sexta-feira, 30 de junho de 2023

Lima Barreto: As mulheres na Academia


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          Os jornais, com grande ruído, publicaram um ofício ou carta de uma senhora que ilegalmente exerce uma função pública, pedindo que, na Academia de Letras, fossem admitidas meninas prendadas.
          Está aí um negócio que eu acho muito razoável. Ninguém, como semelhantes moças, é próprio para semelhante coisa.
          Nas salas e salões, desde Botafogo ao Méier, não há quem não admire uma moça que saiba recitar.
          Todos os meninotes e mais dançarinos de tais paragens ficam embasbacados quando uma menina de olheiras põe-se no meio da sala e diz o “Quisera amar-te”.
          É um grande e inevitável sucesso que quebra a monotonia habitual dos bailes poucos regados à cerveja e outras bebidas.
          Eu não tenho nenhuma ojeriza especial às moças que se dedicam às letras; ao contrário: acho que as meninas em geral têm muita vocação para isso, porquanto se vestem muito bem e com pouco dinheiro. Há grandes escritores que só são notáveis pelas suas roupas. Não preciso exemplificar porque tal coisa é sabida por todos.
          Um vestido bem talhado, por uma pobre costureira de qualquer grande casa de modas da rua do Ouvidor, deve ser título bastante para uma moça ser considerada uma honrada literata.
          A literatura nada tem a ver com a vida, com os seus choques inevitáveis, com as dores dos outros, com os problemas do nosso destino e da sociedade; a literatura é um negócio de contramestra de casa de confecções (cuidado com o Assis Sintra) e modas.
          Que sabe uma mulher, uma “melindrosa”, ali da avenida, a respeito da dor de uma pobre rapariga criada de servir?
          Nada. Entretanto, ela esteve no Colégio de Sion e fala mais ou menos o francês e, do resto dos homens e das mulheres que não são da sua roda, ela tem um grande desprezo.
          Para ela, essa gente não tem alma, como certo concílio afirmou no tocante às mulheres.
          Pois então, dirá essa dama prendada, aquele sujeito que vai ali tão feio e tão sujo podei dizer merci?
          Por isso mesmo, porque as mulheres não compreendem nada disto; porque elas não têm uma visão larga e profunda da Humanidade; porque elas nunca viram a dor dos humildes nem se interessaram por ela; por isso é que elas são grandes escritoras.
          As suas qualidades primordiais estão em colocar bem os pronomes, em saber que quem descobriu a América foi Cristóvão Colombo, em afirmar que o ar é uma mistura e responder logo de pronto que a batalha de Lepanto foi em 1571.
          A minha opinião, a vista do exposto, é que a academia deve ser composta só de mulheres, que ela não deve ter mais biblioteca, arquivo, nem coisas parecidas. O que ela deve ter são joias montadas, alfinetes e grampos para chapéus.
          Dessa forma, ela pode muito concorrer para o progresso das letras pátrias.

[revista] Careta, Rio, 19-2-1921

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Lima Barreto: obra reunida — volume 3 — 2ª edição revista, texto/apresentação Na esteira de Swift, de Eliane Vasconcellos, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, cronista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C., Careta, Vida urbana, Marginália e outros; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; suas obras: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos (1911), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos (inacabado, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Ariano Suassuna: A Morte do Touro Mão-de-Pau


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À memória de meu pai, que também preferiu a morte à desonra, tendo sido assassinado a 9 de outubro de 1930

Corre a Serra Joana Gomes
galope desesperado:
um Touro se defendendo,
homens querendo humilhá-lo,
um Touro com sua vida,
os homens em seus Cavalos.

Cortava o gume das Pedras
um bramido angustiado,
se quebrava nas Catingas
um Galope surdo e pardo
e os Cascos pretos soavam
nas pedras de Fogo alado,
enquanto o clarim da Morte,
ao Vento seco e queimado,
na poeira avermelhada
envolvia os velhos Cardos.

Os negros cascos soavam
em chamas de Fogo alado!
Rasgavam a Serra bruta
aboios mal arquejados
e, nas trilhas já cobertas
pelo Pó quente e dourado,
um gemido de desgraça,
um gemido angustiado:

Adeus, Lagoa dos Velhos!
adeus, vazante do gado!
adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
O touro só tem a vida:
os homens têm seus cavalos!

