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Os jornais,
com grande ruído, publicaram um ofício ou carta de uma senhora que ilegalmente exerce
uma função pública, pedindo que, na Academia de Letras, fossem admitidas
meninas prendadas.
Está aí um
negócio que eu acho muito razoável. Ninguém, como semelhantes moças, é próprio
para semelhante coisa.
Nas salas
e salões, desde Botafogo ao Méier, não há quem não admire uma moça que saiba
recitar.
Todos os
meninotes e mais dançarinos de tais paragens ficam embasbacados quando uma
menina de olheiras põe-se no meio da sala e diz o “Quisera amar-te”.
É um
grande e inevitável sucesso que quebra a monotonia habitual dos bailes poucos
regados à cerveja e outras bebidas.
Eu não
tenho nenhuma ojeriza especial às moças que se dedicam às letras; ao contrário:
acho que as meninas em geral têm muita vocação para isso, porquanto se vestem
muito bem e com pouco dinheiro. Há grandes escritores que só são notáveis pelas
suas roupas. Não preciso exemplificar porque tal coisa é sabida por todos.
Um vestido
bem talhado, por uma pobre costureira de qualquer grande casa de modas da rua
do Ouvidor, deve ser título bastante para uma moça ser considerada uma honrada
literata.
A literatura
nada tem a ver com a vida, com os seus choques inevitáveis, com as dores dos
outros, com os problemas do nosso destino e da sociedade; a literatura é um
negócio de contramestra de casa de confecções (cuidado com o Assis Sintra) e
modas.
Que sabe
uma mulher, uma “melindrosa”, ali da avenida, a respeito da dor de uma pobre
rapariga criada de servir?
Nada. Entretanto,
ela esteve no Colégio de Sion e fala mais ou menos o francês e, do resto dos
homens e das mulheres que não são da sua roda, ela tem um grande desprezo.
Para ela,
essa gente não tem alma, como certo concílio afirmou no tocante às mulheres.
Pois então,
dirá essa dama prendada, aquele sujeito que vai ali tão feio e tão sujo podei
dizer — merci?
Por isso
mesmo, porque as mulheres não compreendem nada disto; porque elas não têm uma
visão larga e profunda da Humanidade; porque elas nunca viram a dor dos
humildes nem se interessaram por ela; por isso é que elas são grandes
escritoras.
As suas
qualidades primordiais estão em colocar bem os pronomes, em saber que quem
descobriu a América foi Cristóvão Colombo, em afirmar que o ar é uma mistura e
responder logo de pronto que a batalha de Lepanto foi em 1571.
A minha
opinião, a vista do exposto, é que a academia deve ser composta só de mulheres,
que ela não deve ter mais biblioteca, arquivo, nem coisas parecidas. O que ela
deve ter são joias montadas, alfinetes e grampos para chapéus.
Dessa forma,
ela pode muito concorrer para o progresso das letras pátrias.
[revista] Careta,
Rio, 19-2-1921
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Lima Barreto:
obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift,
de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso
Henriques de Lima Barreto (1881 — 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e,
depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando
a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde
1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália
e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de
artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato;
em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas
obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías
Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911,
e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte
de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma,
1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro
em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...