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domingo, 23 de março de 2025

Juvenal Galeno: Jangada

 
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Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
tu queres vento de terra,
ou queres vento do mar?

Minha jangada de vela,
que vento queres levar?

Aqui no meio das ondas,
das verdes ondas do mar
és como que pensativa,
duvidosa a bordejar!1

Saudades tens lá das praias,
queres na areia encalhar?
ou no meio do oceano
apraz-te2 as ondas sulcar3?

Minha jangada de vela,
que vento queres levar?


Notas da edição — Vocabuilário:
1. Bordejar  Navegar, mudando com frequência de rumo;
2. Aprazer  Agradar;
3. Sulcar  Fazer sulcos em. Sulco: rego aberto pelo arado ou charrua; depressão que um navio faz nas águas, cortando-as.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, fez seus estudos primários numa escola de Pacatuba CE, cursou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, com o intuito de ampliar conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, levou impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872) Folhetins de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II; acometido de glaucoma, ficou cego em 1906.

domingo, 23 de junho de 2024

Juvenal Galeno: O escravo suicida

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Liberdade!... Liberdade!...
Já diviso a tua luz!
Neste mundo de maldade
Vou deixar a minha cruz!
Vou ser livre! À luz d’aurora,
Da raça que me devora
Cativo já não serei!
E sim livre, e sim ditoso,
Da liberdade no gozo,
Noutro mundo, noutra grei!
Que só vive aqui o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Vou ser livre... não é crime
Esta cadeira quebrar;
A quem da infância s’exime
Não pode Deus condenar!
E quando fosse um delito?...
Perdoaria ao aflito
O meu divino Jesus!
Pai do céu! Quanto eu sofria...
Não era Deus, não podia
Carregar tamanha cruz!
Não pude mais!... Vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Fugi dos brancos algozes,
Daquela taça de fel!
Além de açoites atrozes
A objeção mais cruel!
Oh, sim, meu Deus! Mais um dia
A sorte que me oprimia
Foi-me impossível sofrer!
Fome, sede, insultos, dores...
Do meu senhor os rigores...
Sem tréguas o padecer!
Perdoai-me, pois! Não vive
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Assim ao Deus de bondade
Direi gemendo a chorar,
Ele, a suma piedade,
O meu pranto há de enxugar;
Serei salvo... em santo abrigo,
Bem longe deste jazigo,
Que me causa tanto horror!
Feliz então, meu destino
Sem o chicote ferino
Com que me açoita o feitor!
Vivendo... pois vive o livre,
O escravo não!
Que não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Livre... salvo... perdoado...
Em breve, em breve serei!
E se fosse condenado
Nada eu perdia... bem sei!
Pois do inferno os tormentos
Não podem ser mais cruentos
Quais os que eu sofro aqui;
Mas o meu Deus é clemente...
Se me julga delinquente,
Sabe quanto eu padeci!
Serei salvo... vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Livre... e salvo! Adeus, torturas
Que neste mundo provei
Adeus, cruéis amarguras,
Adeus, campos que eu lavrei...
Suando suor de sangue,
Açoitado, vil, exangue...
Chorando mudo e feroz!
Adeus, adeus, ó, parceiros,
Na desgraça companheiros...
Rogarei no Céu por vós...
Que não viveis... pois não vive,
O escravo não!
Que não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Adeus, sol que me queimavas
No campo sem compaixão,
Que minhas chagas secavas
Do chicote e do grilhão;
E tu, lua traiçoeira,
Que a minha afeição primeira
Descobriste ao meu senhor...
Que escarneceu-se nefando,
Ao mesmo tempo açoitando,
A virgem do meu amor!
Adeus, adeus... Vive o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Vento ingrato... tu que irado
Meus trapos vinha rasgar,
E depois quase gelado
Me fazias tiritar...
Adeus, pra sempre! E tu, noite,
Que me livraste ao açoite
Em teu véu de minha cor!
Adeus, humana fereza,
Adeus, mundo de torpeza,
Vergonha, prantos e dor!...
Qu’eu vou ser livre... Não vive,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

Adeus, mundo! À luz do dia
Bem longe... longe estarei;
Aqui na mata sombria
Este corpo deixarei:
Neste galho pendurado
Ficará para legado
Do branco que me comprou!
Ferido, magro, mirrado...
Assim o deixo ao malvado,
Que sem pena o maltratou!
Que legue melhor o livre,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

É pobre, sim, o legado...
Magro corpo... quase nu!
Quem o tornou neste estado?
Foi tu, ó branco, foi tu!
Assim, pois, recebe-o agora
É teu... compraste-o... devora
Aquilo que te custou!
Devora... corvo funesto,
Devora... consome o resto,
Que o teu chicote deixou!
Qu’eu vou ser livre... Não vive,
O escravo não!
Pois não há pior inferno
Do que o seu a escravidão!

É tempo... desponta a aurora...
Fiz o laço... pronto estou!
Em menos de um quarto d’hora,
Grande Deus, convosco, sou!
Mundo torpe... cativeiro...
Ímpio branco e carniceiro...
Vinde ouvir-me: maldição!
E tu, salve, ó liberdade!
Vou entrar na eternidade...
Santo Deus... Vosso perdão!
É tempo... só vive o livre,
O escravo não!
Eis me salvo deste inferno...
Já não sinto... a escravidão!

