sábado, 31 de março de 2018

Adélia Prado: O que a musa eterna canta

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Cesse de uma vez meu vão desejo
de que o poema sirva a todas as fomes.
Um jogador de futebol chegou mesmo a declarar:
“Tenho birra de que me chamem de intelectual,
sou um homem como todos os outros”.
Ah, que sabedoria, como todos os outros,
a quem bastou descobrir:
letras eu quero é pra pedir emprego,
agradecer favores,
escrever meu nome completo.
O mais são as maltraçadas linhas.

Bagagem  1976

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Bagagem — Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo — SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935,  mineira de Divinópolis, formada em Filosofia, poeta e professora, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988),  Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos; teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Rainer Maria Rilke: Dançarina espanhola

livro poemas de rainer maria rilke geir campos
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[traduzido por Geir Campos]

Tal como um fósforo na mão descansa
antes de bruscamente arrebentar
na chama que em redor mil línguas lança
 dentro do anel de olhos começa a dança
ardente, num crescendo circular.

E de repente é tudo apenas chama.

No olhar aceso ela o cabelo inflama,
e faz girar com arte a roupa inteira
ao calor dessa esplêndida fogueira
de onde seus braços, chocalhando anéis,
saltam nus como doidas cascavéis.

Quando escasseia o fogo em torno, então,
ela o agarra inteiro e o joga ao chão
num violento gesto de desdém,
e altiva o fita: furioso e sem
render-se embora, sempre flamejando.
E ela, com doce riso triunfal,
ergue a fronte num cumprimento: e é quando
o esmaga entre os pés ágeis, afinal.

Rainer Maria Rilke

Spanische Tänzerin

Wie in der Hand ein Schwefelzündholz, weiß,
eh es zur Flamme kommt, nach allen Seiten
zuckende Zungen streckt : beginnt im Kreis
naher Beschauer hastig, hell und heiß
ihr runder Tanz sich zuckend auszubreiten.

Und plötzlich ist er Flamme, ganz und gar.

Mit einem Blick entzündet sie ihr Haar
und dreht auf einmal mit gewagter Kunst
ihr ganzes Kleid in diese Feuersbrunst,
aus welcher sich, wie Schlangen die erschrecken,
die nackten Arme wach und klappernd strecken.

Und dann: als würde ihr das Feuer knapp,
nimmt sie es ganz zusamm und wirft es ab
sehr herrisch, mit hochmütiger Gebärde
und schaut: da liegt es rasend auf der Erde
und flammt noch immer und ergiebt sich nicht .
Doch sieghaft, sicher und mit einem süßen
grüßenden Lächeln hebt sie ihr Gesicht
und stampft es aus mit kleinen Füßen.
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Poemas de Rainer Maria Rilke, Coleção Rubáiyát, Tradução e Notas de Geir Campos, 1953, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro  RJ; Rainer Maria Rilke (1875  1926), ou René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke, austríaco de Praga (antigo Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca), fez seus estudos nas universidades de Praga, Munique e Berlim, foi poeta e novelista; o poeta, um quase nômade, andejou por muitos países na Europa; no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Rilke residia em Munique e ali permaneceu até o término do conflito; escreveu e publicou Leben und Lieder (Vida e Canções, 1894), Das Buch der Bilder (O Livro das Imagens, 1902), Die Weise von Liebe und Todd es Cornets Christoph Rilke (A Canção do amor e de Morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, 1904), Stundenbuch (O Livro das Horas, 1905), Neue Gedichte (Novos Poemas I e II, 19071908), Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), Das Marien Leben (A Vida de Maria, 1913), Duineser Elegien (Elegias de Duíno, 1923), Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923), Briefe an einen jungen Dichter (publicação póstuma, Cartas a um Jovem Poeta, 1929); também escreveu poemas em francês.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Hilda Hilst: O bisturi e o verso

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LVIII

O bisturi e o verso.
Dois instrumentos
entre as  minhas mãos.
Um deles rasga o Tempo
O outro eterniza
Aquele tempo-ouro sem medida.

Rompem-se sílabas e fonemas.
Estanco meus projetos.
E o que se vê
É um só comum-complexo
Coração aberto.

