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terça-feira, 28 de abril de 2026

Rainer Maria Rilke: Morgue

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[traduzido por José Paulo Paes]

Ali jazem em ordem como se
à espera de algum ato tardio
que os pudesse ligar entre si e
reconciliá-los com aquele frio;

tudo está por enquanto inacabado.
Por que, dentro dos bolsos, um cartão
com o nome de cada? O ar de enfado
nas suas bocas, foi esforço vão

tentar lavá-lo: só ficou patente.
Mais áspera, a barba ainda nos rostos:
o zelador da morgue tem seus gostos;

nem os de boca aberta lhe dão náuseas.
Com olhos revirados sob as pálpebras,
os mortos veem-se agora interiormente.

R. M. Rilke

Morgue

Da liegen sie bereit, als ob es gälte,
nachträglich eine Handlung zu erfinden,
die mit einander und mit dieser Kälte
sie zu versöhnen weiss und zu verbinden;

denn das ist alles noch wie ohne Schluss.
Wasfür ein Name hätte in den Taschen
sich finden sollen? An dem Überdruss
um ihren Mund hat man herumgewaschen:

er ging nicht ab; er wurde nur ganz rein.
Die Bärte stehen, noch ein wenig härter,
doch ordentlicher im Geschmack der Wärter,

nur um die Gaffenden nicht anzuwidern.
Die Augen haben hinter ihren Lidern
sich umgewandt und schauen jetzt hinein.

[Neue Gedichte — 1º (1907)]
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., bilíngue, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Rainer Maria Rilke: Eu vos saúdo, sarcófagos antigos . . . [soneto]


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[traduzido por José Paulo Paes]

I – 10

Eu vos saúdo, sarcófagos antigos
que risonha a água dos dias romanos
percorre como cantiga de ciganos:
meu coração vos guardou sempre consigo.

Ou os abertos como olhos de pastor
que alegre despertasse à luz da alvorada
cheios de silêncio e lâmios , do interior
deles borboletas vão-se em revoada.

Vós a quem a dúvida não mortifica,
saúdo-vos, bocas outra vez abertas,
que já sabeis o que calar significa.

Não o sabemos, amigos, nós também?
Ambos afeiçoa a hora tão incerta
que sobre o rosto dos homens se detém.

(Sonetos a Orfeu, 1923)

R. M. Rilke

Euch, die ihr nie mein Gefühl verliesst

– 10

Euch, die ihr nie mein Gefühl verliesst,
grüss ich, antikische Sarkophage,
die das fröhliche Wasser römischer Tage
als ein wandelndes Lied durchfliesst.

Oder jene so offenen, wie das Aug
eines frohen erwachenden Hirten,
innen voll Stille und Bienensaug 
denen entzückte Falter entschwirrten;

alle, die man dem Zweifel entreisst,
grüss ich, die wiedergeöffneten Munde,
die schon wussten was schweigen heisst.

Wissen wirs, Freunde, wissen wirs nicht?
Beides bildet die zögernde Stunde
in dem menschlichen Angesicht.

(Sonette an Orpheus, 1923)
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., 2001, bílingue. 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

domingo, 27 de outubro de 2024

Rainer Maria Rilke: Obreiros somos — mestre, aprendizes, serventes — . . .


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[traduzido por José Paulo Paes]

Obreiros somos mestre, aprendizes, serventes —
e te construímos, ó grande nave altaneira.
Às vezes chega a nós um peregrino silente;
ei-lo que como um clarão cruza as nossas cem mentes
e trêmulo nos traz alguma nova maneira.

       Galgamos andaimes que ao nosso passo estremecem;
maciços os martelos que nossas mãos sustêm;
isso até aflorar-nos a fronte uma hora que se
irisa e fulge como se de tudo soubesse:
como o vento vem do mar, é de ti que ela vem.

ouve-se então um malhar de martelos inúmeros
que, golpe após golpe, pelas montanhas se expande.
só te deixamos quando a noite cai e no escuro
podemos já ver-te os vagos contornos futuros.

Deus, como tu és grande.

(O Livro de Horas, 1905)

R. M. Rilke

Werkleute sind wir

Werkleute sind wir: Knappen, Jünger, Meister,
und bauen dich, du hohes Mittelschiff.
Und manchmal kommt ein ernster Hergereister,
geht wie ein Glanz durch unsre hundert Geister
und zeigt uns zitternd einen neuen Griff.

