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[traduzido por João Moura Jr.]
disputam num trecho de mar em parte protegido
pela terra, que os livra de árduos golpes desferidos
por um oceano furioso que, quando quer, castiga
os cascos mais resistentes dos que contra ele brigam
e sem piedade arrasta todos para o fundo. Insetos
em bando, cintilando na claridade de dias
sem nuvem, navegando rumo ao vento, a água rasgada
por suas proas anavalhadas, enquanto sobre eles
atribula-se a tripulação, bando de formigas.
Soltam as velas, deslizam mais rápido na curva,
Inclinam-se para o mar e, no vento novamente,
Navegam lado a lado para o local de partida.
Numa bem guardada arena de mar aberto em que
barcos maiores e menores, sicofantas, seguem
atrás, uns rápidos, outros se arrastando, eis que surgem
eles, vigorosos, extraordinários como o alegre
brilho de um olhar, cheios de vida e de tudo o que,
na vida, se deseja natural e simplesmente.
O mar que os sustenta agora é caprichoso, lambendo-lhes
os cascos brilhantes como se buscasse uma falha,
mas fracassa inteiramente. Hoje não haverá regata.
Súbito o vento volta. Os iates já se acotovelam
para a largada, é dado o sinal e partem. As vagas
investem, eles resistem, no entanto ferram velas.
Braços e mãos em garra tentam aferrar-se às proas.
Corpos que se precipitam à frente são rasgados.
É um mar de rostos agônicos e desesperados
que traz à tona o horror da regata estonteantemente.
O mar inteiro é um emaranhado de corpos líquidos
desligados deste mundo. Vencidos, alquebrados,
desolados, surgem aos gritos de entre os mortos para
serem alçados, mas fracassam, fracassam. Seus gritos
se arrastam nas ondas enquanto os hábeis iates passam.
[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 11.09.83
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| William Carlos Williams |
The Yachts
contend in a sea which the land partly encloses
shielding them from the too heavy blows
of an ungoverned ocean which when it chooses
tortures the biggest hulls, the best man knows
to pit against its beating, and sinks them pitilessly.
Mothlike in mists, scintillant in the minute
brilliance of cloudless days, with broad bellying sails
they glide to the wind tossing green water
from their sharp prows while over them the crew crawls
ant-like, solicitously grooming them, releasing,
making fast as they turn, lean far over and having
caught the wind again, side by side, head for the mark.
In a well-guarded arena of open water surrounded by
lesser and greater craft which, sycophant, lumbering
and flittering follow them, they appear youthful, rare
as the light of a happy eye, live with the grace
of all that in the mind is feckless, free and
naturally to be desired. Now the sea which holds them
is moody, lapping their glossy sides, as if feeling
for some slightest flaw but fails completely.
Today no race. Then the wind comes again. The yachts
move, jockeying for a start, the signal is set and they
are off. Now the waves strike at them but they are too
well made, they slip through, though they take in canvas,
Arms with hands grasping seek to clutch at the prows.
Bodies thrown recklessly in the way are cut aside.
It is a sea of faces about them in agony, in despair
until the horror of the race dawns staggering the mind,
the whole sea become an entanglement of watery bodies
lost to the world bearing what they cannot hold. Broken,
beaten, desolate, reaching from the dead to be taken up
they cry out, failing, failing! their cries rising
in waves still as the skillful yachts pass over.
[1938]
* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro
desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do
jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como
objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e
estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista
Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de
origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de
Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições
Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 — 1963), estadunidense
de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade
da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta
do modernismo e do imagismo norte-americano; Williams, antes mesmo de aprender o
inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto
Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909),
Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela,
1923), Novelette and Other Prose (1932), Na Early Martyr and Other Poems (1935),
White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete
Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (1938), The Wedge (poesias,
1944), Paterson — Book I (1946), Autobiography (1951), The Desert Music and Other
Poems (1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (1962),
Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama,
1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações
por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen
e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.