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quarta-feira, 8 de abril de 2020

José J. Veiga: Enriqueça seus conhecimentos

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Com este dicionarinho assaz útil:

                    Agora que muita gente jovem está se iniciando nos meandros da política, compilamos este pequeno vocabulário especialmente para ajudar os estreantes  o que não quer dizer que ele não possa ser consultado também pelos políticos mais velhos que queiram melhorar os seus conhecimentos:

BASES, CONSULTAR Retiro que faz um político quando é apanhado ‘em cima do muro’ (ver MURO, EM CIMA DO) e intimado a descer. É um recurso para ganhar tempo, como fazem os técnicos de basquete quando o seu time está no sufoco.

CINTURA, JOGO DE Aparelhinho que os políticos veteranos usam para não serem atropelados pelos acontecimentos nem caírem da sela. É uma adaptação do mecanismo interno daquele brinquedo antigo chamado João Teimoso, que quando caía se levantava rápido.

EQÜIDISTÃNCIA Atitude do político que não quer se precipitar numa definição. Instado a dar opinião ou tomar partido numa pendência, o político esperto alega eqüidistância. Daí a ir para cima do muro (ver MURO, EM CIMA DO), é um passo, ou melhor, um pulo.

IBOPE Entidade que os políticos estão cultuando cada vez mais. Todo político quer ter um bom Ibope, como os católicos gostam de ter uma imagem do santo de sua devoção. Mas o Ibope não é milagroso. Ele não dá votos, apenas emite boletins registrando possibilidades momentâneas. E mais: os boletins do Ibope não são escritos em mármore nem em bronze: podem falhar.

MOSCA AZUL (Musca azzurum). Inseto invisível que costuma picar políticos. Uma vez picada, a pessoa entra em profundo devaneio, perde todo contato com a realidade e passa a fazer planos grandiosos ‘para quando for governador, ministro, presidente. É muito difícil encontrar-se um repelente para a mosca azul ou um remédio para a síndrome que ela acarreta, primeiro porque ela é invisível, e segundo porque a vítima não acredita que está doente.

MURO, EM CIMA DO Poleiro aonde sobem os políticos quando os ventos estão desarvorados e não se sabe qual a corrente que vai prevalecer. Muitos consideram o muro um recurso sábio porque do alto dele a pessoa veria melhor o que se passa dos dois lados. Pode ser, mas há o perigo de ser notado. A posição certa para quem sobe no muro é ficar enganchado, como numa sela, para poder saltar facilmente para um lado ou para o outro; qualquer hesitação nessa hora pode custar caro. (Ver EQÜIDISTÃNCIA)

PACOTE Na acepção política, a palavra não vem do latim paccu, mas do inglês package. Trata-se de uma brincadeira que os governos militares faziam com o público, inspirados ao quem parece no antigo entrudo. É uma das peças do chamado ‘entulho autoritário’ que a Nova República prometeu enterrar. Vamos ver.

SAPO, ENGOLIR Teste a que são submetidos os políticos para se saber se usam o aparelhinho chamado “jogo de cintura” (q.v.) quem tem o aparelho faz careta mas engole e vai em frente; quem não tem se arrepia e refuga. É a prova de fogo do político.

VICE Balão vazio que de repente pode se encher. É distribuído pelos partidos na época de se formar chapas para eleições majoritárias ou para prefeitos. É o momento em que os políticos revelam o seu desprendimento, a sua magnanimidade. Ninguém avança para arrebatar o balão chamado vice, cada um cede a honra aos outros, gentilmente. Mas o vice de hoje pode ser o titular de amanhã. Vejam os casos de Floriano Peixoto, Nilo Peçanha, Delfim Moreira, Café Filho, João Goulart etc. *

Templo Cultural Delfos: José J. Veiga - escritor goiano cosmopolita

* Nota deste Verso e Conversa: atualizando a lista de vices citados na crônica, este atrevido aprendiz de blogueiro acrescenta outros bem mais recentes: José Sarney, Itamar Franco, Michel Temer, por enquanto.
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O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 — Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia, também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

