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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Ricardo Gonçalves: O batuque

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Vagas constelações de pirilampos
penteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
dos matagais e na amplidão dos campos.

O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
e almas penadas, almas do outro mundo,
passam gemendo pela noite em fora.

Só, no ranchinho de sapé coberto,
encosto o ouvido à taipa esburacada,
e ouço um curiango que soluça, perto...

Lambe a fogueira os últimos gravetos,
e pela noite rola, magoada,
a cantiga nostálgica dos pretos.

                                            (Ipês — pág. 25)

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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ricardo Mendes Gonçalves (1883 — 1916),  paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São PauloEstadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo  teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária na qual foi ferido no braço à bala; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth que é hoje célebre nome desta filosofia; Ricardo Gonçalves deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

domingo, 26 de novembro de 2017

Gofredo da Silva Telles: Medo

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XV

Dizem que o amor assim não tem alcance,
Que nasce rindo e que termina cedo.
Mas tenho medo de que o amor se canse
De guardar os limites de um brinquedo.

Sim, nosso caso é simples, sem um lance
Que dê razão à sombra desse medo.
Que importa! Às vezes, o maior romance
Cabe na história de menor enredo.

Como serão as horas ignoradas?
Teu beijo canta. O mundo é um paraíso,
E a vida ri-se ao longo das estradas.

Olho a vida; sobre ela me debruço...
Mas rindo, tenho medo de que o riso
Possa acabar bem perto do soluço.

(A Fada Nua  págs. 73-74, sem data)

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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Gofredo Teixeira da Silva Telles (1888 —  1980),  fluminense do Rio de Janeiro, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi político, industrial, agricultor e poeta; bibliografia: Mar da Noite (peça em versos, 1909), A Fada Nua (poemas, sem data); foi vereador e prefeito de São Paulo e pertenceu à Academia Paulista de Letras.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Martins Fontes: Viver! Sinto este verbo em plena glória! . . . [soneto]

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Viver! Sinto este verbo em plena glória!
Vivo na antemanhã alvissareira,
Que, prenunciando o termo da vitória,
Vai redimir a Humanidade inteira!

Viver! tendo a visão divinatória
De que vai abrolhar da sementeira,
Do húmus fecundo, da terrena escória,
O rosal da justiça verdadeira!

A batalha em que vivo me apaixona!
Vejo, à maré montante, vir à tona
O mistério do pélago iracundo...

E sonho, ao resplendor do meio-dia,
Ao realizar-se a benção da Anarquia,
O sol do amor pacificando o mundo!

(Sombra, Silêncio e Sonho  apud Poesias
Completas  6º volume – pág. 215, 1936)

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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Martins Fontes (1884 — 1937), paulista de Santos,  foi médico sanitarista, poeta, conferencista e jornalista; escreveu para os jornais A Gazeta Diário Popular, de São Paulo, Diário de SantosCidade de Santos e também para outros periódicos e revistas; deixou-nos extensa produção literária em verso e prosa e também outras de caráter científico; algumas de suas obras:  Granada  (poema, 1899), O Lezado (1908), Chicouuu (versos, 1917), A Gripe em Iguape  (1920),  Arlequinada (fantasia, 1922), Boêmia galante  (versos, 1923), Rosicler (versos, 1923),  Prometeu (versos, 1924),  Partida para Cítera (teatro, 1925), Volúpia (versos, 1925), Decameron (contos, 1925), O céu verde (versos, 1926), O Colar Partido (prosa, 1927), A flauta encantada (poesias, 1931), Sombra, Silêncio e Sonho (1933) e tantos outros títulos.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ricardo Gonçalves: A Cisma do Caboclo

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                         A Valdomiro Silveira

Cisma o caboclo à porta da cabana.
Declina o sol, mas, rúbido, espadana
        Ondas fulvas de luz.
No terreiro, entre espigas debulhadas,
Arrulham, perseguindo-se a bicadas,
        Dois casais de pombinhos parirus.

