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segunda-feira, 2 de junho de 2025

Gabriela Mistral: Todas íamos ser rainhas

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Todas íamos ser rainhas
de quatro reinos sob o mar:
Rosália com Efigênia
e Lucila com Soledade.

Lá do vale de Elqui, cingido
por cem montanhas, talvez mais,
que com dádivas ou tributos
ardem em rubro ou açafrão,

nós dizíamos embriagadas
com a convicção de uma verdade,
que havíamos de ser rainhas
e chegaríamos ao mar.

Com aquelas tranças de sete anos
e camisolas de percal,
perseguindo tordos fugidos
sob a sombra do figueiral,

dizíamos que os nossos reinos,
dignos de fé como o Corão,
seriam tão perfeitos e amplos
que se estenderiam ao mar.

Quatro esposos desposaríamos
quando o tempo fosse chegado,
os quais seriam reis e poetas
como David, rei de Judá.

E por serem grandes os reinos
eles teriam, por sinal,
mares verdes, repletos de algas
e a ave selvagem do faisão.

Por possuírem todos os frutos,
a árvore do leite e do pão,
o guaiaco não cortaríamos
nem morderíamos metal.

Todas íamos ser rainhas
e de verídico reinar;
porém nenhuma foi rainha
nem no Arauco nem em Copán...

Rosália beijou marinheiro
que já tinha esposado o mar,
e ao namorador nas Guaitecas
devorou-o a tempestade.

Sete irmãos criou Soledade
e seu sangue deixou no pão.
E seus olhos quedaram negros
de nunca terem visto o mar.

Nos vinhedos de Montegrande
ao puro seio de trigal,
nina os filhos de outras rainhas
porém os seus nunca, jamais.

Efigênia achou estrangeiro
no seu caminho e sem falar
seguiu-o sem saber-lhe o nome
pois o homem se assemelha ao mar.

Lucila que falava ao rio,
às montanhas e aos canaviais,
esta, nas luas da loucura
recebeu reino de verdade.

Entre as nuvens contou dez filhos,
fez nas salinas seu reinado,
viu nos rios os seus esposos
e seu manto na tempestade.

Porém lá no vale de Elqui,
onde há cem montanhas ou mais,
cantam as outras que já vieram,
como as que vierem cantarão:

Na terra seremos rainhas
e de verídico reinar,
e sendo grande os nossos reinos,
chegaremos todas ao mar.

Gabriela Mistral

Todas íbamos a ser reinas

Todas íbamos a ser reinas,
de cuatro reinos sobre el mar:
Rosalía con Efigenia
y Lucila con Soledad.

En el valle de Elqui, ceñido
de cien montañas o de más,
que como ofrendas o tributos
arden en rojo y azafrán.

Lo decíamos embriagadas,
y lo tuvimos por verdad,
que seríamos todas reinas
y llegaríamos al mar.

Con las trenzas de los siete años,
y batas claras de percal,
persiguiendo tordos huidos
en la sombra del higueral.

De los cuatro reinos, decíamos,
indudables como el Korán,
que por grandes y por cabales
alcanzarían hasta el mar.

Cuatro esposos desposarían,
por el tiempo de desposar,
y eran reyes y cantadores
como David, rey de Judá.

Y de ser grandes nuestros reinos,
ellos tendrían, sin faltar,
mares verdes, mares de algas,
y el ave loca del faisán.

Y de tener todos los frutos,
árbol de leche, árbol del pan,
el guayacán no cortaríamos
ni morderíamos metal.

Todas íbamos a ser reinas,
y de verídico reinar;
pero ninguna ha sido reina
ni en Arauco ni en Copán...

Rosalía besó marino
ya desposado con el mar,
y al besador, en las Guaitecas,
se lo comió la tempestad.

Soledad crió siete hermanos
y su sangre dejó en su pan,
y sus ojos quedaron negros
de no haber visto nunca el mar.

En las viñas de Montegrande,
con su puro seno candeal,
mece los hijos de otras reinas
y los suyos nunca-jamás. *

Efigenia cruzó extranjero
en las rutas, y sin hablar,
le siguió, sin saberle nombre,
porque el hombre parece el mar.