José J. Veiga: Índios brasileiros

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                    Desde que Adão e Eva se casaram  se é que a Bíblia tinha mesmo razão  a população do mundo não parou de crescer. Para ficarmos apenas nos últimos 20 anos, a população do globo passou de 3,6 bilhões em 1970 para 4,4 bilhões em 1980. E para 1990 está projetado um crescimento para 5 bilhões *. Em todos os continentes, exceto a parte ocidental da Europa, as populações têm crescido sistematicamente apesar das guerras, da fome e de outras calamidades. A população do Brasil, que era cerca de 40 milhões nos anos 30, anda hoje (1983) por volta de 140 milhões; e segundo projeções de uma entidade chamada Worldwatch Institute, sediada em Washington, se estabilizará em cerca de 345 milhões lá por 20702080.
                    Mas o nosso crescimento populacional não tem sido um crescimento uniforme. Há um grupo no país que vem seguindo em direção inversa há séculos, isto é, vem decrescendo em número desde a chegada dos portugueses. Segundo dados da Fundação Nacional do Índio  precários sem dúvida  no ano de 1500 viviam nestas terras cerca de 5 milhões de indígenas. Hoje (1983), segundo ainda a Funai, daqueles 5 milhões restam apenas 220 mil. Noutras palavras, em vez de propalada explosão demográfica que estaria “ameaçando” os países do chamado Terceiro Mundo, a população indígena brasileira sofreu foi uma monumental implosão; em cinco séculos ela se reduziu a pouco mais de quatro por cento do que era em 1500.
                    Ora, se em cinco séculos desapareceram 4,8 milhões de índios brasileiros, perdemos índios ao ritmo de quase um milhão por século, ou 90.000 por ano, 7.500 por mês, ou 250 por dia. Se o ritmo se mantiver, em mais vinte e poucos anos zeraremos a tabuleta, e não haverá mais índio no Brasil, a não ser em fotografia, em desenho e em blocos de carnaval.
                    E teremos aplicado ao pé da letra o famoso lema norte-americano do tempo das diligências, segundo o qual índio só é bom depois de morto.

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* Nota deste Verso e Conversa: Este atrevido aprendiz de blogueiro traz para quase hoje os números das populações mundial, brasileira e indígena brasileira:
  • população mundial: 7,7 bilhões de hab., fonte www.worldometers.info  — 2017;
  • população brasileira: 210.506.901 hab., fonte IBGE — setembro de  2019; 
  • população brasileira indígena: 817.963 hab., fonte IBGE —  2010.
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Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 — Restaurado por José J. Veiga, 1989, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia, também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

José J. Veiga: Cuidado com o Acento ou Deixe de Ser Alienado

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                    Você aí, que pronuncia transístor e pensa que está fazendo bonito, abra o olho. Em nossa língua, todas as palavras terminadas em or têm acento na última sílaba. Mesmo as que designam aparelhos, dispositivos ou partes de equipamento eletroeletrônico, que vieram do inglês, não fogem à regra. Alguns exemplos, porque a lista é enorme: disjuntor, capacitor, ejetor, seletor, retentor, projetor, rotor, alternador, comutador, conversor etc. Os desvios não chegam a ser exceções porque só incluem palavras não-técnicas vinda diretamente do latim, como júnior, sênior, flúor.
                    Quem pronuncia transístor devia, por coerência, dizer também transmíssor, recéptor, selétor.
                     Mas os americanos, que inventaram a tal pecinha, dizem tranzístor ou transístor.
                     E você com isso? Você por acaso nasceu em Chattanooga, ou Yoknapatawpha, ou Much-Binding-on-the Marsh, que são os caixa-pregos lá deles? É melhor ir se acostumando a dizer transistôr, se não quiser passar por pedante ou por agente da CIA.

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O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 — Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia, também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