E nunca mais
Na dimensão da Terra
Hei de rever as moradas, os tetos
Os paraísos soberbos da paixão.

Cantares de perda e predileção  1983

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Cantares — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora,  2002, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930  2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira  (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas  (1980),  Cantares de perda e predileção (1983), Amavisse (1989),  Alcoólicas  (1990),  Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção:  Fluxofloema  (1970),  Qadós (1973), Tu não te moves de ti  (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio (1992), Cartas de um sedutor (1991), Cantares do sem nome e de partidas (1995) etc.; dramaturgia: Teatro Reunido, volumes I e II (2000 e 2001); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas  SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a séde do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Luís Delfino: O Testamento

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Se algum dia te vir, celeste Helena,
Mais branca do que os teus lençóis de linho,
Como um pássaro morto no caminho,
Morta em antes de vir a tarde amena,

Deixa-me o gozo ao último carinho,
Que podes dar-me sem remorso ou pena,
E, como um’ave, que procura um ninho,
Pôr meu lábio em teu rosto de açucena.

Diz que cedes já ao meu desejo,
Que eu posso à face bela haurir-te um beijo,
O meu primeiro e último sequer...

Eu nunca quis, nem quero inda outra cousa:
Abre-me os braços nesse leito, esposa;
Dá-me o teu seio: espera-me, mulher...

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Melhores Poemas — Luís Delfino, Seleção de Lauro Junkes, 1998, 3ª edição, Global Editora, São Paulo — SP; Luís Delfino dos Santos  (1834   1910), nascido na então Desterro, hoje Florianópolis —  SC,  formado em Medicina pela Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro, foi médico, político e poeta, sendo considerado o segundo poeta mais importante de Santa Catarina (o primeiro é Cruz e Souza); apesar de poeta conhecido, não publicou nenhum  livro em vida, seus poemas foram divulgados em jornais e revistas da época (Beija-FlorDiário do Rio de JaneiroRevista PopularA EstaçãoA GazetinhaA Vida Moderna) e nos periódicos simbolistas A MeridionalRevista ContemporâneaRosa Cruz e Vera-Cruz; deixou-nos como legado uma vasta obra  mais de mil poemas  —   considerada perfeita, a qual só postumamente foi reunida em catorze volumes por seu filho Tomás Delfino dos Santos e publicada; foi senador por Santa Catarina.

terça-feira, 27 de março de 2018

Goulart de Andrade: Por quê?

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Ris, se digo que és boa; e se te digo
Que és má, tomas um ar de indiferença...
Fazes um gesto vago de descrença,
Quando afirmo serei teu muito amigo...

Se de tuas promessas te desligo,
Amuas-te; e é fatal a desavença,
Ao te falar da gratidão imensa
E do respeito meu para contigo...

Se as mãos te beijo, cedes; mas, fremente,
Se a procuro, essa boca me resiste!...
Enfado-me, gargalha loucamente!

Não sei, porém, se alta razão te assiste,
Se a atitude é de sábio ou de demente,
Quando, ao jurar que te amo, ficas triste!

Ocaso  1934.
Rio de Janeiro: Renascença, p. 8.

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Goulart de Andrade Série Essencial 50, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Sânzio de Azevedo, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo SP; José Maria Goulart de Andrade (1881 1936), alagoano de Maceió, estudante da Escola Naval do Rio de Janeiro e formado na Escola Politécnica, foi geólogo, engenheiro, jornalista, professor, poeta, romancista, cronista e teatrólogo; sua bibliografia: Poesias, 1900 1905 (1907), Teatro (1909), Poesias, 2ª série, 1908 1909, (1911), Os Inconfidentes (teatro, 1911), Numa Nuvem (teatro, 1911), Contos do Brasil Novo (1923), Um dia a casa cai (teatro, 1923), Ocaso  3ª série das Poesias (1934).

segunda-feira, 26 de março de 2018

Adélia Prado: Com licença poética

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Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
 dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