Y Lucila, que hablaba a río,
a montaña y cañaveral,
en las lunas de la locura
recibió reino de verdad.

En las nubes contó diez hijos
y en los salares su reinar,
en los ríos ha visto esposos
y su manto en la tempestad.

Pero en el valle de Elqui, donde
son cien montañas o son más,
cantan las otras que vinieron
y las que vienen cantarán:

«En la tierra seremos reinas,
y de verídico reinar,
y siendo grandes nuestros reinos,
llegaremos todas al mar».

[Tala — 1938]
(Antología: Gabriela Mistral en Verso y Prosa
Edición conmemorativa, Real Academia Española —
Asociación de la Lengua Española, febrero de 2010,
World Color Perú S. A., Lima — Perú)

* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que, no cotejamento do poema original do livro Antología: Gabriela Mistral en Verso y Prosa — Edición conmemorativa ..., com páginas da internet, encontrou-se a variável abaixo para a 12ª estrofe do poema:
En las viñas de Montegrande,
con su puro seno candeal,
mece los hijos de otras reinas
y los suyos no mecerá.”
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Poesias Escolhidas: Gabriela Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards, Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1971, Editora Ópera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

segunda-feira, 17 de março de 2025

Gabriela Mistral: A montanha de noite

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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

Acenderemos fogos na montanha.
Lenhadores, a noite se aproxima
e astro nenhum trará nos escaninhos.
Trinta fogueiras hoje acenderemos.

Porque a tarde quebrou há pouco um vaso
de sangue no horizonte. E é mau agouro.
Juntos fiquemos ao redor do fogo
para que não habite em nós o espanto.

Esse fragor de catadupas lembra
um incansável galopar de potros
pela montanha. Enquanto sobe um outro
fragor dos nossos temerosos peitos.

Dizem que pela noite o êxtase negro
os pinheiros esquecem, e a um estranho
sinal secreto, sua multidão
move-se, vagarosa, na montanha.

A esmeralda da neve então adquire
riscando a treva um arabesco oblíquo.
Sobre o ossário da noite que se estende
Representa um bordado de ossos, lívido.

Há um alude invisível que dos montes
desliza mas não chega ao vale inerme.
Há morcegos que vêm, de asas rugosas,
roçar o rosto do pastor que dorme.

Dizem que pelos cimos apertados
da serra próxima, andam junto à sombra
daninhos animais que o vale ignora
nascidos, como grenhas, da montanha.

Já me penetra o coração o frio
do cume ao lado. Penso: porventura
os mortos que deixaram por impuras
as cidades, escolhem o regaço

recôndito e ermo dos desfiladeiros
de escarpa azul que alba nenhuma banha
e, quando a noite adensa seus betumes,
tal como um mar invadem a montanha.

Rachai troncos espessos e fragrantes,
pinheiros que dão chama abrasadora,
apertai bem o cerco da fogueira
porque há frio e angústia, lenhadores.

Gabriela Mistral

La montaña de noche

Haremos fuegos sobre la montaña.
La noche que desciende, leñadores,
no echará al cielo ni su crencha de astros.
¡Haremos treinta fuegos brilladores!

Que la tarde quebró un vaso de sangre
sobre el ocaso, y es señal artera.
El espanto se sienta entre nosotros
si no hacéis corro en torno de la hoguera.

Semeja este fragor de cataratas
un incansable galopar de potros
por la montaña, y otro fragor sube
de los medrosos pechos de nosotros.

Dicen que los pinares en la noche
dejan su éxtasis negro, y a una extraña,
sigilosa señal, su muchedumbre
se mueve, tarda, sobre la montaña.

La esmaltadura de la nieve adquiere
en la tiniebla un arabesco avieso:
sobre el osario inmenso de la noche,
finge un bordado lívido de huesos.

E invisible avalancha de neveras
desciende, sin llegar, al valle inerme,
mientras vampiros de arrugadas alas
rozan el rostro del pastor que duerme.

