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Com este dicionarinho assaz útil:
Agora que
muita gente jovem está se iniciando nos meandros da política, compilamos este
pequeno vocabulário especialmente para ajudar os estreantes — o que não quer
dizer que ele não possa ser consultado também pelos políticos mais velhos que
queiram melhorar os seus conhecimentos:
BASES, CONSULTAR — Retiro que faz um político quando é apanhado ‘em cima do
muro’ (ver MURO, EM CIMA DO) e
intimado a descer. É um recurso para ganhar tempo, como fazem os técnicos de
basquete quando o seu time está no sufoco.
CINTURA, JOGO DE — Aparelhinho que os políticos veteranos usam para não serem
atropelados pelos acontecimentos nem caírem da sela. É uma adaptação do
mecanismo interno daquele brinquedo antigo chamado João Teimoso, que quando
caía se levantava rápido.
EQÜIDISTÃNCIA — Atitude do político que não quer se precipitar numa
definição. Instado a dar opinião ou tomar partido numa pendência, o político
esperto alega eqüidistância. Daí a ir para cima do muro (ver MURO, EM CIMA DO), é um passo, ou
melhor, um pulo.
IBOPE —
Entidade que os políticos estão cultuando cada vez mais. Todo político quer ter
um bom Ibope, como os católicos gostam de ter uma imagem do santo de sua
devoção. Mas o Ibope não é milagroso. Ele não dá votos, apenas emite boletins
registrando possibilidades momentâneas. E mais: os boletins do Ibope não são
escritos em mármore nem em bronze: podem falhar.
MOSCA AZUL — (Musca azzurum). Inseto invisível que costuma picar políticos. Uma vez
picada, a pessoa entra em profundo devaneio, perde todo contato com a realidade
e passa a fazer planos grandiosos ‘para quando for governador, ministro,
presidente. É muito difícil encontrar-se um repelente para a mosca azul ou um
remédio para a síndrome que ela acarreta, primeiro porque ela é invisível, e
segundo porque a vítima não acredita que está doente.
MURO, EM CIMA DO — Poleiro aonde sobem os políticos quando os ventos estão
desarvorados e não se sabe qual a corrente que vai prevalecer. Muitos
consideram o muro um recurso sábio porque do alto dele a pessoa veria melhor o
que se passa dos dois lados. Pode ser, mas há o perigo de ser notado. A posição
certa para quem sobe no muro é ficar enganchado, como numa sela, para poder
saltar facilmente para um lado ou para o outro; qualquer hesitação nessa hora
pode custar caro. (Ver EQÜIDISTÃNCIA)
PACOTE —
Na acepção política, a palavra não vem do latim paccu, mas do inglês package. Trata-se de uma brincadeira que os governos militares
faziam com o público, inspirados ao quem parece no antigo entrudo. É uma das
peças do chamado ‘entulho autoritário’ que a Nova República prometeu enterrar.
Vamos ver.
SAPO, ENGOLIR — Teste a que são submetidos os políticos para se saber se
usam o aparelhinho chamado “jogo de cintura” (q.v.) quem tem o aparelho faz
careta mas engole e vai em frente; quem não tem se arrepia e refuga. É a prova
de fogo do político.
VICE — Balão vazio que de repente pode se encher. É distribuído
pelos partidos na época de se formar chapas para eleições majoritárias ou para
prefeitos. É o momento em que os políticos revelam o seu desprendimento, a sua
magnanimidade. Ninguém avança para arrebatar o balão chamado vice, cada um cede
a honra aos outros, gentilmente. Mas o vice de hoje pode ser o titular de
amanhã. Vejam os casos de Floriano Peixoto, Nilo Peçanha, Delfim Moreira, Café
Filho, João Goulart etc. *

* Nota deste
Verso e Conversa: atualizando a lista de vices citados na crônica, este
atrevido aprendiz de blogueiro acrescenta outros bem mais recentes: José
Sarney, Itamar Franco, Michel Temer, por enquanto.
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O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número
02 — Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J.
J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 — 1999), goiano de Corumbá de Goiás,
que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e
ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo
trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC
— Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas;
considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira,
escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966),
A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados
da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas
(1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo
do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas
nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal;
em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia
Brasileira de Letras; de sua biografia, também consta ter "restaurado"
O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano
CLX — Número 03 (1989).








