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Liberdade!... Liberdade!...
Já diviso a tua luz!
Neste mundo de maldade
Vou deixar a minha cruz!
Vou ser livre! À luz d’aurora,
Da raça que me devora
Cativo já não serei!
E sim livre, e sim ditoso,
Da liberdade no gozo,
Noutro mundo, noutra grei!
Que só vive aqui o livre,
Do que o seu — a escravidão!
Vou ser livre... não é crime
Esta cadeira quebrar;
A quem da infância s’exime
Não pode Deus condenar!
E quando fosse um delito?...
Perdoaria ao aflito
O meu divino Jesus!
— Pai do céu! Quanto eu
sofria...
Não era Deus, não podia
Carregar tamanha cruz!
Não pude mais!... Vive o
livre,
Do que o seu — a escravidão!
Fugi dos brancos algozes,
Daquela taça de fel!
Além de açoites atrozes
A objeção mais cruel!
Oh, sim, meu Deus! Mais um dia
A sorte que me oprimia
Foi-me impossível sofrer!
Fome, sede, insultos, dores...
Do meu senhor os rigores...
Sem tréguas o padecer!
Perdoai-me, pois! Não vive
Do que o seu — a escravidão!
Assim ao Deus de bondade
Direi gemendo a chorar,
Ele, a suma piedade,
O meu pranto há de enxugar;
Serei salvo... em santo
abrigo,
Bem longe deste jazigo,
Que me causa tanto horror!
Feliz então, meu destino
Sem o chicote ferino
Com que me açoita o feitor!
Vivendo... pois vive o livre,
Do que o seu — a escravidão!
Livre... salvo... perdoado...
Em breve, em breve serei!
E se fosse condenado
Nada eu perdia... bem sei!
Pois do inferno os tormentos
Não podem ser mais cruentos
Quais os que eu sofro aqui;
Mas o meu Deus é clemente...
Se me julga delinquente,
Sabe quanto eu padeci!
Serei salvo... vive o livre,
Do que o seu — a escravidão!
Livre... e salvo! Adeus,
torturas
Que neste mundo provei
Adeus, cruéis amarguras,
Adeus, campos que eu lavrei...
Suando suor de sangue,
Açoitado, vil, exangue...
Chorando mudo e feroz!
Adeus, adeus, ó, parceiros,
Na desgraça companheiros...
Rogarei no Céu por vós...
Que não viveis... pois não
vive,
Do que o seu — a escravidão!
Adeus, sol que me queimavas
No campo sem compaixão,
Que minhas chagas secavas
Do chicote e do grilhão;
E tu, lua traiçoeira,
Que a minha afeição primeira
Descobriste ao meu senhor...
Que escarneceu-se nefando,
Ao mesmo tempo açoitando,
A virgem do meu amor!
Adeus, adeus... Vive o livre,
Do que o seu — a escravidão!
Vento ingrato... tu que irado
Meus trapos vinha rasgar,
E depois quase gelado
Me fazias tiritar...
Adeus, pra sempre! E tu,
noite,
Que me livraste ao açoite
Em teu véu de minha cor!
Adeus, humana fereza,
Adeus, mundo de torpeza,
Vergonha, prantos e dor!...
Qu’eu vou ser livre... Não
vive,
Do que o seu — a escravidão!
Adeus, mundo! À luz do dia
Bem longe... longe estarei;
Aqui na mata sombria
Este corpo deixarei:
Neste galho pendurado
Ficará para legado
Do branco que me comprou!
Ferido, magro, mirrado...
Assim o deixo ao malvado,
Que sem pena o maltratou!
Que legue melhor o livre,
Do que o seu — a escravidão!
É pobre, sim, o legado...
Magro corpo... quase nu!
Quem o tornou neste estado?
Foi tu, ó branco, foi tu!
Assim, pois, recebe-o agora
É teu... compraste-o... devora
Aquilo que te custou!
Devora... corvo funesto,
Devora... consome o resto,
Que o teu chicote deixou!
Qu’eu vou ser livre... Não
vive,
Do que o seu — a escravidão!
É tempo... desponta a
aurora...
Fiz o laço... pronto estou!
Em menos de um quarto d’hora,
Grande Deus, convosco, sou!
Mundo torpe... cativeiro...
Ímpio branco e carniceiro...
Vinde ouvir-me: — maldição!
E tu, salve, ó liberdade!
Vou entrar na eternidade...
Santo Deus... Vosso perdão!
É tempo... só vive o livre,
Eis me salvo deste inferno...
Já não sinto... a escravidão!
(Lendas e canções populares,
2ª ed., 1892)
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A escravidão na poesia brasileira
do século XVII ao XXI [antologia poética: 81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização
e Introdução de Alexei Bueno, 1ª edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro —
RJ; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 — 1931), cearense de Fortaleza, fez seus
estudos primários numa escola de Pacatuba, cursou Humanidades no Liceu do Ceará,
foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, com o intuito de ampliar
conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo
de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de
Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de
propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, levou impresso o seu primeiro livro
de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada
a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro
será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865),
Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872), Folhetins
de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição
e Pedro II; acometido de glaucoma, ficou cego em 1906.