O galopar recrescia:
brilhavam Ferrões farpados
e Algemas de baraúna
para o Touro preparados.
Seu Sabino tinha dito:
Ele há de vir amarrado!

Miguel e Antônio Rodrigues,
de guarda-peito e encourados,
na frente do grupo vinham,
montados em seus Cavalos
de pernas finas, ligeiras,
ambos de prata arreados.
E, logo à frente, corria
o grande Touro marcado,
manquejando Sangue limpo
nos caminhos mal rasgados,
cortadas as bravas ancas
por Ferrões ensangüentados.

A Serra se despenhava
nas asas de seus penhascos
e a respiração fogosa
dos dois fogosos Cavalos
já requeimava, de perto,
as ancas do Manco macho
quando ele, vendo a Desonra,
tentando subjugá-lo,
mancando da mão preada
subiu num Rochedo pardo:

Num grito, todos pararam,
pelo horror paralisados,
pois sempre, ao rebanho, espanta
que um touro do nosso gado
às teias da Fama-negra
prefira o gume do Fado.
E mal seus perseguidores
esbarravam seus Cavalos,
viram o Manco selvagem
saltar do Rochedo pardo:

Houve um grande torvelinho
de terno olhar assustado
e de aspas enfurecidas
reviradas para o alto.
E o Touro lançou seu último
bramir de morrer encrespado:

Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
Assim vai-se o Touro manco,
morto mas não desonrado!

Silêncio. A Serra calou-se
no Poente ensangüentado.
Calou-se a voz dos aboios,
cessou o troar dos Cascos.
E agora, só, no silêncio
deste Sertão assombrado,
o Touro sem sua vida,
os homens em seus Cavalos..

1946-1948

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Seleta em prosa e verso — Ariano Suassuna [mais Depoimento "Notas sobre o Romanceiro Popular do Nordeste", Organização, Apresentação/Prefácio, Seleção de Textos, Notas e Dados Biográficos por Silviano Santiago, 3ª edição, 2010, José Olympio Editora, Rio de Janeiro — RJ; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do ReinoO Santo e a Porca, Auto da Compadecida...); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra e foi traduzido para o polonês, inglês, francês, holandês, alemão, espanhol, ...; o dramaturgo e poeta também se formou em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Ernani Rosas: Perfil de um Pirata


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Improvisou estudos de finança,
galgara alto cargo na fazenda...
armara bravamente a sua tenda,
gozando do governo a confiança...

Metera os pés p’las mãos com segurança,
fizera do tesouro uma fazenda...
esbanjando o dinheiro com pujança,
com prodigalidade sem ter renda...

Como nédio muar extravasara
inutilmente os cofres, que coragem...
alegando que gentes amparava!...

Sei, de fonte segura, que lançara...
em prática o dinheiro à agiotagem,
amparando os amigos que lesara!...

[19]46 Rio

(A. Luso)

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Cidade do ócio: entre sonetos e retalhos — Ernani Rosas, Organizado por Zilma Gesser Nunes, 2008, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida (1886 1955), catarinense de Desterro, atual Florianópolis, foi poeta; desde os três anos de idade passou a residir na cidade do Rio de Janeiro e, depois, com a morte do pai (Oscar Rosas, político e também poeta, que basicamente lhe garantia as mesadas), mudou-se com a mãe e irmãs para Nova Iguaçu, também no Rio, onde morreu em difíceis condições; levou uma vida boêmia e sofreu discriminação pela sua gagueira e homossexualidade; foi um homem reservado que tentou ficar o máximo possível no anonimato; colaborou com os periódicos O Imparcial, Maçã, A Época e revista Orpheu (Portugal); obras: Certa Lenda numa Tarde — Paráfrasis de Narciso (assina Rictus da Cruz, 1917), Poemas do Ópio (1918) e Silêncios (sem data); após sua morte, houve o resgate de sua obra poética: em Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro — Organização de Andrade Muricy (1952) foram incluídos vinte e sete de seus poemas, e em Poesias — Organização de Iaponan Soares e Dalila Carneiro da Cunha Luz Varella (1989) estão reunidos oitenta e oito poemas, manuscritos e plaquetes* encontrados, já nos arquivos da Academia Catarinense de Letras; depois vieram outros estudos: História do Gosto e Outros Poemas — Organização de Ana Brancher (1997) e Cidade do Ócio: entre sonetos e retalhos — Organização de Zilma Gesser Nunes (2008).

