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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]
Falsa beleza, caro vens a me custar;
Rude efetivamente, hipócrita dulçor,
Amor mais duro do que ferro a se mascar,
Nomear-te posso irmã de minha grande dor,
Cessar de um pobre coração, charme traidor,
Orgulho oculto que se põe ao perecer;
Ímpio olhar, não quer Direito, em seu rigor, 1
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer?
Muito melhor ter-me-ia sido procurar
Além socorro, o que viria em meu honor;
Rumo nenhum do amor podia me afastar.
Trotar, tal se me impõe, em fuga e desonor.
Heu, heu, socorro, o grande ajude-me, e o menor!
E que é isto? Sem nem golpear hei de morrer?
Ou a Piedade quer, por todo este teor, 2
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer?
Tempo virá que há de fazer amarelar,
Murchar, secar vossa desabrochada flor.
Rir-me-ia, se pudesse a boca descerrar.
Mas não, não passaria isso de candor.
Velho estarei, e estareis vós feia e sem cor.
Bebei bastante, quanto possa em rio haver.
Portanto não causeis a todos esta dor,
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer.
Príncipe 3, que és de todos o maior no amor,
Não queira em vosso desagrado eu incorrer;
Impõe-se a um coração leal, por Deus Senhor,
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer.
[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]
Falsa beleza, caro vens a me custar;
Rude efetivamente, hipócrita dulçor,
Amor mais duro do que ferro a se mascar,
Nomear-te posso irmã de minha grande dor,
Cessar de um pobre coração, charme traidor,
Orgulho oculto que se põe ao perecer;
Ímpio olhar, não quer Direito, em seu rigor, 1
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer?
Muito melhor ter-me-ia sido procurar
Além socorro, o que viria em meu honor;
Rumo nenhum do amor podia me afastar.
Trotar, tal se me impõe, em fuga e desonor.
Heu, heu, socorro, o grande ajude-me, e o menor!
E que é isto? Sem nem golpear hei de morrer?
Ou a Piedade quer, por todo este teor, 2
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer?
Tempo virá que há de fazer amarelar,
Murchar, secar vossa desabrochada flor.
Rir-me-ia, se pudesse a boca descerrar.
Mas não, não passaria isso de candor.
Velho estarei, e estareis vós feia e sem cor.
Bebei bastante, quanto possa em rio haver.
Portanto não causeis a todos esta dor,
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer.
Príncipe 3, que és de todos o maior no amor,
Não queira em vosso desagrado eu incorrer;
Impõe-se a um coração leal, por Deus Senhor,
Se tudo vai piorar, um pobre socorrer.

Ballade a s’Amye
Faulse beauté qui tant me couste chier,
Rude en effect, ypocrite doulceur,
Amour dure plus que fer a maschier,
Nommer que puis, de ma desfaçon seur,
Cherme félon, la mort d'ung povre cuer,
Orgueil mussié qui gens met au mourir,
Yeulx sans pitié, ne veult Droit de Rigueur,
Sans empirer, ung povre secourir?
Mieulx m'eust valu avoir esté serchier
Ailleurs secours: c'eust esté mon honneur;
Riens ne m’eust sceu lors de ce fait hachier.
Trotter m'en fault en fuyte a deshonneur.
Haro, haro, le grant et le mineur!
Et qu'est ce cy? Mourray sans coup ferir?
Ou Pitié veult, selon ceste teneur,
Sans empirer, ung povre secourir?
Ung temps viendra qui fera dessechier,
Jaunir, flestrir vostre espanye fleur;
Je m'en risse, se tant peusse maschier
Lors; mais nennil, ce seroit donc foleur:
Viel je seray; vous, laide, sans couleur;
Or beuvez fort, tant que ru peut courir;
Ne donnez pas à tous cette douleur,
Sans empirer, ung povre secourir.
Prince amoureux, des amans le greigneur,
Vostre mal gré ne vouldroye encourir,
Mais tout franc cuer doit pour Nostre Seigneur,
Sans empirer, ung povre secourir.
Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
* “O Testamento”, v. 942-969. O título é de Marot. A primeira estrofe traz FRANÇOIS em acróstico. A segunda, MARTHE. Tratar-se-ia de um amor transitório;
1 Ímpio... rigor, ] Direito, personificado.
2 Ou... teor,] idem
3 Príncipe ] crê-se em geral que Charles d’Orléans (1391 – 1465), o poeta; mas A. Burger pensa em René d’Anjou, rei da Sicília e de Jerusalém, hipótese em que Villon teria estado efetivamente em Angers.
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Villon — Balada dos Enforcados e Outros Poemas, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 2008, Editora Hedra, São Paulo — SP; François Villon (1431 — desaparecido em 1463), pseudônimo de François de Montcorbier ou François de Loges, francês e parisiense, fez bacharelado, licenciatura e mestrado na Faculdade de Artes da Universidade de Paris e é considerado precursor dos poetas malditos do romantismo; ainda estudante, envolveu-se em episódio de roubo de um marco da escola, feriu de morte um sacerdote que lhe provocara e, Villon, também ferido, deixou Paris, mas depois obteve duas cartas de remissão pelo homicídio; após, participou do roubo do tesouro do Colégio de Navarra e, descoberto por deduragem de um outro que deu com a língua nos dentes, novamente ausentou-se de Paris, tendo levado vida errante na província, andejado pelas estradas e se misturado com marginais; consta ter sido preso em Orléans, depois libertado por indulto de Luís XI e, de retorno a Paris, foi outra vez encarcerado, agora no Châtelet; mais uma vez, por envolver-se em rixa de companheiros com os escreventes de mestre Ferrebouc, foi condenado à morte, mas a pena foi depois transformada em desterro de Paris, por dez anos, sentença essa dada pela Corte do Parlamento; foi nessa ocasião que escreveu a célebre Balada dos Enforcados; paralela a essa vida de errância crescia a sua fama como poeta, o mais faz parte das lendas criadas em torno de seu nome e de seus escritos; eis o que nos relata e nos apresenta Péricles Eugênio da Silva Ramos em sua ‘Notícia sobre François Villon’, deste Villon — Balada dos Enforcados...; sua bibliografia: entre tantas baladas e rondós, Le Lais (Legado, 1457), Le Testament (O Testamento, 1461), Ballade des Pendus (Balada dos Enforcados, 1462).


