¿Y para qué tantas arrugas
y tanto agujero en la roca?

¿Yo llegué de detrás del mar
y dónde voy cuando me ataja?

¿Por qué me he cerrado el caminho
cayendo en la trampa del mar?

Libro de las preguntas (1974)

Nota do blogue Verso e Conversa: Este atrevido aprendiz de blogueiro expõe que o Livro das perguntas (Libro de las preguntas) é composto de 74 poemas, sendo todos seus versos feitos em forma de perguntas.
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Livro das Perguntas — Pablo Neruda, edição bilíngüe, Tradução e Introdução de Olga Savary, volume 360 da Coleção L&PM Pocket (1ª edição na coleção: maio de 2004), reimpressão de 2019, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começa a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y uma canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Las uvas y el viento (1954), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), Las piedras de Chile (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970), Libro de las preguntas (1974), Confieso que he vivido (1974) e outros títulos; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.