* Nota deste Verso e Conversa: plaquetes: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página expõe que, conforme o História do Gosto e Outros Poemas (1997), as plaquetes, em torno de trinta e sete e organizadas pelo poeta, são pequenos livros costurados à mão e com barbante, com capa de papel “de embrulho”, onde foi escrito à mão o título da plaquete; por elas, tem-se que Ernani Rosas também fez uso de alguns pseudônimos para assiná-las: N. Cáspio, A. Luzo, N. Luzo e Rictus da Cruz; já neste Cidade do Ócio: entre sonetos e retalhos, a autora relata os pseudônimos Narciso Cáspio, Antonio Luzo, Narciso Luzo e Alda Trigueiros, além de Rictus da Cruz.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Friedrich Nietzsche: Escrevendo com o pé & outros epigramas*

 
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[traduzido por Paulo César de Souza]

“Brincadeira, Astúcia e Vingança”**
Prelúdio em rimas alemãs

21. Contra a soberba

Não se encha de ar: senão basta
Uma alfinetada para o estourar.

23. Interpretação

Se me explico, me implico
Não posso a mim mesmo interpretar.
Mas quem seguir sempre o seu próprio caminho
Minha imagem a uma luz mais clara também levará.

44. A fundo

Um pesquisador, eu? Oh, não use a palavra!
Sou somente pesado de muitos quilos!
Eu caio, caio sem parar
E enfim chego ao fundo!

46. Juízo dos fatigados

Amaldiçoam o Sol todos os cansados;
Para eles o valor das árvores é a sombra!

52. Escrevendo com o pé

Não escrevo somente com a mão:
O pé também dá sua contribuição.
Firme, livre e valente ele vai
Pelos campos e pela página.

Friedrich Nietzsche

»Scherz, List und Rache«
Vorspiel in deutschen Reimen

21. Gegen die Hoffahrt

Blas dich nicht auf: sonst bringet dich
Zum Platzen schon ein kleiner Stich.

23. Interpretation

Leg ich mich aus, so leg ich mich hinein:
Ich kann nicht selbst mein Interprete sein.
Doch wer nur steigt auf seiner eignen Bahn,
Trägt auch mein Bild zu hellerm Licht hinan.

44. Der Gründliche

Ein Forscher ich? Oh spart diess Wort!
Ich bin nur schwer  so manche Pfund’!
Ich falle, falle immerfort
Und endlich auf den Grund!

46. Urtheile der Müden

Der Sonne fluchen alle Matten;
Der Bäume Wert ist ihnen Schatten!

52. Mit dem Fusse schreiben

Ich schreib nicht mit der Hand allein:
Der Fuss will stets mit Schreiber sein.
Fest, frei und tapfer läuft er mir
Bald durch das Feld, bald durchs Papier.