             Wir steigen in die wiegenden Gerüste,
in unsern Händen hängt der Hammer schwer,
bis eine Stunde uns die Stirnen küsste,
die strahlend und als ob sie Alles wüsste
von dir kommt, wie der Wind vom Meer.

Dann ist ein Hallen von dem vielen Hämmern
und durch die Berge geht es Stoss um Stoss.
Erst wenn es dunkelt lassen wir dich los:
Und deine kommenden Konturen dämmern.

Gott, du bist grosss.

[26.9.1899, Berlin-Schmargendorf]

(Stundenbuch, 1905)
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., bilíngue, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

sábado, 17 de agosto de 2024

Rainer Maria Rilke: Pietá

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[traduzido por José Paulo Paes]

Vejo de novo os teus pés, Jesus, e lembro
que eram pés, antigamente, de rapaz:
a medo os descubro e lavo-os com zelo;
ficam enredados entre os meus cabelos
como alva presa de caça entre sarçais.

Vejo, pela primeira vez, os teus membros
nunca amados, nesta noite de paixão.
Não partilhamos jamais o mesmo leito;
agora é só velar e admirar-se em vão.

Mas vê como as tuas mãos estão feridas 
não por mim, Amado, por minhas mordidas.
Aberto, teu coração mostra o recesso:
nele somente eu devia ter ingresso.

Estás cansado e, cansada, a tua boca
não deseja a minha dolorosa boca 
Ó Jesus, Jesus, nossa hora quando foi?
Quão estranho perecemos ora os dois.

R. M. Rilke

Pietà

So seh ich, Jesus, deine Füsse wieder,
die damals eines Jünglings Füsse waren,
da ich sie bang entkleidete und wusch;
wie standen sie verwirrt in meinen Haaren
und wie ein weisses Wild im Dornenbusch.

So seh ich deine niegeliebten Glieder
zum erstenmal in dieser Liebesnacht.
Wir legten uns noch nie zusammen nieder,
und nun wird nur bewundert und gewacht.

Doch, siehe, deine Hände sind zerrissen :
Geliebter, nicht von mir, von meinen Bissen.
Dein Herz steht offen und man kann hinein:
das hätte dürfen nur mein Eingang sein.

Nun bist du müde, und dein müder Mund
hat keine Lust zu meinem wehen Munde .
O Jesus, Jesus, wann war unsre Stunde?
Wie gehn wir beide wunderlich zugrund.

[Neue Gedichte (Paris, Mai/ Juni 1906)]
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., 2001, bílingue, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Rainer Maria Rilke: Tu, Obscuridade de onde emana . . .


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[traduzido por José Paulo Paes]

Tu, Obscuridade de onde emana
meu ser, amo-te mais do que à chama
que o mundo reduz
ao círculo da sua luz:
ali dentro, resplandece;
fora dali, ser nenhum a reconhece.

Mas na Obscuridade tudo se contém:
as formas e as chamas, os animais e eu também,
nela que consorcia
existências e energias

Pode bem ser que uma força sombria
se mova em minhas cercanias.

É às noites que minha alma se confia.

Rainer Maria Rilke

Du Dunkelheit, aus der ich stamme, . . .

Du Dunkelheit, aus der ich stamme,
ich liebe dich mehr als die Flamme,
welche die Welt begrenzt,
indem sie glänzt
für irgend einen Kreis,
aus dem heraus kein Wesen von ihr weiss.

Aber die Dunkelheit hält alles an sich:
Gestalten und Flammen, Tiere und mich,
wie sie's errafft,
Menschen und Mächte

Und es kann sein: eine große Kraft
rührt sich in meiner Nachbarschaft.

Ich glaube an Nächte.
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Poemas — R. M. Rilke, bilíngue, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

segunda-feira, 18 de março de 2024

Rainer Maria Rilke: Baudelaire


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[traduzido por José Paulo Paes]

Para Anita Forrer/ em 14 de abril de 1921

Somente o poeta juntou as ruínas
de um mundo desfeito e de novo o fez uno.
Deu fé da beleza nova, peregrina,
e, embora celebrando a própria má sina,
purificou, infinitas, as ruínas:

assim o aniquilador tornou-se mundo.