José J. Veiga: O inutilútil

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                    Há mais de dois mil anos o sábio Chuang Tzu ensinava que no mundo não existe grande nem pequeno, bom nem mau, útil nem inútil por si: esses conceitos são ilusórios se não forem encarados no contexto geral. Noutras palavras, tudo pode ser bonito ou feio, bom ou mau, útil ou inútil, conforme a vizinhança. O “bonito” precisa do “feio” para ser bonito; o “grande” precisa do “pequeno” para ser grande, e assim por diante. Tudo que está no mundo tem um motivo para estar aí; o fato de ignorarmos esse motivo não significa que determinada coisa esteja aí de “penetra”.
                    Existem em todo o mundo certas plantas que a tradição convencionou chamar de “folhagem inútil”, “mato”, “erva daninha”, como se na natureza também vigorasse uma divisão em classes, a dos nobres e a dos plebeus.
                    Será que existem mesmo plantas inúteis? A designação de “erva daninha” não será mero artifício para esconder a nossa ignorância? Se a natureza é econômica e astuta, como ensinam os naturalistas, não pode haver nada inútil no mundo. Por exemplo, antigamente minhoca só servia para iscar anzol ou encher papo de galinha de quintal; mas hoje é item de exportação de muitos países. Urubu antigamente só servia para ser esconjurado por pessoas supersticiosas, e hoje é exportado do Terceiro Mundo para o Primeiro, que tinha acabado com eles por questão de estética. Até cálculo biliar, aquelas pedrinhas que causam dor lancinante quando estão sendo expelidas, hoje é item de comércio externo de alguns países. Tudo é útil, o problema é saber para quê.
                    Quanto a nossas “plantas daninhas”, no que depender da pesquisadora mineira Mitzi Brandão em breve estarão desfilando nos cardápios dos restaurantes e nas mesas das famílias. Trabalhando para uma empresa de pesquisa agropecuária do estado. D. Mitzi já descobriu que 400 espécies de plantas consideradas “daninhas” são comestíveis e até mais nutritivas do que muitas leguminosas que adquiriram status de plantas alimentícias. A tiririca, por exemplo, que lavradores do país inteiro atacam a ferro e literalmente também a fogo, dá uma caipirinha de revirar os olhos, principalmente se for feita com a boa cachaça daqui de Piumhy. E fiquem sabendo que a tiririca é também poderoso afrodisíaco. Empresários estrangeiros têm vindo ao Brasil a pretexto de estudar possibilidades de investimento ou de negócios outros, mas no que eles estão de olho é na tiririca.
                    D. Mitzi Brandão já descobriu a utilidade de 400 plantas consideradas daninhas, e promete continuar pesquisando para descobrir mais. Cabe agora aos nutricionistas e aos mestres-cucas imaginativos inventarem meios de utilização dessas descobertas, para que elas não fiquem apenas como assunto de almanaquistas.

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Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 — Restaurado por José J. Veiga, 1989, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia, também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

José J. Veiga: Era Homem e Não Sabia

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                    Ela nasceu mulher, nunca reclamou dessa condição, andava em companhia de nobres, valia o seu peso em ouro, prata, platina. Um belo dia uns alcaguetes desalmados (existirá algum almado?) apontaram o dedo perito e denunciaram: “É homem querendo passar por mulher.”
                    Ela tentou se defender, mas gaguejando muito devido ao choque: “Eeuu? Parem com isso. Olhem o respeito.”
                    “Você mesma. Confesse e assuma,” responderam os pesquisadores/alcaguetes.
                    Não adiantou a pobrezinha invocar nomes de escritores famosos da língua, que sempre a trataram como mulher. Por fim, fez um trejeito bem feminino e desabafou:
                    “Esses gramáticos estão perdendo o tempo. Quem lida comigo me trata como mulher. Quem faz compras para a casa sabe disso. A pessoa escolhe uma abóbora, um peixe, um pedaço de carne-seca e manda pesar. O vendedor joga a peça na balança, olha e diz: “Um quilo e trezentas gramas bem pesado. Vai, madame (ou chefe, ou doutor)?”
                    “E também nas maternidades, servidas por profissionais que usam outro tipo de avental, as crianças continuam nascendo pesando três quilos e duzentas, três quilos e trezentas gramas. É só os gramáticos e os locutores que deram para me chamar de homem. Mas quem é que liga para eles?”
                    A grama tem razão. Fora das gramáticas e dos estúdios, ninguém vai mudar o sexo dela.

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O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 — Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV — Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia, também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

sexta-feira, 21 de julho de 2017

José J. Veiga: Palíndromos

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A LENA JÁ ALERTA ATRELA A JANELA
SARAVÁ SAIAS AVARAS
IR À MISSA ASSIM, ARI
O TREPONEMA É AMENO PERTO

As frases acima são palíndromos, isto é, palavras que tanto pode ser lidas da esquerda para a direita ou vice-versa sem alterar o som nem o sentido. É um divertimento muito antigo, e já era praticado pelos gregos. Aliás, a palavra vem do grego, e significa “ir e voltar pelo mesmo caminho”.