          * Nota do aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: No Posfácio de A Gaia Ciência, o tradutor Paulo César de Souza expõe que Nietzsche, ao mesmo tempo em que trabalhava no quarto capítulo (ou “livro”, como o filósofo chamava), desta obra, informava ao seu editor o encaminhamento em breve de um manuscrito intitulado “Die fröhliche Wissenschaft”, que continha “muitos epigramas em versos”; do conjunto da obra nietzschiana, relata ainda o tradutor, ser A Gaia Ciência a que contém maior variedade formal, pois aí se encontram versos humorísticos, aforismos, textos argumentativos, diálogos, parábolas, alegorias e poemas em prosa.
          ** Nota do tradutor Paulo César de Souza: No original, Scherz, List und Rache. Está entre aspas por ser o título de um Singspiel (libretto) publicado por Goethe em 1790, que Peter Gast musicou em 1880.
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A Gaia Ciência — Friedrich Nietzsche, Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza, 1ª edição, 3ª reimpressão, 2016, Companhia de Bolso, São Paulo — SP; Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 1900), nascido em Röcken, Província da Saxônia, Prússia, atual Alemanha, foi filósofo, filólogo, crítico cultural, professor, poeta e compositor; estudou na Universidade de Bonn, transferiu-se para a Universidade de Leipzig e foi professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia, Suiça; escreveu e publicou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872), A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos (textos que remontam a 1873, publicados postumamente), David Strauss, o Confessor e o Escritor (David Strauß. Der Bekenner und der Schriftsteller, 1873), Humano, Demasiado Humano, um Livro para Espíritos Livres (Menschliches, Allzumenschliches, primeira parte originalmente publicada em 1878 e versão final publicada em 1886), Schopenhauer como Educador (Shopenhauer als Erzieher, 1874), Richard Wagner em Bayreuth (1876), Aurora, Reflexões sobre Preconceitos Morais (Morgenröte. Gedanken über die moralischen Vorurteile, 1881), A Gaia Ciência (Die fröliche Wissenschaft, 1882), Assim Falou Zaratustra, um Livro para Todos e para Ninguém (Also sprach Zarathustra, 1883 1885), Além do Bem e do Mal, Prelúdio para uma Filosofia do Futuro (Jenseits von Gut und Böse, 1886), Genealogia da Moral, uma Polêmica (Zur Genealogie der Moral, 1887), O Crepúsculo dos Ídolos, ou Como Filosofar com o Martelo (Götzen Dämmerung, 1888), O Caso Wagner, um Problema para Músicos (1888), O Anticristo — Praga contra o Cristianismo (Der Antichrist, 1888), Ecce Homo, de como a gente se torna o que a gente é (Ecce Homo, 1888) e outros títulos; Nietzsche tem suas obras editadas, reeditadas e traduzidas pelo mundo afora; o pensador tem sido rotineiramente estudado nos cursos de Filosofia.

domingo, 25 de junho de 2023

Augusto dos Anjos: Os doentes* [trecho]


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[IV]

[ . . . ]

Aturdia-me a tétrica miragem
De que, naquele instante, no Amazonas,
Fedia, entregue a vísceras glutonas,
A carcaça esquecida de um selvagem.

A civilização entrou na taba
Em que ele estava. O gênio de Colombo
Manchou de opróbrios a alma do mazombo,
Cuspiu na cova do morubixaba!

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória,
Recebeu, tendo o horror no rosto impresso,
Esse achincalhamento do progresso
Que o anulava na crítica da História!

Como quem analisa um apostema,
De repente, acordando na desgraça,
Viu toda a podridão de sua raça...
Na tumba de Iracema!...

Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone,
Exercia sobre ele ação funesta
Desde o desbravamento da floresta
À ultrajante invenção do telefone.

E sentia-se pior que um vagabundo
Microcéfalo vil que a espécie encerra
Desterrado na sua própria terra,
Diminuído na crônica do mundo!

A hereditariedade dessa pecha
Seguiria seus filhos. Dora em diante
Seu povo tombaria agonizante
Na luta da espingarda com a flecha!

Veio-lhe então como à fêmea vêem antojos,
Uma desesperada ânsia improfícua
De estrangular aquela gente iníqua
Que progredia sobre os seus despojos!

Mas, diante a xantocróide raça loura,
Jazem, caladas, todas as inúbias,
E agora, sem difíceis nuanças dúbias,
Com uma clarividência aterradora,

Em vez da prisca tribo e indiana tropa,
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!


