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quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Lucrécio: Da Natureza [trecho], livro I. 445 — 458


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[traduzido por Agostinho da Silva]

Portanto, além dos corpos e do vazio, não fica, no número
das coisas, nada que caia em qualquer momento na
denúncia dos nossos sentidos ou que possa ser percebido
pelo raciocínio do espírito. Tudo aquilo que tem um nome,
encontrá-lo-ás ou inerente a uma destas coisas ou como
acidental. É inerente tudo o que não se pode separar ou
abstrair do corpo sem a destruição deste, como, por
exemplo, o peso da pedra, o calor do fogo, o fluido da
água, a tangibilidade de todos os corpos, a intangibilidade
do vazio. Mas a escuridão, a pobreza e a riqueza, a
liberdade, a guerra, a paz, tudo aquilo que, por chegar ou
partir, não modifica a natureza dos corpos, tem, segundo o
nosso costume e como é justo, o nome de acidental.


De natura rerum [trecho], livro I. 445 458

Ergo praeter inane et corpora tertia per se                    [445]
nulla potest rerum in numero natura relinqui,
nec quae sub sensus cadat ullo tempore nostros
nec ratione animi quam quisquam possit apisci.
Nam quae cumque cluent, aut his coniuncta duabus
rebus ea invenies aut horum eventa videbis.                  [450]
coniunctum est id quod nusquam sine permitiali
discidio potis est seiungi seque gregari,
pondus uti saxis, calor ignis, liquor aquai,
tactus corporibus cunctis, intactus inani.
servitium contra paupertas divitiaeque,                         [455]
libertas bellum concordia cetera quorum
adventu manet incolumis natura abituque,
haec soliti sumus, ut par est, eventa vocare.
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Poetas que pensaram o mundo — [vários ensaios, vários ensaístas, vários poetas] Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Titus Lucretius Carus, Tito Lucrécio Caro (99 a.C? 55 a.C.), nascido provavelmente em Roma, de quem temos pouquíssimas informações sobre sua vida, foi poeta e filósofo; chegou até nossos dias uma sua única obra: De rerum natura (Da natureza das coisas), um poema contendo 7 mil versos deixado inacabado, “um tratado epicurista escrito em versos hexamétricos, em gênero didático”, conforme registro de Guilherme Gontijo Flores, em Por que calar nossos amores? — poesia homoerótica latina; afora isso, restam algumas especulações, notícias sem comprovação, e tudo o mais permanece desconhecido; acerca de De rerum natura, neste Poetas que pensaram o mundo, o pensador filósofo Francis Wolff registra ser “a mais longa obra materialista da Antiguidade, o mais importante poema filosófico de todos os tempos, o principal testemunho que nos resta da doutrina epicuriana”; Lucrécio foi contemporâneo de Cícero (106 a.C. 43 a.C.).