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sexta-feira, 19 de março de 2021

Charles Olson *: Não sou grego; nem hei o privilégio. . . .

 
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[traduzido por Eric Mitchell Sabinson]

III

Não sou grego; nem hei o privilégio.
E, certo, não sou romano:
ele não pode assumir risco que conte,
muito menos o risco da beleza.

Mas tenho meus afins, houvesse razão alguma além-de
(como ele disse, seus afins) eu me arrisco, e,
uma vez livre, eu seria velhaco
se não o fizesse. O que é bem veraz.

A coisa dá nisso, não obstante a desvantagem.
Por esclarecimento, ofereço uma citação:
si j’ai du goût, ce n’est guères
que pour la terre et les pierres

Apesar da discrepância (um oceano    coragem    idade)
Isto também é verdade: se sei discernir
foi só porque me interessei
pelo que foi chacinado ao sol

         A tua pergunta te devolvo:

descobrirás mel / entre os vermes da carniça?

         Caço entre pedras

Charles Olson

III

I am no Greek, hath not th’advantage.
And of course, no Roman:
he can take no risk that matters,
the risk of beauty least of all.

But I have my kin, if for no other reason than
(as he said, next of kin) I commit myself, and,
given my freedom, I’d be a cad
if I didn’t. Which is most true.

It works out this way, despite the disadvantage.
I offer, in explanation, a quote:
si j’ai du goût, ce n’est guères
que pour la terre et les pierres.

Despite the discrepancy (an ocean    courage    age)
this is also true: if I have any taste
it is only because I have interested myself
in what was slain in the sun

         I pose you your question:

shall you uncover honey / where maggots are?

         I hunt among stones

(The Kingfischers)

* Nota do tradutor Eric Mitchell Sabinson: nos minitraços biobibliográficos de Charles Olson, constantes deste Tranverso — coletânea de poemas traduzidos..., Sabinson propõe a pergunta: “o que é um poema?” e responde que, “É, nas palavras de Olson, nada mais do que energia transferida do lugar de onde o poeta a encontrou ao leitor, através do verso. O verso, nascido do cérebro, viaja pelo ouvido à sílaba, o repositório do intelecto. O verso também nasce no coração, e viaja pela própria respiração do poeta ao poema. A respiração e o verso, em termos ontológicos, sinonimizam: o começo e o fim da poesia é e aqui prefiro o inglês breath, o próprio bafo da vida.
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Transverso — coletânea de poemas traduzidos (onze poetas e dez tradutores), Organização, Nota liminar e Posfácio de José Paulo Paes e notas dos diversos tradutores, Editora Unicamp, Campinas — SP; Charles Olson (1910 1970), estadunidense de Worcester, Massachusets, estudou literatura inglesa na Wesleyan University, doutorando-se em Harvard, foi professor, ensaísta e poeta; consta de sua biografia ter sido o criador do termo ‘pós-modernismo’; como professor, lecionou no Black Moutain College, onde também tornou-se reitor; bibliografia: To Corrado Cagli (poesia, 1947), Letter for Melville (poetry, 1951), Mayan Letters (1953), The Maximus Poems (1956), Call Me Ishmael (1958), Projective Verse (ensaio, 1959), Human Universe and Other Essays (1965) etc.