* Nota do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: R. Magalhães Júnior, autor deste Poesia e Vida de Augusto dos Anjos registra acerca do poema Os doentes [um longo poema realizado com 110 estrofes distribuídas em 9 seções, sendo que a 1ª foi composta por um soneto e as demais foram elaboradas em quadras]:
... em março [de 1909], a presença de Augusto dos Anjos seria marcada no ‘Estrelário’ por quatro poemas: Psicologia de um vencido, no dia 3; O Lázaro da pátria, no dia 23; A idéia, no dia 28; e Agonia de um filósofo, no dia 30. A segunda dessas poesias revela singular preocupação do poeta com o destino do índio brasileiro. Preocupação a que seus numerosos críticos até hoje não deram o devido apreço. O poeta impressionou-se com a crescente degradação dos primitivos habitantes da nossa terra, nos quais via ‘filhos podres de antigos goitacazes’, cobertos de úlceras, a escorrer pus. É uma reação vigorosa ao indianismo do período romântico das nossas letras – o de Domingos José Gonçalves de Magalhães, José de Alencar, Gonçalves Dias e Bernardo Guimarães. Mas sua intenção era responder a Alencar, como se vê das passagens de outro poema, Os doentes, cuja data de composição é até agora desconhecida. Nenhum outro poeta, antes dele, escrevera nesse tom sobre a tragédia das populações indígenas.
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Poesia e Vida de Augusto dos Anjos: R. Magalhães Júnior, 2ª edição corrigida e aumentada, 1978, Editora Civilização Brasileira e Instituto Nacional do Livro — MEC; Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884 1914), paraibano de Sapé, aprendeu as primeiras letras com o pai, fez o curso secundário no Liceu Paraibano, formou-se em Direito pela Faculdade de Recife e não advogou, foi professor e poeta; em 1908, recém-formado, transfere-se para a capital da Paraíba, passa a dar aulas particulares e é nomeado professor interino de Literatura do Liceu Paraibano; em 1910, muda-se para o Rio de Janeiro e, continuando no magistério, assume o cargo de professor de Geografia na Escola Normal e no Colégio Pedro II; em 1913, mudando-se para Leopoldina — MG, é nomeado diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira e continua a dar aulas particulares; seus poemas, e alguma prosa, são publicados em vários jornais da época: Almanaque do Estado da Paraíba, O Comércio (Paraíba), Nonevar (Paraíba), A União, Gazeta de Leopoldina (Leopoldina MG); publicou, em vida, sua única obra, Eu (1912); em 1920, foi editado na Paraíba Eu e Outras Poesias, reunindo a sua produção posterior ao primeiro e único livro; hoje é um dos poetas mais estudados e reeditados no Brasil.

Ariano Suassuna: Martelo Agalopado

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O galope sem freio dos Cavalos,
os punhais reluzentes do Cangaço,
a prata dos Bordões, no seu traspasso,
o pipocar do Rifle e seus estralos.
O Sino, com seus toques de badalo,
as Onças com seus olhos amarelos,
o Lajedo que é trono e que é Castelo,
o ressonar do Mundo esta Onça parda,
o vento, o sangue, o Sol, a madrugada,
e eu tinindo o galope do Martelo.

Na prisão destas Pedras fui atado,
aos olhos garça duma Cega fera.
O sangue da pobreza é uma Pantera
que estraçalha meu Povo injustiçado
Onde reina a justiça do Sonhado,
senhores do baraço e do Cutelo?
Ela vem! E eu, ao fogo do Flagelo,
mesmo em dura Prisão assim metido,
na cadeia dos anos vou, detido,
retinindo o galope do Martelo.

E as abelhas, o Mel acre e dourado,
e o angico, e o tambor, e a baraúna.
O concriz auri-rubro, a caraúna,
os cardeiros de frutos estrelados.
Chora a Vida: “Ai meu sangue assassinado!”
Grita o Mundo: “Na pedra eu me cinzelo!”
E o Tempo: “Tudo eu queimo e esfarelo!”
Quanto a mim, aos açoites da Virola,
vou, nas cordas de prata da Viola,
retinindo o galope do Martelo.

(1961 1972)

(Poemas. Seleção, organização e notas de Carlos
Newton Júnior. Recife: Editora da Universidade
Federal de Pernambuco, 1999, pp. 246—247.)