Rainer Maria Rilke

Baudelaire

Für Anita Forrer/ zum 14. April 1921

Der Dichter einzig hat die Welt geeinigt,
die weit in jedem auseinanderfällt.
Das Schöne hat er unerhört bescheinigt,
doch da er selbst noch feiert, was ihn peinigt,
hat er unendlich den Ruin gereinigt:

und auch noch das Vernichtende wird Welt.
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Poemas — R. M. Rilke, Seleção, Tradução, Introdução e Notas de José Paulo Paes e Apresentação de João Moura Jr., bilíngue, 2001, 1ª edição, 3ª reimpressão, Companhia das Letras — São Paulo — SP; Rainer Maria Rilke (1875 1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Larenopfer (Oferenda aos lares, 1895), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

domingo, 7 de janeiro de 2024

William Carlos Williams: Os iates


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[traduzido por João Moura Jr.]

disputam num trecho de mar em parte protegido
pela terra, que os livra de árduos golpes desferidos
por um oceano furioso que, quando quer, castiga

os cascos mais resistentes dos que contra ele brigam
e sem piedade arrasta todos para o fundo. Insetos
em bando, cintilando na claridade de dias

sem nuvem, navegando rumo ao vento, a água rasgada
por suas proas anavalhadas, enquanto sobre eles
atribula-se a tripulação, bando de formigas.

Soltam as velas, deslizam mais rápido na curva,
Inclinam-se para o mar e, no vento novamente,
Navegam lado a lado para o local de partida.

Numa bem guardada arena de mar aberto em que
barcos maiores e menores, sicofantas, seguem
atrás, uns rápidos, outros se arrastando, eis que surgem

eles, vigorosos, extraordinários como o alegre
brilho de um olhar, cheios de vida e de tudo o que,
na vida, se deseja natural e simplesmente.

O mar que os sustenta agora é caprichoso, lambendo-lhes
os cascos brilhantes como se buscasse uma falha,
mas fracassa inteiramente. Hoje não haverá regata.

Súbito o vento volta. Os iates já se acotovelam
para a largada, é dado o sinal e partem. As vagas
investem, eles resistem, no entanto ferram velas.

Braços e mãos em garra tentam aferrar-se às proas.
Corpos que se precipitam à frente são rasgados.
É um mar de rostos agônicos e desesperados

que traz à tona o horror da regata estonteantemente.
O mar inteiro é um emaranhado de corpos líquidos
desligados deste mundo. Vencidos, alquebrados,

desolados, surgem aos gritos de entre os mortos para
serem alçados, mas fracassam, fracassam. Seus gritos
se arrastam nas ondas enquanto os hábeis iates passam.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 11.09.83

William Carlos Williams

The Yachts

contend in a sea which the land partly encloses
shielding them from the too heavy blows
of an ungoverned ocean which when it chooses

tortures the biggest hulls, the best man knows
to pit against its beating, and sinks them pitilessly.
Mothlike in mists, scintillant in the minute

brilliance of cloudless days, with broad bellying sails
they glide to the wind tossing green water
from their sharp prows while over them the crew crawls

ant-like, solicitously grooming them, releasing,
making fast as they turn, lean far over and having
caught the wind again, side by side, head for the mark.

In a well-guarded arena of open water surrounded by
lesser and greater craft which, sycophant, lumbering
and flittering follow them, they appear youthful, rare

as the light of a happy eye, live with the grace
of all that in the mind is feckless, free and
naturally to be desired. Now the sea which holds them

is moody, lapping their glossy sides, as if feeling
for some slightest flaw but fails completely.
Today no race. Then the wind comes again. The yachts

move, jockeying for a start, the signal is set and they
are off. Now the waves strike at them but they are too
well made, they slip through, though they take in canvas,

Arms with hands grasping seek to clutch at the prows.
Bodies thrown recklessly in the way are cut aside.
It is a sea of faces about them in agony, in despair

until the horror of the race dawns staggering the mind,
the whole sea become an entanglement of watery bodies
lost to the world bearing what they cannot hold. Broken,

beaten, desolate, reaching from the dead to be taken up
they cry out, failing, failing! their cries rising
in waves still as the skillful yachts pass over.

