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Que bela noite ordinária que
eu passei!
Foi isso há tempos
num quarto defendido pelas
pulgas
e vigiado por um vento
carteirista
que morava (disseste)
mesmo ali ao pé.
O problema da luz foi o
primeiro
(que resolvemos apagando-a)
depois o das torneiras
depois o do marinheiro
que queria entrar nos nossos
problemas
depois o teu
o teu problema já na cama
— na cama com mais paciência
que encontrei!
Depois
falaste com as torneiras
e eu gritei
Gritei por calculado amor
por brilhantina
por miséria
gritei até pela vitória
(supremo humor!)
dos que se batem contra a
Cara-Alegre
gritei p'ra não parar de
gritar
gritei «Chapultepec!» e
«Oaxaca!»
(nomes por excelência afrodisíacos)
gritei até descobrir
o sítio em que te «escondias»
e então deixei-te gritar...
Quando a noite resignada
abria a última pálpebra
gritei ainda: «Mas é isto o
espelho!»
E o dia levantou-se como um
cão
(imagem acessível à
família...)
da bela noite ordinária
que passei...
1949
(No Reino da Dinamarca — 1958)
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Poesia portuguesa
contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota
inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno &
Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; Alexandre O’Neill (1924 — 1986),
português e lisboeta, autodidata, fez os estudos liceais, frequentou a Escola
Náutica (Curso de Pilotagem), trabalhou na Previdência — ramo de seguros, em
bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, exerceu o ofício de técnico
publicitário em várias empresas do ramo, foi poeta e ativista do Movimento
Surrealista português; semanalmente e por algum tempo, escreveu crônicas para o
Diário de Lisboa e, em períodos distintos, colaborou também no JL — Jornal de
Letras, Artes e Idéias, revista Litoral, Mundo Literário, Seara Nova, Cadernos
de Poesia, Vértice, Journal des Poètes, revista Unicórnio ...; em 1948, fundou
o Grupo Surrealista de Lisboa, que acabou por se cindir, “por motivações
estético-ideológicas”, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente; em ambos
os grupos, os participantes atinham-se ao exercício, à criação e apresentação
de colagens, poemas, esculturas e pinturas; em 1949, participou de
manifestações surrealistas, publicou A Ampola Miraculosa (15 imagens com
legendas, nas quais imagem e legenda nada tinham a ver uma com a outra, “sem
que se estabelecesse um nexo lógico” entre ambas), obra que pode ser
considerada paradigmática do movimento e foram lançados os primeiros números
dos Cadernos Surrealistas; suas obras: Tempo de fantasmas (1951), No reino da
Dinamarca (1958), Abandono vigiado (1960), Poemas com endereço (1962), Feira
cabisbaixa (1965), De ombro na ombreira (1969), Entre a cortina e a vidraça
(1972), A saca de orelhas (1979), Dezanove Poemas (1983), O Princípio da Utopia
(1986), todos de poesia, As Andorinhas não Têm Restaurante (narrativa, 1970),
Uma Coisa em Forma de Assim (crônicas, 1980), ambos em prosa, ...; Alexandre
O’Neill também foi organizador de antologias poéticas de Gomes Leal, Teixeira
de Pascoaes, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes e Carl Sandburg,
deste último foi também tradutor; recebeu premiações por sua arte literária,
teve obras traduzidas para o idioma italiano; por sua participação e
posicionamento político-ideológico, contra o Estado Novo português, e de resto
contra o fascismo e o nazismo que campeava a Europa, o poeta foi preso várias
vezes pela PIDE, a polícia política da ditadura salazarista, chegando a ter o
passaporte cassado, devolvido longo tempo depois, o que o proibia de deixar o
país naquele período.