A criação de penas se empoleira;
Come a ração no cocho da mangueira
        Um velho pangaré.
E uma vaca leiteira e bois de carro
Pastam junto à casinha, que é de barro,
        Coberta de sapé.

Longe, uma tropa trota pela estrada.
E a viração das matas, impregnada
        De perfumes sutis,
Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade
O soturno queixume de saudade
        Das pombas juritis.

Cisma o caboclo. Pensa na morena
Que vira numa noite de novena
        Orando ao pé do altar.
Que vira... e que, por mal de seus pecados,
Tinha os olhos profundos e rasgados
        E um riso de matar.

Branco, de fofos, era o seu vestido.
E ele, ao vê-la, sentindo-se ferido
        Em pleno coração,
Baixinho suspirou: "Nossa Senhora!
Ai, meu São Bom Jesus de Pirapora
        Da minha devoção!"

Depois não se conteve e, num fandango,
Furtou-lhe um beijo aos lábios de morango
        O diabo do rapaz.
E ela volveu zangada: "Malcriado!
Seu vigário já disse que é pecado.
        Aquilo não se faz!..."

E o caboclo medita. O sol em chama
Como agora há pouquinho não derrama
        Ondas fulvas de luz.
O córrego soluça, a noite desce,
E vem dos capoeirões onde anoitece
        O trilo vesperal dos inambus.

(Ipês  sem data, págs.43 a 45)

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Antologia da Poesia Paulista II Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo  SP; Ricardo Mendes Gonçalves (1883 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo  teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido no braço à bala; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; Ricardo Gonçalves deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

José Bonifácio - o Moço: Se te procuro, fujo de avistar-te; . . . [soneto]

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Se te procuro, fujo de avistar-te;
E se te quero, evito mais querer-te;
Desejo quase, quase aborrecer-te,
E se te fujo, estás em toda parte.

Distante, corro logo a procurar-te,
E perco a voz, e fico mudo ao ver-te,
Se me lembro de ti, tento esquecer-te,
E se te esqueço, cuido mais amar-te.

O pensamento assim, partido ao meio,
E o coração assim também partido,
Chamo-te e fujo, quero-te e receio!

Morto por ti, eu vivo dividido,
Entre o meu e o teu ser sinto-me alheio,
E sem saber de mim, vivo perdido.

(Memórias para a História da Academia
 de São Paulo —  de Spencer Vampré,
 1924, 2º volume, pág. 28)

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Antologia da Poesia Paulista II  Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo SP; José Bonifácio de Andrada e Silva, o Moço (1827 1886), nascido em Bordéus  França, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, jornalista, orador, jurista, professor e político; sobrinho-neto de José Bonifácio (o Velho, Patriarca da Independência), ao retornar do exílio imposto a sua família por ocasião da dissolução da Assembléia Constituinte de 1823, fixou residência em São Paulo, foi deputado provincial e deputado geral por esta província e senador do Império; lecionou na Faculdade Direito de Recife e na de São Paulo; escreveu e publicou Rosas e Goivos (poesias, 1848 ou 1849), Poesias (colecionadas por José Maria Vaz Pinto, sem data); a obra As Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (de Luiz Gama, 1861) inclui 10 poemas do poeta José Bonifácio.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Álvares de Azevedo: O lenço dela

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Quando a primeira vez, da minha terra
Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.
 
Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos...
E deu-me o lenço que molhava o pranto.
 
Quantos anos contudo já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto...

Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto!

(Lira dos Vinte Anos  3ª parte 
3º volume das Obras de Manuel
Antônio Álvares de Azevedo  1862)

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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831 1852), paulista e paulistano, poeta, chegou a cursar a Faculdade de Direito de São Paulo (USP Largo São Francisco), mas teve seus estudos interrompidos ao contrair tuberculose, doença que o levou ao falecimento aos vinte anos de idade; devido a vinda prematura da morte, os textos do poeta só foram publicados postumamente: Lira dos Vinte Anos (poesia, 1853), Obras (1855), Macário (peça de teatro, 1855), A Noite na Taverna (1878), O Conde Lopo (1886).