Mostrando postagens com marcador Bamerindus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bamerindus. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Jornal Idéias!: De Campeões e Perdedores

____________________
(Idéias! — N° Zero — 2ª quinzena de dezembro/83 —  Órgão Informativo de Funcionários do Bamerindus/Diretoria Cassada)

          Tudo Ok! O Corinthians foi bi-campeão e o povão corinthiano se sentiu como se tivesse com as medalhas e as faixas em seu peito. Também me vi lá no Morumbi, recebendo das mãos do Marin do PDS a taça de um metro e meio de altura banhada de ouro e prata, coisa de fazer roncar o estômago de trabalhador bancário que é obrigado a engolir dois ou três salários mínimos por mês, sem chiar.
          E o juiz, então, que parecia que nunca ia apitar o final da partida? Para mim, o juiz queria se transformar em estrela da festa. Será que ele queria roubar do povão o direito de festejar mesmo que fosse num só dia do ano? Acho que sim. Eu entendo que juiz tem apenas que apitar, e pronto! Mas, pelo jeito, ele queria mais que isso...
          Desta feita, nem fui até a Avenida Paulista pra bebemorar o bi. A decisão foi no meio-de-semana e isso também impediu a participação e os festejos da massa. Dia de semana, todos sabem, nós trabalhadores, temos que dormir cedo e levantar quase de madrugada pra conquistar o pão nosso de todo dia. Mesmo assim, e apesar dos homens da Federação, o estádio lotou. Há muita gente que não acorda cedo. Há também aqueles que não dormem em dia de decisão. Bebemoram e vão direto pro batente. Com estas e outras, quero apenas deixar claro que me sinto campeão. Com taça e tudo o mais.
          E o perdedor? O derrotado, pra ser mais exato, foi Joilson de Jesus, que terminou sua carreira estirado no chão da cidade, com apenas quinze anos de idade. Uma criança ainda.
          Joilson de Jesus, vindo das equipes mirins, naquele dia disputava uma acirradíssima partida. No transcorrer do jogo, roubou a bola de um adversário. Dominando-a, driblou um, driblou dois e seguiu avante, decerto já comemorando a possibilidade de marcar um gol, um só golzinho que fosse. De repente, ele esbarrou num zagueirão do outro time que, metendo-lhe um soco no rosto e uma chave de braço, derrubou-o ao solo tomando-lhe a pelota. Parecendo ainda não estar satisfeito, e sob os olhares da torcida atônita e estarrecida, enfiou-lhe os dois pés no peito e no pescoço. Foi o fim da peleja: Jéferson Figueira, o beque violentíssimo, acabava de matar a jogada e o jogador num só lance. Simplesmente fantástico!
          Eu, torcedor ausente e indignado, que acompanhei o jogo somente pela imprensa, quero poder influir no resultado da partida. O que está esperando, senhor juiz? Cartão vermelho nele! Expulse-o dos gramados! Este beque matador não serve nem pra jogar peladas em campos esburacados, com inimigos que chutam da medalhinha pra cima, quanto mais pra disputar uma partida decisiva, contra crianças, no estádio dos calçadões do coração de São Paulo.
          Joilson de Jesus, você foi morto mas a partida continua a todo vapor! Eu ainda carrego comigo a esperança de virar este jogo, com festa, trabalho e pão. E então já não mais haverá lugar para matadores como o beque Jéferson Figueira, seu carrasco.
          Feliz Natal para todos os bancários, jogadores do dia a dia! Que no campeonato do ano que vem o resultado das partidas nos seja mais favorável.
____________________
Fez-se esta crônica no calor de duas ocorrências havidas em dezembro de 1983 no chão desta paulicéia desvairada: uma, bastante trágica, se deu no dia 09 daquele mês no calçadão do Centro Velho de São Paulo Rua Senador Paulo Egydio, quando após uma trombada em transeunte, um menor de rua, Joilson de Jesus, foi espancado e morto pelo cidadão Jéferson Figueira. À época o caso teve grande  repercussão na mídia; já a outra ocorrência, muito festejada, foi no gramado do Morumbi na noite do dia 14, meio-de-semana quando o Corinthians se sagrou bi-campeão paulista ao empatar em 1 x 1 gol de Sócrates com o São Paulo; o  Corinthians já havia vencido o tricolor num primeiro jogo no fim-de-semana anterior pelo placar de 1 x 0. E com um gol de Sócrates, claro! Foi o último título da então tão falada Democracia Corinthiana;

Ah!!!, o Informativo Idéias!, jornal voltado para os funcionários do então Banco Bamerindus, hoje HSBC, foi uma das experiências de mídia sindical em um período no qual o Sindicato dos Bancários de São Paulo teve toda a sua diretoria cassada pela ditadura do Governo Figueiredo; P. da Silva, Satélio e Genésio dos Santos são uma só pessoa e, réus confessos, assumem a autoria deste texto.