Ao longo da história, muitos palíndromos foram atribuídos a gente famosa, como este, que teria sido feito por Napoleão ao avistar a Ilha de Elba, para onde ia preso: Able was I as I saw Elba. Isso é bastante improvável, considerando-se o estado de espírito contra os ingleses naquele momento, e por extensão contra a língua inglesa, supondo que ele a falasse.

Em Roma antiga o palíndromo se chamava verso anacíclico, e na Idade Média foi muito cultivado na França, onde dizem que foi feito este por um palindromista anônimo: L’âme des uns iamais n’use de mal, seja lá o que isso signifique.

Armar palíndromo é um divertimento arriscado. A pessoa fica de tal forma transtornada que chega a preocupar a família e os amigos. E no ambiente de trabalho os efeitos desta mania podem ser devastadores. Dizem que o imperador Nicolau I da Rússia (1796 1855) proibiu esse divertimento na corte por não aguentar mais tanto palíndromo. E o sultão Abdul Hamid I da Turquia (1721 1789) mandou recolher palindromistas à prisão. Verdade ou não, avisamos que o divertimento é perigoso.

Aqui vão alguns palíndromos para quem quiser começar, mesmo estando avisado:

  • A mala na lama.
  • Luz a anilina azul.
  • Logo me vem o gol.
  • Oiti só do sítio.
  • O navio do Ivano.
  • O ledo modelo.
  • Sete setes é o mínimo? O mínimo é sete setes.
  • Soluce séculos, Ana, soluce séculos.
  • A tirana Ana Rita.
  • Aroma é de amora.
  • Omitiram o marítimo.
  • O lobo réu quer o bolo.
Etc. etc.

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O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 — Restaurado por José J. Veiga, 1989, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, México, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy — Ano CLIX — Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy — Ano CLX — Número 03 (1989).

domingo, 16 de julho de 2017

José J. Veiga: Aniveldí

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Você conhece essa palavra?

Ultimamente tem aparecido no vocabulário de pessoas que falam em público ou dão entrevista uma palavra que não consta ainda em nenhum dicionário da língua. Como a palavra vem sendo aplicada quase que exclusivamente pelos chamados tecnocratas e seus admiradores, pensou-se a princípio que fosse um termo exclusivo da cultura oral desse grupo, como o “xadisso” dos escolares, o “simbora” dos caminhoneiros, o “sacumé” dos malandros, o “mequitá” dos roqueiros etc. Seria uma transposição fonética do som de alguma palavra estrangeira? A palavra é haniveldí ou aniveldí pelo menos é assim que soa.

Vamos dar alguns exemplos ouvidos recentemente no rádio e na televisão para ver se algum dos nossos leitores consegue identificar a origem da palavra:
  • De fato, pouco adianta ter uma estrutura sofisticada, aniveldí proteção do direito de autor...” (Informativo do Conselho Nacional de Direito Autoral, Ministério da Cultura.)
  • “Falando aniveldí atendimento ambulatorial...” (Médico na televisão.)
  • “Esse assunto tem que ser examinado aniveldí uma rigorosa avaliação quantitativa dos serviços disponíveis.” (Tecnocrata em debate na Rádio JB.)
  • Aniveldí comportamento comunitário me parece que a proposta não foi bem compreendida.” (Assessor do prefeito Marcelo Alencar em entrevista a O Globo.)
  • Aniveldí quebra de safra, não acho que o Brasil apresente excepcionalidade em comparação com outros países em desenvolvimento”. (Tecnocrata da Seplan falando na TV Globo.)
  • Aniveldí capacidade de pagar os serviços da dívida, os países de renda média importadores de petróleo são os que apresentam maior risco.” (Relatório do Banco Mundial para 1985.)
O que está parecendo é que a palavra aniveldí é daquelas que nada transmitem, entram na frase apenas para esticá-la ou dar a impressão de que o falante é cobra no assunto que está tratando. Vamos fazer a experiência de expurgá-la de qualquer das frases acima, e ver se ela faz falta:

“Falando de atendimento ambulatorial... ... ter uma estrutura sofisticada para a proteção do direito do autor. Pelo comportamento comunitário me parece... Em quebra de safra... Em capacidade de pagar...” (Não nos preocupamos em consertar as frases, todas formuladas segundo as tortuosidades da mente de seus autores.)

Em suma, não existe palavra alguma chamada aniveldí, nem precisa existir. O que existe é muito pedantismo, ou falta do que dizer.