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Bagagem  Adélia Prado, edição revisada, 27ª edição, 2008, Editora Record, São Paulo  SP; Adélia Luzia Prado de Freitas, nascida em 1935,  mineira de Divinópolis, formada em Filosofia, poeta e professora, teve Carlos Drummond de Andrade como seu padrinho poético ao publicar seu primeiro livro de poemas, Bagagem (Imago, Rio de Janeiro, 1976); depois, publicou O coração disparado (agraciado com o Prêmio Jabuti, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1978), Terra de Santa Cruz (Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1981), O pelicano (Guanabara, Rio de Janeiro, 1987), A faca no peito (Rocco, Rio de Janeiro, 1988),  Poesia reunida (Siciliano, São Paulo, 1991), Oráculos de maio (Siciliano, São Paulo, 1999), A Duração do Dia (2010), entre outros títulos; teve obras vertidas para os idiomas espanhol, inglês e italiano.

domingo, 25 de março de 2018

Teixeira de Melo: Segredo

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O segredo deste sonho
Que me embalou tantos dias
É como a folha de um livro
Que se rasgou quando o lias...
As flores que à sombra crescem,
Crescem, mulher, tão sombrias!

É como o grito dos mares
Nas asas do furacão.
É um veneno que mata
E alimenta o coração.
É mais talvez que um gemido
E menos que uma oração...

À noite nos cemitérios
Vão mil vampiros vagar:
Quem já rompeu seus mistérios?
Que brisa os sabe contar?
A estrela já disse à noite
Segredos do cintilar?!

Como o perfume de um goivo
Que para os mortos se inclina,
Como o primeiro suspiro
De descuidada menina,
Nasceu só, morreu sozinho,
Que sina, meu Deus! que sina!

A lua  que além se mira
Nas ondas mortas do mar 
Não lhe revela os segredos
Do seu mudo fulgurar;
E, nem a vaga os suspira,
Nem os leva a soletrar.

O segredo dos meus cantos
Não tentes, louca, romper!
Deixa o dormir só comigo,
Só comigo amanhecer,
E acompanhar-me ao jazigo
Na tardinha em que eu morrer.

Esse segredo sem nome
Voz do meu primeiro amor,
Que fora o eco de um riso.
Que é hoje um eco de dor,
Hás de lê-lo no epitáfio
Da lagem [sic] do sonhador.

Sonhador, como as estrelas
Que tremem nos céus com medo,
Sê mudo! Pobre criança!
Não pôde amar-te; era cedo!
Tens um abismo no peito:
Guarda nele o teu segredo!

Poesias, 1914.
Liège: Thipographie F. Brimbois, pp. 7072.

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Teixeira de Melo — Série Essencial 19, Academia Brasileira de Letras, Organização, Apresentação e Notas de Ubiratan Machado, 2010, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Alexandre Teixeira de Melo (1833  1907), fluminense de Campos dos Goytacazes, cursou Humanidades no Seminário São José, onde aprendeu latim, francês, filosofia, história, poética, geografia e teologia, e, depois, formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; além de médico, foi jornalista, historiador e poeta; o poeta é tido como o precursor e introdutor dos versos alexandrinos clássicos na literatura brasileira; após ter atuado em diversas funções como funcionário da Biblioteca Nacional, foi nomeado seu diretor, cargo este que exerceu até se aposentar; como pesquisador e historiador, pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e colaborou com várias publicações especializadas, entre as quais Anais da Biblioteca Nacional e Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil; o poeta que, ainda estudante de medicina, dirigira e participara de O Acadêmico, “periódico científico-literário, especialmente médico”, posteriormente foi um dos fundadores e colaborador da Gazeta Literária, publicação que divulgava textos dos mais renomados intelectuais da época; como jornalista, assinou seus textos também com o pseudônimo Anódino; bibliografia: Sombras e Sonhos (poesia, 1858), Que Regime Será Mais Conveniente para a Criação dos Expostos da Santa Casa de Misericórdia (tese acadêmica do curso de medicina, 1859), Miosótis (poesia, 1877), Efemérides Nacionais (1879), Limites do Brasil com a Confederação Argentina (1883), Poesias (1914) e outros.

sábado, 24 de março de 2018

Heinrich Heine: No cérebro uma história da carocha . . . [soneto]

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[traduzido por André Vallias]

No cérebro uma história da carocha
Me assusta; nela escuto uma cantiga,
Onde circula, pula, chora e briga
Uma menina-flor que desabrocha.

