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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Francisca Júlia da Silva: Anfitrite


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Louco, às doidas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o seu furor colérico passeia...
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.

A seus uivos, o mar, chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.

Sossega o vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge, esplêndida, e nua, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando à tona d'água,

Lá vai... mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas...

(Esfinges — 1903)


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Francisca Júlia, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que em 27 de fevereiro de 1909 a poetisa se casou com Filadelfo Edmundo Münster, telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil, “de poucas posses e limitada bagagem intelectual”, afastou-se da literatura e passou a dedicar-se ao esposo e ao lar, “uma casa modesta mas muito bem cuidada”; o “casamento-relâmpago” foi noticiado pelos jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano, Diário Popular e Commercio de São Paulo; em 1914, Francisca Júlia adoeceu, incômodo que a acompanhou pelos seus seis últimos anos de vida; a partir de 1915 a poetisa voltou a publicar seus textos poéticos através das páginas de A Cigarra; em dezembro de 1916, em entrevista ao jornal A Época, ao ser perguntada sobre sua doença, respondeu:
Tenho alucinações, [...] Há ocasiões que de repente saio da vida real e entro no sonho. Vejo pessoas e seres desconhecidos. A princípio cuidei que me estava tornado médium. Mas não, isto é o princípio do fim. Sinto-me feliz ao observar, dia a dia, que esse fim se aproxima. Sabe, é muito bom morrer. Minha vida encurta-se hora a hora. Tenho ambições, oh! muitas ambições, mas são de outra natureza.”;
em 31 de outubro de 1920, seu marido veio a falecer acometido de tuberculose e após demorado tratamento; a poetisa, que confessara a amigos não ver mais sentido em sua vida sem a companhia do marido, constatada a morte de Filadelfo, se retirou para repousar e “não mais acordou, apesar dos esforços médicos para reanimá-la, vindo a morrer na manhã do dia do enterro do marido." — o atestado de óbito registrou como causa mortishemorragia cerebral”. [informações colhidas da longa matéria Francisca Júlia, a musa impassível, registrada na página virtual do jornal O Vale do Ribeira [Registro — SP e região], de 01.11.2020 — clique no título lá em cima.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Francisca Júlia da Silva Münster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920; a poetisa, uma das precursoras da literatura feminina no país, e considerada a principal representante feminina amante do Parnaso, foi reverenciada e incentivada por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, constituintes da tríade do Parnasianismo no Brasil; Francisca Júlia, leitora de românticos alemães Goethe e Henri Heine , traduziu poemas de Heine para o português.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Francisca Júlia da Silva: O mergulhador

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(idéia de Murger)

Querendo mais um astro em seu cabelo, a clara
Rainha assim falou: “Desce ao mar e passeia
Por esse amplo palácio onde canta a sereia,
E traz-me lá do fundo a pérola mais rara”.

E o bom mergulhador, em busca do tesouro,
Desce, passeia o olhar pela amplidão marinha;
Acha a pérola, e oferta-a à formosa rainha
Numa caixinha azul vermiculada de ouro.

O poeta é assim também: se teu capricho, instante,
Requer, Senhora, um verso, unicamente um verso,
Mas um verso perfeito, áureo, sonoro e terso,
Que diga a tua ideal formosura radiante,

Ao fundo da su’alma imaculada e santa,
Undoso plaino azul, vasto mar onde boia
O dourado palácio onde a sereia canta,
Mergulha, e vai buscar a desejada joia.

(Esfinges — 1903)


* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca da vida de Francisca Júlia, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que em 27 de fevereiro de 1909 a poetisa se casou com Filadelfo Edmundo Münster, telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil, “de poucas posses e limitada bagagem intelectual”, afastou-se da literatura e passou a dedicar-se ao esposo e ao lar, “uma casa modesta mas muito bem cuidada”; o “casamento-relâmpago” foi noticiado pelos jornais O Estado de São Paulo, Correio Paulistano, Diário Popular e Commercio de São Paulo; em 1914, Francisca Júlia adoeceu, incômodo que a acompanhou pelos seus seis últimos anos de vida; a partir de 1915 a poetisa voltou a publicar seus textos poéticos através das páginas de A Cigarra; em dezembro de 1916, em entrevista ao jornal A Época, ao ser perguntada sobre sua doença, respondeu:
Tenho alucinações, [...] Há ocasiões que de repente saio da vida real e entro no sonho. Vejo pessoas e seres desconhecidos. A princípio cuidei que me estava tornado médium. Mas não, isto é o princípio do fim. Sinto-me feliz ao observar, dia a dia, que esse fim se aproxima. Sabe, é muito bom morrer. Minha vida encurta-se hora a hora. Tenho ambições, oh! muitas ambições, mas são de outra natureza.”;
em 31 de outubro de 1920, seu marido veio a falecer acometido de tuberculose e após demorado tratamento; a poetisa, que confessara a amigos não ver mais sentido em sua vida sem a companhia do marido, constatada a morte de Filadelfo, se retirou para repousar e “não mais acordou, apesar dos esforços médicos para reanimá-la, vindo a morrer na manhã do dia do enterro do marido." — o atestado de óbito registrou como causa mortishemorragia cerebral”. [informações colhidas da longa matéria Francisca Júlia, a musa impassível, registrada na página virtual do jornal O Vale do Ribeira [Registro — SP e região], de 01.11.2020 — clique no título lá em cima.
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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume I, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Francisca Júlia da Silva Münster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920; a poetisa, uma das precursoras da literatura feminina no país, e considerada a principal representante feminina amante do Parnaso, foi reverenciada e incentivada por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, constituintes da tríade do Parnasianismo no Brasil; Francisca Júlia, leitora de românticos alemães Goethe e Henri Heine , traduziu poemas de Heine para o português.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Francisca Júlia da Silva: Fonte de Jacó

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Na velha Samaria era Sicar situada;
Ora, em Sicar, Jacó, filho de Isaac, um dia,
Velho já, tarda a mão, à sua gente amada
Uma fonte rasgou d'água límpida e fria.

O Mestre, certa vez, a essa borda abençoada,
(No tempo de Jesus a fonte inda existia)
À hora sexta quedou-se, a fronte angustiada
De dor, a ver passar gentes de Samaria.

Uma samaritana, acaso, à fonte veio:
E ao passar por Jesus, com seu cântaro cheio,
O alto busto ondulou uma graça lasciva:

“Água!” pediu Jesus, “mata-me a sede e a mágoa,
Do cântaro que tens dá-me uma pouca d'água,
Que em troca eu te darei da fonte d'água viva”.

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Francisca Júlia da Silva Munster (1874 1920), nascida em Xiririca, hoje Eldorado SP, poeta, pianista e crítica, teve sua estréia literária em 1891 nas páginas do jornal O Estado de São Paulo e, ao longo dos anos, publicou seus poemas em jornais e revistas (Correio Paulistano e Diário Popular, em São Paulo, e, no Rio de Janeiro, em O Álbum, A Semana, A Cigarra, O Pirralho, Revista do Brasil, A Vida Moderna, etc.); deixou-nos como legado Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903) e Alma Infantil (coletânea de poemas para a infância, 1912), este último em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva; do livro Esfinges, Monteiro Lobato fez uma reedição ampliada em 1920.