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Ariano Suassuna — Série Essencial 93, Academia Brasileira de Letras, Organização, Notícia Biográfica e Notas de Carlos Newton Júnior, 2018, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ariano Vilar Suassuna (1927 2014), paraibano de Nossa Senhora das Neves (atual João Pessoa), fez seus primeiros estudos em Taperoá PB, em 1942, então em Recife PE, continuou seus estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Oswaldo Cruz, depois, formou-se pela Faculdade de Direito; na literatura, estreou com a publicação do poema Noturno no Jornal do Comércio; ainda bacharelando, conheceu Hermilo Borba Filho, iniciou-se na arte de dramaturgia com estreia de peças de teatro (Uma Mulher Vestida de Sol, Cantam as Harpas de Sião e Os Homens de Barro); foi advogado, professor, escritor, dramaturgo e poeta, mas o ofício de advogado não significou a interrupção de sua atuação na arte teatral; em 1956 substituiu a advocacia pelo magistério, tornando-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, sempre produzindo sua arte dramática; em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste; iniciou o “Movimento Armorial”, focado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais; teve obras adaptadas para a televisão e para o cinema (Uma Mulher Vestida de Sol, Romance d’A Pedra do Reino, Auto da Compadecida); escreveu e publicou: para teatro: Uma Mulher Vestida de Sol (1947), Cantam as Harpas de Sião (1948), Auto de João da Cruz (Prêmio Martins Pena, 1950), Auto da Compadecida (1955), O Santo e a Porca (1958), Farsa da Boa Preguiça (1960) e tantos outros; romance: A História do Amor de Fernando e Isaura (1956), Romance d’A Pedra do Reino e O Príncipe do Sangue do Vai e Volta (1971) etc., poesias: Ode (1955), O Pasto Incendiado (1960), Seleta em Prosa e Verso (antologia, 1974), Sonetos com Mote Alheio (1980)..., ensaios: O Movimento Armorial (1974), Iniciação à Estética (1975) e A Onça Castanha e a Ilha Brasil — uma reflexão sobre a cultura brasileira (tese de livre docência, 1976); recebeu diversas premiações por sua obra; Ariano Suassuna ocupou a cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras.

sábado, 24 de junho de 2023

William Blake: A mosca

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[traduzido por José Paulo Paes]

Pequena Mosca,
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.

Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?

Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.

Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,

Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 26.02.84

William Blake

The Fly

Little Fly
Thy summers play,
My thoughtless hand
Has brush'd away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance
And drink, and sing;
Till some blind hand
Shall brush my wing.

If thought is life
And strength and breath;
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live,
Or if I die.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Blake (1757 1827), inglês e londrino, foi tipógrafo, escritor, poeta, gravurista e artista plástico do pré-romantismo na Inglaterra; consta de sua biografia que, por decisão paterna, o poeta esteve alheio às escolas, não cumpriu a pedagogia oficial de então e foi incentivado a trilhar seu próprio caminho e desenvolver seus dotes artísticos; aprendeu técnicas de gravura e iniciou-se como gravurista; associou-se ao tipógrafo James Parker, abriu um atelier de impressão e passou a imprimir seus livros e suas gravuras; suas obras: Poetical Sketches (Esboços Poéticos, 1783), Songs of Innocence (Canções da Inocência, 1789), The French Revolution: A Poem in Seven Books (A Revolução Francesa, 1791), The Marriage of Heaven and Hell (O Casamento do Céu e do Inferno, 1793), Songs of Experience (Canções da Experiência, 1794), Milton (1804), Jerusalem (1820), “Rossetti” Manuscript (Manuscrito “Rossetti", publicação póstuma) e outros títulos, além de ilustrações e pinturas.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

iessiênin: inonia* [trecho]


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[traduzido por Augusto de Campos]

ao profeta Jeremias

[ . . . ]

Um ladrido de sinos sobre a Rússia:
Choram os muros do Kremlin.
Hoje, com as lanças das estrelas,
Te arrancarei do chão, terra trêmula!

Distendido até a cidade invisível
Perfurarei o lácteo véu.
Até a Deus vou beliscar a barba,
Mostrando os dentes para o céu.

E lhe direi com voz de vento,
Grudando-o pela grenha alva:
Senhor, vou te fazer diferente
Para florir meu campo de palavras.

Lamberei com a língua dos ícones
As máscaras dos mártires lívidos.
Eu lhes prometo a terra de Inonia
Onde vive a divindade dos vivos!

Maldigo o respiro de Kitej,1
Todos os vales do seu mundo.
Quero erguer o nosso castelo
Sobre a escavação sem fundo.