Seu coração, contudo, é tão tacanho,
Que lá o amor jamais logrou morar;
No antro escuro e frio de amargar
Só coube uma soberba sem tamanho.

Não vês como esta fábula incomoda?
E como a tal canção me desespera?
E o quanto a menininha tripudia?

Receio que a cabeça ainda me exploda 
E arre! o que pior me acontecera
Do que a razão sair do trilho um dia?

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Im Hirn spukt mir ein Märchen wunderfein

Im Hirn spukt mir ein Märchen wunderfein,
Und in dem Märchen klingt ein feines Lied,
Und in dem Liede lebt und webt und blüht
Ein wunderschönes, zartes Mägdelein.

Und in dem Mägdlein wohnt ein Herzchen klein,
Doch in dem Herzchen keine Liebe glüht;
In dieses lieblos frostige Gemüt
Kam Hochmut nur und Übermut hinein.

Hörst du, wie mir im Kopf das Märchen klinget?
Und wie das Liedchen summet ernst und schaurig?
Und wie das Mägdlein kichert, leise, leise?

Ich fürchte nur, daß mir der Kopf zerspringet 
Und, ach! da wär’s doch gar entsetzlich traurig,
Käm der Verstand mir aus dem alten Gleise.

[1821]
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Heine, hein?: poeta dos contrários — Introdução, Traduções e Notas de André Vallias, 2011, 1ª edição e 1ª reimpressão, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Christian Johann Heinrich Heine (1797  1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico poética musicada por vários compositores de sua época (Franz SchubertRobert SchumannFelix MendelssohnBrahmsHugo WolfRichard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha FerreiraHans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou  Gedichte  (Poesias, 1821), Buch der Lieder (poesias, Livro das Canções, 1827),  Neue Gedichte  (Novos Versos, 1844), Romanzero (poesias, Romanceiro, 1851), Der Doktor Faust  —  Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma, Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Hilda Hilst: Maria anda como eu: Impossibilitada de fazer tudo o que quer.

livro baladas hilda hilst
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VII

Maria anda como eu:
Impossibilitada de fazer
tudo o que quer.

Tem mãos amarradas,
ar de doente, olhar de demente,
cansada.

Maria vai acabar como eu:
covarde nas decisões,
amante das cousas indefinidas
e querendo compreender suicidas.

Maria vai acabar assim sem rumo,
andando por aí,
fazendo versos
e tendo acessos
nostálgicos.

Maria vai acabar
bem tristemente.
De qualquer jeito,
lendo jornais,
tendo marido
indefinido.

(Não sei por que Maria
quer compreender
muito, demais,
a vida do suicida.
E Maria vai acabar
se fartando da vida.)

A vida, coitada,
é camarada, gosta de Maria,
quer fazer Maria viver mais,
porque Maria é desgraçada.
Quer deixá-la para o fim,
assim à mostra,
e eu francamente não entendo
por que Maria não gosta
da vida.

Presságio  1950

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Baladas — Hilda Hilst, Organização e plano de edição de Alcir Pécora,  2003, Editora Globo, São Paulo — SP; Hilda de Almeida Prado Hilst (1930 — 2004), paulista de Jaú, formada em Direito pela Universidade de São Paulo, foi poeta, ficcionista e dramaturga; escreveu e publicou: em poesia, Presságio (1950), Balada de Alzira  (1951), Balada do Festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor  (1960), Ode Fragmentária (1961), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas  (1980),  Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Bufólicas (1992), Exercícios (2002) entre outros títulos; ficção: Fluxofloema (1970), Qadós (1973), Tu não te moves de ti (1980), A Obscena Senhora D (1982), Contos d'escárnio  (1992), Cartas de um sedutor  (1991)  etc.; dramaturgia:  Teatro Reunido, volume I (2000); Hilda Hilst teve seu trabalho reconhecido nos meios literários, foi detentora de muitas premiações e teve obras traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês e alemão; em 1965, em Campinas — SP, construiu a Casa do Sol, ali passou a residir, e dali passou a produzir seus textos; hoje, a Casa do Sol é a séde do Instituto Hilda Hilst, o qual objetiva preservar a sua obra e o local onde a autora trabalhou.