Dicen que en las cimeras apretadas
de la próxima sierra hay alimañas
que el valle no conoce y que en la sombra,
como greñas, desprende la montaña.

Me va ganando el corazón el frío
de la cumbre cercana. Pienso: “Acaso
los muertos que dejaron por impuras
las ciudades, elijen el regazo

recóndito de los desfiladeros
de tajo azul, que ningún alba baña,
¡y al espesar la noche sus betunes
como una mar invadan la montaña”.

Tronchad los leños tercos y fragantes,
salvias y pinos chisporroteadores,
y apretad bien el corro en torno al fuego,
¡que hace frío y angustia, leñadores!

(Desolación 1922)
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Poesias Escolhidas: Gabriela Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards, Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Gabriela Mistral: A bailarina

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

A bailarina agora está dançando
a dança de perder quanto possuía.
Deixa cair tudo o que nela havia,
seus pais e irmãos, pomares e campinas,
o rumor de seus rios, os caminhos,
o conto de seu lar, o próprio rosto,
seu nome e seus brinquedos infantis,
como quem deixa tudo quanto teve
tombar de selo, de regaço e de alma.

Na lâmina do dia e do solstício
baila sorrindo seu despojamento.
O que atiram seus braços é esse mundo
que ama e detesta, que seduz e mata,
a terra que se apresta a colher sangue,
a noite dos saciados que não dormem
e o mal-estar dos que não têm pousada.

Sem nome, raça ou credo, desnudada
de tudo e de si mesma, ela se entrega
pura e formosa, com seus pés voadores,
sacudida como árvore e no centro
do redemoinho, feita testemunho.

Não está dançando o voa de albatrozes
salpicados de sal e jogos de ondas;
tampouco os alçamentos e a derrota
dos canaviais com força fustigados;
tampouco o vento agitador de velas,
nem o sorriso dos mais altos caules.

Não lhe deem o nome de batismo.
Soltou-se de sua estirpe e sua carne,
sufocou a cantiga de seu sangue
e a balada de sua adolescência.

Sem saber, nossas vidas lhe atiramos
como escarlate veste envenenada;
e baila assim mordida de serpentes
que alacremente e livremente a atingem
e fazem-na cair em estandarte
vencido ou em grinalda espedaçada.

Sonâmbula, mudada no que odeia,
sem saber de si mesma dança, alheia,
seus gestos distribuindo e recolhendo,
portadora de nossos estertores,
cortando os ares que não mais refrescam,
única e torvelinho, vil e isenta.

Ah! somos nós seu ofegante peito,
sua etérea palidez, o louco grito
lançado para poentes e nascentes,
o violáceo calor de suas veias
o abandono de Deus de sua infância.

Gabriela Mistral

La bailarina

La bailarina ahora está danzando
la danza del perder cuanto tenía.
Deja caer todo lo que ella había,
padres y hermanos, huertos y campiñas,
el rumor de su río, los caminos,
el cuento de su hogar, su propio rostro
y su nombre, y los juegos de su infancia
como quien deja todo lo que tuvo
caer de cuello y de seno y de alma.

En el filo del día y el solstício
baila riendo su cabal despojo.
Lo que avientan sus brazos es el mundo
que ama y detesta, que sonríe y mata,
la tierra puesta a vendimia de sangre
la noche de los hartos que ni duermen
y la dentera del que no ha posada.

Sin nombre, raza ni credo, desnuda
de todo y de sí misma, da su entrega,
hermosa y pura, de pies voladores.
Sacudida como árbol y en el centro
de la tornada, vuelta testimonio.

No está danzando el vuelo de albatroses
salpicados de sal y juegos de olas;
tampoco el alzamiento y la derrota
de los cañaverales fustigados.
Tampoco el viento agitador de velas,
ni la sonrisa de las altas hierbas.

El nombre no le den de su bautismo.
Se soltó de su casta y de su carne
sumió la canturia de su sangre
y la balada de su adolescencia.