Soluça e chora, Moscóvia!
Um novo Indikaplóv2 se eleva!
Todas as rezas do teu breviário
Rasgarei com meu bico de palavras!

[ . . . ]

1918

Sierguéi Iessiênin

Инония

Пророку Иеремии

[ . . . ]

2.

Лай колоколов над Русью грозный
Это плачут стены Кремля.
Ныне на пики звездные
Вздыбливаю тебя, земля!

Протянусь до незримого города,
Млечный прокушу покров.
Даже богу я выщиплю бороду
Оскалом моих зубов.

Ухвачу его за гриву белую
И скажу ему голосом вьюг:
Я иным тебя, господи, сделаю,
Чтобы зрел мой словесный луг!

Языком вылижу на иконах я
Лики мучеников и святых.
Обещаю вам град Инонию,
Где живет божество живых.

Проклинаю тебя я Радонеж,
Твои пятки и все следы!
Ты огня золотого залежи
Разрыхлял киркою воды.

Плачь и рыдай, Московия!
Новый пришел Индикоплов.
Все молитвы в твоем часослове я
Проклюю моим клювом слов.

[ . . . ]

1918

* Notas:
do blogue Verso e Conversa: através de pesquisas googleanas, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que este poema Inonia (Инония) é composto por 212 versos distribuídos em 53 estrofes e em quatro seções.
de Augusto de Campos, Organizador e Tradutor deste Poesia da Recusa:
1. Cidade legendária que, assediada pelas hordas tártaras, teria sido engolida pela terra;
2. Kosma Indikaplóv, mercador do século VI, que se tornou monge em Alexandria e escreveu um tratado cosmogônico, baseado na Bíblia.
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poesia da recusa (vários autores) — augusto de campos, Seleção, Tradução, Introdução, Traços biográficos e Notas de Augusto de Campos, Coleção Signo 42, 2006, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Sergei Alexandrovich Yesenin ou Sierguéi Iessiênin (1895 1925), russo de Konstantinovo, região de Ryazan Oblast, à época Império Russo, estudou em escola rural, frequentou seminário, e foi poeta; aos dezessete anos mudou-se para Moscou, de 1912 a 1915 estudou na Universidade do Povo da Cidade de Moscou em homenagem a A. L. Shanyavsky, trabalhou como tipógrafo e revisor; começou a escrever poemas, participou de grupos literários e publicou seu primeiro livro, Ritual para os Mortos (Radunitsa — Радуница, 1916); apoiou a Revolução de Outubro por acreditar que proporcionaria uma vida melhor ao campesinato, o que se refletiu em outro volume de poemas, Otherland; logo desiludiu-se e passou a criticar o governo bolchevique o que reflete em seu poema O outubro vermelho me enganou; em 1922 casa-se pela terceira vez, agora com a dançarina Isadora Duncan e a acompanha em turnê pela Europa; alcoolista, bebendo frequentemente e com o comportamento mudado, recebe muita crítica negativa na imprensa internacional; em 1923 retorna para sua terra natal e publica Tavern Moscou, Confessions of a Hooligan, Deolate and Pale Moonlight e The Black Man; sua saúde mental entra em declínio, é hospitalizado e, após alta em 27 de dezembro de 1925, corta os pulsos, escreve um poema de despedida com o próprio sangue (До свиданья, друг мой, до свиданья Até logo, Até logo, Companheiro”) e depois comete suicídio por enforcamento; embora tenha sido um dos poetas mais populares da Rússia, teve grande parte de seus textos proibida durante o governo de Joseph Stálin; somente em 1966 foram republicadas na Rússia suas obras completas; nos meios literários, o poeta é considerado o maior expoente do chamado Imagismo Russo, viveu com a mesma geração a que também pertenceu Vladimir Maiakóvski, um seu grande admirador; o suicídio de Iessiênin causou grande impacto na opinião pública da época: Maiakóvski escreveu “A Sierguéi Iessiênin” (Сергей Есенин) um poema crítico em resposta ao suicídio e ao poema do suicida, escrito com sangue; suas obras: Radunitsa (1916); Livro Rural das Horas (1918), Inoniya (1918); Confessions of a Hooligan (1921); Pugachyov (1922).