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O Almanach de Piumhy Ano CLIX Número 02 Restaurado por José J. Veiga, 1988, Editora Record, Rio de Janeiro RJ; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, que ao terminar seus estudos secundários transferiu-se para o Rio de Janeiro e ali formou-se em Direito, foi jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC — Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Estranha Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve obras publicadas nos Estados Unidos, México, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; em 1997, pelo conjunto de sua obra, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras; de sua biografia também consta ter "restaurado" O Almanach de Piumhy Ano CLIX Número 02 (1988) e O Almanach de Piumhy Ano CLX Número 03 (1989).

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

José J. Veiga: Fronteira

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                    EU ERA ainda muito criança, mas sabia uma infinidade de coisas que os adultos ignoravam. Sabia que não se deve responder aos cumprimentos dos glimerinos, aquela raça de anões que a gente encontra quando menos espera e que fazem tudo para nos distrair de nossa missão; sabia que nos lugares onde a mãe-do-ouro aparece à flor da terra não se deve abaixar nem para apertar os cordões dos sapatos, a cobiça está em toda parte e morde manso; sabia que ao ouvir passos atrás ninguém deve parar ou correr, mas manter a marcha normal, quem mostrar sinais de medo está perdido na estrada.
                    A estrada é cheia de armadilhas, de alçapões, de mundéus perigosos, para não falar em desvios tentadores, mas eu podia percorrê-la na ida e na volta de olhos fechados sem cometer o mais leve deslize. Era por isso que eu não gostava de viajar acompanhado, a preocupação de salvar outros do desastre tirava-me o prazer da caminhada, mas desde criança eu era perseguido pela insistência dos que precisavam viajar e tinham medo do caminho, parecia que ninguém sabia dar um passo sem ser orientado por mim, chegavam a fazer romaria lá em casa, aborreciam minha mãe com pedidos de interferência; e como eu não podia negar nada a minha mãe eu estava sempre na estrada acompanhando uns e outros. Mal chegava de uma viagem era informado de que fulano, ou sicrano, ou viúva de trás da igreja, ou o ancião que perdera a filha afogada estava a minha espera para nova caminhada. E sempre tinham urgência, negócios inadiáveis a tratar em outros lugares, se eu não lhes fizesse esse favor estariam perdidos, desgraçados, ou desmoralizados. Como poderia eu recuar e dar-lhes as costas, como se não tivesse nada a ver com os problemas deles? A responsabilidade seria muito grande para meus ombros infantis. Minha mãe preparava a minha matula, dizia “coitado de meu filho, não tem descanso”, beijava-me na testa e lá ia eu a percorrer de novo a mesma estrada, como se eu fosse um burro cativo, levando às vezes gente que eu nem conhecia, e cujos negócios me eram remotos ou estranhos.
                    Minha única esperança de liberdade era crescer depressa para ser como os adultos, completamente incapazes de irem sozinhos daqui ali; mas quando eu baixava os olhos para olhar o meu corpo de menino, e via o quanto eu ainda estava perto do chão, vinha-me um desânimo, um desejo maligno de adoecer e morrer e deixar os adultos entregues ao seu destino. Eu nunca soube há quanto tempo estava naquela vida, nem tinha lembrança de haver conhecido outra. Teria eu nascido com alpercatas nos pés e trouxinha às costas? Era difícil dizer que não, embora a hipótese parecesse inconcebível.
                    Se seu me queixava a outras pessoas, elas faziam um ar compungido, engrolavam qualquer coisa para dizer que cada um tem que aceitar o seu destino, e eu compreendia que eles também estavam me reservando para quando precisassem de mim; outros presenteavam-me com garruchinhas de espoleta, automoveizinhos de corda, quando não um par de botinas novas. Tudo o que eles queriam de mim era resignação e presteza. Naturalmente eu podia acabar com aquilo a qualquer hora, mas e a responsabilidade?
