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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Alexandre O'Neill: A noite ordinária

 
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Que bela noite ordinária que eu passei!

Foi isso há tempos
num quarto defendido pelas pulgas
e vigiado por um vento carteirista
que morava (disseste)
mesmo ali ao pé.

O problema da luz foi o primeiro
(que resolvemos apagando-a)
depois o das torneiras

depois o do marinheiro
que queria entrar nos nossos problemas
depois o teu
o teu problema já na cama
 na cama com mais paciência que encontrei!

Depois
falaste com as torneiras
e eu gritei

Gritei por calculado amor
por brilhantina
por miséria
gritei até pela vitória
(supremo humor!)
dos que se batem contra a Cara-Alegre
gritei p'ra não parar de gritar
gritei «Chapultepec!» e «Oaxaca!»
(nomes por excelência afrodisíacos)
gritei até descobrir
o sítio em que te «escondias»
e então deixei-te gritar...

Quando a noite resignada
abria a última pálpebra
gritei ainda: «Mas é isto o espelho!»

E o dia levantou-se como um cão
(imagem acessível à família...)
da bela noite ordinária
que passei...

1949

(No Reino da Dinamarca — 1958)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Alexandre O'Neill: Amigo

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Mal nos conhecemos
inauguramos a palavra “amigo”!

“Amigo” é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão!

“Amigo” (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
“amigo” é o contrário de inimigo!

“Amigo” é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.

“Amigo” é a solidão derrotada!

“Amigo” é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
“amigo” vai ser, é já uma grande festa!

(No Reino da Dinamarca — 1958)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Alexandre O'Neill: Breve

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Bom, diz ele,
Dia!, diz ela.

Vamos?, diz ele,
Não!, diz ela.

Que há?, diz ele,
Nada!, diz ela.

Então, diz ele,
Adeus!, diz ela.

(A saca de orelhas —  1979)

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A lua no cinema e outros poemas [várias autorias], Organização e Apresentação de Eucanaã Ferraz, Ilustrações de Fabio Zimbres, 2011, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Alexandre O'Neill: Guichê 1

 
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Quando o burocrata trabalha é pior do que quando destrabalha.
Antes quero esperar, aquém guichê, que ele discuta toda a bola ou
pedal que tem para discutir
com os destrabalhadores dos seus colegas;
antes quero esperar pelo meu burocrata
do que ter a desilusão de o ver trabalhar para mim mal eu chegue.
Isso custa-me pés e cotovelos, cãibras e suspiros, repentinos ódios
vesgos,
projetos de cartas a diretores de vespertinos,
mas se o meu burocrata assomasse à copa do papel selado
e me convidasse, ato contínuo, a dizer ao que vinha pelo higiefone,
da boca não me sairia um pedido, mas um regougo,
e eu teria de ceder a vez
ao cigarro que me queimasse a nuca.
É preciso exercer a paciência e cultivar a doçura do canteiro do rosto,
enquanto o burocrata destrabalha.
Geralmente não serve de nada pigarrear ou dizer com voz-passadeira
“Fazmobséquio”.
Levantar-se-iam, além guichê, as sobrancelhas de, pelo menos, três
sujeitos.
Melhor será começar pelo globo que pende do teto
e que é um olho vazado sobrepujando a cena.
Melhor será observar como a mosca dos tinteiros
nele pousa as patinhas escriturárias.
Depois (lição de coisas!) baixar os olhos para o calendário mural
e ver quantas cruzes a azul ainda faltam para liquidar o mês.
A seguir, circunvagar o olhar para ir enquadrar noutra parede
um calendário perpétuo parado um mês atrás.
Também aqui há zelo e desmazelo.
Também aqui falta o tempo e sobra o tempo.
Por certo é o mantenedor do calendário em dia
o que está a vir para estes lados.
Já olhou para mim. Sorrio-lhe. Passou.
Volto ao globo e, geografia cega,
pergunto aos meus botões: “Onde será Paris?”.
Mas não é o terráqueo. É um abafador
que trago desde a infância e não abafou népia.
Rompeu-me a algibeira e não abafou népia.
Curvo-me, enfio a cabeça pelo guichê e, num assomo,
comando em voz clara e alta: TODOS AOS SEUS LUGARES!
Quebrei o encanto!
Os burocratas que destrabalhavam correm para mim à uma.
Trêmulo de prazer, pergunto a um deles: “É o senhor o meu?

(Entre a Cortina e a Vidraça — 1972)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Alexandre O'Neill: Auto-retrato

 
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ONeill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
       Mas sobre de ternura, bebe de mais e ri-se
       do que neste soneto sobre si mesmo disse...

(No Reino da Dinamarca — 1958)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Alexandre O'Neill: Perfilados de medo

 
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Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

(No Reino da Dinamarca — 1958)
[Poemas com Endereço — 1962]

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 1986), português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência ramo de seguros, em bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça (1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia (1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970), Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg, deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária, teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o país naquele período.