(Lendas e canções populares, 2ª ed., 1892)

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A escravidão na poesia brasileira do século XVII ao XXI [antologia poética: 81 autores e autoras, 221 poemas] — Organização e Introdução de Alexei Bueno, 1ª edição, 2022, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, fez seus estudos primários numa escola de Pacatuba, cursou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, com o intuito de ampliar conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, levou impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872), Folhetins de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II; acometido de glaucoma, ficou cego em 1906.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Juvenal Galeno: A Moda

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O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
 Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: 
Eis a minha opinião!

               Mas, vestir-se o brasileiro
               Como lhe ordena o francês...
               Não acho isto direito!
               Viver o povo sujeito
               Aos figurinos do mês!

É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!

               Devemos ter nossa moda,
               Tenha a sua o japonês;
               Vista o prusso à prussiana,
               Ande o russo à russiana,
               Ninguém roube a do chinês.

Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.

               Mas, ornar-se quem tirita
               Como quem sopra... é demais!
               Se trajarmos nos estios
               Como a França nos seus frios,
               Não somos racionais!

E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Às damas puseram rabo! 
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? 

               Ou caudas... que varrem tudo,
               Cuspo, cisco e seus iguais;
               Onde passam fica enxuto...
               Não há ponta de charuto
               Que não levem... rabos tais!

E do triste ganha-pouco
Limpa a bolsa o lucifer...
Quanta vez pobre empregado
Não dá um mês de ordenado
Para... a cauda da mulher!

               Que o figurino do rico
               É do pobre o mesmo, sim;
               Ricos e pobres vestidos
               Não podem ser distinguidos...
               Quis os meios?  Eis o fim.

E as outras extravagâncias
Da moda que vem de lá?!
Ora frouxa, ora apertada,
As saias de alma penada,
Cabelos de arapoá!

               Botinas e polonaise,
               Hoje, bico — amanhã, não;
               Muitas trouxas, muitos regos,
               Babados e repolegos,
               Arregaços... confusão!

E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Naquele horrendo pastel!

               E algumas... que medo ao vê-las...
               À gente fazem correr:
               Cobertas das trapalhadas,
               Com suas caras caiadas,
               São bichos, querem morder!

Oh, senhoras de bom senso,
Pensai um pouco... e vereis
Que das modas na loucura
Não é bonita a figura
Que, infelizmente, fazeis.

               E ver-se que a tal mania
               Domina tudo entre nós...
               Que o pobre do brasileiro
               Geme nesse cativeiro,
               De todos o mais atroz!

E dizem que somos livres...
Nós?! Escravos de Paris!
Cativos do figurino,
De um capricho libertino,
Que assim governa o país!

               Que transtorno as cabecinhas
               Dos anjos de nosso amor!
               Que nos arranca sem pena
               A economia pequena...
               Basta chegar o vapor!

E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte, ou filha sua,
Em dias do mês que vem!

               Já disse o suficiente...
               Às damas peço perdão!
               Apenas bato o abuso...
               Cada terra com seu uso...
               Essa é minha opinião!

Folhetins de Silvanus  1891

Resultado de imagem para Juvenal Galeno
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Juvenal Galeno — Poesia — Coleção Nossos Clássicos nº 34, por João Clímaco Bezerra, 1959, Editora Agir, Rio de Janeiro — RJ; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, estudou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, a mando do pai, para ampliar conhecimentos na área agrícola, viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, leva impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, considerada a primeira obra literária impressa no Ceará, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872) Folhetins de Silvanus (1891) e outros títulos; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Juvenal Galeno: O velho poeta

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Se vires um poeta encanecido,
Dos amigos de outrora abandonado,
Sem vista para ler, mas conformado,
Da rua nas palestras esquecido,

Na cidade natal desconhecido,
No país em seus versos celebrado;
E entre o povo por quem fora encantado,
Muitas vezes, então, desvanecido...

Ai, sou eu que, morrendo nos meus lares,
Deixarei, como herança, à pátria amada
Minhas Cenas e Lendas Populares...

E voando das almas à pousada,
De lá espero ouvir os meus cantares
Consolando a pobreza malfadada.

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Sonetos Brasileiros — Séculos XVII ao XX, Coletânea organizada por Laudelino Freire, 1929, F. Briguiet & Cia. Editores, Rio de Janeiro — RJ; Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836 1931), cearense de Fortaleza, estudou Humanidades no Liceu do Ceará, foi escritor, poeta e folclorista; em 1855, para ampliar conhecimentos na área agrícola, a mando do pai viajou para o Rio de Janeiro e ali tornou-se amigo de Paula Brito, dono de tipografia, conheceu Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, passou a colaborar com o jornal Marmota Fluminense, de propriedade do tipógrafo; de volta à Fortaleza, leva impresso o seu primeiro livro de poemas, Prelúdios Poéticos (1856); depois vieram A Machadada (poema, 1860), Quem com ferro fere com ferro será ferido (teatro, drama sociológico, 1861), Lendas e Canções Populares (1865), Cenas Populares e Canções da Escola (ambos em 1871), Lira Cearense (1872) e outros; colaborou nos jornais cearenses A Constituição e Pedro II; acometido de glaucoma, ficou cego em 1906.