Sin saberlo le echamos nuestras vidas
como una roja veste envenenada
y baila así mordida de serpientes
que alácritas y libres le repechan
y la dejan caer en estandarte
vencido o en guirnalda hecha pedazos.

Sonámbula, mudada en lo que odia,
sigue danzando sin saberse ajena
sus muecas aventando y recogiendo
jadeadora de nuestro jadeo,
cortando el aire que no la refresca
única y torbellino, vil y pura.

Somos nosotros su jadeado pecho,
su palidez exangüe, el loco grito
tirado hacia el poniente y el levante
la roja calentura de sus venas,
el olvido del Dios de sus infancias.

(Lagar — 1954)
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Poesias Escolhidas: Gabriela Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards, Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Gabriela Mistral: País da ausência

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

É o país da ausência
estranho país,
mais leve do que anjo
e indício sutil,
cor de alga em desmaio
e ave peregrina,
com a idade de sempre
mas nunca feliz.

Jamais oferece
romã ou jasmim;
não tem claros céus
nem mares de anil;
entre outros, seu nome
de ninguém o ouvi.
Em país sem nome
vou por fim dormir.

Nem ponte nem barca
me trouxe até aqui;
nunca me falaram
sobre este país;
eu não o buscava
nem o descobri.

Parece uma fábula
que eu mesma teci;
sonho de tomar
e de desistir;
pátria onde se encontram
minha morte e vida.

Nasceu-me de cousas
que não são país:
de pátrias e pátrias
que tive e perdi;
de muitas criaturas
que morrerem vi;
de quanto era meu
e só foi de mim.

Perdi cordilheiras
onde me detive;
pomares com frutos
de suave delícia;
ilhas, canaviais
de verdes matizes;
tudo isso, com as sombras
a se confundirem
cerradas e amantes,
tornou-se país.

Cabelos de névoa
sem dorso e cerviz,
alentos de outrora
sempre a me seguirem
por percursos longos
viraram país.
Em país sem nome
vou por fim dormir.

Gabriela Mistral

País de la ausencia

A Ribeiro Couto

País de la ausencia,
extraño país,
más ligero que ángel
y seña sutil,
color de alga muerta,
color de neblí,
con edad de siempre,
sin edad feliz.

No echa granada,
no cría jazmín,
y no tiene cielos
ni mares de añil.
Nombre suyo, nombre,
nunca se lo oí,
y en país sin nombre
me voy a morir.

Ni puente ni barca
me trajo hasta aquí.
No me lo contaron
por isla o país.
Yo no lo buscaba
ni lo descubrí.

Parece una fábula
que yo me aprendí,
sueño de tomar
y de desasir.
Y es mi patria donde
vivir y morir.

Me nació de cosas
que no son país;
de patrias y patrias
que tuve y perdí;
de las criaturas
que yo vi morir;
de lo que era mío
y se fue de mí.

Perdí cordilleras
en donde dormí;
perdí huertos de oro
dulces de vivir;
perdí yo las islas
de caña y añil,
y las sombras de ellos
me las vi ceñir
y juntas y amantes
hacerse país.

Guedejas de nieblas
sin dorso y cerviz,
alientos dormidos
me los vi seguir,
y en años errantes
volverse país.
Y en país sin nombre
me voy a morir.

(Tala — 1938)
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Poesias Escolhidas: Gabriela Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards, Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910 validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.

domingo, 17 de novembro de 2024

Gabriela Mistral: A casa

 
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[traduzido por Henriqueta Lisboa]

A mesa está posta, meu filho,
em alvura quieta de nata;
e as quatro paredes de barro
em tons de claro azul rebrilham.
Este é o sal, este é o azeite,
e o pão que quase fala, ao centro.
Ouro mais lindo que o do pão
não se acha em fruta nem em giesta;
e é seu odor de espiga e forno
uma ventura que não cansa.
Nós o partimos juntos, filho,
firmes os dedos, palma branda,
e te assombras vendo-o tão branca
flor nascida da terra escura.