[1938]

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo norte-americano; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Novelette and Other Prose (1932), Na Early Martyr and Other Poems (1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (1938), The Wedge (poesias, 1944), Paterson — Book I (1946), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.

domingo, 29 de outubro de 2023

William Butler Yeats: A manta


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[traduzido por João Moura Jr.]

Te fiz, canção, esta manta
Coberta de pedrarias
De velhas mitologias
Do calcanhar à garganta:
Mas os tolos a tomaram
E, como se fosse sua,
Sobre os ombros a levaram.
Deixa, canção, dá-se um jeito
Pois sair despido à rua
É que é um verdadeiro feito.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 28.07.84

W. B. Yeats

A Coat**

I made my song a coat
Covered with embroideries
Out of old mythologies
From heel to throat;
But he fools caught it,
Wore it in the world's eyes
As though they'd wrought it.
Song, let them take it,
For there's more enterprise
In walking naked.

Notas:
* O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca;
** O tradutor e crítico literário Péricles Eugênio da Silva Ramos, em Poemas de W. B. Yeats [Art Editora, 1987] anota a respeito do poema Coat:
Neste famoso poema, de 1912, ( … ) Yeats reafirma que, para livrar-se da multidão de imitadores de sua maneira primitiva, o jeito era mudar de estilo. Tiraria seu casaco bordado de mitologia e andaria nu (i.é., escreveria com simplicidade. Ellmann [Richard David Ellman, crítico literário e biógrafo] acentua, contudo, que Yeats não quis negar seus antigos símbolos, mas apenas frisar que de então por diante estes não mais fariam parte de sua roupagem exterior, e sim de sua própria pele.”.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, two stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

domingo, 18 de junho de 2023

Hart Crane*: Chaplinesque


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[traduzido por João Moura Jr.]

Pacientemente nos adaptamos
Bastam-nos consolações ocasionais
como as que o vento deposita
em vastos bolsos fundos como poços.

Pois ainda pode amar o mundo quem
vê um gato faminto à porta
e o protege da fúria lá de fora
no ângulo do cotovelo roto.

Esquivando-nos, adiaremos
até o último esgar a lenta fatalidade
do dedo enrugado que para nós aponta,
sempre encarando o olhar abúlico
com inocência e surpresa.

E no entanto esses belos tombos não são mentira,
assim como as piruetas de uma bengala elástica.
Nossas exéquias não são, no fundo, uma empresa.
Podemos escapulir-te, escapulir de tudo  menos do coração.
Não é culpa nossa. O coração sobrevive.

Os esgares fazem parte do jogo. Mas  vimos
a lua em alamedas desertas
transformar num graal de risco uma lixeira vazia
e, em meio a tanta algazarra de buscas e alegria,
ouvimos o solitário miar de um gato.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 02.01.83

Hart Crane

Chaplinesque

We make our meek adjustments,
Contented with such random consolations
As the wind deposits
In slithered and too ample pockets.

For we can still love the world, who find
A famished kitten on the step, and know
Recesses for it from the fury of the street,
Or warm torn elbow coverts.

We will sidestep, and to the final smirk
Dally the doom of that inevitable thumb
That slowly chafes its puckered index toward us,
Facing the dull squint with what innocence
And what surprise!

And yet these fine collapses are not lies
More than the pirouettes of any pliant cane;
Our obsequies are, in a way, no enterprise.
We can evade you, and all else but the heart:
What blame to us if the heart live on.

The game enforces smirks; but we have seen
The moon in lonely alleys make
A grail of laughter of an empty ash can,
And through all sound of gaiety and quest
Have heard a kitten in the wilderness.

[White Buildings: Poems — 1926]

Notas do blogue Verso e Conversa:
* este audacioso aprendiz de blogueiro registra o exposto por Augusto de Campos, em Poesia da Recusa, acerca do poeta Hart Crane: “um dos mais notáveis poetas norte-americanos da nossa época. Um poeta que, se não se alçou às alturas de Pound, Eliot ou Cummings, não fica nada a dever a Wallace Stevens, Marianne Moore ou William Carlos Williams. E que pode conversar de igual para igual com o poeta galês Dylan Thomas, a personalidade que mais se lhe assemelha, em vida e obra.”;
** este atrevidíssimo aprendiz também expõe que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Harold Hart Crane (1899 — 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; obras: White Buildings: Poems (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.