                    Mas não se pense que as minhas caminhadas para lá e para cá fossem uma rotina desinteressante; nada disso. Raro era o dia em que eu não aprendia alguma coisa nova, e embora a descoberta só tivesse utilidade na estrada, eu a recolhia para utilização futura, ou para ampliação de meus conhecimentos. Foi ao abaixar-me num córrego para beber água que fiz uma descoberta a meu ver muito importante: descobri que, quando se derruba uma moeda em água corrente, não se deve pensar em recuperá-la. Quem tentar fazê-lo poderá ficar o resto da vida à beira da água retirando moedas. É como se a pessoa “sangrasse” a areia do fundo da água e depois não conseguisse estancar o jorro de moedas.
                    Talvez eu não devesse ter contado isso a meu pai, pois não era difícil prever o que aconteceria. Ele riu em minha cara, e chamou-me fantasista. Como eu insistisse, ofendido, ele reptou-me a prová-lo. Ainda aí eu poderia ter desconversado, mas não: aceitei o desafio, como se tratasse de um ponto de honra. Levei-o à beira de um córrego, mandei-o soltar uma moeda na água e só à força conseguimos tirá-lo de lá dias depois; e para impedi-lo de voltar, tivemos de interná-lo. Disseram que a culpa foi minha, mas não consigo sentir-me culpado.
                    Depois disso notei que as pessoas passaram a me evitar. A princípio pensei que estivessem sendo gentis, tivessem decidido dar-me afinal um descanso, depois de tantos anos de trabalho pesado; mas depois verifiquei que a situação era mais séria, nem na rua conversavam comigo, os poucos que eu conseguia deter estavam sempre apressados, davam uma desculpa e se afastavam sem nem olhar para trás.
                    De repente ocorreu-me um pensamento medonho: será que minha mãe também pensava e sentia como os outros? Nesse caso, que martírio não seria a sua vida, preocupada todo o tempo em esconder de mim os seus sentimentos! Alarmado com essa possibilidade, eu a observei durante dias, escutei-a no sono, tentando surpreender uma palavra, um gesto, qualquer coisa que me denunciasse o seu estado de espírito. Às vezes me parecia que o meu medo estava confirmado, mas no minuto seguinte eu estava novamente em dúvida. A única maneira de esclarecer tudo era naturalmente abrir-me com ela. Mas logo que comecei a expor-lhe o meu caso percebi o erro que havia cometido. Estava eu certo de querer a verdade, e não a compaixão de minha mãe? Qual seria nesse caso o papel de uma boa mãe dar-me o que eu queria ou o que eu temia? Que direito tinha eu de forçá-la a uma decisão dessa ordem?
                    Quando acabei de falar ela abraçou-me chorando e só conseguia dizer: “Meu filho, meu filho tão infeliz!”
                    Qual seria o sentido dessa frase aparentemente tão clara? Seria pena pela minha sorte de guia forçado, pela minha capacidade de amedrontar os outros ou estaria ela pensando na minha sina de amedrontador da própria mãe? Chorei também, mas depois percebi que eu não tinha motivo nenhum para chorar, eu estava chorando mais por formalidade, porque o que havia eu feito para estar naquela situação? Que culpa tinha eu da minha vida?
                    Enxuguei as lágrimas e senti-me como se tivesse acabado de subir ao alto de uma grande montanha, de onde eu podia ver embaixo o menino de calça curta que eu havia deixado de ser, emaranhado em seus ridículos problemas infantis, pelos quais eu não sentia mais o menor interesse. Voltei-lhe as costas sem nenhum pesar e desci pelo outro lado assoviando e esfregando as mãos de contente.

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Os Cavalinhos de Platiplanto Contos, 1986, 16a. Edição, Difel Difusão Editorial S/A, São Paulo SP; J. J. Veiga, ou José Jacintho Pereira Veiga (1915 1999), goiano de Corumbá de Goiás, ali terminou seus estudos secundários e, transferindo-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito; foi locutor de rádio, jornalista, redator, ficcionista e tradutor, tendo trabalhado nos periódicos Tribuna da Imprensa, O Globo, Reader's Digest, na BBC Londres e na coordenação do Depto. Editorial da FGV Fundação Getúlio Vargas; considerado um dos maiores autores do realismo fantástico na literatura brasileira, escreveu e publicou Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Hora dos Ruminantes (1966), A Máquina Extraviada (1967), Sombras de Reis Barbudos (1972), Os Pecados da Tribo (1976), O Professor Burrim e as Quatro Calamidades (1978), De Jogos e Festas (1980), Torvelinho Dia e Noite (1985), A Casca da Serpente (1989), O Risonho Cavalo do Príncipe (1993), Objetos Turbulentos (1997) e outros títulos; teve edições publicadas nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal; além de ter sido laureado diversas vezes nos meios literários, foi agraciado, em 1997, com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.