Baixa essas mãos para o alimento
que tua mãe assim o faz.
Os trigos pertencem ao ar
e são do sol e são da enxada;
mas este pão “cara de Deus”
nem sempre chega a toda casa.
E se outras crianças não o têm,
melhor será não o tocarmos,
melhor será não o comermos,
sentindo-nos envergonhados.

Filho, a fome, com seus trejeitos,
em redemoinho roda as searas;
buscam-se porém não se encontram
o pão e a fome corcovada.
Para que o ache, se entra agora,
guarde-se o pão para amanhã;
o fogo ardendo marque a porta
que o índio quéchua não fechava.
E se virmos comer a fome
dormiremos de corpo e de alma.

Gabriela Mistral

La Casa

La mesa, hijo, está tendida,
en blancura quieta de nata,
y en cuatro muros azulea,
dando relumbres, la cerámica.
Esta es la sal, este el aceite
y al centro el Pan que casi habla.
Oro más lindo que oro del Pan
no está ni en fruta ni en retama,
y da su olor de espiga y horno
una dicha que nunca sacia.
Lo partimos, hijito, juntos,
con dedos duros y palma blanda,
y tú lo miras assombrado
de tierra negra que da flor blanca.

Baja la mano de comer,
que tu madre también la baja.
Los trigos, hijo, son del aire,
y son del sol y de la azada;
pero este Pan «cara de Dios»*
no llega a mesas de las casas;
y si otros niños no lo tienen,
mejor, mi hijo, no lo tocaras,
y no tomarlo mejor sería
con mano y mano avergonzadas.

Hijo, el Hambre, cara de mueca,
en remolino gira las parvas,
y se buscan y no se encuentran
el Pan y el Hambre corcovada.
Para que lo halle, si ahora entra,
el Pan dejemos hasta mañana;
el fuego ardiendo marque la puerta,
que el indio qechua nunca cerraba,
¡y miremos comer al Hambre,
para dormir con cuerpo y alma!

(Ternura — 1924)

* En Chile, el pueblo llama al pan “Cara de Dios”.
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Poesias Escolhidas: Gabriela Mistral, Tradução de Henriqueta Lisboa, Estudo Introdutivo de Jorge Edwards, Ilustrações de Marianne Clouzot e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Gabriela Mistral, por Dr. Kjell Strömberg — Biblioteca dos Prêmio Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Gabriela Mistral (1889 1957), pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, chilena de Vicuña, educada por sua meia irmã, Ermelina Molina Alcayaga, em sua cidade natal a família não tinha dinheiro para custear sua formação em pedagogia , foi ajudante de professora, professora, poeta, educadora, diplomata e feminista; em 1904, começou a trabalhar como professora ajudante em La Serena, e também deu início a seus primeiros textos, os quais foram publicados no jornal serenense El Coquimbo e, depois, no La Voz de Elqui, de Vicuña; em 1908, deu aulas em La Cantera e em Los Cerritos; só em 1910, validou seus conhecimentos na Escola Normal nº 1 de Santiago e obteve o título oficial de Professora do Estado, passando a desenvolver a docência no nível secundário; posteriormente, mesmo sem ter frequentado o Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, foi contratada pelo governo do México “para assentar as bases de seu novo modelo educacional, modelo que atualmente se mantém vigente quase em sua essência ...”; em 1914, depois de obter a primeira premiação em concurso de literatura, por seus Sonetos de la Muerte, passou a fazer uso do pseudônimo Gabriela Mistral; como educadora, visitou o México, os Estados Unidos e a Europa, e foi professora convidada nas universidades de Barnard, Middlebury e Porto Rico; suas obras: em poesia: Sonetos de la Muerte (1914), Desolación (1922), Ternura (1924), Tala (1938), Lagar (1954), Poema de Chile (1967), em prosa: Lecturas para Mujeres (1923), Recados Contando a Chile (1957), e outros títulos em verso e prosa; Gabriela Mistral trabalhou como cônsul de seu país em diversas cidades da Europa e da América e teve sua poesia traduzida para o inglês, francês, italiano, alemão, sueco e também por autores brasileiros; por sua obra, entre outras premiações, foi laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945.